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O pós-crise

Posted in Atualidades, crise financeira by Raul Marinho on 31 março, 2009

economistas-veem-a-sustentabilidade-como-modelo-para-economia-pos-crise

Há um ano, publiquei um artigo no portal administradores.com sobre a boletite, que é o consumismo epidêmico por que passávamos na época, logo antes da crise econômica atual chegar para ficar. Na verdade, o primeiro estágio da crise, o problema dos subprimes, já estava acontecendo, e eu dizia naquele artigo que a sua causa era justamente a boletite que impelia as pessoas a consumir casas cada vez maiores e mais caras.

Alguns meses depois, dei uma palestra sobre o assunto, e propus uma estratégia de combate à boletite baseada numa mudança radical na política tributária das pessoas físicas, hoje focada na renda das pessoas. A idéia é desonerar a parte da renda direcionada à poupança e sobre-onerar a parcela destinada ao consumo, o que faria com que a sociedade ficasse mais saudável em termos econômicos e evitaria a ocorrência de uma corrida consumista insana, a causa original da atual crise econômica. Logo depois, a crise econômica se agravou, o Lula saiu falando para todo mundo comprar TV de plasma a prestação, e ficou impossível continuar com esse debate.

Agora, às vésperas da reunião do G-20, o combate à boletite está voltando ao centro da cena. Veja a coluna do Clóvis Rossi de hoje (logo abaixo). Volto a esse assunto depois.

Além da bruma da crise

Por fim, na vertigem da crise, algumas vozes do establishment começam a olhar além e a tentar adivinhar -ou desejar- como seria o mundo pós-crise.
Uma das vozes atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva e diz, em artigo ontem publicado pelo “Le Monde”, que, “mais grave que uma crise econômica, estamos diante de uma crise de civilização. Ela exige novos paradigmas, novos modelos de consumo e novas formas de organização da produção”.
Concorda com ele relatório da Comissão de Desenvolvimento Sustentável, instituto independente de assessoria do governo britânico, que procura separar “prosperidade” de “crescimento”. O texto pede aos governos para “desenvolver um sistema econômico sustentável que não se apoie em um consumo sempre crescente”.
Reforça Malloch Brown, o principal negociador britânico para a cúpula do G20: “Veremos [após a crise] uma recalibrada no estilo de vida, toda uma nova visão de futuro de um mundo menos conduzido pelo consumismo, talvez com o acréscimo de um mundo no qual o poder tenha sido algo mais bem distribuído”.
Fecha o circuito Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio e um funcionário internacional ao qual se é obrigado a prestar atenção pela qualidade de suas análises: “O modelo de capitalismo que conhecemos nos últimos 50 anos não se sustenta. A questão fundamental é saber se há que readaptar, arrumar ou reformar o capitalismo ou se é preciso ir além, ser mais profundo nas mudanças e ir mais fundo nos retoques”. Completa: “Creio que não temos que nos satisfazer intelectualmente com o horizonte atual do capitalismo”.
Bem-vindos todos ao clube do “outro mundo é possível”. Mas palavras só não bastam. Vocês que são todos “insiders”, que tal reconstruir a civilização?

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O “Paradoxo da Parcimônia”

Posted in Atualidades, crise financeira, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 25 fevereiro, 2009

paradoxo

Outra matéria excelente do NYTimes publicada na Folha, dessa vez do David Leonhardt:

“Paradoxo da parcimônia” atrapalha recuperação

Nos últimos anos, o consumidor americano gastou demais. Comprou casas demais, assumiu dívidas demais e em geral viveu além de seus meios. A liberalidade dos gastos contribuiu para a pior crise financeira desde a Grande Depressão.
E agora ele tem de fazer sua parte para acabar com a crise. Como? Gastando. Chega dessa poupança que tantos americanos de repente começaram a fazer. Neste exato instante, o Congresso e o presidente Barack Obama se preparam para oferecer uma restituição tributária para inspirar a população a gastar.
John Maynard Keynes, grande economista do século 20, teria apreciado o aparente absurdo dessas mensagens ambíguas. Ele cunhou um termo, “paradoxo da parcimônia”, para explicar que aquilo que é racional para um indivíduo durante tempos difíceis -poupar- pode ser devastador para a economia como um todo. Afinal, muitos poupadores podem acabar sem emprego porque outras pessoas também estão poupando. Em recente entrevista coletiva, Obama evitou responder a uma pergunta sobre se as pessoas deveriam gastar ou poupar a restituição.
Felizmente, porém, há uma resposta. A primeira parte envolve descobrir como gastar agora para poupar depois -o que pode erguer a economia hoje e ajudar as famílias a lidarem em longo prazo com suas combalidas finanças. A segunda parte consiste em perceber que o paradoxo de Keynes não é tão férreo. Numa crise, quando os bancos podem precisar tanto de capital quanto o varejo precisa de vendas, muita gente pode poupar sem culpa.
Além de ter desenvolvido a receita mais famosa para curar crises, Keynes também pode ser considerado o padrinho da economia comportamental, conforme escreveu recentemente o colunista David Ignatius. Enquanto outros economistas ficavam obcecados com modelos estatísticos que tratavam as pessoas como autômatos hiper-racionais, Keynes escreveu sobre “espíritos animais”. Ele ajudou a explicar como a psicologia moldava a economia.
A economia comportamental decolou nas últimas duas décadas, e uma das suas descobertas centrais é que a maioria das pessoas não se planeja bem para o futuro. Não são nem de perto tão legais com o seu “futuro ser”, como dizem os economistas, quanto são com o seu “presente ser”.
Elas comem um doce a mais e adiam a ginástica para amanhã. Deixam de guardar o suficiente para a aposentadoria.
Esses hábitos provocam problemas. Mas também representam uma oportunidade num momento destes. A maioria das pessoas poderia poupar um bom dinheiro mais tarde se gastasse um pouco agora para cuidar do seu futuro ser.
Com a ajuda de economistas comportamentais, montei uma listinha de exemplos. Pais de bebês podem pagar para aderir a um programa de descontos numa grande loja, e a taxa de adesão seria compensada em poucos meses de compras de fraldas.
Quem não se importa de ler em telas pode comprar o novo leitor de livros eletrônicos Kindle, da Amazon. Custa US$ 359, mas a maioria dos livros a partir daí sai por menos de US$ 10. Famílias que fazem compras financiadas deveriam se segurar temporariamente e então comprar móveis e eletrônicos à vista. Quem tira muitas cópias a laser poderia comprar uma impressora que usa só 1 ou 2 cents de tinta por página (muitas usam bem mais).
Nesses casos -e sem dúvida em muitos outros- o investimento inicial tende a se pagar rapidamente. Por isso tais gastos são perfeitamente adequados ao momento. Eles mantêm pessoas empregadas e criam novos empregos quando a economia precisa de ajuda. Mas também irão reforçar as finanças domésticas.
O grande senão é que algumas pessoas sentem que não podem abrir mão de US$ 50 ou US$ 100 extras atualmente. Milhões de trabalhadores já perderam seus empregos, e muitos outros simplesmente querem reduzir despesas. Em dezembro, as famílias pouparam uma média de 3,6% da sua renda disponível, bem acima do 1% nos últimos anos.
Numa recessão normal, essa poupança adicional teria um lado negativo muito maior que o positivo, conforme Keynes explicou. Mas esta recessão é diferente. Foi causada por uma crise financeira. Se os americanos não melhorarem suas finanças, os bancos continuarão com medo de emprestar, e a recessão vai se prolongar. Ainda mais imediatamente, os bancos precisam colocar suas próprias finanças em ordem.
Quando esta recessão finalmente chegar ao fim, nossos seres futuros terão algumas contas enormes a pagar. Precisarão de toda a ajuda que lhes pudermos dar.

Mulher objeto

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 17 fevereiro, 2009

doll

Sabe aquele chavão feminista dos anos 1960, de acusar os homens de achar que as mulheres são meros objetos inanimados? Pois então, parece que não estava tão errado assim. Veja a reportagem abaixo, publicada hoje na Folha de S.Paulo pelo Eduardo Geraque:

Mulher de biquíni é objeto para o cérebro masculino

Experimento de psicóloga americana revela estrutura de pensamento machista

Imagem cerebral indica que homem “desliga” função de autocontrole ao ver mulher sensual, sobretudo quando ela não mostra seu rosto

Os homens podem não dizer isso explicitamente, mas há ocasiões em que todos tendem a pensar nas mulheres como objetos -principalmente quando elas estão de biquíni e não mostram o rosto. É isso o que acaba de mostrar um experimento realizado nos Estados Unidos com 21 homens heterossexuais estudantes de pós-graduação, apresentado em Chicago, na reunião anual da AAAS (Sociedade Americana para o Avanço da Ciência).
Talvez seja esse o efeito que explica sucesso que dançarinas mascaradas -como as personagens Tiazinha e Feiticeira- costumam ter na televisão brasileira. O experimento usou máquinas de ressonância magnética para mostrar que os circuitos cerebrais ativados nos homens durante a observação de um corpo feminino sensual desprovido de identidade são os mesmos que os permitem de reconhecer uma ferramenta, um objeto inanimado.

“Tecnicamente, podemos usar uma espécie de eufemismo neurológico e dizer que o homem não tem essa atitude de uma forma premeditada. É algo que ele não racionaliza”, afirma Susan Fiske, professora de Psicologia da Universidade de Princeton, uma das mentoras do experimento. Ela mostrou que o córtex pré-motor dos homens -uma das partes do cérebro mais envolvidas no reconhecimento- foi a área cerebral mais ativada nos voluntários que observavam fotografias de um colo feminino.
Essa parte do cérebro também é acionada quando é feita uma interpretação mecânica de uma imagem -em oposição a interpretações sociais.
Questionada pela Folha sobre o possível viés cultural que o estudo possa ter -só americanos participaram do experimento- Fiske disse não crer que o resultado mudaria se o experimento fosse feito em países, como o Brasil, onde mulheres de biquíni são comuns.

Fiske selecionou seus voluntários após aplicar um questionário a todos. Eles também precisaram passar por análises neurológicas. Só então os participantes puderam ser submetidos ao teste dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional, que registra as atividades cerebrais.

Praia ou escritório
No total do teste, cada participante ficou diante de 160 imagens. Elas eram de mulheres e de homens. Nos dois casos, foram apresentadas durante o experimento fotos com roupas de trabalho e também em trajes de banho. Imagens de rostos humanos, para medir a capacidade de reconhecimento de cada participante do teste, também foram exibidas.

Basicamente, a intenção era medir o grau de bem-estar dos voluntários após terem visto imagens de mulheres e de homens, tanto com o corpo exposto quanto coberto com roupas de trabalho. As imagens não eram pornográficas nem eróticas, disse Fiske. Os registros foram tabulados por meio de análises estatísticas de uso corrente por psicólogos.
De acordo com a pesquisadora americana, os seus resultados apresentados agora têm algumas implicações práticas. “Um dos desdobramentos pode ser o fato de que um patrão, por exemplo, pode beneficiar certas companheiras de trabalho em detrimento dos demais funcionários da empresa, dependendo de como ele idealiza aquele corpo”, diz a psicóloga.
Susan Fiske afirma que seus resultados também indicam que atitudes machistas de intimidação estão relacionadas com uma menor ativação de uma área do cérebro estudada por ela e envolvida na racionalização do pensamento, o córtex pré-frontal médio. “O sexismo hostil prediz uma menor ativação do córtex pré-frontal médio”, afirma a pesquisadora.

Por que as pessoas são desse jeito?

Posted in Evolução & comportamento, Just for fun by Raul Marinho on 7 novembro, 2008

estacionamento

A grande maioria das pessoas que vai ao shopping de carro fazer compras fica rodando, rodando, até achar uma vaga – geralmente longe e apertada, quando não é preciso sair no tapa com outro motorista que tenta tomá-la. Depois, carregado de sacolas, esse sujeito tem que se lembrar de onde parou, o que não ocorre em 90% dos casos. Por outro lado, a maioria dos shoppings oferece serviços VIPs de vallet por valores inferiores a R$10, que ficam às moscas na grande parte do tempo.

Ora, mas se você tem dinheiro para comprar um carro e aceita pagar os preços cobrados num shopping center, por que não usar o manobrista? Junto com a mania de fazer fila no embarque dos aeroportos, essa é uma das dúvidas que me assolam…

(Obs.: se você for demorar muito no shopping – ex.: se você for jantar e depois ir ao cinema -, não use o vallet service. Nesse caso, vale a pena rodar atrás da vaga).

Amado mestre…

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 17 outubro, 2008

O artigo abaixo foi publicado originalmente em 2003 na revista Você S/A, por coincidência o ano da morte do ator Rogério Cardoso, o “Rolando Lero” da Escolinha do Professor Raimundo. A enrolação, por mais cômica que possa parecer, é um dos problemas mais complicados em Recursos Humanos. O chefe que conseguir diminuir a enrolação de seus subordinados em 1% pode ser considerado um bom gestor; e se diminuir mais de 10%, é um gênio. Um dos estudos de caso mais marcantes que eu me lembro da faculdade tem a ver com esse tema, e vou resumi-lo abaixo (os caso é real, embora não tenha referências para apresentar).

Uma determinada empresa fabricante de papel possuía uma grande área de reflorestamento, cujas árvores precisavam ter o espaço ao redor do tronco capinado regularmente, para evitar ervas daninhas e acelerar o processo de crescimento. Os trabalhadores que exerciam a função eram pagos por dia de trabalho, e o gerente responsável logo percebeu que era muito difícil fazer com que esses bóias-frias trabalhassem mais do que 6 horas efetivas: havia muita enrolação para começar o dia, o almoço se estendia além do horário, e se a supervisão virasse as costas, os trabalhadores logo puxavam um cigarro de palha. Foi aí que o jovem gerente da operação, recém graduado em Administração pela USP, percebeu que os salários eram muito baixos e que conceder um aumento real significativo não iria representar um grande acréscimo nos custos, mas isso poderia trazer um grande aumento na produtividade, que é o que lhe interessava, afinal de contas, esse era um item importante na sua avaliação de desempenho.

Esse gerente sabia que dar o aumento pura e simplesmente não melhoraria a produtividade, então ele consultou os manuais de Recursos Humanos e concluiu que se ele passasse a pagar por produtividade, provavelmente conseguiria melhorar seus índices – afinal de contas, aqueles eram trabalhadores muito humildes, que teriam um substancial aumento na qualidade de vida se obtivessem mais renda. Todas as contas feitas, o gerente arbitrou um determinado valor por árvore capinada que possibilitaria aos trabalhadores dobrar o salário se eles executassem o trabalho com seriedade por 8 horas diárias. Com isso, ele imaginou que a jornada de trabalho fosse, no mínimo, respeitada, mas o gerente cogitava inclusive que os trabalhadores capinassem umas 10 horas por dia ou mais.

Sabem qual foi o resultado? A produtividade diminuiu, e os trabalhadores passaram a trabalhar somente 4 horas por dia, passando o resto do dia sentados à sombra, conversando, jogando truco, fumando o cigarrinho de palha, alguns até bebendo. Isso deixou o gerente estupefato, pois ele pensava que ocorreria exatamente o oposto – “se fosse eu”, disse ele, “trabalharia 16 horas por dia, para ver se deixava de ser bóia-fria o mais rápido possível”. Quando foi investigar por que isso estava acontecendo, ele logo encontrou a resposta. Os trabalhadores entendiam que ganhar “muito pouco” ou “o dobro de muito pouco” era a mesma coisa: eles permaneceriam miseráveis; mas se tivessem 4 horas por dia de lazer, aí sim a qualidade de vida deles melhoraria.

Esse é um paradoxo que só a Economia Comportamental explica; o paradigma do “agente econômico racional”, que por tantos anos se ensinou nas universidades, não dá a menor pista para entender o comportamento humano. Feito esse alerta preliminar, vamos ao artigo, então:

O antídoto da enrolação

Neste primeiro artigo da coluna “Prática na Teoria” baseado na contribuição dos leitores, vamos tratar de um assunto tão comum quanto pouco discutido nos meios corporativos: a enrolação. O Prof. Dr. Emilton Lima Júnior escreveu de Liège, na Bélgica, onde está concluindo seu doutorado sobre estresse profissional, para relatar seu ponto de vista sobre o assunto. Seu artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino Médico aborda de forma brilhante a famosa frase “eles fingem que nos pagam – a gente finge que trabalha” sob a ótica da Teoria dos Jogos e das Informações Assimétricas. Apesar do artigo ter sido concebido originalmente para tratar a questão do ensino de medicina no país, este também é um assunto aplicável à maioria das empresas e órgãos públicos dentro ou fora do Brasil.

A enrolação no trabalho não é uma invenção brasileira. Prova disto é o fato de Bill Gates ter incluído jogos e passatempos como a paciência logo na primeira versão do Microsoft Windows. A enrolação nada mais é do que uma resposta desertora de um funcionário que entende que seu patrão não coopera o quanto ele acha que deveria. Como o funcionário sabe que existe um certo grau de assimetria de informações entre ele e a empresa, ele se sente seguro para enrolar. Além disso, ele sabe que a assimetria de informações também o protegerá caso ele seja despedido do atual emprego, pois dificilmente seu novo empregador irá saber que ele deixou a empresa anterior por ser um enrolador. Na verdade, o funcionário enrolador faz com que toda a produtividade de seu departamento ou empresa caia, prejudicando os funcionários mais trabalhadores, o que faz com que haja um equilíbrio progressivo em níveis cada vez mais altos de enrolação.

A estratégia mais básica em Teoria dos Jogos é a “tit-for-tat”, algo como “olho-por-olho”: eu coopero com quem coopera e deserto com quem deserta. Se eu achar que meu empregador não está agindo cooperativamente comigo, eu tendo a desertar. Por outro lado, se meu patrão achar que eu não estou cooperando o quanto deveria, ele é que tende a desertar. Como os dois acham que o outro está desertando ou irá desertar (uma incerteza devido à assimetria de informações), eles antecipam suas próprias deserções, caminhando rapidamente para um equilíbrio de Nash clássico: ambos desertam, pois esta é a melhor estratégia possível independentemente da estratégia escolhida pela outra parte. A grande questão é: quem nasceu primeiro? O ovo do funcionário enrolador ou a galinha do patrão ganancioso?

Isto é, no fundo, o famoso “Dilema do Biscoito”, criado há cerca de uma década pela publicidade nacional para vender uma determinada marca de biscoitos que não se sabia se era fresquinha porque vendia mais ou se vendia mais porque era fresquinha. O que se sabe somente é que todos os funcionários enrolam em maior ou menor grau; toda empresa oferece menos vantagens para seus empregados do que poderia ou deveria (uma outra visão da mais-valia marxista); e ambos fingem que não estão vendo a traição do outro para manter o equilíbrio entre eles. Perceba que este equilíbrio possui um grande viés inercial: qualquer uma das partes que tentar sair do equilíbrio se expõe a riscos. Se o empregado decidir parar de enrolar, ele corre o risco do patrão não só não retribuir, como atribuir um novo patamar de produtividade com a mesma cesta de remuneração oferecida anteriormente. A empresa que tomar a iniciativa de adotar uma postura mais cooperativa, por outro lado, também estará exposta à falta de reciprocidade por parte dos seus empregados e dificilmente conseguirá voltar aos patamares de remuneração anteriores – inclusive por imposição legal.

Antes que o leitor ache que este artigo é – ele mesmo – uma enrolação, vejamos o que o Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, pensa sobre este assunto. Segundo Stiglitz, a forma de romper este equilíbrio de Nash do tipo “eles fingem que nos pagam – a gente finge que trabalha” seria através de um nível de remuneração acima da média. A despeito do brilho intelectual de Stiglitz, esta teoria foi adotada empiricamente já em 1914 com estrondoso sucesso por um cidadão chamado Henry Ford. Naquele ano, a Ford Motors passou a pagar 5 dólares por dia para seus funcionários, contra uma média de 2 ou 3 dólares dos concorrentes e dele mesmo em anos anteriores. A produtividade na Ford cresceu vertiginosamente (51%, segundo relatórios da época) e o lucro da companhia dobrou entre 1913 e 1916.

O problema é que neste momento ocorre uma outra corrida de desertores, desta vez empresa contra empresa. Quando a concorrência percebeu que a Ford lucrava mais, passou a pagar mais de 5 dólares. No momento seguinte, a Ford passou a pagar mais que a concorrência e assim foi até as empresas atingirem o limite de lucro zero em suas empresas. A estratégia simplista do Mr. Henry naufragava pelo mesmo motivo que teve sucesso: a Teoria dos Jogos (na verdade, uma variante do “Leilão de Dólar”). Neste momento, aparece em cena um novo conceito em remuneração, o “Salário de Eficiência”: uma remuneração paga aos funcionários para que não enrolem.

O “Salário de Eficiência” foi publicado originalmente na Harvard Business Review em maio-junho de 1978 por Jacob Gonik. Apesar de ter quase um quarto de século, este conceito ainda hoje é visto como inovador. Na Você S/A deste mês, os repórteres Rodrigo Vieira da Cunha e Alessandra Fontana nos mostram como a remuneração variável (nomenclatura mais adotada no país para o “Salário de Eficiência”) é um assunto cada vez mais comum no Brasil e como isto tem a ver com você (leia a matéria “Você valendo mais” http://vocesa.abril.com.br/edi51/1318_1.shl).

A remuneração variável é a fórmula mais usada na composição da vacina anti-enrolação adotada hoje em todo o mundo.

Cuckoldry

Posted in Evolução & comportamento, Just for fun by Raul Marinho on 7 outubro, 2008

“Comportamento análogo ao dos pássaros que criam filhotes de pássaro cuco”: esta seria a tradução mais precisa para o termo inglês “cuckoldry” – que, exatamente por isso, é intraduzível. O que acontece é o seguinte: a fêmea do cuco não bota os ovos em seu próprio ninho, mas no ninho de outros pássaros. A trapaça dessa estelionatária do mundo selvagem tem requintes de crueldade, já que ela escolhe somente pássaros de espécies menores que a dela para ludibriar. Os pais adotivos chocam os ovos de cuco achando que são seus, e alimentam o filhote de cuco do mesmo jeito que alimentariam sua prole. O filhote, por sua vez, já nasce malandro: a primeira coisa que ele faz ao nascer é jogar para fora do ninho todos os outros ovos (e também os irmãos adotivos se eles já tiverem nascido). O mais estranho é que os pais adotivos continuam alimentando o filhote de cuco mesmo quando este se torna muito maior que os próprios pais, que são de espécies mais franzinas. Em evolução, o termo “cuckoldry” também é aplicado a qualquer situação em que os pais criam filhos que não são seus acreditando que fossem filhos legítimos. Na nossa espécie, o caso mais frequente de “cuckoldry” é quando a mulher trai o marido e engravida do amante, deixando para o corno a missão de criar (ou ajudar na criação) do filho dela com o seu parceiro sexual clandestino. Por questões óbvias, a mulher não tem como ser vítima do “cuckoldry”.

Se você achou a explicação muito complexa ou moralmente incômoda, veja a tirinha abaixo que explica a mesma coisa de uma maneira bem mais leve:

Chifre é uma coisa que colocaram na sua cabeça

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 3 outubro, 2008

Há cerca de um ano e meio atrás, iniciei entendimentos com uma “revista masculina” para publicar artigos baseados em conceitos de Psicologia Evolutiva aplicados à vida sexual das pessoas. Foi que foi até que, enfim, veio aquele papinho de “a editora não está en condições de lhe pagar honorários maiores que X, embora você valha muito mais que isso, e blá blá blá” – ou seja: eles queriam me pagar centavos. É uma tática esperta: como eu não sou um best-seller, eles sabem que eu cederia os textos de graça (que, afinal de contas, já estavam escritos), já que “novos talentos” são ávidos por publicidade gratuita. Só que eles não contavam com minha astúcia de especialista em teoria dos jogos, e os textos permanecem impublicados até hoje.

Ocorre que eu tenho um excelente relacionamento com o editor deste blog, e fiz um acordo multimilionário, cedendo os direitos ao “Cabeça de HP”. O fato do pagamento ter se dado em créditos liquidáveis em 100 anos não me preocupa, já que eu fiz as contas na minha HP e o valor presente é bem interessante… Bem, chega de lenga lenga e vamos ao texto. Tem mais um monte de onde saiu esse, que depois eu publico.

A origem do ciúme

A origem do ciúme está na cabeça, literalmente falando. Quando nossos ancestrais desceram das árvores e ficaram em pé sobre duas pernas, houve uma mudança anatômica que estreitou a pélvis, dificultando a saída dos bebês para as mulheres. Ao mesmo tempo, houve uma forte pressão evolutiva para mais capacidade cerebral, e o tamanho do crânio estava se expandindo. Isso levou a uma sinuca evolutiva: como fazer com que bebês com cabeças cada vez maiores fossem capazes de passar por canais cada vez mais estreitos? A solução encontrada foi fazer com que os bebês nascessem “prematuros”, e é por isso que as crianças da nossa espécie são tão frágeis em comparação a outros mamíferos. Essa fragilidade chegou a um nível tão grande que uma pessoa sozinha acabou não sendo mais capaz de viabilizar a sobrevivência da prole: a mãe passou a precisar de ajuda. Mas… Quem seria essa alma caridosa que estaria disposta a ajudá-la? Além dos parentes da mãe, o suposto pai acabou sendo o auxiliar preferencial para conseguir alimento, proteção contra predadores ou outros machos, e tudo o mais que era necessário para garantir que os bebês humanos chegassem à idade adulta. Estabeleceu-se uma sociedade entre homem e mulher para tocar o empreendimento chamado prole, e o ciúme nada mais é do que a manifestação dos conflitos que acontecem nessa sociedade.

A mulher passou a temer que o pai de seu filho se interessasse por alguma sirigaita da redondeza, o que poderia significar filhos por fora. Isso era um grave risco para ela e seu bebê, já que o homem poderia desviar recursos para outras crianças que não a sua. O homem, por outro lado, temia que sua mulher pulasse a cerca e gerasse filhos que não fossem seus, o que o faria investir seus parcos recursos na prole de terceiros. Pronto, está estabelecida a cizânia – e o ciúme. Isso tudo aconteceu, provavelmente, no alvorecer da nossa espécie. Alguns cientistas arriscam dizer que esse comportamento pode ser até mais antigo que isso, e nós seríamos ciumentos antes mesmo de nos tornarmos propriamente humanos… Mas, independente disso, o fato é que o mundo mudou radicalmente nos últimos milhares de anos, e o Homo sapiens conseguiu controlar sua reprodução quase totalmente. Então, por que, raios, nós continuamos com o mesmo comportamento, mesmo tendo acesso a inúmeros métodos contraceptivos hoje em dia?

O problema é que não é possível modificar comportamentos biologicamente construídos (ou, no popular, instintos) de uma hora para outra. A gente sente ciúme, essa é uma emoção que acontece independente de racionalizarmos a questão. Se sua mulher dissesse que dormiu com um amigo, mas usou camisinha, isso não diminuiria o seu sofrimento. Mas existe o ciúme terminal, que implode uma relação, e um ciúme – digamos – perdoável. Se você confessar que, na sua última viagem a Nova York, você acabou contratando os serviços de uma profissional, talvez você passe uma temporada dormindo no sofá. Tua mulher vai te jogar isso na cara em inúmeras situações, e vai ameaçar te deixar. Mas é pouco provável que vocês se separem só por isso… (A não ser que esta seja a gota d’água para uma separação que já era iminente.) Por outro lado, se sua mulher descobrir que você está apaixonado pela sua secretária, a sua casa vai cair mesmo que ela tenha certeza que nunca houve sexo entre vocês. Agir assim faz sentido evolutivo, uma vez que, nesse contexto, ela está correndo um sério risco de que você a abandone.

Já você deverá pensar de maneira oposta. Se sua mulher transar com seu professor de tênis, isso lhe seria devastador. Mas se ela se envolver emocionalmente com um colega de trabalho, talvez você considere a possibilidade de tentar reconstruir seu relacionamento.(Isso se você estivesse convencido que tudo não passara de uma paixonite, e que a relação sexual em si não se consumou.) Se ela mudar de emprego ou de cidade, quem sabe vocês não salvam o casamento? Para o homem, a suprema tragédia darwinista não é saber que sua mulher suspira romanticamente pelos cantos por terceiros, é investir nos filhos de outros… Se seu suposto pai, seus avôs, seus bisavôs – todos seus ancestrais homens, enfim – fossem cornos, eles poderiam não ter conseguido passar os genes deles para você. Ou seja: a evolução não premia o corno, independente de qualquer consideração moral sobre a traição. Isso não ocorre com as mulheres, que não tem como gerar filhos que não sejam seus parentes (pelo menos, de maneira natural). Como vimos, elas são igualmente ciumentas, mas por motivos totalmente diferentes. Bem, mas depois disso tudo, como fazer para viver de maneira mais tranqüila e feliz, sem ciúmes e brigas? Tem jeito? A boa notícia é que tem jeito, sim. A má é que isso vai ficar para o próximo artigo.

Palestra sobre Boletite, UNIRP 11/09/2008

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 1 outubro, 2008

Em abril deste ano, publiquei um artigo sobre a “epidemia de consumo” no site administradores.com. Em setembro, fiz uma apresentação sobre o tema para alunos da UNIRP/Contabilidade, cujo powerpoint pode ser baixado aqui: boletite-definitiva. Infelizmente, o ppt não carrega o clip sobre o jogo do ultimato (uma das partes mais importantes da palestra), que pode ser visto abaixo (quem não tiver paciência para ler o texto ou passar a apresentação vai entender 50% do assunto vende esse vídeo):