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Triste fim do Daniel Dantas chinês

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 23 junho, 2009

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Na matéria abaixo, publicada na revista alemã Der Spiegel (assinada pelo repórter Wieland Wagner), um breve relato sobre a corrupção na China e o destino do “Daniel Dantas chinês”,  Huang Guangyu. Uma boa idéia para Protógenes, De Sanctis, De Grandis & Cia.

Partido Comunista vai atrás dos magnatas da China

O Partido Comunista da China está fechando o cerco sobre a corrupção. Empresários ricos e oficiais de partido estão sendo visados, e até o homem mais rico do país está sendo retido por autoridades em um local não revelado.

O Sol se põe sobre o Porto de Victoria em Hong Kong, enquanto o cassino flutuante “Netuno” levanta âncora e solta as amarras. O navio branco passa por um pano de fundo de arranha-céus iluminados, em direção a águas internacionais, marcando o início de uma longa noite.

O clima a bordo é de êxtase. Os passageiros correm para o cassino e se amontoam animados em torno das mesas de apostas. Os apostadores chineses a bordo do Netuno têm o barco todo para si. Muitos deles viajaram para Hong Kong a partir da República Popular, e entre eles há magnatas e empresários que prosperaram. A maioria é acompanhada por mulheres ostensivamente jovens. Os jogadores trocam gordos maços de dinheiro por fichas.

A cena devia ser igualmente animada aqui quando Huang Guangyu, 40, ainda estava entre os clientes. Mas o bilionário, por muito tempo considerado o homem mais rico da China, desapareceu em novembro. As autoridades chinesas estão mantendo-o em um local não revelado.

Huang, o fundador da Gome, a maior cadeia varejista de eletrônicos da China, supostamente se envolveu em corrupção e “insider trading” [obtenção de lucros com informações privilegiadas], além de ter lavado ganhos ilícitos no paraíso de jogos de Macau.

No famoso “socialismo com características chinesas” da China, não é incomum ver carreiras de empresários recém-enriquecidos terminarem bruscamente. A vida na China é especialmente perigosa para líderes corporativos que figuram nas listas de indivíduos ricos, publicadas pela revista americana de negócios “Forbes”. Os rankings são coloquialmente conhecidos na China como “listas de abate de porcos”.

Para tecerem seu caminho pelo labirinto da burocracia comunista, líderes corporativos bem-sucedidos precisam do apoio de poderosos oficiais de partido. Sem tal apoio, eles podem facilmente se verem visados por investigadores fiscais ou oficiais anticorrupção.

Mas a profunda queda do executivo Huang, filho de um fazendeiro e que subiu na vida começando como um pequeno comerciante de rádios, até virar o poderoso presidente de uma empresa com cerca de 1.350 lojas de varejo, está causando cada vez mais baixas na política.

No começo do ano, o vice-ministro para a Segurança Pública e promotor-sênior criminal para Crimes Financeiros, Zheng Shaodong, foi preso, assim como seu vice Xiang Huaizhu. Segundo relatórios na mídia chinesa, os dois oficiais supostamente aceitaram subornos de Huang.

Em abril, dois altos oficiais do Partido Comunista de Guangdong, a província exportadora mais importante da China que faz fronteira com Hong Kong, foram presos acusados de corrupção. Eles eram o ex-chefe de polícia da província e seu ex-oficial sênior anticorrupção.

Na semana passada, Xu Zongheng, prefeito de Shenzen, uma cidade de 12 milhões de habitantes, foi forçado a renunciar por “delitos disciplinares” – o eufemismo do partido para corrupção.

Falando a verdade

Ainda não está claro quão longe Pequim planeja levar sua espetacular varrida contra a corrupção entre seus próprios pares. Presidente da República e líder do Partido Comunista, Hu Jintao aparentemente quer usar o caso para limpar o partido antes das comemorações de outubro que marcam o 60º aniversário da fundação da República Popular. O caso também é uma oportunidade para reestruturar fundamentalmente a grande manufatura do mundo, em resposta à crise econômica mundial.

Hu recentemente aconselhou seus camaradas a trabalharem duro e viverem de forma modesta. “Oficiais de partido devem ver os fatos e falar a verdade”, ele disse.

Três anos atrás, Hu submeteu o principal centro financeiro de Xangai a uma limpeza coletiva. O ex-líder local do partido foi condenado a 18 anos de prisão no ano passado. Ele havia estimulado excessivamente o “boom” em sua cidade – contra a vontade de Pequim.

Agora a limpeza chegou a Guangdong. A rica província já enfrenta a urgente necessidade de rever seu ultrapassado modelo de exportação. Milhares de fábricas que remuneram mal seus funcionários foram forçadas a fechar as portas quando consumidores no Ocidente de repente passaram a comprar menos sapatos e brinquedos da China. Milhões de migrantes se viram sem trabalho.

A mais recente onda de escândalos deu um impulso para modernizadores no partido. O principal deles é o líder do partido de Guangdong, Wang Yang, que defende um “novo pensamento” e é próximo do presidente Hu. Ele quer libertar a província de sua dependência da produção de produtos baratos, ao mesmo tempo em que preserva empregos mal-remunerados para trabalhadoresimigrantes.

Para isso, Wang terá de superar a arraigada corrupção entre oficiais de partido e líderes corporativos. A prisão do ex-chefe de polícia, em especial, mostra que ninguém pode se sentir seguro em Guangdong no momento.

Chen Shaoji, 63, era visto como um homem de passado limpo, alguém que caçava grupos ilegais de jogo. Mas agora o próprio Chen é acusado de ter apreciado demais o jogo, tanto em Hong Kong quanto em Macau. Como outros que foram presos, acredita-se que ele tenha ajudado a cobrir as supostas atividades de lavagem de dinheiro de Huang.

É claro, belas mulheres são praticamente um pré-requisito em qualquer escândalo que se preze. Li Yong, a suposta amante e co-conspiradora de Chen, é 30 anos mais jovem que ele. Apresentadora de televisão da Guangdong TV, ela aparentemente foi presa enquanto tentava fugir para Hong Kong.

Aqueles que foram presos terão de esperar por uma acusação oficial. Na República Popular, membros de partido suspeitos de crimes são primeiramente questionados detalhadamente pelos comissários disciplinares do Partido Comunista em uma prática bizarra que o partido chama de “shuanggui” (“dupla regulamentação”). Nesse processo, os inquiridores comunistas vigiam o escopo politicamente correto da acusação. Somente então os réus são levados para o gabinete do promotor público. Como resultado, suspeitos na China podem ser trancafiados por um tempo espantosamente longo mesmo sem terem acusações contra eles.

Oficialmente, o fundador da Gome, Huang, nem preso foi.

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