Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

Empregabilidade & altruísmo recíproco

Posted in Evolução & comportamento, teoria da evolução, teoria dos jogos by Raul Marinho on 26 junho, 2009

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Leia este artigo, publicado no Blog do Kanitz, sobre desemprego. Repare, especificamente, neste trecho do texto:

Em vez de mais medidas econômicas, os desempregados, uma parte deles pelo menos, precisa de “coaching”, terapia psicológica, aprendizado de técnicas sociais, e assim por diante.

O problema é que ele, o desempregado, não se coloca disponível para ser contratado; ele conhece menos pessoas do que a maioria da sociedade.

Sentiu o drama? O que o Kanitz quer dizer é, na minha linguagem, mais ou menos o seguinte:

A diferença entre estar empregado ou não é a habilidade do indivíduo na gestão de relacionamentos reciprocamente altruístas

Quer saber mais? Compre meu livro “Prática na Teoria” ou meu áudio-livro “Teoria dos Jogos Aplicada aos Relacionamentos”, aí do lado.

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Triste fim do Daniel Dantas chinês

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 23 junho, 2009

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Na matéria abaixo, publicada na revista alemã Der Spiegel (assinada pelo repórter Wieland Wagner), um breve relato sobre a corrupção na China e o destino do “Daniel Dantas chinês”,  Huang Guangyu. Uma boa idéia para Protógenes, De Sanctis, De Grandis & Cia.

Partido Comunista vai atrás dos magnatas da China

O Partido Comunista da China está fechando o cerco sobre a corrupção. Empresários ricos e oficiais de partido estão sendo visados, e até o homem mais rico do país está sendo retido por autoridades em um local não revelado.

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A sorte nos mercados de tudo-ou-nada

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra, teoria dos jogos by Raul Marinho on 21 junho, 2009

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[Na foto acima (do The New York Times), flagrante do momento em que o juiz George Preston embaralha as cartas, observado pelos candidatos Thomas McGuire (à esq.) e Adam Trenk.  Com um rei de copas, o candidato Adam garantiu uma vaga de vereador.]

Já escrevi em diversas oportunidades (como aqui, aqui e aqui) sobre a importância da sorte para vencer disputas em mercados de tudo ou nada. Uma característica destes mercados – também chamados de [mercados em que] “o-vencedor-fica-com tudo” – é que a diferença de performance entre o vencedor, que aufere ganhos expressivos, e os perdedores, que não ganham nada (ou quase nada), é ínfima, talvez zero. Por exemplo: deve haver cantoras de qualidade equivalente à da Ivete Sangalo que não ganham um centavo com a música, assim como existem advogados de formação e capacidade intelectual idêntica aos causídicos milionários que acabam tendo que prestar um concurso público para sobreviver.

Na política, acontece algo semelhante, com candidatos não-eleitos (mas com votação expressiva) emparelhados com a maioria dos eleitos, em termos de popularidade. Independente das peculiaridades da legislação eleitoral brasileira, vê-se frequentemente acontecer que, numa determinada cidade, um vereador eleito com 10mil votos não pode ser considerado com mais popularidade que outro com 9.800 votos que não se elegeu. Essa diferença pode ter sido causada por fatores insignificantes e alheios ao controle do candidato, em resumo: por sorte.

Por isso, um fato como esse aqui, reportado pelo G1 – em que a eleição para vereador em uma cidadezinha dos EUA acabou sendo decidida nas cartas – é muito menos bizarro do que parece.

O enigma gay

Posted in Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 17 junho, 2009

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A Folha de hoje traz uma matéria interessante sobre evolução & homossexualidade, de autoria do Ricardo Mioto:

Homossexualismo ajuda a moldar evolução, diz estudo

Pesquisadores dos EUA dizem que há milhares de exemplos desse comportamento

Um dos casos é o de fêmeas de espécie de albatroz do Havaí, que formam casais lésbicos que lhes conferem vantagem para criar filhotes

Entre os albatrozes-de-laysan, até um terço dos casais são formados por fêmeas

Relações homossexuais são quase universais no reino animal e podem ser agentes importantes de mudança evolutiva, afirma uma dupla de pesquisadores dos EUA. No entanto, eles alertam que os zoólogos podem estar rotulando de “homossexualismo” uma série de comportamentos diferentes.

O estudo, publicado hoje no periódico “Trends in Ecology and Evolution”, é uma revisão das pesquisas já feitas sobre relações homossexuais animais.

Essa área ganhou grande atenção do público após 1999, quando o zoólogo Bruce Baghemil publicou o livro “Biological Exuberance”, documentando homossexualismo em mais de 400 espécies. Há milhares de exemplos na literatura.

Que machos gostem de fazer sexo com machos e fêmeas com fêmeas é um enigma evolutivo. Afinal, um gene gay (ou vários genes) seria eliminado, pois à primeira vista ele não ajuda a espécie a se perpetuar.

“A grande questão é como explicar qual é o sentido evolutivo”, diz César Ades, etólogo (especialista em comportamento animal) da USP (Universidade de São Paulo).

Qual é, então, a vantagem da homossexualidade para os animais? Os autores do novo estudo, Nathan Bailey e Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, dão um exemplo. Veja as fêmeas do albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis), do Havaí.

Essas aves se unem em casais lésbicos que às vezes duram a vida inteira para criar os filhotes, especialmente quando há escassez de machos. Até um terço dos casais da espécie são formados por fêmeas. O resultado é que elas têm mais sucesso do que fêmeas “solteiras” na criação dos filhotes. O comportamento homossexual, portanto, muda a dinâmica da população -e pode ter consequências evolutivas importantes.

A conclusão do estudo é que não existe apenas uma vantagem universal. Ao contrário, a homossexualidade ajudou as espécies de diferentes formas ao longo da evolução. O nome designa, então, vários fenômenos diferentes, com motivações distintas.

Humanos

Por isso, é complicado transpor essas conclusões para humanos. “Existe homossexualidade numa variedade grande de animais: moscas, lagartos, golfinhos. Qual animal tomar como medida para comparar conosco?”, diz Ades.

Entre os animais, os mais próximos de nós são os bonobos. As fêmeas dessa espécie de chimpanzé são vistas frequentemente se relacionando sexualmente – e não raro atingem o orgasmo dessa maneira. Alguns machos se beijam e praticam sexo oral uns nos outros.

É mais difícil entender as causas do homossexualismo em primatas, especialmente em humanos. A quantidade de fatores envolvidos é muito maior. Ao contrário do que acontece com os peixes-mexerica, por exemplo, não se trata de algo simples como não saber diferenciar machos e fêmeas.

Algumas coisas, entretanto, se sabe. Estudos com gêmeos mostram que existe uma tendência hereditária a ser gay ou lésbica. Mas esses trabalhos não conseguem mostrar quais os mecanismos por trás disso.

Além disso, comportamento homossexual é diferente de orientação sexual. Foram encontradas boas explicações para o primeiro item no reino animal, mas ainda é complicado entender quais as vantagens evolutivas que se pode ter simplesmente nunca se relacionando com seres do outro sexo.

Animais diferentes têm motivos diferentes para a comportamento homossexual

>> Para fazer as pazes

Nada melhor do que o sexo para criar um ambiente de intereção que facilite reconciliações

É visto no macaco japonês

>> Por engano

Algumas espécies não possuem maneiras boas de saber quem é macho e quem é fêmea

É visto no peixe mexirica

>> Para formar alianças

Relações entre indivíduos do mesmo sexo permitem a formação de fortes laços, prevenindo conflitos

É visto nos golfinhos-nariz-de-garrafa

>> Para praticar

Indívíduos com pouca experiência sexual aprendem a cortejar com animais do mesmo sexo

É visto na mosca-das-frutas

>> Para reforçar a hierarquia

Para mostrar quem manda em que quem, os bichos estabelecem relações de poder através do sexo homossexual

É visto nos bisões.

>> Para criar os filhos

Fêmeas podem se unir depois de a prole nascer, tendo mais sucesso do que as não-lésbicas

É visto nas albatrozes-de-laysan

Acrescento:

No caso humano, acredito que a “hipótese do tiozinho” tem grande poder para explicar a existência do comportamento homossexual. Essa hipótese, sugerida pelo Antonio Maia na sua dissertação de mestrado sobre o avunculado (2006-IB/USP), tem a ver com a organização familiar. Em sociedades matrilineares, os homossexuais ajudariam a criar a prole de suas irmãs. Sob determinadas condições, famílias com alguns membros homossexuais poderiam, então, ter mais sucesso reprodutivo que famílias compostas somente por heterossexuais. Voltaremos a esse assunto em breve.

Nobel de malandragem

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 16 junho, 2009

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Acabou de sair no UOL:

Revista “Time” lista os executivos mais “trapaceiros” dos EUA

A revista americana “Time” elaborou uma lista com dez dos CEOs (sigla em inglês que se refere ao mais alto executivo de uma empresa) mais “trapaceiros” dos Estados Unidos.

A reportagem foi feita depois que a comissão dos EUA que fiscaliza o mercado de valores mobiliários ter acusado formalmente o ex-presidente da Countrywide, Angelo Mozilo, de fraude e negociações a partir de informações privilegiadas.

A lista da “Time” cita em primeiro os executivos Kenneth Lay e Jeffery Skilling, da Enron, empresa que atuava no setor de energia. Em 2000, menos de um ano antes de falir, a Enron era a sétima maior companhia dos EUA. Durante a gestão deles, a empresa foi utilizou uma contabilidade “obscura”, segundo a “Times”, para mostrar “lucros quiméricos”.

Em seguida aparece Bernard Madoff, cuja fraude envolveu US$ 65 bilhões a partir de um esquema de pirâmide de investimento (em que o retorno dos investidores depende da entrada de novos aplicadores), sendo provavelmente a maior fraude das história dos EUA.

Dennis Kozlowski, outro fraudador citado pela “Times”, foi condenado em junho de 2005, ainda defendendo sua inocência. Seu apartamento de US$ 30 milhões em Nova York e metade de sua festa de aniversário de US$ 2 milhões foram pagos pela companhia da qual ele era CEO, a Tyco. Ele se defende dizendo que a questão não é se ele usou o dinheiro da companhia (ele usou), e sim se ele estava autorizado a fazê-lo.

John Rigas, ex-CEO da Adelphia Communications, quinto maior provedor de TV a cabo dos EUA, foi processado e condenado por mau uso dos fundos corporativos.

O ex-presidente da Qwest International Joe Nacchio foi condenado em abril de 2007 por negociar com informação privilegiada. Seus acusadores afirmam que ele vendeu ilegalmente US$ 52 milhões em ações em 2001.

Gregory Reyes, ex-presidente da Brocade Communication Systems, foi condenado por alterar o registro de ativos, sem avisar investidores, para aumentar o valor dos papéis.

James McDermott Jr., da Keefe Bruyette & Woods, também foi condenado, como outros, por uso de informação privilegiada, mas com uma particularidade: ele contou fatos sigilosos a uma atriz pornô canadense, Kathryn Gannon.

O ex-executivo Sam Waksal, da empresa de biotecnologia ImClone, foi condenado em 2002 por fraude bancária e obstrução da Justiça, entre outras acusações. A companhia ficou conhecida em 1999, ao lançar uma droga contra o câncer. Waksal, sabendo que o órgão regulador reprovaria o medicamento, recomendou a parentes e amigos que vendessem as ações.

Sam Israel, ex-CEO do grupo Bayou, na área de fundos de “hedge”, desviou mais de US$ 450 milhões de investidores e foi condenado em abril de 2008. Bernie Ebbers, da WorldCom, aparece em último da lista da “Times”, condenado por fraude no mercado financeiro, entre outras acusações.

Esse é do bom!

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 8 junho, 2009

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Precisamos descobrir com urgência o que o Leonardo Boff anda fumando. Leia o texto abaixo, publicado originalmente no Blog do Noblat, e avalie você mesmo o teor de THC do material consumido pelo teólogo.

O novo patamar da mundialização: a noosfera

A atual crise econômica está colocando a humanidade diante de uma terrível bifurcação: ou segue o G-20 que teima em revitalizar um moribundo – o modelo vigente do capitalismo globalizado – que provocou a atual crise mundial e que, a continuar, poderá levar a uma tragédia ecológica e humanitária ou então tenta um novo paradigma que coloca a Terra, a vida e a Humanidade no centro e a economia a seu serviço e então fará nascer um novo patamar de civilização que garantirá mais equidade e humanidade em todas as relações a começar pelas produtivas.

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Para ficar rico

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 6 junho, 2009

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À exceção de alguns abnegados (que desconheço, embora aceite que eles possam existir em tese), todo mundo quer ficar rico. Inclusive quem já é rico, que quer ficar ainda mais. O problema é que, como a riqueza disponível é, na prática, fixa, torna-se impossível que todo mundo consiga ficar rico ao mesmo tempo, e a fortuna só poderá sorrir para uns poucos. Isso, dentre outras coisas, invalida receitas populares para atingir a riqueza como a tal da “Lei da Atração”, que diz que se você desejar muito intensamente alguma coisa, essa coisa deverá acontecer. (Se todo mundo desejar bens escassos, é impossível que todo mundo consiga obtê-los, pois aí esses bens não seriam escassos por definição). Entretanto, apesar das inúmeras receitas de enriquecimento descritas nos livros de auto-ajuda terem eficácia discutível, neste post serão mostradas estratégias que realmente funcionam para enriquecer. Leia e comprove.

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Guerras & altruísmo

Posted in Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 5 junho, 2009

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A matéria abaixo, do Ricardo Bonalume Neto publicada na Folha de hoje, fala sobre altruísmo em tempos de guerras ancestrais (dezenas de milhares de anos atrás), com informações obtidas da arqueologia. O interessante desta história é que o Trivers, com o seu paper sobre altruísmo recíproco de 1971, já dizia que as guerras deveriam ter facilitado a ocorrência do altruísmo humano. Só que o Trivers não duspunha dessas informações, o que faz do trabalho dele ainda mais espetacular.

Guerras modelaram altruísmo humano

Sacrifício individual ajuda sobrevivência de grupos, diz estudo; tamanho de população também revolucionou a cultura

Certos comportamentos artísticos surgiram na África 90 mil anos atrás, sumiram, e voltaram na Europa há 45 mil anos, afirmam cientistas

A guerra na Pré-História era frequente e altamente letal, mas essa luta constante está ligada ao surgimento de comportamentos altruístas na espécie humana. E quando os grupos humanos atingiram determinado tamanho, criava-se o potencial para uma revolução no comportamento e na cultura.

É o que indicam dois estudos publicados na edição de hoje da revista científica “Science”.

Samuel Bowles, do Instituto Santa Fé (EUA) e da Universidade de Siena (Itália), usou dados arqueológicos e etnográficos sobre populações de caçadores-coletores e mostrou que a mortalidade produzida pelos conflitos poderia ter promovido a predisposição para ajudar membros de grupos não diretamente aparentados.

O guerreiro “altruísta” é aquele que está disposto a sacrificar a vida em prol da sobrevivência do grupo.

Mas quão precisas são as estimativas de populações pré-históricas, ou da mortalidade das guerras mais remotas?

“É surpreendente -e um pouco reconfortante- que os conjuntos de dados etnográficos e arqueológicos resultam em quase a mesma estimativa -14% de mortalidade”, disse Bowles à Folha.

Revoluções

Já os pesquisadores Adam Powell; Stephen Shennan e Mark Thomas, do University College, de Londres, afirmam que o tamanho das populações explicaria o motivo de comportamentos socioculturais modernos terem surgido na África há 90 mil anos, desaparecido há 65 mil anos e ressurgindo na Europa 45 mil anos atrás.

“Por comportamento moderno, nós queremos dizer um salto radical em complexidade cultural e tecnológica, que torna nossa espécie única. Isso inclui comportamento simbólico, como arte abstrata e realista, decoração corporal usando contas, ocre ou kits de tatuagem; instrumentos musicais, artefatos de osso, chifre e marfim; lâminas de pedra e tecnologia de caça mais sofisticada, como arcos, bumerangues e redes”, afirma Powell.

Em geral, os pesquisadores especulavam que essa revolução cultural tivesse surgido por conta do aumento do cérebro humano. Mas os autores lembram que esse comportamento só surgiu cerca de 100 mil anos depois de ter aparecido o ser humano anatomicamente moderno, e que em alguns casos as inovações foram perdidas.

Eles argumentam com cálculos sobre o tamanho das antigas populações, que mostram que só quando elas atingem uma determinada massa crítica é que as inovações podem surgir e ser transmitidas.

Ruth Mace, também do University College, de Londres, discutiu as duas pesquisas em artigo também na edição de hoje da “Science”. “Os dois estudos sugerem que a estrutura demográfica das nossas populações ancestrais determinava como a evolução social procederia”, diz Mace.

Ela lembra que os biólogos tendem a achar que a seleção natural darwiniana, o motor da evolução, age principalmente em indivíduos e em genes. Mas novos estudos têm procurado mostrar que a seleção também age no grupo social.

“Definir altruísmo também é sempre problemático. Aqui ele é definido como um comportamento que ajuda o grupo, mas que pode ser custoso ao indivíduo”, disse Mace à Folha.

Bowles diz que procurou usar dados apenas sobre populações de caçadores-coletores que não faziam grande uso de animais ou plantas domesticados, pois ele queria manter o foco sobre as condições que existiam há 100 mil anos, e não há 10 mil, quando a agricultura e a pecuária já existiam. Ficaram de fora, assim, dados sobre a guerra entre os índios Yanomami da fronteira Brasil-Venezuela, “o povo feroz”.

“O outro artigo é consistente com o meu trabalho. Mas a questão é muito diferente. Uma população mais densa não apenas cria oportunidades para troca, mas também para conflitos”, comenta Bowles.

Doenças mentais, inteligência e seleção de grupo

Posted in Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 4 junho, 2009

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James Watson, um dos descobridores da estrutura da molécula de DNA e um dos cientistas mais importantes de todos os tempos, é famoso pelas polêmicas em que se envolve – como as declarações racistas que proferiu, em que sugeriu que os negros tendem a ser menos inteligentes que os brancos. Agora, o prêmio Nobel volta às manchetes (vide matéria abaixo, do Cláudio Ângelo para a Folha de ontem), com suas declarações sobre supostas correlações entre autismo, esquizofrenia e inteligência, inclusive com referências pessoais (Watson tem um filho esquizofrênico).

Até aí, tudo bem (embora “inteligência” seja uma coisa complicada até para se definir de maneira inequívoca). O complicado é quando o cientista explica o fato evolutivamente: “As sociedades que têm indivíduos com alta cognição, como Einstein e Darwin, se beneficiam. O processo evitaria o expurgo da inteligência -e da esquizofrenia- do “pool” genético dessas populações”. Essa explicação remete ao velho conceito de seleção de grupo, que já se provou incorreto em termos biológicos. Se a Inglaterra se beneficia com a existência de um Darwin, por que os genes do Darwin seriam privielgiados? Porque os descendentes do velho Charles teriam mais chances de sobrevivência numa sociedade melhorada pelo trabalho do vovô? Ora, convenhamos…

De qualquer maneira, o insight sobre doenças mentais e inteligência parece promissor (será que o estereótipo do cientista louco tem algum fundo de verdade?). Veremos onde esse negócio vai nos levar…

Autismo é o preço da inteligência

Descobridor da estrutura do DNA diz que genes da alta cognição se relacionam com doença mental

James Watson admite que hipótese é “especulativa”, mas um outro grupo de pesquisa propôs mecanismo para explicar possível elo

James Watson, descobridor da estrutura do DNA, pai da biologia molecular e polemista profissional, tem uma nova teoria para explicar a suposta genética da inteligência. Os genes que predisporiam algumas pessoas a habilidades intelectuais elevadas seriam os mesmos que disparam doenças como autismo e esquizofrenia.

Coincidentemente, é essa a hipótese que um grupo de pesquisadores da Universidade do Colorado está desenvolvendo. Os dados foram apresentados na semana passada nos Estados Unidos, logo depois de Watson ter delineado suas ideias.

“Isso é muito especulativo. Não posso provar”, admitiu à Folha o biólogo, de 81 anos. Mas a inteligência, continuou, é rara porque casais inteligentes têm probabilidade mais alta de terem filhos com problemas. “E esses genes tendem a ser eliminados pela seleção natural.”

Watson apresentou sua tese durante o 74º Simpósio de Cold Spring Harbor sobre Biologia Quantitativa, organizado pelo laboratório do qual ele era chanceler -até ser demovido do posto no fim de 2007 por ter feito comentários racistas.

Longe de se retratar pelo episódio, Watson ainda sugeriu, durante sua apresentação, que outro motivo pelo qual a inteligência é rara é que “as pessoas inteligentes pagam por dizerem a verdade. Sei disso por experiência pessoal”.

Autorreferência

O cientista começou a desenvolver sua hipótese depois de ter sido o primeiro ser humano a ter o genoma sequenciado.

“Fiquei assustado, descobri que tinha mutações em três genes ligados ao reparo do DNA”.

Esses genes, como o BRCA 1 e o BRCA2, entram em ação para corrigir danos causados durante a replicação do DNA ou por uma agressão do ambiente, como radiação. Mutações neles estão ligadas ao câncer.

“Pessoas com essas mutações tendem a ter filhos especiais”, disse. Watson tem um filho esquizofrênico.

Os mutantes são mais inteligentes que a média e têm menos filhos -e, de acordo com Watson, têm problemas para se relacionar com as outras pessoas. Veja os cientistas.

Supostamente, os genes da inteligência seriam eliminados pela seleção natural. “Mas por que eles não somem e a humanidade não fica mais estúpida?”

Elementar, afirma Watson. As sociedades que têm indivíduos com alta cognição, como Einstein e Darwin, se beneficiam. O processo evitaria o expurgo da inteligência -e da esquizofrenia- do “pool” genético dessas populações.

Faca de dois gumes

Menos especulativa é a ligação entre cognição e doenças mentais feita pelo grupo de James Sikela (Universidade do Colorado). Ele e seus colegas descobriram uma correlação entre o alto número de cópias de um gene numa certa região do DNA humano e o desenvolvimento do cérebro. Essa região, dizem outros estudos, estaria também implicada com autismo e esquizofrenia.

Os pesquisadores identificaram que uma região instável do genoma chamada 1q21.1 concentrava um número alto de cópias de um gene chamado DUF1220. “A relação de causa e efeito não está provada, mas nós relatamos uma correlação” entre o aumento do número de cópias desse gene na linhagem humana e o aumento do cérebro, disse Sikela à Folha.

Essa instabilidade é “uma faca de dois gumes”. “Ela teria permitido mais cópias do DUF1220 e, portanto, teria sido retida na evolução. Por outro lado, essa instabilidade não é precisa, e pode gerar um embaralhamento deletério de sequências. É por isso que os vários estudos recentes que têm relacionado variação no número de cópias na região 1q21.1 no autismo e na esquizofrenia chamaram nossa atenção: isso se encaixa na ideia de que os indivíduos com essas doenças são o preço que a nossa espécie paga pelo mecanismo que permitiu e permite a geração de mais cópias da DUF1220.”

Sikela disse que Watson não sabia de seus dados e que o mecanismo sugerido por ele é diferente. “Mas, em teoria, outras regiões do genoma poderiam se encaixar no modelo.”

Onde as mulheres mandam

Posted in Uncategorized by Raul Marinho on 1 junho, 2009

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A interessantíssima entrevista abaixo, de Jürgen Vogt para o Der Spigel, é sobre uma sociedade matrilinear da China. Depois de lê-la, se você ainda tiver paciência, leia este artigo meu sobre o mesmo assunto.

O matriarcado dos Mosuo

Como funciona um matriarcado na realidade? O escritor argentino Ricardo Coler decidiu descobrir e passou dois meses com os Mosuo, no sul da China. “As mulheres tem um jeito diferente de dominar”, explicou o pesquisador à Spiegel Online.

Spiegel Online: Você é da Argentina, que tem fama de ser um país com comportamento machista. Como foi viver por dois meses na sociedade matriarcal dos Mosuo, na China?

Coler: Eu queria saber o que acontece numa sociedade em que as mulheres determinam como as coisas são feitas. Como as mulheres funcionam quando, desde o nascimento, sua posição social as permite decidir tudo? Nós, homens, sabemos o que é um homem, descobrimos isso rapidamente – mas o que constitui uma mulher? Apesar disso, não fiquei mais sábio em relação a esse assunto.

Spiegel Online: A sociedade Mosuo é um paraíso para as feministas?

Coler: Eu esperava encontrar um patriarcado às avessas. Mas a vida dos Mosuo não tem nada a ver com isso. As mulheres têm um jeito diferente de dominar. Quando as mulheres governam, isso faz parte do trabalho delas. Elas gostam quando tudo funciona e a família está bem. Acumular riquezas ou ganhar muito dinheiro não passa pela cabeça delas. A acumulação de capital parece ser uma coisa masculina. Não é sem razão que a sabedoria popular diz que a diferença entre um homem e um menino é o preço de seus brinquedos.

Spiegel Online: Como é a vida do homem no matriarcado?

Coler: Os homens vivem melhor quando as mulheres estão no comando: você não tem quase nenhuma responsabilidade, trabalha bem menos e passa o dia todo com seus amigos. E fica com uma mulher diferente todas as noites. E, além disso, você sempre pode morar na casa da sua mãe. A mulher serve o homem, e isso acontece numa sociedade em que ela lidera e tem o controle do dinheiro. No patriarcado, nós, homens, trabalhamos mais – e de vez em quando temos que lavar os pratos. Na forma de matriarcado original de Mosuo, você é proibido de fazer isso. Quando a posição dominante da mulher está segura, esse tipo arcaico de papeis de gênero não têm muito significado.

Spiegel Online: O que mais o surpreendeu?

Coler: Que não há violência numa sociedade matriarcal. Sei que isso pode descambar para uma idealização – toda sociedade humana tem problemas. Mas resolver os conflitos com violência simplesmente não faz sentido para as mulheres Mosuo. Como elas estão no comando, ninguém briga. Elas não têm sentimentos de culpa ou vingança – é simplesmente vergonhoso brigar. Elas ficam envergonhadas quando o fazem, e isso pode até ameaçar sua posição social.

Spiegel Online: E quando não há solução para um problema?

Coler: Tanto faz, não haverá nenhuma briga. As mulheres decidem o que acontece. Algumas fazem isso de forma mais rígida e outras de forma mais amigável. Elas são mulheres fortes que sabem dar ordens claras. Quando um homem não terminou uma tarefa que recebeu, espera-se que ele admita isso. Ele não é censurado nem punido, mas em vez disso, é tratado como um menino que está aquém da tarefa.

Spiegel Online: Os homens são criados para serem incompetentes?

Coler: Para os Mosuo, as mulheres são simplesmente o gênero mais eficiente e confiável. Entretanto, elas dizem que as decisões “verdadeiramente importantes” – como comprar uma casa ou uma máquina, ou vender uma vaca – são tomadas pelos homens. Os homens são bons para tomar esse tipo de decisão, assim como para o trabalho físico. O líder oficial do governo do vilarejo, o prefeito, é um homem. Eu andei com ele pelo vilarejo – ninguém o cumprimentava ou dava atenção. Um homem não tem nenhuma autoridade.

Spiegel Online: Como essa divisão de papeis funciona no que diz respeito ao amor?

Coler: Na sociedade matriarcal, o amor e o erotismo são onipresentes. Mas há uma grande diferença entre os dois. Eles sempre fazem piadas ambíguas. Sempre tem alguém querendo lhe apresentar uma mulher e sempre há uma mulher sorrindo para você. Como eu disse, são mulheres muito fortes, que dão ordens e gritam com você como se você fosse surdo. Mas quando chega a hora da sedução, elas mudam totalmente. As mulheres agem com timidez, olham para o chão, cantam baixinho para si mesmas e ficam ruborizadas. E elas deixam os homens acreditarem que são eles que escolhem as mulheres e fazem a conquista. Daí eles passam a noite juntos. Na manhã seguinte, o homem vai embora e a mulher continua com seu trabalho como antes.

Spiegel Online: É um paraíso do amor livre, em outras palavras?

Coler: A vida sexual dos Mosuo é muito diferente e muito ativa – troca-se de parceiro com frequência. Mas as mulheres decidem com quem elas querem passar a noite. O lugar onde elas moram tem uma entrada principal, mas toda mulher adulta tem sua própria cabana. Os homens vivem juntos numa casa grande. A porta de cada cabana tem um gancho e todos os homens usam chapéus. Quando um homem visita uma mulher, ele pendura o chapéu nesse gancho. Dessa forma, todo mundo sabe que a mulher está acompanhada. E ninguém vai bater na porta. Se uma mulher se apaixona, ela recebe apenas aquele homem específico, e o homem só vai para falar com aquela mulher.

Spiegel Online: O que torna um homem atraente para uma mulher Mosuo?

Coler: Quando ela pode conversar com um homem, fazer sexo, e sair com ele, então ela está apaixonada. O amor é mais importante para elas do que o compromisso. Elas querem estar apaixonadas. O motivo para ficar com alguém é o amor. Elas não estão interessadas em se casar ou constituir uma família com um homem. Quando o amor acaba, então tudo está acabado. Eles não ficam juntos por causa dos filhos ou por causa do dinheiro ou outro motivo qualquer.

Spiegel Online: O conceito de casamento existe para os Mosuo?

Coler: Sim, as crianças são até mesmo ameaçadas com ele: “Se você não for bom, nós iremos casá-lo”. As crianças entendem o casamento como uma história de terror. Perguntaram para mim como é que nós vivemos. Eu disse: o homem conhece a mulher, eles se apaixonam, têm filhos e vivem juntos para o resto da vida. Ah, disseram, isso deve ser ótimo. Mas no fundo dão risada do fato de nós sempre repetirmos uma coisa que nós mesmos sabemos que não funciona.

Spiegel Online: Podemos perguntar se você também pendurou seu chapéu num gancho?

Coler: Uma mulher quis ter um filho comigo. Eu disse a ela que não, não posso ter um filho com você porque você mora aqui na China e eu moro na Argentina. “E daí?”, foi a reação dela. As crianças sempre ficam com as mães. Eu disse que eu não poderia ter nenhum filho que eu nunca pudesse ver. Ela apenas sorriu, como se eu estivesse levando tudo muito a sério. Quando elas têm filhos, as crianças são só delas – os homens não têm nenhum papel.

Spiegel Online: Na China, a sociedade dá mais valor aos filhos homens do que às filhas – isso é diferente com os Mosuo?

Coler: Uma família sem filhas é uma catástrofe. Além disso, essas famílias são menos prósperas economicamente, porque são as mulheres que controlam o dinheiro. Uma família tem de 15 a 20 membros. Entretanto, há também famílias pequenas com cinco ou seis membros. Os Mosuo podem ter até três filhos, o que é incomum na China, onde a população urbana só pode ter um filho e as pessoas do interior só podem ter dois. Mas os quase 25 mil Mosuos são considerados uma minoria étnica, e portanto podem ter três filhos.

Spiegel Online: Os Mosuo têm uma palavra para “pai”?

Coler: Sim, existe uma palavra, mas não é nada parecido com o nosso conceito do que um pai deve ser. Esses deveres são assumidos pela mãe ou pela família. Normalmente, as mulheres não sabem quem foi que as engravidou. Então, as crianças também não sabem quem é seu pai biológico. Mas, para as mulheres, normalmente isso não é importante porque os homens quase não trabalham e têm pouco controle sobre as coisas de valor material. A família é o que importa, e elas jamais se separariam dela.

Crise econômica e seleção natural

Posted in Atualidades, crise financeira, Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 1 junho, 2009

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Nova Granada, no interior de São Paulo, é uma cidade interessante. Conheço cerca de uma dúzia de granadenses, nenhum deles pessoas “normais”. Fábio Gandour é um desses “pontos fora da curva”: para se ter uma idéia do quão incomum é o sujeito, o Fábio é, ao mesmo tempo, médico (pediatra, se não me engano) e cientista-chefe da IBM(!!!). Conheci o Fábio no lançamento do meu livro “Prática na teoria”, e infelizmente nunca mais falei com ele.

Ao ler a última edição da revista Galileu, deparei com um artigo do Fábio, sobre crise econômica e seleção natural. Googlei “fabio gandour” de todo jeito, e não consegui encontrar nem o e-mail do Fábio, nem uma versão eletrônica do artigo (no site da revista, não está disponível). Por isso, escaneei o texto (vide abaixo) para poder comentá-lo, e fica aqui o convite para o Fábio responder aos meus comentários, se ele chegar a trombar com esse post. (Se algum conhecido do Fábio estiver lendo, peço a gentileza de encaminhar o link do post para ele).

A solução para a crise econômica? Seleção natural

No ano em que comemoramos os 200 anos do nascimento de Charles Daarwin e 150 da publicação do livro A Origem das Espécies, talvez também seja a hora de discutirmos uma questão bastante incômoda a ponto de ser constantemente evitada. Se em sua obra-prima Darwin construiu a teoria da evolução dos seres vivos, por que não analisar os obstáculos causados pelo progresso da ciência ao pleno exercício da seleção natural?

Antes de embarcarmos nessa direção, é recomendável que o leitor se desfaça, temporariamente, de qualquer influência de princípios éticos, morais e, principalmente, religiosos, para poder se concentrar apenas em aspectos técnicos e científicos. Sob o ponto de vista essencialmente científico, o homem, quando se empenha em tratar doenças e evitar a morte, impede a ação da seleção natural. Sim, visto pelo ângulo técnico da dinâmica populacional, o progresso da medicina atrapalha a seleção natural.

Ao impedir ou mesmo adiar a morte de indivíduos que apresentam alguma inaptidão para sobreviver e que morreriam naturalmente, evitamos ou prorrogamos a ação da seleção natural. O prolongamento da vida de um ser vivo frágil também aumenta suas chances de se reproduzir e transmitir essa fragilidade a seus descendentes.

A seleção natural sepultaria essa fragilidade e, por isso, tem o notório efeito de melhorar a competitividade, eliminando falhas e abrindo espaço para a sobrevivência dos indivíduos mais resistentes e bem adaptados.

Ao tolher a sua ação, evitamos que aquela população evolua para um novo patamar, mais competitivo. Essa verdade, um tanto inconveniente, vale tanto para a medicina quanto para qualquer outra ciência destinada a prolongar a vida de um ser vivo que se encontre enfermo por uma determinada razão. Trata-se de uma verdade cruel, mas incontestável.

E já que viemos até aqui, podemos ir mais longe na mesma direção. No caso do homem, a atitude de proteger a vida e impedir a seleção natural dos inaptos ao ecossistema do momento já se transformou em um valor social incorporado ao comportamento das populações. Um valor às vezes questionável, mas que, mesmo assim, se manifesta com frequência.

Um exemplo disso pode ser visto na atual crise econômica. O cenário globalizado em que ela acontece pode, com alguma poesia, ser chamado de ecossistema financeiro mundial. De repente, alguns “indivíduos” dessa população começaram a apresentar sintomas de grave enfermidade, que logo se alastrou por quase todo o ecossistema. Se deixássemos a seleção natural atuar, esses bancos adoecidos por dívidas impagáveis, créditos de origem duvidosa, pagamentos de bônus de mérito discutível e outras fragilidades estruturais, deveriam ser naturalmente selecionados para morrer.

Assim, levariam para o túmulo seus atributos genéticos representados por uma administração ineficiente e que bordeja a ilegalidade. Seria a seleção natural atuando com liberdade, eliminando uma espécie frágil e deficiente para abrir espaço no ecossistema para o surgimento de outra espécie mais bem adaptada e, portanto, mais forte.

Mas não é isso que vem acontecendo – e que seria extremamente saudável nesses casos. Como já incorporamos um valor social que combate a seleção natural, internamos os bancos enfermos em UTls de hospitais com nomes incomuns, como Federal Reserve Bank, sistematicamente mantidos por governos. Nessas UTIs, bilhões de dólares são injetados nas veias dos “pacientes”, e eles não morrerão. Ao sobreviver, terão novas chances para reproduzir e transmitir a seus descendentes todas as falhas atuais de seus organismos. Mais uma vez, a seleção natural não ocorreu. Na verdade, o ecossistema involuiu.

Charles Darwin nunca foi banqueiro – nem bancário -, mas até no ecossistema financeiro globalizado sua teoria da evolução teria sido útil se acontecesse com liberdade e naturalidade.

Comento:

Tudo o que comentar a seguir não terá, como recomenda o autor, qualquer viés moral (aliás, é a mesma recomendação que faço no meu livro). O problema é que, focando no aspecto exclusivamente material, deixar a seleção natural agir livremente não leva, necessariamente, aos melhores resultados. “Evolução”, no sentido darwinista, nada tem a ver com “melhoria” ou “progresso”, mas sim com “sobrevivência diferencial de populações”. Vejamos, como exemplo, o que está ocorrendo em relação à resistência à malária – uma das poucas frentes de evolução humana atualmente em curso.

Em determinadas regiões do planeta, existem populações portadoras de uma mutação que produz hemácias ligeiramente deformadas, o que gera uma doença hereditária chamada anemia falciforme. Essa doença gera diversos problemas mais ou menos similares à anemia comum: hemorragias, descolamento de retina, acidente vascular cerebral, enfarte, calcificações em ossos, e insuficiência renal e pulmonar. Mas, por outro lado, imuniza a pessoa contra a malária (ou atenua as crises). Em regiões muito afetadas pela malária, a seleção natural favorece a sobrevivência de populações portadoras da mutação porque a malária mata mais que as conseqüências da anemia falciforme. Essas populações, mais evoluídas no sentido darwinista, serão, de fato, melhores que as populações sem anemia falciforme? De jeito nenhum, tanto é que em regiões em que a malária está sob controle, a anemia falciforme acaba selecionada para desaparecer.

Por isso, é sempre muito temerário fazer qualquer afirmação como a da primeira parte do artigo, de que a seleção natural “tem o notório efeito de melhorar a competitividade, eliminando falhas e abrindo espaço para a sobrevivência dos indivíduos mais resistentes e bem adaptados”. Mas este não é o problema mais grave do artigo. Quando o autor sugere que se deixe as empresas afetadas pelos erros que levaram à crise econômica mundial à sorte da “seleção natural”, está cometendo um erro já testado em várias crises anteriores, em especial a crise de 1929. Trata-se da aplicação do liberalismo clássico, que Keynes mostrou não resolver em situações de grave crise.

Internar empresas como o Citibank e a GM em UTIs financeiras, por outro lado, não significa “involução” – pelo contrário: o Citi e a GM do futuro deverão ser empresas muito melhoradas. Empresas não são organismos, embora se pareçam com eles em alguns aspectos. O Citibank de 2012 não deverá carregar os “genes ruins” que o levaram à insolvência em 2008/09 justamente porque passou por uma situação que quase o matou. Empresas, ao contrário de organismos, podem alterar seus genes.

e-Rebinboca da parafuseta de 10 megabits

Posted in Uncategorized by Raul Marinho on 1 junho, 2009

casio-exilim-w63ca-8-megapixel-mobile-phone

Não sei quanto a você, sabido leitor (ou sabida leitora), mas eu me atrapalho com as característicvas técnicas dos produtos eletrônicos atualmente à venda. Por que uma câmera com 10 megapixels seria melhor que outra, com 8? “Porque tem mais megapixels, né? Dãaaa…” Ok, mas que diferença prática isso me traz? Leia a matéria abaixo, do David Pogue para o The New York Times e entenda mais sobre as manhas & truques do marketing eletrônico:

Desvendando o marketing dos eletrônicos

Existem muitas coisas que tornam incomum a indústria da tecnologia para consumidores. Há, por exemplo, o fator da obsessão, que alcançou novos patamares quando o iPhone chegou ao mercado.

Mas o aspecto da tecnologia para consumidores que talvez seja o mais fascinante é a maneira como ela é promovida. Obviamente, nenhuma empresa quer anunciar as deficiências de seus produtos. Mas às vezes as qualidades que as empresas proclamam estão tão longe do que realmente importa.

Veja um resumo dos argumentos usuais de marketing, contrastados com elementos muito mais importantes que os anunciantes convenientemente evitam mencionar.

Filmadoras

O QUE DIZEM QUE IMPORTA: a potência do zoom

Por que o zoom é tão importante? É claro que é simpático aproximar-se visualmente de seu filho no teatro da escola. Mas quanto zoom é suficiente -20x? 50x? Quanto maior é o zoom, mais irregular se tornam suas imagens; cada ampliação também amplia a instabilidade de sua mão, tornando o vídeo mais difícil de ser visto.

O QUE REALMENTE IMPORTA: ângulo grande

Recentemente testei filmadoras de três grandes empresas, para averiguar a que distância teria que me posicionar para enquadrar uma pessoa de 1,82 metro de altura. Com a melhor das filmadoras -a que proporciona o ângulo maior- tive que me afastar quatro metros. O problema é que fiquei longe demais do objeto para que o microfone pudesse captar suas palavras.

Pense em todos os momentos em que você anseia por um ângulo maior. Aquela partida de futebol, aqueles casamentos. Com uma filmadora camcorder, você não consegue captar nada que se assemelhe àquela vista deslumbrante de montanha, a não ser que aumente e diminua o zoom. O resultado não chega nem perto do impacto que a vista exerce sobre você em pessoa.

Câmeras fotográficas

O QUE DIZEM QUE IMPORTA: Megapixels

A indústria conseguiu convencer os consumidores de que ter mais pontinhos significa fotos de qualidade melhor. Isso pode ter sido verdade na época das máquinas fotográficas de dois megapixels. Mas essa diferença visual evaporou quando as câmeras chegaram a cinco ou seis megapixels. Hoje, seis megapixels bastam perfeitamente, mesmo para impressões enormes, do tamanho de pôsteres.

O QUE REALMENTE IMPORTA: Tamanho do sensor

Um sensor de luz maior implica em sensibilidade melhor à luz, o que significa que o obturador não precisa ficar aberto por tanto tempo, o que significa menos fotos fora de foco. Mas as fabricantes de máquinas fotográficas não querem que você tenha conhecimento dessa estatística -que não consta da embalagem da máquina-, porque é mais fácil e barato divulgar megapixels que o tamanho do sensor.

Celulares

O QUE DIZEM QUE IMPORTA: Cobertura.

O QUE REALMENTE IMPORTA: Cobertura.

Sim, estão anunciando a coisa certa. Não queremos ver zero sinais de recepção e não conseguirmos fazer uma ligação; não queremos que nossos telefonemas sejam interrompidos. Queremos apenas que o aparelho funcione. O problema é que as empresas estão mentindo. Uma pista é que todas elas dizem a mesma coisa: “Maior cobertura”, “menos ligações perdidas”. Não podem todas estar dizendo a verdade. A verdade é que elas estão medindo coisas diferentes: por exemplo, quantas pessoas vivem na área de cobertura, versus quantos quilômetros quadrados tem a área.

Computadores

O QUE DIZEM QUE IMPORTA: Preço

O preço de um computador com certeza é um fator importante -para algumas pessoas, o mais importante de todos.

O QUE REALMENTE IMPORTA: Valor

Quando alguma coisa é produzida exclusivamente para custar pouco, há alguma compensação em outro lugar. Você pode adorar o preço baixo de seu PC, mas pode não gostar do atendimento ao consumidor terceirizado, de baixa qualidade, oferecido pelo fabricante. Ou do motor grande e desajeitado. Ou do software desagradável pré-instalado que faz o computador se arrastar a passo de tartaruga desde a primeira vez em que você o liga.