Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

Tios escravocratas

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 9 março, 2010

No meio do embate sobre as cotas e a demonização do senador do DEM Demóstenes (com o perdão do trocadilho infame), uma coisa ficou esquecida. No artigo publicado na Folha de hoje pelo Demétrio Magnoli (veja o artigo completo aqui, aberto também para não assinantes), ele cita as maneiras mais comuns de obtenção de escravos: “Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados.” Está correto, mas faltou citar os tios, que muitas vezes vendiam sobrinhos para traficantes de escravos.

Em sociedades matrilineares, bastante comuns na África, o pai fica em segundo plano, e o tio (irmão da mãe) é uma espécie de “dono” da criança. Esse tio, denominado avúnculo pela Antropologia, pode fazer o que quiser com seu sobrinho, inclusive vendê-lo para adquirir novas esposas para si. E isso é (ou, pelo menos, foi) bem corriqueiro em sociedades tradicionais matrilineares africanas. Daí, o fato de que, ao lado de prisioneiros de guerra, endividados e presidiários, muitos negros africanos foram escravizados pelos seus tio maternos (avúnculos).

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Capitalismo malvado

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 4 março, 2009

capitalista
Ontem, o João Pereira Coutinho publicou um excelente artigo sobre o capitalismo na Folha de São Paulo que quis dizer mais ou menos a mesma coisa que eu falei no início de dezembro: não há alternativa ao capitalismo, goste-se dele ou não, pode espernear à vontade. Mas a turma do “outro mundo possível” não iria deixar barato, e não foi surpresa encontrar a seguinte carta de leitor na Folha de hoje:

Penso que João Pereira Coutinho errou o lugar de sua coluna. Ela deveria ter sido publicada no lugar de José Simão: “Piada pronta”. Dizer que o capitalismo redistribui, combatendo a miséria, só pode ser uma piada (“O capitalismo é simpático”, Ilustrada). A não ser que “redistribuir” (aspas do próprio Coutinho) seja entre os próprios ricos, e não em relação aos miseráveis deste mundo. Com certeza o continente africano tem sentido muito bem essa redistribuição.
ROBSON MAURO LOUREÇO (Mogi-Guaçu, SP)

Pois é, né Robson… Que coisa a África ser o continente mais miserável do planeta e, por coincidência, também ser justamente onde o capitalismo é menos bem sucedido. O problema, filho de Rob, é que, como bem disse o Coutinho (adaptando Churchill): “o capitalismo é o pior sistema econômico, com a exceção de todos os outros”. Caso você não tenha entendido a sutileza das aspas do “retribui”, entenda que o capitalismo é o melhor sistema para a produção de riqueza e, apesar de sua intrínseca injustiça social, acaba sendo o melhor para os pobres, que pelo menos têm as migalhas que ele gera. Qualquer outro sistema até hoje tentado é ainda pior, pois nem migalhas sobram para a massa.
Num momento de crise como o atual, é tentador decretar a morte do capitalismo, como muitos fizeram. O problema é: o que colocar no lugar?

O capitalismo morreu? Viva o capitalismo!!!

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 3 março, 2009

capitalism_large

Você que tem ou quer ter um blog, recomendo o WordPress, que é quem hospeda esse humilde instrumento midiático aqui. Recomendo o WP porque as suas funcionalidades estatísticas são incríveis: vc tem como rastrear de onde vem os seus leitores, o que eles estão lendo, para onde eles vão, e tudo com gráficos e tabelas muito fáceis de entender. Foi por causa disso que eu percebi que esse post, de 09/12/2008, uma crítica aos que pregam o fim do capitalismo, começou a ressuscitar 15 dias atrás, e vem crescendo desde então. Não deu para rastrear por que isso aconteceu, quem é que está lendo etc., mas concluí que o assunto está despertando mais interessenas últimas semanas.

Hoje, ao ler a Folha de São Paulo, encontro um artigo do João Pereira Coutinho que, embora muito mais bem escrito que o meu, diz a mesma coisa: o capitalismo não está acabando simplesmente porque não há modelo econômico para o substituir. Como acredito que os leitores do meu post também teriam interesse em conhecer o artigo do Coutinho, segue o texto da Folha abaixo:

O capitalismo é simpático

É precisamente porque existe riqueza criada que é possível “redistribuir”, combatendo a miséria

CURIOSO: EU julgava que Adam Phillips, psicanalista superstar do Reino Unido, era pessoa razoavelmente letrada. Cheguei a ler alguns livros de Phillips, aplaudindo sua erudição e seu humor. Enganei-me. Em artigo para o “Guardian”, na companhia da historiadora Barbara Taylor, Phillips desce o pau no sistema capitalista. O capitalismo, diz ele, não permite uma revalorização do amor desinteressado ao próximo. Que bonito, hein?
Diz Phillips que o homem moderno esqueceu uma virtude fundamental. Existem vários nomes para designar essa virtude: “simpatia”, “generosidade”, “altruísmo”, “benevolência”, “humanidade”, “compaixão”. Mas todos esses nomes pretendem um mesmo fim: permitir que nós, homens egoístas, possamos imaginar as provações e as dificuldades de nossos semelhantes, estendendo a eles uma mão amiga.
No fundo, Phillips condena o mundo hobbesiano do Ocidente capitalista, de todos contra todos. Ele prefere um mundo compassivo e humano, onde todos ajudam todos.
Eu não pretendo ensinar coisa nenhuma a Phillips. Mas posso sugerir um autor que está ausente do texto do psicanalista? Um autor que lançou as sementes da compaixão moderna e, ironicamente, do capitalismo moderno também? Esse autor chama-se Adam Smith (1723 -1790).
Na verdade, o texto de Phillips, em seu amor pela “compaixão”, parece uma longa cópia da “Teoria dos Sentimentos Morais”, obra que Smith publicou em 1759. A ideia que percorre o texto de Smith é simples e poderosa: se existe uma natureza humana comum a todos os seres, ela manifesta-se por meio de “sentimentos” inatos e morais que o homem tem dentro de si. E em que consistem esses sentimentos?
Para Smith, como para Adam Phillips, esses sentimentos manifestam-se na nossa capacidade para, por meio de um exercício de “substituição”, nos imaginarmos no lugar dos que mais sofrem. Esses sentimentos morais são a base de qualquer sociedade civilizada: de uma sociedade em que o destino dos nossos semelhantes não nos pode ser completamente indiferente.
Acontece que Adam Smith não publicou apenas a “Teoria dos Sentimentos Morais”. Em 1776, Smith voltaria a revisitar o argumento com um livro que, consensualmente, é hoje visto como a bíblia do capitalismo. Falo, claro, de “A Riqueza das Nações”, onde Smith pretende demonstrar as virtudes de um sistema de livre comércio. E quais são elas?
A primeira delas, e à imagem do que sucedia na “Teoria dos Sentimentos Morais”, é mostrar como a livre troca também faz parte da natureza dos homens. Uma comunidade que seja capaz de mutilar a liberdade econômica dos seus habitantes não está apenas a empobrecer esses habitantes; está a lhes negar uma forma importante de realização humana e pessoal.
Mas existe uma segunda virtude normalmente esquecida: o capitalismo, longe de enfraquecer os “sentimentos” morais que ligam os homens aos seus semelhantes, é a condição primeira para que esses “sentimentos” se realizem de forma prática, e não apenas “sentimental”. O livre comércio permite a riqueza das nações; e só pode existir “compaixão” pelos mais pobres quando existe riqueza que nos permita não apenas chorar por eles, mas elevá-los a um estádio tolerável de existência. Diferentemente do contemporâneo Malthus, que temia a explosão demográfica dos pobres, Smith sabia que a única forma de integrá-los numa comunidade próspera era, precisamente, pela criação dessa comunidade próspera, que só a liberdade econômica seria capaz de promover.
Hoje, basta olhar para as sociedades ocidentais para ver como Smith tinha razão. Sim, o capitalismo está longe de ser a resposta milagrosa para os problemas do mundo, desde logo porque só um fanático acredita que existem respostas milagrosas para os problemas do mundo. Mas, parafraseando Churchill sobre a democracia, o capitalismo é o pior sistema econômico, com a exceção de todos os outros. O capitalismo não permite apenas a criação de riqueza; como se vê em qualquer sociedade ocidental, é precisamente porque existe riqueza criada que é possível “redistribuir”, combatendo a miséria extrema. Quando não existe riqueza criada, não existe espaço para nenhuma “benevolência” ou “simpatia”. Existe só o mundo hobbesiano que Phillips tanto teme: onde nem a sobrevivência está garantida.
Aliás, se dúvidas houvesse, bastaria perguntar a Phillips onde ele preferiria ser pobre: na Inglaterra capitalista ou na anticapitalista Coreia do Norte? Desconfio de que a Inglaterra seja mais simpática.

Relativismo cultural

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, Livros (resenhas & comentários) by Raul Marinho on 2 março, 2009

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No meu livro de 2005, “Prática na teoria“, comento essa praga orginária das “””ciências””” sociais chamada “relativismo cultural” que, hoje, o Luiz Felipe Pondé aborda com brilho na sua coluna na Folha de São Paulo.

Blablablá

O QUE você faria se estivesse a ponto de assistir a um ritual de antropofagia? Interromperia (sem risco para você)? Ou deixaria acontecer em nome do relativismo cultural (essa ideia que afirma que cada um é cada um, que as culturas devem ser respeitadas em sua individualidade e que não podemos compará-las)?
No primeiro caso, você seria um horroroso descendente dos “jesuítas”; no segundo você seria um relativista chique. Sempre suspeitei que esse papo relativista fosse blablablá. Funciona bem em aula de antropologia, em bares, em parques temáticos e lojas de curiosidades. É evidente que “jesuítas” de todos os tipos fizeram horrores nas Américas. Todo adulto bem educado sabe que é feio condenar cultos à lua ou à chuva. Mas há algo no relativismo cultural que me soa conversa fiada: o relativismo cultural morre na praia quando você é obrigado a conviver com o Outro. E o “Outro” nem sempre é legal.
Se você aceita a antropofagia em nome do respeito à “cultura”, aceita implicitamente a ideia de que o valor da vida humana seja subordinado à “cultura”. A vida humana não tem valor em si. Todo estudante de antropologia sabe recitar esse credo. Quando confrontado com dilemas como esse, o relativista diz que se trata de uma situação meramente hipotética (hoje não existe mais antropofagia). Mas a verdade é que quando o relativista diz que a antropofagia é hoje quase nula, e, portanto, esse dilema não tem “validade científica”, está literalmente correndo do pau porque “alguém” acabou com a antropofagia, não? Por que a antropofagia “acabou”?
Algumas hipóteses: 1) os antropófagos foram mortos por gripes ou em batalhas; 2) foram convertidos pelos horrorosos “jesuítas” e seus descendentes; 3) descobriram formas mais fáceis de comer e rituais que deixam as pessoas (isto é, os Outros) menos irritadas e com menos nojo. É importante conhecer o “lugar” da antropofagia nas religiões dos canibais, mas isso é apenas um “dado” antropológico. Uma descrição de hábitos (ruins). Mas o relativista tem que correr do pau mesmo, porque seu credo funciona bem apenas nas conversas de salão. A vida é sempre pior do que as festas. Relativistas culturais são, no fundo, puritanos disfarçados, gostam de “aquários humanos”.
Os seres humanos são culturalmente promíscuos, e “a cultura” sem promiscuidade (trocas, misturas, confusões) só existe nos livros. Use internet, televisão, celulares, aviões e estradas, faça sexo ou guerra, e o papo do relativismo cultural vira piada. Na realidade, as pessoas lançam mão do argumento relativista somente quando lhes interessa defender a “tribo” com a qual ganha dinheiro e fama. O problema com o debate sobre os índios (ou qualquer outra cultura considerada “coitada”) é a mitologia que ela provoca. Se, de um lado, alguns falaram dos índios (erradamente) como inferiores, bárbaros ou inúteis, por outro lado, os que “defendem” os índios normalmente caem no mito oposto: eles são legais e só querem viver “sua cultura”, e eles não são “capitalistas” como nós, e blablablá. Índios gostam de poder como todo mundo, vide os índios “conscientes de seus direitos” devorando computadores, celulares e internet no Fórum Social, em Belém -ou ficam na idade da pedra mesmo e precisam que o Estado os defenda do mundo.
As culturas mais bem-sucedidas são predadoras e seduzem as mais fracas (ser mais bem-sucedida não implica ser legal). Por que levar medicina científica (invenção dos “opressores”) para as aldeias? Não seria contaminação “cultural”? Vamos ou não brincar de “curandeiros”? Que tal abraçar árvores? Se você é católico e quer ser fiel aos seus princípios, você é um retrógrado; se você quer viver no meio da selva (com direitos adquiridos porque você é de uma cultura “coitada”), você é apenas uma tribo com direito a integridade cultural. O conceito de cultura é quase um fetiche do mercado das ciências humanas. Não que não existam culturas, mas o conceito na sua inércia preguiçosa só funciona no laboratório morto da sala de aula ou do museu. A vida se dá de forma muito mais violenta, se misturando, se devorando.
Nada disso é “contra” os índios, mas sim contra o relativismo como ética festiva. O oposto dele não é o obscurantismo, mas a dinâmica da vida real. O relativismo é um (velho) problema filosófico e um “dado” antropológico. Um drama, e não uma solução.

O Brasil não tem subprimes

Posted in Atualidades, credito, crise de credito, crise financeira by Raul Marinho on 26 fevereiro, 2009

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Fazia tempo que não criticava um artigo do Clóvis Rossi aqui no blog, estava tentando parar com esse vício, mas hoje o czar opinativo da Folha incorporou o Chacrinha (aquele que veio para confundir, não para explicar), e não deu para ficar quieto – aliás, sempre baixa o santo do Velho Guerreiro no CR quando ele tenta explicar a crise econômica. Segue o artigo e, em seguida, meus comentários:

Também temos subprimes

SÃO PAULO – Demorou mas surgiram os nossos “subprimes”, vítimas da incapacidade de pagarem seus automóveis.
É a diferença de escala entre a economia norte-americana e a brasileira: lá, o pessoal perde casas, um bem de muito maior valor.
Cessa aí, no entanto, a comparação. Os automóveis recuperados pelos bancos não têm, por trás, um rolo de ativos ditos tóxicos como os que caracterizaram a crise norte-americana das hipotecas “subprime” nem um volume tão formidável (pelo menos até agora).
Mas nem por isso o problema do crédito ou, mais exatamente, da falta dele e/ou de seu encarecimento deixa de ser sério, a julgar pelo que escreve Roberto Luis Troster para o mais recente boletim da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP: “Uma deterioração do crédito era esperada por conta da piora do quadro econômico, mas não na proporção que está acontecendo, especialmente para os microempresários e para as pessoas físicas de renda média e baixa. A cada mês que passa, as taxas dos financiamentos aumentam, sua composição deteriora-se e a inadimplência sobe.”
O economista dá números que ajudam a entender a inadimplência e a consequente retomada dos automóveis: são os pequenos tomadores os mais afetados, conforme relatório do Banco Central que mostra que aumentou 5,1% o volume de operações acima de R$ 10 milhões, mas diminuiu 2,7% no caso das inferiores a R$ 5.000.
Ou, pondo no estilo Elio Gaspari: o andar de cima ainda se financia, mas o andar de baixo é cada vez mais “subprime”.
PS – Cometi ontem um erro brutal. Escrevi: “[Os mercados] insistem em socializar o risco e privatizar o prejuízo”. É óbvio que deveria ter escrito “…privatizar o lucro”, como o fiz já várias vezes. Perdão.

Comento:

Em primeiro lugar: nós não temos subprimes. Dizer isso é alarmismo inconsequente, os carros financiados não tem nada a ver com os subprimes hipotecários estadunidenses. Lá, o cara comprava uma casa financiada por US$100mil, não pagava, a casa era reavaliada para US$150mil, o “ganho imobiliário” quitava as prestações atrasadas, o refinanciamento não era pago de novo, a casa era re-reavaliada para US$300mil, o cara não pagava mais uma vez, e a coisa ia assim, indefinidamente. No fim da história, havia imóveis milionários com financiamentos idem, ambos fictícios. Essa foi a “crise dos subprimes”, o primeiro estágio da crise econômica global em curso (depois, vieram as crises das commodities, dos derivativos, dos bancos, do consumo, e a crise de confiança, o lamaçal em que os EUA estão nesse momento). No Brasil, o que está ocorrendo é que tem muita gente que não consegue pagar a prestação do carro e acaba tendo que entregar o veículo para a financeira/banco/leasing. Esse carro não foi superavaliado, muito embora seu valor tenha sido reduzido por uma questão de mercado. A maior parte da dívida correspondente ao financiamento de veículos no Brasil está nos FIDCs (fundos de investimento em direito de crédito), que não podem realizar operações de derivativos, que turbinaram as perdas nos EUA. Resumindo: o título e o primeiro parágrafo do artigo do CR são sensasionalistas e profundamente errados.

Mas aí vem o mestre da ambiguidade e escreve um segundo parágrafo desdizendo o que inicialmente disse, um truque comum deste colunista. Fala que não temos “ativos tóxicos” e que os volumes brasileiros são bem menores que os estadunidenses… Então por que a manchete sensacionalista, señor Rossi??? Mas a artimanha é muito mais elaborada, pois ele continua o artigo desdizendo o que desdisse, e retornando ao terrorismo econômico (e saidno completamente do assunto original, os subprimes brasileiros), como veremos.

A citação e os números estão certos, só que faltou explicá-los de maneira adequada. O aumento do crédito para as grandes corporações decorre da escassez de linhas externas, não um aumento da demanda real desse segmento.  Ora, se um banco direciona bilhões adicionais para empréstimos ao segmento corporativo, ele vai ficar com menos disponibilidade para emprestar para os outros segmentos, essa é a causa primeira da redução do crédito para os pequenos empresários e as pessoas físicas. Ora, e se a oferta de crédito para os pequenos diminui, quem “está na bicicleta” (refinanciando dívidas antigas e empurrando o débito com a barriga) acaba explodindo, daí o aumento na inadimplência. É um problema grave, mas nada a ver com os supostos subprimes brasileiros, de que o artigo supostamente trata. O Brasil não é imune à crise e temos nossos problemas, mas que fique bem claro: nós não temos subprimes!!!

Mulher objeto

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 17 fevereiro, 2009

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Sabe aquele chavão feminista dos anos 1960, de acusar os homens de achar que as mulheres são meros objetos inanimados? Pois então, parece que não estava tão errado assim. Veja a reportagem abaixo, publicada hoje na Folha de S.Paulo pelo Eduardo Geraque:

Mulher de biquíni é objeto para o cérebro masculino

Experimento de psicóloga americana revela estrutura de pensamento machista

Imagem cerebral indica que homem “desliga” função de autocontrole ao ver mulher sensual, sobretudo quando ela não mostra seu rosto

Os homens podem não dizer isso explicitamente, mas há ocasiões em que todos tendem a pensar nas mulheres como objetos -principalmente quando elas estão de biquíni e não mostram o rosto. É isso o que acaba de mostrar um experimento realizado nos Estados Unidos com 21 homens heterossexuais estudantes de pós-graduação, apresentado em Chicago, na reunião anual da AAAS (Sociedade Americana para o Avanço da Ciência).
Talvez seja esse o efeito que explica sucesso que dançarinas mascaradas -como as personagens Tiazinha e Feiticeira- costumam ter na televisão brasileira. O experimento usou máquinas de ressonância magnética para mostrar que os circuitos cerebrais ativados nos homens durante a observação de um corpo feminino sensual desprovido de identidade são os mesmos que os permitem de reconhecer uma ferramenta, um objeto inanimado.

“Tecnicamente, podemos usar uma espécie de eufemismo neurológico e dizer que o homem não tem essa atitude de uma forma premeditada. É algo que ele não racionaliza”, afirma Susan Fiske, professora de Psicologia da Universidade de Princeton, uma das mentoras do experimento. Ela mostrou que o córtex pré-motor dos homens -uma das partes do cérebro mais envolvidas no reconhecimento- foi a área cerebral mais ativada nos voluntários que observavam fotografias de um colo feminino.
Essa parte do cérebro também é acionada quando é feita uma interpretação mecânica de uma imagem -em oposição a interpretações sociais.
Questionada pela Folha sobre o possível viés cultural que o estudo possa ter -só americanos participaram do experimento- Fiske disse não crer que o resultado mudaria se o experimento fosse feito em países, como o Brasil, onde mulheres de biquíni são comuns.

Fiske selecionou seus voluntários após aplicar um questionário a todos. Eles também precisaram passar por análises neurológicas. Só então os participantes puderam ser submetidos ao teste dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional, que registra as atividades cerebrais.

Praia ou escritório
No total do teste, cada participante ficou diante de 160 imagens. Elas eram de mulheres e de homens. Nos dois casos, foram apresentadas durante o experimento fotos com roupas de trabalho e também em trajes de banho. Imagens de rostos humanos, para medir a capacidade de reconhecimento de cada participante do teste, também foram exibidas.

Basicamente, a intenção era medir o grau de bem-estar dos voluntários após terem visto imagens de mulheres e de homens, tanto com o corpo exposto quanto coberto com roupas de trabalho. As imagens não eram pornográficas nem eróticas, disse Fiske. Os registros foram tabulados por meio de análises estatísticas de uso corrente por psicólogos.
De acordo com a pesquisadora americana, os seus resultados apresentados agora têm algumas implicações práticas. “Um dos desdobramentos pode ser o fato de que um patrão, por exemplo, pode beneficiar certas companheiras de trabalho em detrimento dos demais funcionários da empresa, dependendo de como ele idealiza aquele corpo”, diz a psicóloga.
Susan Fiske afirma que seus resultados também indicam que atitudes machistas de intimidação estão relacionadas com uma menor ativação de uma área do cérebro estudada por ela e envolvida na racionalização do pensamento, o córtex pré-frontal médio. “O sexismo hostil prediz uma menor ativação do córtex pré-frontal médio”, afirma a pesquisadora.

De novo, os US$500mil do Obama

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 16 fevereiro, 2009

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Já escrevi dois posts aqui antes (veja O limite dos ganhos dos executivos nos EUA e US$500mil??? Tá de sacanagem, né?) criticando a limitação dos US$500mil anuais de salários, imposta pelo Obama para os executivos das empresas ajudadas pelo governo na atual crise financeira. Hoje, a Folha de S.Paulo publicou um ensaio do Allen Salkin, oriundo do The New York Times, que mostra que um alto executivo de N.York gasta US$1,6milhão/ano para manter um padrão de vida minimamente decente. Por isso, volto ao assunto.

Pode parecer absurdo dizer que “não dá para viver com menos de US$1,6milhão”, mas é a mais pura verdade. Lógico que um executivo novaiorquino, assim como um metalúrgico de São Bernardo do Campo, pode cortar despesas num momento de aperto. A diferença é que, para o metalúrgico, vender seu Gol 1998 e andar de ônibus não vai prejudicá-lo profissionalmente, mas um alto executivo que venda seu BMW para comprar um Honda usado vai se dar mal. Vender a casa de campo em South Hampton ou parar de pagar a anuidade do clube de golfe, então, será o fim. Um alto executivo precisa manter um padrão de vida alto para conseguir ser um alto executivo, diferente de um funcionário público ou um blue collar, não é frescura. Sabendo disso, o sujeito que teve seu teto salarial limitado a US$500mil/ano migrará, assim que possível, para outro que não tenha o teto, e o resultado será catastrófico para as empresas que já estavam mal das pernas: elas simplesmente não conseguirão ter comendo, serão empresas acéfalas.

O “cadastro positivo” já existe!!! Tenha logo o seu!!!

Posted in Atualidades, banco, credito by Raul Marinho on 13 fevereiro, 2009

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Na Folha de hoje, Francisco Valim, presidente da Serasa Experian (e da Experian Latin America) escreve um artigo brilhante sobre crédito. Como o texto é longo e restrito a assinantes, reproduzo abaixo alguns de seus principais pontos (depois, comento & acrescento):

1) A inadimplência é a maior responsável pelos altos spreads praticados no Brasil, sendo responsável por 37,3% da diferença entre as taxas de captação e empréstimo nos bancos, sendo que os 62,7% restantes decorrem de questões monetárias, tributárias, legais e institucionais. Dos componentes do spread, o único item de caráter exclusivamente privado é a inadimplência.

2) Uma medida de extremo impacto sobre a inadimplência é a adoção de “cadastros positivos”, cuja regulamentação tramita na Câmara dos Deputados. Ao contrário do “cadastro negativo”, que aponta o descumprimento de compromissos financeiros (ex.: cheques sem fundos, duplicatas protestadas, empréstimos não honrados etc.), o “positivo” mostra o real comportamento do agente econômico (pessoa física ou jurídica) quanto às suas dívidas. De acordo com estudos acadêmicos, o “cadastro positivo” permite um acréscimo de 90% no número de pessoas que solicitam crédito e são atendidas, a taxa de inadimplência cai praticamente pela metade, e o risco de crédito cai entre um terço e metade.

3) Este trecho está tão bom que eu vou copiá-lo integralmente: “Hoje, no Brasil, socializa-se a inadimplência, cobrando aritmeticamente de toda a sociedade o risco de crédito dos maus pagadores, em vez de utilizar ferramentas para o dimensionamento do risco individual. Tendo o risco individual menor, o risco coletivo também deve cair. Os mercados sem cadastro positivo são caracterizados pela assimetria de informações, prejudicando a avaliação do risco de crédito. Na situação que se encontram, o processo é mais oneroso para ambas as partes: concedentes e tomadores de crédito”.

Comento:

A inadimplência, além de seu custo intrínseco, influencia os demais custos, ou seja: o quadro pode ser ainda mais dramático que o mostrado no item 1. De acordo com os números apresentados, se o banco capta a 10%a.a. e repassa a 30%, os 20% de spread estariam divididos da seguinte forma: 7,46%a.a. para bancar a inadimplência, e 12,54% para os outros custos. Ok, isso está correto, mas o ponto é que a maior parte dos outros custos incidem justamente sobre o spread! Se o custo da inadimplência cair à metade (no nosso exemplo, de 7,46%a.a. para 3,73%a.a.), os outros custos não permanecerão em 12,54%, mas também diminuirão. Possivelmente, os outros custos cairiam em proporção ainda maior que a queda do spread, via ganho de escala e aumento de competitividade, mas é importante ressaltar que a diminuição de 3,73% no custo da inadimplência não resultaria numa taxa final de 26,27%a.a. (ante os 30% originais), mas em menos de 20%a.a. A redução seria, de fato, radical. E, no fim das contas, tudo não passa de um problema de assimeteria de informações, como comentado aqui inúmeras vezes.

Acrescento:

Mesmo sem a aprovação de medidas legais para o “cadastro positivo”, os tomadores – em especial as pequenas e médias empresas – já poderiam atuar para diminuir os spreads que pagam em seus empréstimos. Para isto, bastaria investir um mínimo em relacionamentos bancários, como o proposto neste artigo, que eu e o Fernando Blanco escrevemos no ano passado.

Ração para pessimista

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 11 fevereiro, 2009

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Três posts abaixo desse, tem um ensaio meu com considerações sobre o pessimismo estrangeiro. A seguir, um artigo do Martin Wolf publicado no Financial Times (e reproduzido pela Folha de S.Paulo de hoje) que pode ser entendido como “ração para pessimista”:

Por que o pacote bancário de Obama vai fracassar

Novo plano de ajuda a bancos parece fazer sentido se e apenas se o principal problema for a falta de liquidez; mas o mais provável é que se trata de insolvência

A PRESIDÊNCIA de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, a pergunta seria ridícula. Mas não vivemos tempos normais. O momento é de perigo. Hoje, o novo governo ainda pode rejeitar a responsabilidade por aquilo que recebeu como legado; no futuro, isso já não será possível. Hoje, ainda é capaz de oferecer soluções; amanhã, vai ter se tornado o problema. Hoje, está em controle dos acontecimentos; amanhã, os acontecimentos o controlarão. Agir de menos é mais arriscado, agora, que agir demais. Caso Obama não aja de maneira decidida, corre o risco de se ver esmagado ao peso da crise, como seu predecessor. Os custos de outra Presidência fracassada, para os EUA e para o mundo, são elevados demais para que possamos contemplá-los.
O que seria necessário? A resposta é: foco e ferocidade. Caso Obama não resolva a crise, toda a esperança sobre sua Presidência estará perdida. Caso o faça, estará livre para reformular a agenda nacional. Mas simplesmente esperar pelo melhor é tolice. O presidente deveria esperar pelo pior e agir como se fosse isso que receberá.
Mas esperar pelo melhor é o que vemos por trás do pacote de estímulo e -a julgar das escassas informações oferecidas pelo secretário do Tesouro, Tim Geithner, ontem- também do novo pacote para solucionar a crise do setor bancário.
O programa de socorro aos bancos parece ser mais uma vez filho das fracassadas intervenções dos últimos 18 meses: otimista e ineficiente. Se esse “rebento do programa de alívio de ativos problemáticos” fracassar, a credibilidade de Obama estará arruinada. Agora é o momento de ações que sejam a solução certeira para o problema; e as medidas propostas não aparentam ser a resposta.
Ao longo de todo o debate, houve duas posições contrastantes sobre a causa dos males do sistema financeiro. A primeira é que o problema é de pânico. A segunda é que o problema envolve insolvência.
De acordo com a primeira interpretação, os preços de um conjunto definido de “ativos tóxicos” caíram para abaixo de seu valor em longo prazo, o que em alguns prazos os tornou impossíveis de vender. A solução, muita gente sugere, é que o governo crie um mercado, comprando ativos ou garantindo os bancos contra prejuízos. Esse raciocínio embasou o Tarp (Programa de Alívio de Ativos Problemáticos) original.
De acordo com a segunda interpretação, proporção considerável dos bancos está insolvente; seus ativos valem menos que seus passivos. O FMI argumenta que os potenciais prejuízos sobre ativos de créditos gerados nos EUA atingem, só eles, US$ 2,2 trilhões. O economista Nouriel Roubini estimou que o pico de prejuízos dos ativos gerados nos EUA possa atingir US$ 3,6 trilhões.
Em minha opinião, há pouca dúvida de que a segunda interpretação seja a correta, e isso se provará cada vez mais verdadeiro à medida que a economia mundial se deteriore. Mas o cerne da questão não é esse. O que é preciso é determinar se, na presença de tamanha incerteza, podemos basear nossas respostas na esperança de que tudo seja resolvido da melhor maneira. A resposta é clara: as autoridades racionais precisam sempre antecipar o pior. Caso essa expectativa termine por se provar pessimista, o resultado seria um sistema financeiro com excesso de capitalização. Mas, se a opção otimista estiver errada, teremos bancos zumbis e um governo desacreditado. A escolha dificilmente poderia ser mais evidente.
O novo plano parece fazer sentido se e apenas se o principal problema for a falta de liquidez. A oferta de garantias e a aquisição de certa proporção dos ativos tóxicos, com limitação das injeções de capital a menos do que os US$ 350 bilhões que restam no Tarp, não enfrentaria o problema da insolvência que tantos observadores informados identificam. De fato, qualquer programa de aquisição de ativos tóxicos ou de garantia será uma forma ineficaz, não-efetiva e injusta de resgatar as instituições financeiras com capitalização insuficiente: não-efetiva porque os governos terão de adquirir vastos volumes de ativos dúbios a preços excessivos, ou oferecer garantias generosas demais, para tornar solventes os bancos insolventes; ineficaz porque grandes injeções de capital ou programas de conversão de dívidas em capital são maneiras melhores de recapitalizar bancos; e injusta porque seriam dados subsídios a instituições quebradas e ao comprador privado de maus ativos.
Por que, então, o governo dos EUA está cometendo o que parece ser um erro? Talvez porque esteja esperando pelo melhor. Mas pode ser que também por se ter proposto a pergunta errada. As autoridades não se perguntaram o que precisa ser feito para conseguir uma solução garantida, mas sim qual seria a melhor solução sob os limites oferecidos por três normas arbitrárias que o governo impôs a si mesmo: evitar a estatização; evitar prejuízos para os detentores de títulos; e evitar novos pedidos de dinheiro ao Congresso. Mas por que um novo governo, diante de uma crise tão profunda, não tenta alterar os termos do debate? A timidez exibida até agora é deprimente. Presuma que o problema seja a insolvência e que o modesto valor de mercado sustentado no momento pelos bancos comerciais americanos (US$ 400 bilhões) derive do apoio do governo. Presuma, igualmente, que seja impossível levantar grandes montantes em capital privado hoje. Nessa situação, é preciso que haja recapitalização de uma das duas maneiras descritas acima. Ambas têm desvantagens: a recapitalização pelo governo é um resgate aos credores e envolve administração estatal temporária; conversão de dívidas em capital prejudicaria o mercado de títulos, as seguradoras e os fundos de pensão. Mas não há como escapar à escolha.
Caso Geithner ou Lawrence Summers, o presidente do conselho de assessores econômicos da Casa Branca, estivessem assessorando os EUA como país estrangeiro, fariam questão de apontar brutalmente para essa realidade.
O conselho correto continua a ser aquele que os EUA deram aos japoneses nos anos 90: admitam a realidade, reestruturem os bancos e, acima de tudo, abatam imediatamente as instituições zumbis. Decidir se a resposta certa é criar novos “bons bancos”, deixando que os velhos maus bancos pereçam; ou formar novos “bancos ruins”, que permitam a sobrevivência dos velhos bancos expurgados, é uma questão secundária, ainda que importante. Minha inclinação pessoal é pela primeira solução, porque a cultura dos velhos bancos parece excessivamente tóxica.
Ao fazer as perguntas erradas, Obama está realizando uma aposta imensa. Ele deveria ter decidido limpar os estábulos bancários de Áugias. É preciso que reconsidere sua decisão, se já não for tarde demais.

O difícil de um jogo

Posted in Evolução & comportamento, teoria dos jogos by Raul Marinho on 10 fevereiro, 2009

Jogos são corriqueiros, eles ocorrem sempre que nos deparamos com situações do tipo “eu penso que você pensa que eu penso”. Conhecer como os jogos funcionam – ou seja: entender de teoria dos jogos – já é um pouco mais complicado. Agora, o difícil mesmo é enfrentar um jogador mais forte que você.

Estava tentando escrever um artigo explicando isso quando me deparo com a tirinha abaixo, do Laerte na Folha de hoje, que diz tudo de modo muito mais simples e direto.

jogo1

Dilma, a anti-líder

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 15 janeiro, 2009

O prof. Renato Janine Ribeiro, na Folha de hoje, escreve um excelente artigo sobre o déficit de liderança da possível candidata petista à cadeira do Marolinha. Veja abaixo:

Líderes, gerentes ou chefes
FHC e Lula definiram um alto padrão para a função presidencial: o de líder. É o que torna difícil imaginar Dilma na Presidência

QUATRO MANDATOS sucessivos de governantes do calibre de Fernando Henrique e Lula foram definindo um alto padrão para a função presidencial: o de líder. Esse papel é referência e modelo para quem quiser o cargo em 2010. É o que torna difícil imaginar Dilma Rousseff na Presidência. Pode ser uma boa gerente de projetos, mas não é uma líder que mobilize as pessoas. Sabe ser dura e mandar. Mas a qualidade dos dois últimos presidentes é outra: persuadir, unir, em suma, liderar.
Vamos distinguir gerente, chefe e líder. Um jornalista econômico lamentava a falta de apetite gerencial de FHC. Não concordo. Gerente pode ser o governador de São Paulo, presidenciável constante, mas a quem talvez falte a fagulha da liderança.
Um presidente tem de ir além do seu partido, e não só porque vai costurar uma coalizão, mas porque precisa lidar com um país complexo e liderar, em última análise, o próprio Brasil.
Assim foi que FHC emplacou o Plano Real, as privatizações e a posse tranquila de Lula, e Lula viabilizou uma política social mais audaz e a inclusão da esquerda entre os atores políticos aceitos no país. Fossem gerentes…
Dilma presidenta seria, apesar de seus méritos, um enorme problema para o PT. Pouco do que ela diz ou faz corresponde aos valores históricos centrais do partido. Parece mais empenhada em aumentar a produção, em articular governo e empresários.
Isso deixa um vazio de valores. É como se o meio -o crescimento econômico- se tornasse fim. E os fins -múltiplos, mesmo contraditórios- que o PT propunha? Eles somem.
Imaginemos, em seu lugar, um chefe. Fernando Haddad disputa esse papel. É o único ministro importante que tem mídia constante e favorável, graças em parte a uma ótima assessoria. Defende uma causa nobre (educação), enquanto Dilma se dispõe, para ter energia no rio Madeira, a sacrificar bagres. Melhor educar que eliminar peixes. O plano de Haddad para a educação é bem concebido, embora reste ver se e quando será executado.
Mas um chefe não é um líder. Um chefe dá ordens, nomeia, demite. Um presidente, não. O único ministro que Lula demitiu diretamente -Cristovam Buarque, por celular- lhe custou caro. Melhor mandar um emissário pedir o cargo. Presidentes, se forem líderes, não mandam. Falam. Seduzem. Quem chefia um ministério pode querer que ele seja homogêneo. Já um presidente administra ministros em conflito e, além disso, precisa de pontes com a oposição.
Ouvi um político francês definir um líder: “Sua melhor qualidade é que ele descobre muito rapidamente o que as pessoas querem”. Esse é um dom: o líder dá menos do que as pessoas pedem, mas isso porque elas mesmas não sabem o que desejam. Tal capacidade de escutar nada tem a ver com gerenciar ou mandar. É estratégia, não tática; é persuasão, não ordem.
Não é disciplina, é conciliação.
O Brasil não terá governos de um partido só. Estamos fadados a ter maiorias de coalizão no Congresso. O presidente da República, embora poderoso (ainda bem, senão viraria refém dos parlamentares), precisa unir da esquerda do PT até Delfim Netto.
Daí que seja tão importante ele falar.
Delega a gestão a primeiros-ministros de fato, gerentes como Sérgio Motta, Dirceu, Dilma. Eles podem dizer grosserias: “masturbação mental” (Motta), “tiro no pé” (Dilma). O presidente deve se poupar.
O PT tem um líder a propor para 2010? Difícil. Uma hipótese é viabilizar Patrus Ananias, que vive uma espantosa discrição: afinal, ele tem a pasta do Bolsa Família; mas, mineiramente calado, não se queima. Porém, a prioridade um do PT é: se este é o governo mais popular em várias décadas, por que dar a sucessão a outro partido? O PT proporá um nome de dentro, mas seu estoque é pequeno.
Por outro lado, como a prioridade dois -não do PT, mas de Lula- parece ser eleger o próprio Lula em 2014, poderia ser alguém que se contentasse com um mandato. Pois, hoje, elegemos governantes por oito anos, com um “recall” no meio. Talvez Dilma tope ficar um mandato só. Haddad, não.
Para ele, é melhor esperar do que se queimar como Medvedev brasileiro.
A alternativa é eleger alguém de oposição. O PT sairia do governo, recuperaria as raízes, Lula seria candidato natural em 2014. Mas quem a oposição tem? Serra, seu nome óbvio, lembra Dilma. Gerente, chefe, seu forte não é a persuasão. E como FHC era bom nisso! Ele e Lula, depois e ao contrário de Collor, souberam ir além de suas identidades imediatas. Mais uma vez: esse é o papel de um líder.
Por isso, Alckmin não servia. Estava longe desse perfil elevado. Serra, com esforço, talvez se torne líder.
Haddad tem tempo para isso, mas ainda não o é. Na oposição, quem hoje parece mais talhado para líder é Aécio -que tem seu primeiro-ministro, um ótimo vice, Antonio Anastasia.
Em suma, o Brasil colocou a política acima da gerência. Acho isso bom.
Custa alguma coisa deixar a gestão em segundo plano, mas custaria ainda mais gerir sem apoio político. Técnicos no poder funcionaram na ditadura. Na democracia, não bastam.

Pobre homem

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 7 janeiro, 2009

pobre

A despeito do post anterior, a matéria abaixo, publicada hoje na Folha, dá uma boa dimensão de como a riqueza é relativa. Repare que o homem cometeu suicídio após perder $1Bi de Euros de uma fortuna total de quase US$10Bi.

Quinto homem mais rico da Alemanha se suicida após perder €1 bi com crise

Às 19h30 de segunda-feira, funcionários da ferrovia que corta o vilarejo de Blaubeuren, no sul da Alemanha, encontraram um corpo estendido nos trilhos. Adolf Merckle, 74, era o quinto homem mais rico do país e dono de US$ 9,2 bilhões, a 94ª maior fortuna do mundo, segundo a revista “Forbes”.
Isso até chegar a crise e Merckle perder €1 bilhão com a queda brusca das ações da Volkswagen, em outubro.
O baque foi sentido nas suas empresas. Merckle se viu na iminência de vender sua parte na HeidelbergCement, a quarta maior produtora de cimento na Alemanha, bem como na farmacêutica Ratiopharm. Ele era ainda proprietário da Phoenix Pharmahandel e da montadora de máquinas Kässbohrer. O conglomerado fatura anualmente €30 bilhões e emprega 100 mil pessoas, mas se especula que as dívidas seriam de €16 bilhões.
“A situação desesperadora das empresas com a crise, as incertezas das últimas semanas e a impotência para agir quebraram o apaixonado empreendedor e tiraram sua vida”, disse a família em nota.
Há poucos dias, outro investidor, o francês Thierry de la Villehuchet, esfaqueou-se no seu escritório em Nova York. As mortes lembram os suicídios no lastro da crise de 1929, quando investidores se jogaram do alto dos prédios.
Casado, quatro filhos, Merckle deixou uma carta com desculpas à família. Discreto, viu sua tragédia circular pela imprensa. Dias atrás, o jornal local “Suedkurier” referia-se a Merckle como “o bilionário de bolsos vazios”.

Bola dentro!

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 12 dezembro, 2008

bola-dentro

Pela 2a vez na semana, o Clóvis Rossi dá uma bola dentro – o que faz desta, uma das melhores em desempenho do colunista da Folha nos últimos 10 anos, pelo menos (de acordo com a memória do editor deste blog, que também não é aquela beleza toda). Bem, resumindo: o artigo de hoje (abaixo copiado) vale a pena ser lido. (Somente uma correção: a rigor, nem o Meirelles nem o Lula têm autonomia plena para ditar a taxa Selic, que é definida por um comitê com poderes para tal, o COPOM).

Quem preside, Lula ou Meirelles?

De Luiz Inácio Lula da Silva, em mais uma das cerimônias-comício em que é especializado, no dia 2, em Recife: “Todo mundo sabe que temos uma taxa de juros acima daquilo que o bom senso indica que deveríamos ter”.
Cabe explicar ao leitor distraído que Luiz Inácio Lula da Silva vem a ser o presidente da República, eleito em 2002 e reeleito em 2006.
Nessa condição, cabe a ele indicar todos os ministros e também o presidente do Banco Central, a instituição que estabelece a taxa de juros que está “acima daquilo que o bom senso indica”.
Em um país normal, quem faz o que o chefe acha “insensatez” é demitido liminarmente, sem direito a indenização.
Aliás, esta Folha publica mensalmente, faz um bocado de tempo, um texto que, com pequenas variações, afirma que “Lula pressiona Banco Central por queda na taxa de juros” (foi o título mais recente da série, dia 4). Periodicamente, o BC dá uma solene banana às “pressões” de Lula -e não acontece nada. Nem Lula renuncia por ser desautorizado por um subordinado, nem demite o presidente do banco.
Ainda por cima, vem a corrente majoritária do PT, supostamente o partido do governo, e ataca frontalmente o BC como “último bastião da ortodoxia”, como se o presidente do BC tivesse dado um golpe e se sentado na marra na cadeira, em vez de ter sido nomeado por Lula (aliás presidente de honra do PT) e por ele mantido no cargo por seis anos, mesmo sendo supostamente tão desobediente e “insensato”.
Seria tudo muito ridículo não fosse o seguinte fato da vida: Lula terceirizou a política econômica para Meirelles, que faz o que bem entende com os juros. Foi a maneira que encontrou de acalmar as piranhas do mercado financeiro, as únicas que podem desestabilizar um governo que não lhes dê o sangue que pedem insaciavelmente.

Reconhecimento público

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 10 dezembro, 2008

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Este blog é arena de constantes críticas a vários colunistas da imprensa, principalmente os da Folha de São Paulo e, em particular, os srs. Clóvis Rossi e Antonio Delfim Netto. Hoje, porém, os dois foram muito felizes em seus respectivos textos, razão pela qual dou a mão à palmatória. Abaix, suas respectivas colunas de hoje, com as quais concordo integralmente:

CLÓVIS ROSSI

O G8, o cafezinho e o Brasil

Durante a reunião ministerial do G20 em São Paulo, faz um mês, o ministro Guido Mantega disse que o Brasil não queria mais participar do G8 só para “tomar cafezinho”. Era uma alusão ao fato de que nas mais recentes cúpulas do grupo dos sete países mais ricos do mundo e a Rússia passaram a participar também o que o jargão diplomático batizou de “outreach countries” (em tradução absolutamente livre, a periferia, formada, no caso, por Brasil, Índia, China, África do Sul e México).
Acontece que a periferia só é chamada, como diz Mantega, para o cafezinho. Ou seja, entra nos salões da nobreza no dia seguinte, depois que o G8 propriamente já almoçou e jantou toda a agenda e já emitiu o documento final.
Para o ano que vem, o anfitrião (Silvio Berlusconi, premiê italiano) já anunciou um novo formato: continua, no primeiro dia, a reunião só do G8, mas, no dia seguinte, a periferia entra e fica o dia todo reunida com os grandes (Berlusconi incluiu o Egito entre os “outreach countries”). No terceiro dia, entram os africanos e, acha Berlusconi, forma-se um G20.
É o típico jogo lampedusiano de mudar tudo para que tudo fique igual. Quando Mantega se queixa de que o Brasil não quer só o cafezinho, não está, como é óbvio, se referindo a refeições, mas a jogar o jogo desde o início.
Depois de duas cúpulas do G20 (em novembro, em Washington, e no próximo abril, em Londres), não faz sentido o G8 continuar como um clube exclusivo, até porque a sua única agenda é a crise global, de cuja discussão não podem ser excluídos os grandes emergentes.
Aceitar esse formato equivale a aceitar que o G20 tenha a função de “legitimar as iniciativas do G8”, como aponta Xaiojin Chen, do Instituto de Tecnologia e Economia Internacional da China.
Ou tomar só o cafezinho -e frio, ainda por cima.

ANTONIO DELFIM NETTO

– 0,25%, por favor

O EXTRAORDINÁRIO apoio da população brasileira ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, registrado pela pesquisa Datafolha da semana passada, é o reconhecimento de que sua reação intuitiva à catástrofe mundial é mais confortadora e, no fundo, mais adequada do que o “realismo terrorista” proposto por alguns sábios. Certamente não é uma “marolinha”. Mas por que o Brasil precisa sofrer, necessariamente, um “tsunami” devastador?
É hora de os economistas reconhecerem e aceitarem com humildade: 1º) que o bacilo produtor desta crise foi cuidadosamente criado e cultivado nos laboratórios de uma pseudociência -parte da economia-financeira-, com sua pretensão de que tinha “descoberto” modelos estocásticos capazes de precificar qualquer risco; 2º) que sua disseminação foi feita pelos perversos incentivos apropriados pelos que vendiam tal “ciência” graças à confiança que os compradores de papéis (o aplicador, o chamado “principal”) depositavam nos vendedores (o banco de investimento, o chamado “agente”) e 3º) que os Bancos Centrais do mundo (nos quais o “principal” depositava sua confiança na fiscalização do “agente”) surfaram alegremente a onda de liqüidez que ajudaram a criar com sua política monetária laxista e sua falta de fiscalização das possíveis conseqüências dos “novos” produtos. Nisto foram acompanhados pelas agências de risco e pelos auditores privados.
A conseqüência deste triste diagnóstico é que nem a política monetária nem a política fiscal podem alterar a situação enquanto não se restabelecer o fator catalítico que sustenta o funcionamento dos mercados: a confiança.
Manter a liqüidez do sistema financeiro é importante, mas ela não leva ninguém a tomar emprestado (o consumidor ou investidor) ou a emprestar (a instituição financeira): todos sabem que se pode levar o burro à fonte, mas não se pode obrigá-lo a beber. Manter uma política fiscal que sustente os investimentos públicos e reduza a carga tributária é importante, mas incapaz de estimular o investidor privado ou o consumidor a abdicarem da sua liqüidez enquanto não acreditarem que haverá demanda e emprego no futuro.
É hora de reconhecer que a política econômica teve responsabilidade pela crise, mas que, por si mesma, ela é incapaz de resolvê-la, uma vez que sua causa fundamental está fora da economia. Trata-se de restabelecer a confiança da sociedade no funcionamento dos mercados para que as políticas monetária e fiscal possam voltar a funcionar. É por isso que uma redução da taxa Selic de 0,25% seria psicologicamente importante. E tecnicamente recomendável.

Esses blogueiros anônimos pervertidos…

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 9 dezembro, 2008

anonimo

O velho jornalista que habita a Folha de São Paulo acordou mais ranzinza do que nunca. Agora, sua ira recai sobre a blogolândia/twitterlândia, que ele entende inimigo mortal do “jornalismo de verdade” (ou seja: o único possível, o que ele faz). Se você não tiver absolutamente mais nada para fazer, leia a coluna de hoje do señor Rossi, abaixo, e entenda o que estou dizendo.

Quando o erro é anônimo

A “Tribune”, que edita, entre outros, os jornais “Chicago Tribune” e “Los Angeles Times”, está na iminência da bancarrota. Já o “New York Times”, que é um pouco sinônimo de grande jornal, vai hipotecar sua sede para obter liqüidez.
São notícias que levarão água para o moinho dos que acreditam que o jornal em papel está condenado à morte -e eventualmente súbita.
Calma. Só parte das dificuldades dessas empresas está de fato vinculada à queda na vendagem e, principalmente, na receita publicitária, fenômeno mais agudo nos Estados Unidos e em países europeus do que nos chamados mercados emergentes, Brasil inclusive.
Mais calma ainda nos festejos pela substituição do papel pelos “blogs”, “twitters” e demais bossas da informação on-line ou por telefone. Democratiza mais a informação? Sim. Melhora a sua qualidade? Não necessariamente.
Os “twitters”, aquelas mensagens curtas enviadas pelo celular, chegaram a ser celebrados como principal fonte de informação, por exemplo, no caso dos atentados em Mumbai, na Índia.
Agora, a BBC acaba de se desculpar por ter sido descuidada em usar um rumor (que se revelou falso) difundido via “twitter”. “Deveríamos ter checado antes e só divulgado depois, se confirmada a informação” (o que não aconteceria), admite o editor Steve Herrmann.
O leitor, se consulta regularmente a internet, sabe que se trata de território livre para boato, informação interessada, lobbies nem sempre honestos nem legítimos, fantasias, teorias malucas ou venenosas etc. etc. etc.
Não que os jornais sejam santos ou perfeitos. Mas, em caso de erro, o leitor sabe a quem reclamar, pois tem o endereço, o telefone, o CNPJ, o e-mail, o ombudsman. Nos “twitters” da vida e seus parentes, o erro é anônimo.
Pior para o leitor.

Agora, como de praxe, meus comentários (hoje, só três, porque estopu com pressa):

1)A crise por que passam os citados jornais estadunidenses tem muito mais a ver com a recessão e questões administrativas do que a concorrência  dos blogs anônimos. A mídia eletrônica (vide este afamado blog) está presente em todo o mundo, mas só existem alguns casos isolados (e todos nos EUA) de bancarrota iminente. Por que será?

2)Blogs erram? Sim. Blogs erram mais que os jornais? Aí já não sei responder. Endereço, telefone, CNPJ, e-mail, ombudsman resolve alguma coisa? Tá de sacanagem, né CR!!!???

3)”Território livre para boato, informação interessada, lobbies nem sempre honestos nem legítimos, fantasias, teorias malucas ou venenosas etc. etc. etc.” é, na minha opinião, a descrição precisa da coluna do Clóvis Rossi na Folha.

(Na foto acima, um flagrante do editor deste informativo midiático no momento em que se preparava para mais uma calúnia ao “jornalismo sério”).

Balada energética

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 1 dezembro, 2008

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Deu na versão em português (publicada pela Folha aqui) do New York Times:

Clubbers geram eletricidade dançando

O agito na pista ajuda a reduzir o consumo de eletricidade em 50%

Por ELISABETH ROSENTHAL

ROTERDÃ, Holanda – Se você achou que o ambiente na nova casa noturna da moda desta cidade holandesa, o Club Watt, é um tanto elétrico, acertou: o Watt tem um novo tipo de pista de dança que capta a energia gerada pelos saltos e giros e a transforma em eletricidade. É uma entre diversas pistas de dança geradoras de energia no mundo, a maioria ainda experimental.
Com sua engenharia humana, o Watt se abastece parcialmente de energia: quanto melhor a música, mais pessoas dançam e mais eletricidade sai da pista. No Watt, que se descreve como “o primeiro clube de dança sustentável”, a eletricidade é usada para acionar o show de luzes na pista e ao redor dela.
O Watt é em grande parte uma criação do Sustainable Dance Club, uma companhia formada no ano passado por um grupo de inventores ecológicos, engenheiros e investidores holandeses hoje liderados pelo consultor Michel Smit. Levou mais de um ano para ser feito, e é um espaço enorme, onde não apenas a pista de dança é sustentável, mas também os banheiros são alimentados com água da chuva e os bares praticam baixo desperdício (tudo é reciclado). Seu calor é obtido dos amplificadores e outros equipamentos musicais das bandas.
“Nossa idéia é que existe energia suficiente no mundo, basta usá-la da maneira certa”, disse Smit. “Se você tem um clube de dança lotado, há muita energia lá e você só precisa transformá-la em um produto utilizável.”
A dança ecológica evidentemente não solucionará o problema das crescentes emissões de gases do efeito estufa, que os cientistas dizem que são responsáveis pelo aquecimento global. Com seus amplificadores e suas luzes estroboscópicas, os clubes noturnos são devoradores de eletricidade e provavelmente nunca serão neutros em carbono, mesmo que os cientistas conseguissem captar a energia de um “mosh pit” (a área em frente ao palco onde as pessoas se comprimem e se atiram).
Mas a energia produzida por uma pessoa média dançando é de cerca de 20 watts, portanto duas pessoas poderiam acender uma lâmpada, como descobriram os consultores científicos do Club Watt. Aryan Tieleman, um dos donos do clube, espera que a pista de dança sustentável consiga produzir 10% da eletricidade do lugar. Inovações verdes no local vão reduzir o consumo de energia em 50% e o de água em 30%, em comparação com o clube anterior que havia no prédio, ele disse. “O conceito é que você se diverte como sempre, mas aqui será melhor para a Terra”, disse Smit.
O Watt é o equivalente em clube noturno a dirigir um carro híbrido. Os clientes parecem gostar. “Claro, eu me importo com o meio ambiente e fico feliz em fazer minha parte dessa maneira”, disse o estudante Bas Muller na saída dos banheiros, que têm mictórios sem água e vasos alimentados com água da chuva.
O Club Watt, com capacidade para cerca de 1.400 pessoas, é em parte um conscientizador e em parte um experimento de energia verde – e em grande parte pura diversão.
“Eu quis fazer um pouquinho pelo planeta”, disse Tieleman, que decidiu construir um clube totalmente verde depois de ver uma apresentação na pista de dança do Sustainable Dance Club, que funciona com uma tecnologia chamada piezoeletricidade. “Ficarei satisfeito com toda a energia que pudermos retirar da pista de dança. E como empresário eu sei que isso chama a atenção.”
Tieleman gastou cerca de US$ 257 mil na pista de dança, um investimento que não será recuperado com a economia de energia, ele disse, porque como modelo de primeira geração é bastante ineficiente.
A pista aproveita o efeito piezoelétrico: alguns materiais, quando espremidos, desenvolvem uma carga e produzem eletricidade.
Quando as pessoas estão dançando, a pista de dança sustentável abaixa cerca de um centímetro, comprimindo células que contêm material piezoelétrico por baixo. Na teoria, as pistas piezoelétricas podem retirar energia de qualquer passo ou salto e transformá-la em eletricidade, só que esse processo hoje é caro e ineficaz. Mas a tecnologia está evoluindo.
Smit disse que está trabalhando para desenvolver materiais mais baratos e eficientes para captar energia. “Você poderá usá-los em qualquer lugar onde houver movimento”, disse o consultor. “Mas a questão agora é: quando eles se tornarão custo-eficientes?”

Os BRICS e o jogo

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 30 novembro, 2008

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Hoje, a tradicional crítica ao texto do Clóvis Rossi (na sua coluna da Folha) virá embaixo do texto do próprio autor, para facilitar:

Deixa os RICs p’ra lá

Jim O’Neill, economista da Goldman Sachs, inventou o acrônimo Bric ( Brasil, Rússia, Índia e China), que seriam as potências mundiais em 2020.
Outro dia, O’Neill admitiu ter se equivocado ao fazer outra previsão, a de que haveria o famoso “decoupling” (descasamento) entre os países ricos e os emergentes na crise global. Ora, se foi incapaz de enxergar o que aconteceria meses à frente, quem pode levar a sério uma previsão sua feita para 20 anos à frente, já que o termo Bric foi cunhado em 2001?

Não devemos. Previsão é coisa para pai-de-santo, não para economistas, como cansamos de falar aqui. (Mas, apesar disto ser verdade, o restante do texto não fica automaticamente válido, como veremos).

Quem pode? Fácil de responder: o governo brasileiro, que, todo pimpão, comemorou primeiro uma reunião ministerial dos Brics e, agora, uma futura cúpula.

Agora, o CR já começa a deturpar os fatos… As tais reuniões dos governos não existem para comemorar previsões, mas para deliberar ações e combinar estratégias.

Nada contra reuniões com quem quer seja. Mas é uma imensa bobagem achar que há alguma comunhão entre os quatro países só porque uma entidade financeira com interesses em todos eles viu numa bola de cristal embaçada um grande futuro para o grupo.

Imensa bobagem é achar que combinar ações entre países importantes como os BRIC é superficial, e que os dirigentes dos governos de Brasil, Rússia, Índia e China se juntaram só para debater (comemorar?)as previsões de um banco.

Não há nada em comum, histórica, geográfica, social, cultural e institucionalmente falando, entre os Brics.

E daí? O que importa é que o poder de barganha dos 4 países combinados faz frente aos EUA, à CE e ao japão. O resto é supérfluo.

Pior para o Brasil: é, de todos, o que tem uma situação institucional melhor e mais sólida. Logo, ser apontado como “companheiro” de países com problemas institucionais graves pode não ser um bom negócio.

Interessante que o nobre comuni… quer dizer, colunista, acha super-fófis realizar acordos com a Venezuela e com Cuba que, como todos sabem, são paraísos institucionais.

Sobre a Índia, basta reproduzir editorial de ontem desta Folha: “Violência sectária, conflitos de fronteira, atentados terroristas e assassinatos de políticos marcam os 51 anos de história da Índia independente”.

Se não se pudesse fazer acordos econômicos com países conflituosos, teríamos que riscar os EUA da nossa lista também.

A Rússia é uma ditadura com verniz democrático leve e um ambiente de negócios em que só prosperam os incondicionais do Kremlin.
A China é uma ditadura. Ponto.

Volto ao exemplo venezuelano e de Cuba: aí pode?

Não estou dizendo, claro, que o Brasil é perfeito, mas, se é para andar em companhias de que orgulhar-se, que o seja com modelos mais saudáveis.

Quem é que vai falar pro CR que o acordo é econômico? E que, apesar do termo BRIC ter sido cunhado em um banco, o bloco realmente faz sentido?

Memória, sempre ela

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 26 novembro, 2008

delfim

O Delfim Netto publicou um artigo muito interessante hoje, na Folha. Lendo a primeira vez, parece até que faz sentido, mas o leitor deste portentoso veículo midiático não cairá nesse papinho do gordo (daquele gordo, bem entendido) porque sabe que não é possível fazer qualquer tipo de previsão sobre os desdobramentos da atual crtise econômica (vide esse post de ontem). E também não é tolo para situar a “idade da pedra” há meros 250 anos… De qualquer maneira, é um bom exemplo de como a manipulação de estatísticas constrói um argumento convincente.

Falta de memória

É CADA VEZ mais evidente a enorme disfuncionalidade da excessiva liberdade deixada ao setor financeiro pela política monetária laxista (na teologia moral, “tendência a fugir ao dever e à lei, com base em razões pouco ou mal fundamentadas”) dos Bancos Centrais. Uma das coisas mais surpreendentes é a memória curta dos mercados.
Em janeiro de 2002 (em resposta a uma série de escândalos), o Congresso americano aprovou a lei Sarbanes-Oxley, que fixou normas de proteção aos investidores. Pois bem, apenas três anos depois da lei e quatro anos depois do estouro da “bolha” de ativos (e do escândalo da Enron), o presidente Bush indicou em 2006 para “chairman” da Security and Exchange Commission, Christopher Cox, um congressista conhecido por sua fúria desregulatória. O próprio secretário do Tesouro, Paulson, empossado também em 2006, disse, em seu discurso de posse, que vinha para acabar com todo o resíduo de regulação que entravava a liberdade financeira produtora do desenvolvimento da economia real.
Completava-se, assim, mais um dos ciclos da dialética infernal de laxidão e controle produzidos pelas “bolhas” dos mercados de ativos e as fraudes ínsitas à sua história.
Agora é a vez de o G20 sugerir mais controle. O tempo se encarregará de corroê-lo à medida que a infinita imaginação dos agentes financeiros for descobrindo novos “produtos exóticos” que os Bancos Centrais só entenderão quando ocorrer a próxima crise. Mas por quê? Apenas porque é assim que funciona o sistema que trouxe os homens da Idade da Pedra à Idade da Informática nos últimos 250 anos…
O que talvez interesse agora é tentar adivinhar quanto durará a crise da economia real depois do acerto da economia financeira. A tarefa é impossível, mas o passado talvez nos dê algumas informações.
Se tomarmos a média das sete últimas crises sofridas pela economia dos EUA e fizermos uma uniformização do PIB nos “picos” igual a 100, encontramos que ela se agrava durante os primeiros dois ou três trimestres e inicia uma recuperação entre o quinto e sexto semestre (quando retorna ao “pico” = 100), a partir do qual volta a subir para completar outro ciclo.
Nessas condições, deve-se esperar que a redução da atividade e do emprego na economia mundial prossigam até setembro/outubro de 2009 e se inicie uma volta ao nível de atividade de 2007 que será atingido no segundo semestre de 2010. Esse parece ser o tempo no qual teremos de usar nosso mercado interno com inteligência e ousadia para sustentar um razoável crescimento e o nível de emprego.

A memória do Clóvis Rossi

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 25 novembro, 2008

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Agora virou vício; não consigo mais parar de meter o pau no Clóvis Rossi. Tanto que já estou escrevendo posts antecipando as besteiras futuras do czar da Folha, só para poder falar “não disse!!!???” com mais gosto. Os 14 leitores habituais deste blog devem ter lido esse post aqui, onde falo que o Citibank passou por uma crise tão grave quanto a atual 20 anos atrás. Naquela época, o Citi estava sob intervenção branca do FED, e só não quebrou porque um príncipe árabe investiu uma montanha de dinheiro no banco, salvando-o da morte certa. Minha memória não é nenhuma Brastemp, mas trabalhava no Citibank naquela época, por isso lembro certinho dos detalhes.

Na sua coluna de hoje, entretanto, señor Rossi se vangloria de sua privilegiada memória para afirmar que, olha só, como é que pode o imbatível, indestrutível e imaculado Citibank precisar de ajuda do governo para não quebrar? Logo ele, um banco que nunca precisou de ajuda de ninguém e blá blá blá… Tome desinformação!!! Não só o Citi quase faliu 20 anos atrás, como o Citibank de hoje não é, de fato, o Citibank original, após a fusão com o Travelers no final dos anos 1990 (que era maior que ele; logo, o Citi atual é mais um sucessor do Travelers do que qualquer outra coisa). E, para completar, o slogan “The Citi never sleeps” não foi encampado pela cidade de Nova York; foi o Frank Sinatra, com a música New York New York que inventou o mote, depois adotado pela cidade e pelo banco (este último, como uma paródia).

Para quem quiser conferir mais esse mau exemplo de jornalismo, segue o artigo original abaixo (com piadinhas e trocadilhos com o futebol, bem ao estilo Marolinha):

Memórias que nunca dormem

Até anteontem, só uma coisa me surpreenderia mais do que alguém me dizer que o Citibank poderia quebrar: se alguém me dissesse que o São Paulo poderia, algum dia, cair para a segunda divisão. Não que não seja desejável (a queda do São Paulo), mas a suposição é absurdamente irrealista.
Como era a quebra do Citibank, que, no entanto, só não aconteceu porque o governo deu uma ajudazinha de US$ 20 bilhões (o suficiente para comprar 40 mil mansões de quatro dormitórios e 788 metros quadrados de área total no Morumbi, conforme anúncio de ontem de uma grande corretora).
Fora a garantia descomunal para papéis que podem ser “tóxicos”.
Pelo menos na minha memória, o Citi era, na área financeira, o equivalente ao São Paulo de hoje no futebol: forte, campeão sucessivas vezes, modelo. Mas era também mais arrogante do que os são-paulinos, pelo menos os que conheço mais de perto.
Bill Rhodes, um dos principais executivos do banco desde que minha memória alcança (e olha que alcança longe), era o verdadeiro “Mestre do Universo” na negociação da dívida externa dos países latino-americanos nos anos 80, Brasil incluído. Passava sermão em ministro atrás de ministro, ditava regras, era, a rigor, até mais importante do que o secretário do Tesouro da época ou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (se não era mais importante, parecia ser).
O Citi era tão influente que um slogan seu (“The Citi never sleeps” ou o Citi nunca dorme) foi encampado pela cidade de Nova York, que geralmente exporta slogans/modismos em vez de importá-los.
Pois é, o Citi dormiu e foi até a beira do precipício. E o foi justamente depois que muita gente boa dizia que passara o pior da crise no setor financeiro. Se é assim, ninguém mais pode ser dado como seguro. Nem o São Paulo, espero.