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Pela volta dos chatos aos bancos

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 14 abril, 2009

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(Este post é dedicado aos meus ex-chefes no Citibank)

No artigo abaixo do Paul Krugman, publicado hoje no The New York Times, faz-se uma correlação inversa entre “chatice bancária” e crise financeira: quanto mais chato está o setor bancário, menos provável ocorrer uma nova crise. De fato, percebi isso na formação da atual crise: o ambiente de negócios dos últimos anos estava significativamente mais jovem, agitado, criativo e vibrante que na época que eu ingressei no mercado, em fins dos anos 1980. No início do ano passado, por exemplo, tive uma série de reuniões na sede de um dos maiores bancos americanos no Brasil (envolvido até os ossos na crise, por sinal), e não vi ninguém mais velho que eu trabalhando lá (tinha 40 anos na época). Meu interlocutor, reponsável por negócios bilionários, tinha 25 anos, e o ambiente mais parecia uma alegre agência de propaganda, com bichinhos fofos enfeitando monitores e ninguém usando gravata.

Tornar os bancos chatos

Há mais de 30 anos, quando eu era aluno de pós-graduação em economia, somente os meus colegas menos ambiciosos buscavam carreiras no mundo financeiro. Mesmo na época, os bancos de investimento pagavam mais do que o ensino ou o serviço público -mas não tanto assim e, de qualquer forma, todo mundo sabia que trabalhar em banco era, bem, chato.

Nos anos que se seguiram, os bancos se tornaram tudo, menos chatos. As negociações e estratégias prosperaram, e os salários saltaram, atraindo muitos dos melhores e mais brilhantes de nossos jovens (está bem, não tenho certeza quanto aos “melhores”). Assim, estávamos certos de que nosso setor financeiro de tamanho exagerado era a chave para a prosperidade.

Em vez disso, contudo, as finanças viraram o monstro que comeu a economia mundial.

Recentemente, os economistas Thomas Philippon e Ariell Reshev distribuíram um artigo que poderia ter o título de “Ascensão e queda dos bancos chatos” (de fato, o título é “Salários e capital humano na indústria financeira dos EUA, 1909-2006”). Eles mostram que os bancos nos EUA passaram por três eras no último século.

Antes de 1930, a indústria bancária era excitante, com uma série de figuras de peso, que construíram impérios financeiros gigantescos (mais tarde soube-se que alguns destes eram baseados em fraudes). Esse setor de finanças próspero liderou um rápido aumento no endividamento: a dívida domiciliar quase dobrou em relação ao PIB entre a Primeira Guerra Mundial e 1929.

Durante essa primeira era nas finanças, os banqueiros ganhavam em média muito mais do que seus colegas das outras indústrias. Contudo, o setor financeiro perdeu seu glamour quando o sistema bancário desmoronou durante a Grande Depressão.

A indústria bancária que emergiu daquele colapso era fortemente regulada, muito menos colorida do que tinha sido antes da Depressão e muito menos lucrativa para os que a dirigiam. O setor ficou sem graça, em parte porque os banqueiros eram tão conservadores em seus empréstimos: a dívida domiciliar, que tinha caído fortemente em relação ao PIB durante a Depressão e a Segunda Guerra Mundial, ficou bem abaixo dos níveis anteriores a 1930.

É estranho dizer, mas essa era de bancos chatos também foi uma era de progresso econômico espetacular para a maior parte dos norte-americanos.

Depois de 1980, contudo, com a mudança nos ventos políticos, muitas das regulamentações dos bancos foram suspensas -e o setor tornou-se empolgante novamente. A dívida começou a subir rapidamente, eventualmente chegando a quase o mesmo nível em relação ao PIB que em 1929. E a indústria financeira explodiu de tamanho. Em meados desta década, respondia por um terço dos lucros corporativos.

Com essas mudanças, as finanças novamente se tornaram uma carreira que recompensava bem -espetacularmente bem, para os que construíram novos impérios financeiros. De fato, o aumento dos salários nas finanças teve um grande papel em criar a segunda Era Dourada dos EUA.

Nem é preciso dizer que os novos super-astros acreditavam que mereciam sua riqueza. “Acho que os resultados de nossa empresa, de onde veio a maior parte de minha riqueza, justificaram o que eu recebi’, disse Sanford Weill, em 2007, um ano após se aposentar do Citigroup. Muitos economistas concordaram.

Somente poucas pessoas advertiram que este sistema financeiro sobrecarregado poderia ter um final ruim. Talvez a Cassandra mais notável tenha sido Raghuram Rajan, da Universidade de Chicago, ex-economista do Fundo Monetário Internacional que argumentou em uma conferência em 2005 que o rápido crescimento das finanças tinha aumentado o risco de um “derretimento catastrófico”.

Entretanto, outros participantes da conferência, inclusive Lawrence Summers, hoje diretor do Conselho Econômico Nacional, ridicularizaram as preocupações de Rajan.

E o derretimento chegou.

Grande parte do aparente sucesso da indústria financeira agora é visto como ilusão. (As ações do Citigroup perderam mais de 90% de seu valor desde que Weill se congratulou.) Pior ainda, o colapso do castelo de cartas financeiro criou caos no resto da economia, com o comércio mundial e a produção industrial de fato caindo mais rápido do que fizeram na Grande Depressão. E a catástrofe levou a pedidos de mais regulamentação da indústria financeira.

Entretanto, minha sensação é que as autoridades ainda estão pensando mais em reorganizar os caixas no organograma da supervisão bancária. Não estão de forma alguma prontos para fazer o que precisa ser feito -que é tornar o setor bancário chato novamente.

Parte do problema é que uma atividade bancária sem graça significaria banqueiros mais pobres, e a indústria financeira ainda tem muitos amigos em altas posições. Entretanto, é também uma questão de ideologia: apesar de tudo que aconteceu, a maior parte das pessoas em posição de poder ainda associa finanças sofisticadas com progresso econômico.

Será que podem ser convencidas do contrário? Teremos a disposição de fazer uma reforma financeira séria? Se não, a atual crise não será um evento único; formatará o que está por vir.

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Assassinaram a lógica

Posted in Atualidades, banco, credito, crise de credito, crise financeira, risco by Raul Marinho on 8 abril, 2009

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A atividade bancária clássica – tomar dinheiro dos investidores e repassá-lo aos tomadores via empréstimos – tem uma longa história de conservadorismo e bom senso. Mas na euforia financeira ocorrida logo antes da eclosão da atual crise econômica global, o mercado simplesmente enlouqueceu, concedendo empréstimos sem nenhum critério, que agora vêm à tona. Uma dessas excentricidades foram os “art loans”  (“empréstimos de arte”), para aquisição de obras de arte, que chegaram a cerca de US$3bilhões em 2007. Agora, com a crise, esses empréstimos estão virando pó, uma vez que o valor das obras de arte derreteu quase completamente. Leia mais sobre isso aqui, no The Wealth Report (para variar).

Música de banqueiro

Posted in banco, Just for fun by Raul Marinho on 8 abril, 2009

A música “Argumento” do Paulinho da Viola tem duas estrofes básicas. Os banqueiros, na atual crise econômica, só cantam a segunda, que diz “Faça como um velho marinheiro / Que durante o nevoeiro / Leva o barco devagar”. Mas já está mais do que na hora de voltar a cantar a primeira estrofe:

Tá legal
Tá legal, eu aceito o argumento
Mas não me altere o samba tanto assim
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim

O pós-crise

Posted in Atualidades, crise financeira by Raul Marinho on 31 março, 2009

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Há um ano, publiquei um artigo no portal administradores.com sobre a boletite, que é o consumismo epidêmico por que passávamos na época, logo antes da crise econômica atual chegar para ficar. Na verdade, o primeiro estágio da crise, o problema dos subprimes, já estava acontecendo, e eu dizia naquele artigo que a sua causa era justamente a boletite que impelia as pessoas a consumir casas cada vez maiores e mais caras.

Alguns meses depois, dei uma palestra sobre o assunto, e propus uma estratégia de combate à boletite baseada numa mudança radical na política tributária das pessoas físicas, hoje focada na renda das pessoas. A idéia é desonerar a parte da renda direcionada à poupança e sobre-onerar a parcela destinada ao consumo, o que faria com que a sociedade ficasse mais saudável em termos econômicos e evitaria a ocorrência de uma corrida consumista insana, a causa original da atual crise econômica. Logo depois, a crise econômica se agravou, o Lula saiu falando para todo mundo comprar TV de plasma a prestação, e ficou impossível continuar com esse debate.

Agora, às vésperas da reunião do G-20, o combate à boletite está voltando ao centro da cena. Veja a coluna do Clóvis Rossi de hoje (logo abaixo). Volto a esse assunto depois.

Além da bruma da crise

Por fim, na vertigem da crise, algumas vozes do establishment começam a olhar além e a tentar adivinhar -ou desejar- como seria o mundo pós-crise.
Uma das vozes atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva e diz, em artigo ontem publicado pelo “Le Monde”, que, “mais grave que uma crise econômica, estamos diante de uma crise de civilização. Ela exige novos paradigmas, novos modelos de consumo e novas formas de organização da produção”.
Concorda com ele relatório da Comissão de Desenvolvimento Sustentável, instituto independente de assessoria do governo britânico, que procura separar “prosperidade” de “crescimento”. O texto pede aos governos para “desenvolver um sistema econômico sustentável que não se apoie em um consumo sempre crescente”.
Reforça Malloch Brown, o principal negociador britânico para a cúpula do G20: “Veremos [após a crise] uma recalibrada no estilo de vida, toda uma nova visão de futuro de um mundo menos conduzido pelo consumismo, talvez com o acréscimo de um mundo no qual o poder tenha sido algo mais bem distribuído”.
Fecha o circuito Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio e um funcionário internacional ao qual se é obrigado a prestar atenção pela qualidade de suas análises: “O modelo de capitalismo que conhecemos nos últimos 50 anos não se sustenta. A questão fundamental é saber se há que readaptar, arrumar ou reformar o capitalismo ou se é preciso ir além, ser mais profundo nas mudanças e ir mais fundo nos retoques”. Completa: “Creio que não temos que nos satisfazer intelectualmente com o horizonte atual do capitalismo”.
Bem-vindos todos ao clube do “outro mundo é possível”. Mas palavras só não bastam. Vocês que são todos “insiders”, que tal reconstruir a civilização?

A prova do crime

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 21 março, 2009

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Que o mercado financeiro dos EUA quebrou, todo mundo sabe; e que houve um descaso absurdo com a fiscalização, também. Mas nada como ver as provas concretas do crime. No blog do Crédito, o leitor Camilo Telles colocou o link para a denúncia feita contra o fundo do Madoff à SEC (a CVM deles) em 2005. É impressionante. A denúncia se chama “O maior fundo do mundo é uma fraude”, de Harry Markopolos, um analista financeiro de Wall Street altamente qualificado, que aplicou a Mosaic Theory para levantar 29 red flags que apontavam para o fato de que o fundo do Madoff era uma pirâmide (esquema Ponzi).

O que a SEC fez com o relatório do Markopolos? Engavetou. Até que o fundo explodiu no final de 2008, deixando um rombo de mais de US$50bilhões para trás.

Santo companheiro PROER, rogai por nós

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 20 março, 2009

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Se eu fosse o Lula, iria para o Vaticano pedir para o Papa canonizar o Pedro Malan e o FHC em vida por eles terem feito o PROER. Foi por causa deles que o circo não está pegando fogo agora e, pelo contrário, o setor bancário é nosso maior trunfo contra a crise. Veja a nota abaixo, da BBC/UOL:

Bancos brasileiros são ‘exceção lucrativa’ no setor, diz Economist
Os bancos brasileiros estão seguros e seriam uma “exceção” no setor em meio à crise, segundo reportagem publicada pela revista britânica Economist que chega às bancas nesta sexta-feira.

Comentando o corte de 1,5 ponto percentual da taxa de juros Selic na semana passada, a revista afirma que o Banco Central conseguiu cortar as taxas “dura e rapidamente”, e que mais cortes são esperados.

“Esta é uma novidade bem vinda: no passado, a frágil moeda e a alta inflação impediam que o país adotasse medidas anti-cíclicas como esta”, afirma a reportagem.

Mas a revista destaca que os cortes nas taxas não estão sendo repassados para os clientes, alimentado a discussão sobre os altos lucros dos bancos com seus spreads (a diferença entre as taxas cobradas sobre o dinheiro que o banco toma emprestado e que ele empresta aos seus clientes).

“Os bancos brasileiros podem ser caros, mas pelo menos eles estão seguros”, diz a Economist, “Até agora, nenhum deles teve problemas com a crise financeira mundial. Isso pode ser porque seus lucros com as atividades diárias são tão altos que eles não precisaram assumir riscos tolos.” A Economist afirma que, segundo um cálculo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), o Brasil tem os spreads bancários mais altos do mundo. O cálculo, no entanto, é disputado pela Federação de Bancos, que alegam que os spreads são inflados pelos impostos sobre as transações bancárias.

De acordo com a revista, a segurança também se deve ao fato de os regulamentos serem mais duros desde que vários bancos quebraram quando a inflação foi domada, em meados dos anos 90.

A Economist comenta ainda que os bancos HSBC e Citibank, que enfrentam problemas no resto do mundo, vão bem no Brasil. “De uma maneira ou de outra, o sistema bancário do Brasil parece que vai continuar a ser a lucrativa exceção aos desastres em outros lugares”, conclui a reportagem.

Deportados do Riquistão

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 19 março, 2009

Crises econômicas levam a enormes ondas migratórias, isso não é de hoje. Foi assim que italianos e japoneses acabaram vindo parar em São Paulo, e muitos europeus foram tentar a vida em Nova York no início do século XX. Agora, a atual crise está gerando um enorme movimento migratório no Riquistão, de acordo com esse post do The Wealth Report, só que em sentido inverso: as pessoas estão deixando o país (não por vontade própria, na verdade, estão sendo deportadas).

É bem verdade que muitos riquistaneses eram “imigrantes clandestinos” – em outras palavras: estavam no Riquistão com dinheiro emprestado -, mas a maioria simplesmente “perdeu o visto de permanência” na crise. A imagem mais dramática dessa deportação é a dos carros de luxo abandonados no aeroporto de Dubai por pessoas que não têm mais condições de mantê-los e de se manter por lá:

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Marolona

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 12 março, 2009

marolona

Ô dó!!!

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 12 março, 2009

rica

Será que a ONU não mandar alguma ajuda humanitária para esses pobres coitados? Olha só o que está acontecendo no Riquistão*, de acordo com reportagem da Folha Online (quem me chamou a atenção para a triste tragédia foi o meu amigo Antonio Maia):

Bilionários perdem US$ 2 tri em um ano
Gates tem queda de US$ 18 bi na fortuna, mas volta a ser o mais rico do mundo; no Brasil, liderança é de Eike, com US$ 7,5 bi

O indiano Anil Ambani foi o que mais perdeu na lista da “Forbes”, US$ 31,9 bilhões; 55 russos deixaram de ter o status de bilionário

Se 1 bilhão a mais ou a menos faz diferença na vida de uma pessoa, talvez esse seja o momento ideal para fazer essa pergunta. Os homens mais ricos do mundo perderam 45% da sua fortuna em um ano, ou US$ 2 trilhões (o equivalente ao PIB italiano, a sétima maior economia global), segundo o ranking da revista “Forbes”.
A crise atual, que derrubou Bolsas pelo mundo, levou grandes economias para a recessão e derrubou milhões de pessoas para abaixo da linha de pobreza, também varreu a fortuna dos bilionários. No ano passado, eram 1.125 pessoas com uma fortuna de ao menos US$ 1 bilhão, que juntos tinham US$ 4,4 trilhões (o PIB japonês). Agora são 793 bilionários, com patrimônio total de US$ 2,4 trilhões. Na média, cada um tem US$ 3 bilhões -US$ 900 milhões menos que em 2008.
O impacto já pode ser medido no topo do ranking, que voltou a ter a liderança de Bill Gates, mesmo tendo perdido US$ 18 bilhões. A fortuna atual de Gates, US$ 40 bilhões, o colocaria no sétimo lugar em 2008. O líder do ano passado, Warren Buffett, perdeu ainda mais, US$ 25 bilhões, e agora é o segundo. Já o mexicano Carlos Slim, terceiro colocado, teve a mesmo prejuízo de Buffett e conta com US$ 35 bilhões.
Juntas, as dez pessoas mais ricas do mundo têm US$ 253,9 bilhões (aproximadamente todos os bens e serviços produzidos pela Argentina), ante US$ 426 bilhões no ano passado. Ou seja, em um ano eles perderam pouco mais de 10% do PIB brasileiro. Uma das consequências é que o décimo homem mais rico, o espanhol Amancio Ortega (da rede de lojas Zara), com um patrimônio de US$ 18,3 bilhões, não ficaria nem entre os 25 primeiros no ano passado.
No Brasil, o único que viu sua fortuna crescer foi Eike Batista, para US$ 7,5 bilhões, e é agora o homem mais rico do país e o 61º do mundo. O antigo líder, Antônio Ermírio de Moraes, perdeu quase o patrimônio de Eike, US$ 7,2 bilhões, e é o sexto mais rico do país. Ao todo são 14 bilionários brasileiros -quatro a menos que em 2007-, com uma fortuna total de 40,3 bilhões, ante US$ 65,1 bilhões de 2008. Elie Horn (Cyrela), Liu Ming Chung (da chinesa Nine Dragons), Jayme Garfinkel (Porto Seguro) e Rubens Ometto (Cosan) deixaram a lista.
Mas outros emergentes perderam ainda mais que o Brasil. A Rússia, por exemplo, viu 55 deixarem a lista (agora conta com 32), e aquele que era o mais rico do país e o nono do mundo, Oleg Deripaska, da Rusal, perdeu US$ 24,5 bilhões e, com US$ 3,5 bilhões, é agora o décimo bilionário russo. Na Índia, 29 não têm mais o status de bilionário e ninguém na lista da “Forbes” teve perda maior que Anil Ambani (que atua em áreas como telecomunicações e finanças): US$ 31,9 bilhões.

*Riquistão é o nome do livro do Robert Frank sobre os bilionários. O autor também publicou um post recentemente muito bom sobre a derrocada dos riquistaneses.

Depressão garantida ou seu derivativo de volta

Posted in Atualidades, crise de credito, crise financeira, nouriel roubini by Raul Marinho on 11 março, 2009

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Hoje, de acordo com o blog da Bárbara Gancia, houve palestra do Nouriel Roubini em São Paulo. E olha que a 6a. feira 13 é só depois de amanhã…

Mentiras sobre crédito

Posted in Atualidades, banco, credito, crise de credito, crise financeira by Raul Marinho on 6 março, 2009

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O leitor Dinho (que, por sinal, foi um dos ganhadores de áudio-livro da promoção feita por este blog), me enviou um comentário pedindo para divulgar um post-desabafo no blog dele. Divulguei para o Fernando Blanco, do Blog do Crédito, que acho que é o lugar mais indicado para ele neste momento. E, abaixo, respondo ao post-desabafo, que deverá servir para outros leitores. Utilizando a tecnologia do Reinaldo Azevedo: em azul, o post original do Dinho; em vermelho, os meus comentários:
Mais que um simples desabafo, gostaria que este post fosse divulgado por todos que o lerem, e principalmente fosse comentado pela maior quantidade possível de pessoas, para que, caso tenhamos um grande número de opiniões, isso possa repercutir da forma esperada, e que (pelo menos no imaginário) algo seja feito de concreto.
E, por incrível que pareça, há algo a se fazer de concreto, sim, em relação ao crédito para pequenas e médias empresas. O truque é: estabeleça uma estratégia de relacionamentos bancários. Não sei se você sabe, mas os bancos não saem abrindo contas por aí, a esmo, eles têm uma estratégia comercial definida, um mercado-alvo específico, um mix de produtos e preços para cada perfil de cliente, etc, etc, etc. Por que não ter, você também, uma estratégia de relacionamentos para lidar com os bancos? Leia esse artigo aqui.
Pois bem, tem duas coisas que vem me incomodando profundamente nestes dias, e a cada notícia que escuto, me proponho a gritar o mais alto possível dizendo: “Não é verdade, não adianta ficar mentindo para o povo!!!! A Crise está aqui sim, e muito forte!!! Pelo menos para a grande maioria da população e das empresas!!!”
Pois é… Esse blog cansa de se esgoelar toda vez que o Marolinha fala suas asneiras sobre a crise, pode consultar o blogroll. Ao mesmo tempo, a popularidade marolista chegou a 84%, a maior que um presidente já teve no Brasil. A conclusão: o povo quer ouvir o que acha bacana, não a verdade.
A primeira coisa é o desespero tremendo para auxiliar apenas algumas empresas que se dizem “em crise” e que sem auxílio fecharão ou demitirão quase todos os funcionários!!! Pois bem, não adianta nada manter a produção de veículos, dentre outras coisas, se não existe ninguém com a menor capacidade de comprar o que for produzido. Desta forma só estarão empurrando o problema mais para a frente, e o tornando cada vez maior!!!
Aí é uma questão de poder de barganha… Se a empresa X ameaça com mil demissões, pode conseguir concessões que a empresa Y, que tem 10 empregados, jamais conseguiria. É justo? Não, mas é assim que funciona.
E se o problema maior estourar depois das eleições, está resolvido o problema (para o Marolinha). Genial, né?
Meu caro Dinho, nunca antes na história dessepaiz, surgiu um político tão genial como o Marolinha. E sortudo, além de tudo.
As pequenas e médias empresas são responsáveis pela grande maioria dos empregos no Brasil. Seria muito melhor que medidas fossem tomadas para diminuir os custos e facilitar o crédito destas empresas. Com isso, ao invés de garantir emprego de 1000 pessoas em uma única empresa, garantiríamos a sobrevivência de 1000 empresas pequenas, a um custo infinitamente menor!!!! Além claro, de aumentar o poder de compra da população e a manutenção de muito mais empregos diretos e indiretos!!!
Se eu for presidente da república um dia, te chamo para ministro do desenvolvimento.
A segunda coisa é a insistência em afirmarem que o crédito já está normalizado e inclusive maior do que antes da crise!!!! ISSO É A MAIOR MENTIRA QUE EU ESCUTO TODOS OS DIAS!!!! Não sei quem está conseguindo qualquer tipo de limite de crédito, mas eu vi (e continuo vendo ) de perto o que está acontecendo com as pequenas e médias empresas!!!
Leia esse post recém-publicado no Blog do Crédito.
Um caso, por exemplo, é de uma empresa que está com mais de R$ 400.000,00 (isso mesmo) de títulos a receber, depositados em um banco (neste caso o banco é o Itaú), e não consegue sequer negociar adiantamento de recebíveis!!! Esta ladainha já corre há mais de dois meses, e o banco não libera nem 10% do total disponível!!!!!
Então… Voltando ao tema inicial, de estratégia de relacionamentos bancários: se este empresário tivesse feito a lição de casa, não estaria passando por este apuro agora. Não adianta ficar com raiva do Itaú, pois o Bradesco, o Banco do Brasil, o Santander fariam a mesma coisa. A única maneira de resolver esse assunto é administrando o crédito estrategicamente. Dá trabalho (menos do que se imagina, na verdade), mas é fundamental.
Onde está o crédito que existia antes e que todos falam aos 4 ventos nas reportagens!!!!!
Pô, você não viu a Petrobras, que toma bilhões à hora que quer? É lá que está o crédito…
Não podemos ficar olhando simplesmente para esta situação!!!! Temos que gritar para todos ouvirem!!!! Temos que mostrar a todos que o governo só está protegendo os grandes e levando o país para o fundo do poço por não ter capacidade de enfrentar a real situação!!!! Comentem, protestem, discordem mas vamos fazer este tipo de informação circular para todos que queiram (ou não) ouvir!!!!
Bem vindo ao grupo!!!

O Brasil não tem subprimes

Posted in Atualidades, credito, crise de credito, crise financeira by Raul Marinho on 26 fevereiro, 2009

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Fazia tempo que não criticava um artigo do Clóvis Rossi aqui no blog, estava tentando parar com esse vício, mas hoje o czar opinativo da Folha incorporou o Chacrinha (aquele que veio para confundir, não para explicar), e não deu para ficar quieto – aliás, sempre baixa o santo do Velho Guerreiro no CR quando ele tenta explicar a crise econômica. Segue o artigo e, em seguida, meus comentários:

Também temos subprimes

SÃO PAULO – Demorou mas surgiram os nossos “subprimes”, vítimas da incapacidade de pagarem seus automóveis.
É a diferença de escala entre a economia norte-americana e a brasileira: lá, o pessoal perde casas, um bem de muito maior valor.
Cessa aí, no entanto, a comparação. Os automóveis recuperados pelos bancos não têm, por trás, um rolo de ativos ditos tóxicos como os que caracterizaram a crise norte-americana das hipotecas “subprime” nem um volume tão formidável (pelo menos até agora).
Mas nem por isso o problema do crédito ou, mais exatamente, da falta dele e/ou de seu encarecimento deixa de ser sério, a julgar pelo que escreve Roberto Luis Troster para o mais recente boletim da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP: “Uma deterioração do crédito era esperada por conta da piora do quadro econômico, mas não na proporção que está acontecendo, especialmente para os microempresários e para as pessoas físicas de renda média e baixa. A cada mês que passa, as taxas dos financiamentos aumentam, sua composição deteriora-se e a inadimplência sobe.”
O economista dá números que ajudam a entender a inadimplência e a consequente retomada dos automóveis: são os pequenos tomadores os mais afetados, conforme relatório do Banco Central que mostra que aumentou 5,1% o volume de operações acima de R$ 10 milhões, mas diminuiu 2,7% no caso das inferiores a R$ 5.000.
Ou, pondo no estilo Elio Gaspari: o andar de cima ainda se financia, mas o andar de baixo é cada vez mais “subprime”.
PS – Cometi ontem um erro brutal. Escrevi: “[Os mercados] insistem em socializar o risco e privatizar o prejuízo”. É óbvio que deveria ter escrito “…privatizar o lucro”, como o fiz já várias vezes. Perdão.

Comento:

Em primeiro lugar: nós não temos subprimes. Dizer isso é alarmismo inconsequente, os carros financiados não tem nada a ver com os subprimes hipotecários estadunidenses. Lá, o cara comprava uma casa financiada por US$100mil, não pagava, a casa era reavaliada para US$150mil, o “ganho imobiliário” quitava as prestações atrasadas, o refinanciamento não era pago de novo, a casa era re-reavaliada para US$300mil, o cara não pagava mais uma vez, e a coisa ia assim, indefinidamente. No fim da história, havia imóveis milionários com financiamentos idem, ambos fictícios. Essa foi a “crise dos subprimes”, o primeiro estágio da crise econômica global em curso (depois, vieram as crises das commodities, dos derivativos, dos bancos, do consumo, e a crise de confiança, o lamaçal em que os EUA estão nesse momento). No Brasil, o que está ocorrendo é que tem muita gente que não consegue pagar a prestação do carro e acaba tendo que entregar o veículo para a financeira/banco/leasing. Esse carro não foi superavaliado, muito embora seu valor tenha sido reduzido por uma questão de mercado. A maior parte da dívida correspondente ao financiamento de veículos no Brasil está nos FIDCs (fundos de investimento em direito de crédito), que não podem realizar operações de derivativos, que turbinaram as perdas nos EUA. Resumindo: o título e o primeiro parágrafo do artigo do CR são sensasionalistas e profundamente errados.

Mas aí vem o mestre da ambiguidade e escreve um segundo parágrafo desdizendo o que inicialmente disse, um truque comum deste colunista. Fala que não temos “ativos tóxicos” e que os volumes brasileiros são bem menores que os estadunidenses… Então por que a manchete sensacionalista, señor Rossi??? Mas a artimanha é muito mais elaborada, pois ele continua o artigo desdizendo o que desdisse, e retornando ao terrorismo econômico (e saidno completamente do assunto original, os subprimes brasileiros), como veremos.

A citação e os números estão certos, só que faltou explicá-los de maneira adequada. O aumento do crédito para as grandes corporações decorre da escassez de linhas externas, não um aumento da demanda real desse segmento.  Ora, se um banco direciona bilhões adicionais para empréstimos ao segmento corporativo, ele vai ficar com menos disponibilidade para emprestar para os outros segmentos, essa é a causa primeira da redução do crédito para os pequenos empresários e as pessoas físicas. Ora, e se a oferta de crédito para os pequenos diminui, quem “está na bicicleta” (refinanciando dívidas antigas e empurrando o débito com a barriga) acaba explodindo, daí o aumento na inadimplência. É um problema grave, mas nada a ver com os supostos subprimes brasileiros, de que o artigo supostamente trata. O Brasil não é imune à crise e temos nossos problemas, mas que fique bem claro: nós não temos subprimes!!!

O “Paradoxo da Parcimônia”

Posted in Atualidades, crise financeira, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 25 fevereiro, 2009

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Outra matéria excelente do NYTimes publicada na Folha, dessa vez do David Leonhardt:

“Paradoxo da parcimônia” atrapalha recuperação

Nos últimos anos, o consumidor americano gastou demais. Comprou casas demais, assumiu dívidas demais e em geral viveu além de seus meios. A liberalidade dos gastos contribuiu para a pior crise financeira desde a Grande Depressão.
E agora ele tem de fazer sua parte para acabar com a crise. Como? Gastando. Chega dessa poupança que tantos americanos de repente começaram a fazer. Neste exato instante, o Congresso e o presidente Barack Obama se preparam para oferecer uma restituição tributária para inspirar a população a gastar.
John Maynard Keynes, grande economista do século 20, teria apreciado o aparente absurdo dessas mensagens ambíguas. Ele cunhou um termo, “paradoxo da parcimônia”, para explicar que aquilo que é racional para um indivíduo durante tempos difíceis -poupar- pode ser devastador para a economia como um todo. Afinal, muitos poupadores podem acabar sem emprego porque outras pessoas também estão poupando. Em recente entrevista coletiva, Obama evitou responder a uma pergunta sobre se as pessoas deveriam gastar ou poupar a restituição.
Felizmente, porém, há uma resposta. A primeira parte envolve descobrir como gastar agora para poupar depois -o que pode erguer a economia hoje e ajudar as famílias a lidarem em longo prazo com suas combalidas finanças. A segunda parte consiste em perceber que o paradoxo de Keynes não é tão férreo. Numa crise, quando os bancos podem precisar tanto de capital quanto o varejo precisa de vendas, muita gente pode poupar sem culpa.
Além de ter desenvolvido a receita mais famosa para curar crises, Keynes também pode ser considerado o padrinho da economia comportamental, conforme escreveu recentemente o colunista David Ignatius. Enquanto outros economistas ficavam obcecados com modelos estatísticos que tratavam as pessoas como autômatos hiper-racionais, Keynes escreveu sobre “espíritos animais”. Ele ajudou a explicar como a psicologia moldava a economia.
A economia comportamental decolou nas últimas duas décadas, e uma das suas descobertas centrais é que a maioria das pessoas não se planeja bem para o futuro. Não são nem de perto tão legais com o seu “futuro ser”, como dizem os economistas, quanto são com o seu “presente ser”.
Elas comem um doce a mais e adiam a ginástica para amanhã. Deixam de guardar o suficiente para a aposentadoria.
Esses hábitos provocam problemas. Mas também representam uma oportunidade num momento destes. A maioria das pessoas poderia poupar um bom dinheiro mais tarde se gastasse um pouco agora para cuidar do seu futuro ser.
Com a ajuda de economistas comportamentais, montei uma listinha de exemplos. Pais de bebês podem pagar para aderir a um programa de descontos numa grande loja, e a taxa de adesão seria compensada em poucos meses de compras de fraldas.
Quem não se importa de ler em telas pode comprar o novo leitor de livros eletrônicos Kindle, da Amazon. Custa US$ 359, mas a maioria dos livros a partir daí sai por menos de US$ 10. Famílias que fazem compras financiadas deveriam se segurar temporariamente e então comprar móveis e eletrônicos à vista. Quem tira muitas cópias a laser poderia comprar uma impressora que usa só 1 ou 2 cents de tinta por página (muitas usam bem mais).
Nesses casos -e sem dúvida em muitos outros- o investimento inicial tende a se pagar rapidamente. Por isso tais gastos são perfeitamente adequados ao momento. Eles mantêm pessoas empregadas e criam novos empregos quando a economia precisa de ajuda. Mas também irão reforçar as finanças domésticas.
O grande senão é que algumas pessoas sentem que não podem abrir mão de US$ 50 ou US$ 100 extras atualmente. Milhões de trabalhadores já perderam seus empregos, e muitos outros simplesmente querem reduzir despesas. Em dezembro, as famílias pouparam uma média de 3,6% da sua renda disponível, bem acima do 1% nos últimos anos.
Numa recessão normal, essa poupança adicional teria um lado negativo muito maior que o positivo, conforme Keynes explicou. Mas esta recessão é diferente. Foi causada por uma crise financeira. Se os americanos não melhorarem suas finanças, os bancos continuarão com medo de emprestar, e a recessão vai se prolongar. Ainda mais imediatamente, os bancos precisam colocar suas próprias finanças em ordem.
Quando esta recessão finalmente chegar ao fim, nossos seres futuros terão algumas contas enormes a pagar. Precisarão de toda a ajuda que lhes pudermos dar.

Lua-de-mel relâmpago

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 20 fevereiro, 2009

Parece que a lua-de-mel com o nosso amigo Obama está acabando muito mais cedo do que se previa. Nomeações desastradas, planos mirabolantes que não param em pé, atitudes populistas e equivocadas (como a limitação de salários para executivos de empresas socorridas pelo governo) e, principalmente, falta de efetividade no combate à crise parecem ser a causa. Se você também quiser aderir à onda anti-obamista, o adesivo abaixo está à venda aqui por US$9,95.

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Demissões na Embraer: não é o que parece

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 20 fevereiro, 2009

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Foram anunciadas 4mil demissões na Embraer ontem (20% da força de trabalho), o que deixou o presidente Marolinha “indignado”, de acordo com a imprensa.  Isso porque a Embraer recebe recursos do BNDES, que por sua vez são oriundos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), logo a empresa não poderia demitir os trabalhadores que, no fim das contas, a financiam. Faz sentido? Sim, tanto quanto a limitação de salários para executivos, do Obama. Na superfície, faz, mas é só explorar o assunto um pouquinho mais a fundo que se percebe a falácia.

Vamos começar entendendo porque a Embraer precisou demitir. Sendo uma fabricante de aviões, seu mercado é, majoritariamente, externo. A empresa fabrica jatos executivos (como o que bateu com o avião da Gol), vendidos para… Bem, para executivos (presidentes e diretores de grandes corporações), que neste momento devem estar com outras prioridades em mente, como salvar a própria pele. Ela também fabrica aviões utilizados em linhas comerciais regulares das companhias aéreas, e que estão sendo fortemente afetadas pela recessão nos países ricos. Logo, é óbvio que o mercado da Embraer foi muito afetado pela crise; mais ainda se pensarmos que o risco dos compradores não pagarem também aumentou. Assim, se a Embraer não reduzisse seu tamanho neste momento, estaria sendo irresponsável, e empresas irresponsáveis não pagam empréstimos do BNDES, logo o cano seria dado no FAT, ou seja, nos trabalhadores.

Mas a Embraer poderia, ao invés de demitir, reduzir a jornada de trabalho e de salários, como algumas empresas, como as montadoras, estão fazendo, o que seria menos traumático para os empregados, certo? Em teoria é lindo, mas o problema é que a legislação trabalhista é confusa, antiquada, e expõe a graves riscos as empresas que fazem isso. Para poder reduzir jornadas e salários, a legislação anacrônica em vigor (de 1965) exige que a empresa prove que está em dificuldades muito graves. Ora, como é que uma empresa saudável, de capital aberto, com ganas de liderar seu segmento, vai assumir em público que está em dificuldades (que, ademais, não está!)? Para uma montadora multinacional, cuja casa matriz está à beira da falência (eventualmente, além), tudo bem fazer esse acordo, mas não para a Embraer.

Se o presidente Marolinha quisesse fazer alguma coisa de útil, deveria trabalhar para modernizar a legislação trabalhista, permitindo acordos de redução de jornada e salário em momentos como o atual.

Porque sou um “otimista racional”

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Desculpem pelo post autobiográfico, mas a melhor forma que eu encontrei para explicar o momento atual é revivendo os últimos vinte e poucos anos, desde que “virei gente” (i.e.: saí da alienação adolescente – pelo menos, a mais aguda). Entrei na faculdade (FEA-USP) na época do Plano Cruzado, que é quando começa a se delinear o cenário que hoje vivemos. Era uma época esquisita: não houve bife por um bom tempo no bandejão da universidade porque a carne sumira do mercado, e a gente tomava vodca porque a cerveja também desaparecera – um prosaico churrasquinho com uma gelada dependia de contatos obscuros, com o cuidado de não despertar a atenção de nenhum “fiscal do Sarney”. Estava tendo aula de Introdução à Economia II quando a bolsa de N.York quebrou, em 1987, o que de certa forma foi um privilégio acadêmico. Em 1989, a inflação era tão alta que existia um produto bancário chamado “pagamento de impostos”, que nada mais era do que… Pagamento de impostos, mas com um “rebate” para o pagador. Por exemplo: a empresa ABC recolhe um milhão de dinheiros no caixa do banco tal. Acontece que, como esse banco tal demorava X dias para repassar o dinheiro para o Tesouro, havia um “floating“, uma espécie de prazo para o banco pagar. O overnight pagava coisa de 2%a.d. ou mais (veja bem: ao dia, não ao mês). Na maioria dos casos, o floating era superior a cinco dias, algo como 10-15%% pelo período, e 10-15% de muita grana era muita grana também. Para uma empresa que paga um milhão de ICMS, o lucro bruto é de R$100-150mil, um valor que podia ser “rebatido” (dividido) entre o banco e o cliente. Olha que época absurda…

A hiperinflação fazia com que a economia ficasse surreal, mas nada se compara a bizarrice de 1990, com o Plano Collor (e o próprio), a Zélia, o Ibrahim Eris, o PC Farias, um pessoal muito, mas muito estranho mesmo. A primeira coisa que o ex-presidente Fernando Collor fez (ou uma das primeiras) foi decretar feriado bancário. Trabalhava no Citibank na época, e houve expediente interno, a maior parte passada na frente da TV, assistindo às explicações das “torneirinhas” do bloqueio de Cruzados Novos. O governo simplesmente tomou a maior parte do dinheiro de todo mundo, é possível um negócio desses? Logo depois, o plano fracassa, a inflação dispara, a credibilidade do governo vira pó, as reservas do país desaparecem, e o Fernandinho acaba impeachado (ou seria impichado?). A seguir, toma posse o Itamar, que faz beicinho para ressuscitar a produção do Fusca… Imagine o que é um presidente ficar dando pitaco em lançamento de produto, que coisa mais esquisita. Chega 1994 e, no meio dele, um plano mirabolante, que dolarizava a economia com uma moeda virtual (URV, lembram?), e depois desdolarizava convertendo tudo a uma taxa de 2,75:1 (!!!). Por ironia, esse plano fantástico se chamou Real.

No resto dos anos 1990, até 2001, de tempos em tempos estouravam crises internacionais: crise do México, crise dos Tigres Asiáticos, crise da Rússia, a crise cambial brasileira de 1999 (uma crise doméstica com contornos de crise internacional), o estouro da bolha da internet e, finalmente, a crise decorrente dos ataques de 11 de setembro de 2001. De 2002 até o início de 2008, entretanto, fora a balbúrdia na transição FHC-Lula (que nem foi tão dramática assim), vivemos um período excepcionalmente calmo na economia, tão calmo que deu até tempo para discutirmos Ecologia. Mas eis que a crise dos subprimes emerge em 2008, os bancos acabam contaminados, as commodities idem, o crédito e a sua prima, a confiança, desaparecem, e o resultado é a atual crise financeira, que em 2009 está com a corda toda. Será o fim do capitalismo? O sistema financeiro global está condenado à extinção? Ou essa é só mais uma das tantas crises tão comuns outrora, mas que nos desacostumamos a passar?

Certamente não estamos atravessando uma marolinha, mas também não há dúvidas que já vivemos momentos bem piores no passado “recente” (vamos considerar como recente o período do governo Sarney para cá). Como o grande problema que a maior parte do mundo está vivendo tem a ver com os bancos – que, no Brasil pós PROER, são razoavelmente sólidos -, o país está sendo impactado principalmente pela queda no valor das commodities que produzimos, e pelo encolhimento do mercado comprador externo. Lógico que também sofreremos por outros fatores, como as dificuldades por que as multinacionais instaladas aqui deverão passar em suas respectivas matrizes, o calote que tomaremos em nossas exportações, os problemas pelos quais a Petrobras deverá passar devido à depressão no preço do petróleo etc., mas nada de bancos quebrando em massa, descrença no sistema financeiro, e calamidades do gênero.

Na verdade, para um brasileiro é muito menos arriscado acreditar no futuro do que duvidar dele. Como a chance do Brasil se sair melhor que a média dos outros países é muito alta, a turma dos otimistas tem maior probabilidade de se dar bem que a dos pessimistas. Admitindo que o que conta é o sucesso relativo e não o absoluto, perder uma oportunidade (ganhar pouco quando todos os outros ganham muito) é tão danoso quanto entrar numa roubada (perder quando os outros ganham pouco). Por isso, no cenário atual, as apostas otimistas estão pagando muito mais que as pessimistas. Você pode não gostar do presidente Lula, pode achar que o otimismo é uma praga ingênua, sua visão sobre o mundo pode ser sombria até por questões psicológicas, mas se pensar bem vai concluir que a postura otimista é a melhor atualmente em termos racionais.

O Brasil e a crise

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 12 fevereiro, 2009

Na mesma linha apontada no post Porque o Brasil está menos mal na crise, abaixo, vale a pena assistir ao debate na GloboNews (Programa Entre Aspas) com o Stephen Kanitz e o Roberto Gianetti.

Porque o Brasil está menos mal na crise

Posted in Atualidades, crise de credito, crise financeira by Raul Marinho on 12 fevereiro, 2009

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Mesmo que nós não estejamos passando incólumes, como alardeia nosso presidente Marolinha, também está ficando claro que o Brasil está sendo menos afetado que a maior parte dos países na atual crise econômica.  Um dos principais motivos pode ser o fato de que nossa habilidade em conviver com períodos turbulentos seja melhor que a dos países ricos, que não precisam rebolar há muitas décadas. Pelo menos é este o argumento da Anne Applebaun, do Washington Post, no artigo abaixo, publicado no The New York Times e traduzido pelo UOL Mídia Global ontem:

Lembrando de como lidar com as coisas
Aqueles que esqueceram de como tirar a neve com pá estão condenados a atravessá-la com dificuldade

Esta coluna chegou tarde nesta semana. Chegou tarde porque, entre outras coisas, meu voo que decolaria do Aeroporto de Heathrow de Londres, na segunda-feira, foi cancelado. Não adiado, cancelado. Assim como a maioria dos demais voos que partiriam de Heathrow. Esta incrível perturbação em um dos eixos de transporte mais movimentados do mundo não foi causada por um ataque terrorista ou alguma falha catastrófica de computador. Ela foi causada por mais de 12 centímetros de neve que derretia rapidamente.

Mesmo para uma natural de Washington, D.C., a cidade que o presidente Barack Obama descreveu recentemente como necessitando de uma “dureza insensível de Chicago” por causa de sua resposta patética à flocos de neve ocasionais, esta reação pareceu excessiva. Assim como a reação da rede de transporte londrina, que parou grande parte do sistema subterrâneo da cidade e todos seus oito mil ônibus, deixando mais de seis milhões de passageiros sem transporte. Assim como as reações das escolas de Londres (todas as aulas canceladas) e dos próprios londrinos. Caminhando por Piccadilly à noite, eu não encontrei evidência de ninguém usando uma pá de neve durante todo o dia.

No passado, quando este tipo de coisa acontecia em Washington, isso me provocava uma espécie de acesso, às vezes me inspirando a reclamar a respeito da cultura mimada, litigiosa, da burocracia moderna americana, das escolas em particular. Mas a descoberta de que a reação de Londres a uma pequena nevasca é ainda mais histérica do que o pânico anual de Washington me inspirou reflexões mais sérias, mais filosóficas: os eventos realmente parecem diferentes para pessoas que vivem em lugares diferentes.

É perfeitamente verdadeiro, como um britânico indignado notou na segunda-feira, que as mães de Oymyakon, na Sibéria, permitem que seus filhos brinquem ao ar livre até a temperatura cair abaixo de 40ºC negativos. (Apenas a 52ºC negativos eles fecham a escola.) No outro extremo climático, as mães em Abu Dhabi proíbem seus filhos de brincarem nos casos extremamente raros de chuva, para não se resfriarem. As pessoas em Bangladesh, onde a monção anual chega como um alívio bem-vindo, certamente consideram a reação tão cômica quanto eu considerei a do taxista que, na noite de segunda-feira, se recusava a atravessar um trecho curto de lama de neve (“slush”)..

Mas também é verdade que o clima inesperado parece causar mais caos nos climas mais temperados, precisamente porque seus habitantes estão mais despreparados, tanto de forma psicológica quanto prática, para qualquer tipo de extremo. Há poucos anos, uma onda de calor que seria considerada um clima mediano de agosto em Washington, causou um desastre nacional na França. Os ingleses lidam com a onda ocasional de calor tão mal quanto lidam com nevascas pouco frequentes. E, sim, tempestades de gelo que nem causariam comentários em Chicago podem paralisar os cidadãos de Washington, D.C., assim como todo o governo federal.

Caminhando pela Londres coberta de neve, era impossível escapar de outro pensamento: certamente o que vale para o clima também vale para outros tipos de mudanças inesperadas. Por exemplo, as pessoas que não mais se recordam de baixo crescimento econômico podem não saber lidar muito bem com uma recessão severa. Em Londres, não nevou muito por 18 anos, de forma que ninguém tem uma pá – e caso alguém tenha, não sabe como usá-la. Nos Estados Unidos, a economia não sofre um colapso desde 1929, de forma que ninguém sabe economizar barbante e folha de estanho – e caso saiba, não saberia o que fazer com eles. Uma série de habilidades, desde cozinhar com as sobras até reciclar garrafas (não por ser verde, mas por ser barato), foram perdidas durante duas gerações de prosperidade, da mesma forma que os britânicos esqueceram como dirigir seus carros por trechos de lama de neve. A última vez que mandei sapatos para colocar sola nova em Washington, o sapateiro me disse que não permaneceria em atividade por muito mais tempo, tão baixa era a demanda por seus serviços. Alguém ainda sabe como consertar torradeiras? E quanto a aparelhos de TV?

Como eu disse, as coisas parecem diferentes para pessoas em lugares diferentes: eu não tenho dúvida de que nas sociedades recém bem-sucedidas, onde a memória popular das dificuldades ainda permanece -na Indonésia, ou em Gana, por exemplo- muita gente ainda conserta torradeiras e televisores no tempo livre. Este é o motivo, quando chegar a recessão, para eles se saírem melhor do que aqueles entre nós que esqueceram como remover a neve com pá -ou que simplesmente jogaram a pá fora.

Ração para pessimista

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 11 fevereiro, 2009

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Três posts abaixo desse, tem um ensaio meu com considerações sobre o pessimismo estrangeiro. A seguir, um artigo do Martin Wolf publicado no Financial Times (e reproduzido pela Folha de S.Paulo de hoje) que pode ser entendido como “ração para pessimista”:

Por que o pacote bancário de Obama vai fracassar

Novo plano de ajuda a bancos parece fazer sentido se e apenas se o principal problema for a falta de liquidez; mas o mais provável é que se trata de insolvência

A PRESIDÊNCIA de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, a pergunta seria ridícula. Mas não vivemos tempos normais. O momento é de perigo. Hoje, o novo governo ainda pode rejeitar a responsabilidade por aquilo que recebeu como legado; no futuro, isso já não será possível. Hoje, ainda é capaz de oferecer soluções; amanhã, vai ter se tornado o problema. Hoje, está em controle dos acontecimentos; amanhã, os acontecimentos o controlarão. Agir de menos é mais arriscado, agora, que agir demais. Caso Obama não aja de maneira decidida, corre o risco de se ver esmagado ao peso da crise, como seu predecessor. Os custos de outra Presidência fracassada, para os EUA e para o mundo, são elevados demais para que possamos contemplá-los.
O que seria necessário? A resposta é: foco e ferocidade. Caso Obama não resolva a crise, toda a esperança sobre sua Presidência estará perdida. Caso o faça, estará livre para reformular a agenda nacional. Mas simplesmente esperar pelo melhor é tolice. O presidente deveria esperar pelo pior e agir como se fosse isso que receberá.
Mas esperar pelo melhor é o que vemos por trás do pacote de estímulo e -a julgar das escassas informações oferecidas pelo secretário do Tesouro, Tim Geithner, ontem- também do novo pacote para solucionar a crise do setor bancário.
O programa de socorro aos bancos parece ser mais uma vez filho das fracassadas intervenções dos últimos 18 meses: otimista e ineficiente. Se esse “rebento do programa de alívio de ativos problemáticos” fracassar, a credibilidade de Obama estará arruinada. Agora é o momento de ações que sejam a solução certeira para o problema; e as medidas propostas não aparentam ser a resposta.
Ao longo de todo o debate, houve duas posições contrastantes sobre a causa dos males do sistema financeiro. A primeira é que o problema é de pânico. A segunda é que o problema envolve insolvência.
De acordo com a primeira interpretação, os preços de um conjunto definido de “ativos tóxicos” caíram para abaixo de seu valor em longo prazo, o que em alguns prazos os tornou impossíveis de vender. A solução, muita gente sugere, é que o governo crie um mercado, comprando ativos ou garantindo os bancos contra prejuízos. Esse raciocínio embasou o Tarp (Programa de Alívio de Ativos Problemáticos) original.
De acordo com a segunda interpretação, proporção considerável dos bancos está insolvente; seus ativos valem menos que seus passivos. O FMI argumenta que os potenciais prejuízos sobre ativos de créditos gerados nos EUA atingem, só eles, US$ 2,2 trilhões. O economista Nouriel Roubini estimou que o pico de prejuízos dos ativos gerados nos EUA possa atingir US$ 3,6 trilhões.
Em minha opinião, há pouca dúvida de que a segunda interpretação seja a correta, e isso se provará cada vez mais verdadeiro à medida que a economia mundial se deteriore. Mas o cerne da questão não é esse. O que é preciso é determinar se, na presença de tamanha incerteza, podemos basear nossas respostas na esperança de que tudo seja resolvido da melhor maneira. A resposta é clara: as autoridades racionais precisam sempre antecipar o pior. Caso essa expectativa termine por se provar pessimista, o resultado seria um sistema financeiro com excesso de capitalização. Mas, se a opção otimista estiver errada, teremos bancos zumbis e um governo desacreditado. A escolha dificilmente poderia ser mais evidente.
O novo plano parece fazer sentido se e apenas se o principal problema for a falta de liquidez. A oferta de garantias e a aquisição de certa proporção dos ativos tóxicos, com limitação das injeções de capital a menos do que os US$ 350 bilhões que restam no Tarp, não enfrentaria o problema da insolvência que tantos observadores informados identificam. De fato, qualquer programa de aquisição de ativos tóxicos ou de garantia será uma forma ineficaz, não-efetiva e injusta de resgatar as instituições financeiras com capitalização insuficiente: não-efetiva porque os governos terão de adquirir vastos volumes de ativos dúbios a preços excessivos, ou oferecer garantias generosas demais, para tornar solventes os bancos insolventes; ineficaz porque grandes injeções de capital ou programas de conversão de dívidas em capital são maneiras melhores de recapitalizar bancos; e injusta porque seriam dados subsídios a instituições quebradas e ao comprador privado de maus ativos.
Por que, então, o governo dos EUA está cometendo o que parece ser um erro? Talvez porque esteja esperando pelo melhor. Mas pode ser que também por se ter proposto a pergunta errada. As autoridades não se perguntaram o que precisa ser feito para conseguir uma solução garantida, mas sim qual seria a melhor solução sob os limites oferecidos por três normas arbitrárias que o governo impôs a si mesmo: evitar a estatização; evitar prejuízos para os detentores de títulos; e evitar novos pedidos de dinheiro ao Congresso. Mas por que um novo governo, diante de uma crise tão profunda, não tenta alterar os termos do debate? A timidez exibida até agora é deprimente. Presuma que o problema seja a insolvência e que o modesto valor de mercado sustentado no momento pelos bancos comerciais americanos (US$ 400 bilhões) derive do apoio do governo. Presuma, igualmente, que seja impossível levantar grandes montantes em capital privado hoje. Nessa situação, é preciso que haja recapitalização de uma das duas maneiras descritas acima. Ambas têm desvantagens: a recapitalização pelo governo é um resgate aos credores e envolve administração estatal temporária; conversão de dívidas em capital prejudicaria o mercado de títulos, as seguradoras e os fundos de pensão. Mas não há como escapar à escolha.
Caso Geithner ou Lawrence Summers, o presidente do conselho de assessores econômicos da Casa Branca, estivessem assessorando os EUA como país estrangeiro, fariam questão de apontar brutalmente para essa realidade.
O conselho correto continua a ser aquele que os EUA deram aos japoneses nos anos 90: admitam a realidade, reestruturem os bancos e, acima de tudo, abatam imediatamente as instituições zumbis. Decidir se a resposta certa é criar novos “bons bancos”, deixando que os velhos maus bancos pereçam; ou formar novos “bancos ruins”, que permitam a sobrevivência dos velhos bancos expurgados, é uma questão secundária, ainda que importante. Minha inclinação pessoal é pela primeira solução, porque a cultura dos velhos bancos parece excessivamente tóxica.
Ao fazer as perguntas erradas, Obama está realizando uma aposta imensa. Ele deveria ter decidido limpar os estábulos bancários de Áugias. É preciso que reconsidere sua decisão, se já não for tarde demais.

Isso sim é crise de crédito

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 19 janeiro, 2009

Sabe aquele papo do presidente Marolinha sobre ler jornais e ter azia? É de reportagens como a abaixo reproduzida (do blog do Noblat, que reproduziu de O Globo) que ele estava falando.

Barrados no crédito

De Bruno Rosa

Não basta ter o nome limpo na praça para obter crédito. Nem apenas comprovação de renda. Com a crise financeira global, o comércio e o setor financeiro vêm aumentando as restrições na hora de vender a prazo e de conceder novos empréstimos. O primeiro critério é quanto a compra vai comprometer da renda. Antes, o índice era de 30%; agora, é de 20%, em média. Além disso, profissão, tempo de emprego e local de residência passaram a ser variáveis obrigatórias na análise das empresas. O motivo é a alta na inadimplência nos últimos meses do ano passado – que chegou a dobrar em alguns casos – pegando boa parte do varejo desprevenido.

As restrições ganham ainda mais força neste início de ano, período em que, tradicionalmente, os calotes aumentam devido ao pagamento de impostos e de material escolar, para quem tem filhos. Segundo cálculos do professor Marcos Crivelaro, da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap), 35 milhões de brasileiros estavam com suas prestações atrasadas entre os 80 milhões que entraram em algum financiamento em 2008. Para este ano, esse número deve aumentar até 30%, afirmam economistas. Com isso, o total dos endividados pode chegar a 45,5 milhões.

De acordo com levantamento da Confederação Nacional de Dirigente Lojistas (CNDL), antes da crise – que se agravou em 15 de setembro de 2008, com a quebra do gigante bancário americano Lehman Brothers – sete em cada dez clientes eram atendidos ao solicitar crédito às instituições. Hoje, apenas 45% têm sucesso.

Segundo o Telecheque, o índice de reprovação era de 25% até setembro de 2008. Após a turbulência financeira, subiu para 40%. Francisco Valim, presidente da Serasa, diz que as maiores restrições de crédito e os juros altos aumentaram a inadimplência em 8% em 2008, maior nível em dois anos.