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O capitalismo morreu? Viva o capitalismo!!!

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 3 março, 2009

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Você que tem ou quer ter um blog, recomendo o WordPress, que é quem hospeda esse humilde instrumento midiático aqui. Recomendo o WP porque as suas funcionalidades estatísticas são incríveis: vc tem como rastrear de onde vem os seus leitores, o que eles estão lendo, para onde eles vão, e tudo com gráficos e tabelas muito fáceis de entender. Foi por causa disso que eu percebi que esse post, de 09/12/2008, uma crítica aos que pregam o fim do capitalismo, começou a ressuscitar 15 dias atrás, e vem crescendo desde então. Não deu para rastrear por que isso aconteceu, quem é que está lendo etc., mas concluí que o assunto está despertando mais interessenas últimas semanas.

Hoje, ao ler a Folha de São Paulo, encontro um artigo do João Pereira Coutinho que, embora muito mais bem escrito que o meu, diz a mesma coisa: o capitalismo não está acabando simplesmente porque não há modelo econômico para o substituir. Como acredito que os leitores do meu post também teriam interesse em conhecer o artigo do Coutinho, segue o texto da Folha abaixo:

O capitalismo é simpático

É precisamente porque existe riqueza criada que é possível “redistribuir”, combatendo a miséria

CURIOSO: EU julgava que Adam Phillips, psicanalista superstar do Reino Unido, era pessoa razoavelmente letrada. Cheguei a ler alguns livros de Phillips, aplaudindo sua erudição e seu humor. Enganei-me. Em artigo para o “Guardian”, na companhia da historiadora Barbara Taylor, Phillips desce o pau no sistema capitalista. O capitalismo, diz ele, não permite uma revalorização do amor desinteressado ao próximo. Que bonito, hein?
Diz Phillips que o homem moderno esqueceu uma virtude fundamental. Existem vários nomes para designar essa virtude: “simpatia”, “generosidade”, “altruísmo”, “benevolência”, “humanidade”, “compaixão”. Mas todos esses nomes pretendem um mesmo fim: permitir que nós, homens egoístas, possamos imaginar as provações e as dificuldades de nossos semelhantes, estendendo a eles uma mão amiga.
No fundo, Phillips condena o mundo hobbesiano do Ocidente capitalista, de todos contra todos. Ele prefere um mundo compassivo e humano, onde todos ajudam todos.
Eu não pretendo ensinar coisa nenhuma a Phillips. Mas posso sugerir um autor que está ausente do texto do psicanalista? Um autor que lançou as sementes da compaixão moderna e, ironicamente, do capitalismo moderno também? Esse autor chama-se Adam Smith (1723 -1790).
Na verdade, o texto de Phillips, em seu amor pela “compaixão”, parece uma longa cópia da “Teoria dos Sentimentos Morais”, obra que Smith publicou em 1759. A ideia que percorre o texto de Smith é simples e poderosa: se existe uma natureza humana comum a todos os seres, ela manifesta-se por meio de “sentimentos” inatos e morais que o homem tem dentro de si. E em que consistem esses sentimentos?
Para Smith, como para Adam Phillips, esses sentimentos manifestam-se na nossa capacidade para, por meio de um exercício de “substituição”, nos imaginarmos no lugar dos que mais sofrem. Esses sentimentos morais são a base de qualquer sociedade civilizada: de uma sociedade em que o destino dos nossos semelhantes não nos pode ser completamente indiferente.
Acontece que Adam Smith não publicou apenas a “Teoria dos Sentimentos Morais”. Em 1776, Smith voltaria a revisitar o argumento com um livro que, consensualmente, é hoje visto como a bíblia do capitalismo. Falo, claro, de “A Riqueza das Nações”, onde Smith pretende demonstrar as virtudes de um sistema de livre comércio. E quais são elas?
A primeira delas, e à imagem do que sucedia na “Teoria dos Sentimentos Morais”, é mostrar como a livre troca também faz parte da natureza dos homens. Uma comunidade que seja capaz de mutilar a liberdade econômica dos seus habitantes não está apenas a empobrecer esses habitantes; está a lhes negar uma forma importante de realização humana e pessoal.
Mas existe uma segunda virtude normalmente esquecida: o capitalismo, longe de enfraquecer os “sentimentos” morais que ligam os homens aos seus semelhantes, é a condição primeira para que esses “sentimentos” se realizem de forma prática, e não apenas “sentimental”. O livre comércio permite a riqueza das nações; e só pode existir “compaixão” pelos mais pobres quando existe riqueza que nos permita não apenas chorar por eles, mas elevá-los a um estádio tolerável de existência. Diferentemente do contemporâneo Malthus, que temia a explosão demográfica dos pobres, Smith sabia que a única forma de integrá-los numa comunidade próspera era, precisamente, pela criação dessa comunidade próspera, que só a liberdade econômica seria capaz de promover.
Hoje, basta olhar para as sociedades ocidentais para ver como Smith tinha razão. Sim, o capitalismo está longe de ser a resposta milagrosa para os problemas do mundo, desde logo porque só um fanático acredita que existem respostas milagrosas para os problemas do mundo. Mas, parafraseando Churchill sobre a democracia, o capitalismo é o pior sistema econômico, com a exceção de todos os outros. O capitalismo não permite apenas a criação de riqueza; como se vê em qualquer sociedade ocidental, é precisamente porque existe riqueza criada que é possível “redistribuir”, combatendo a miséria extrema. Quando não existe riqueza criada, não existe espaço para nenhuma “benevolência” ou “simpatia”. Existe só o mundo hobbesiano que Phillips tanto teme: onde nem a sobrevivência está garantida.
Aliás, se dúvidas houvesse, bastaria perguntar a Phillips onde ele preferiria ser pobre: na Inglaterra capitalista ou na anticapitalista Coreia do Norte? Desconfio de que a Inglaterra seja mais simpática.

2 Respostas

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  1. […] by Raul Marinho em Março 4th, 2009 Ontem, o João Pereira Coutinho publicou um excelente artigo sobre o capitalismo na Folha de São Paulo que quis dizer mais ou menos a mesma coisa que eu falei no início de […]

  2. yurimachado said, on 4 agosto, 2010 at 9:04 pm

    Livre concorrência é da natureza do homem? Sim usou muito bem o termo, da natureza ANIMAL do homem.
    Cabe ao Homem, como ser RACIONAL, saber colocar a razão, as soluções pensadas, refletidas com a noção de todo, à frente dos instintos animais (que incluem a concorrência a qualquer custo, como forma de autopreservação), e mais: à frente da ambição, do superconsumismo e da falsária idéia de felicidade introduzida na sociedade através do estereótipo de self-made-man, buscando um acúmulo de bens, posses, materiais.
    Parto do princípio de que todo homem nasce com um Eu desconhecido, oculto. Como ao nascermos nosso verdadeiro eu’ está oculto, buscamos criar (inconcientemente) personas, máscaras,adotar ideologias, dar/aprender sentidos para as coisas. Porém, nos é imposto, seja pela mídia, seja pelos valores, medos ou pepotências paternas, um estereótipo que supervaloriza o individualismo e o consumismo como unica forma de encontrar a felicidade, levando o homem a abandonar suas noções de ética, de conjunto e até mesmo de futuro (pois além de tudo o capitalismo consegue ser contraditório desde as suas origens, visto que à medida que se desenvolve cava a sua própria cova: violência como consequência da desigualdade, catástrofes climáticas como consequencia do hedonismo, das rotatividades tecnológicas e das superproduções para atender o consumismo).
    Logo, concluo que o capitalismo, como um sistema baseado na desigualdade, na pragnitude, fragmentação, hedonismo, individualidade, vidas pacionais e cumcupiscentes que sobrevalescem e quase extinguem a vida racional, é a barbarização do homem.

    PS: aliás, até mesmo a idéia de liberdade adotada e tão banalmente utilizada é deturpada: que raios de liberdade é essa que se restringe às classes abastardas? Como se falar em liberdade de livre arbítrio se nem mesmo liberdade de pensamento se tem?
    PS2: outro termo absurdamente deturpado é a democracia, que possui 3 concepções teoricamente diferentes, mas que culminam na mesma idéia: participação política e social de toda a população, igualdade de direitos, igualitário acesso à educação e à saude, igualdade socio-econômica, fraternidade e compaixão, e por ai vai.
    Dêem mais uma lida nas concepções, ao menos as citadas acima, e me diga se o capitalismo financeiro não se distancia absurdamente de uma democracia.


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