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Chifre é uma coisa que colocaram na sua cabeça

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 3 outubro, 2008

Há cerca de um ano e meio atrás, iniciei entendimentos com uma “revista masculina” para publicar artigos baseados em conceitos de Psicologia Evolutiva aplicados à vida sexual das pessoas. Foi que foi até que, enfim, veio aquele papinho de “a editora não está en condições de lhe pagar honorários maiores que X, embora você valha muito mais que isso, e blá blá blá” – ou seja: eles queriam me pagar centavos. É uma tática esperta: como eu não sou um best-seller, eles sabem que eu cederia os textos de graça (que, afinal de contas, já estavam escritos), já que “novos talentos” são ávidos por publicidade gratuita. Só que eles não contavam com minha astúcia de especialista em teoria dos jogos, e os textos permanecem impublicados até hoje.

Ocorre que eu tenho um excelente relacionamento com o editor deste blog, e fiz um acordo multimilionário, cedendo os direitos ao “Cabeça de HP”. O fato do pagamento ter se dado em créditos liquidáveis em 100 anos não me preocupa, já que eu fiz as contas na minha HP e o valor presente é bem interessante… Bem, chega de lenga lenga e vamos ao texto. Tem mais um monte de onde saiu esse, que depois eu publico.

A origem do ciúme

A origem do ciúme está na cabeça, literalmente falando. Quando nossos ancestrais desceram das árvores e ficaram em pé sobre duas pernas, houve uma mudança anatômica que estreitou a pélvis, dificultando a saída dos bebês para as mulheres. Ao mesmo tempo, houve uma forte pressão evolutiva para mais capacidade cerebral, e o tamanho do crânio estava se expandindo. Isso levou a uma sinuca evolutiva: como fazer com que bebês com cabeças cada vez maiores fossem capazes de passar por canais cada vez mais estreitos? A solução encontrada foi fazer com que os bebês nascessem “prematuros”, e é por isso que as crianças da nossa espécie são tão frágeis em comparação a outros mamíferos. Essa fragilidade chegou a um nível tão grande que uma pessoa sozinha acabou não sendo mais capaz de viabilizar a sobrevivência da prole: a mãe passou a precisar de ajuda. Mas… Quem seria essa alma caridosa que estaria disposta a ajudá-la? Além dos parentes da mãe, o suposto pai acabou sendo o auxiliar preferencial para conseguir alimento, proteção contra predadores ou outros machos, e tudo o mais que era necessário para garantir que os bebês humanos chegassem à idade adulta. Estabeleceu-se uma sociedade entre homem e mulher para tocar o empreendimento chamado prole, e o ciúme nada mais é do que a manifestação dos conflitos que acontecem nessa sociedade.

A mulher passou a temer que o pai de seu filho se interessasse por alguma sirigaita da redondeza, o que poderia significar filhos por fora. Isso era um grave risco para ela e seu bebê, já que o homem poderia desviar recursos para outras crianças que não a sua. O homem, por outro lado, temia que sua mulher pulasse a cerca e gerasse filhos que não fossem seus, o que o faria investir seus parcos recursos na prole de terceiros. Pronto, está estabelecida a cizânia – e o ciúme. Isso tudo aconteceu, provavelmente, no alvorecer da nossa espécie. Alguns cientistas arriscam dizer que esse comportamento pode ser até mais antigo que isso, e nós seríamos ciumentos antes mesmo de nos tornarmos propriamente humanos… Mas, independente disso, o fato é que o mundo mudou radicalmente nos últimos milhares de anos, e o Homo sapiens conseguiu controlar sua reprodução quase totalmente. Então, por que, raios, nós continuamos com o mesmo comportamento, mesmo tendo acesso a inúmeros métodos contraceptivos hoje em dia?

O problema é que não é possível modificar comportamentos biologicamente construídos (ou, no popular, instintos) de uma hora para outra. A gente sente ciúme, essa é uma emoção que acontece independente de racionalizarmos a questão. Se sua mulher dissesse que dormiu com um amigo, mas usou camisinha, isso não diminuiria o seu sofrimento. Mas existe o ciúme terminal, que implode uma relação, e um ciúme – digamos – perdoável. Se você confessar que, na sua última viagem a Nova York, você acabou contratando os serviços de uma profissional, talvez você passe uma temporada dormindo no sofá. Tua mulher vai te jogar isso na cara em inúmeras situações, e vai ameaçar te deixar. Mas é pouco provável que vocês se separem só por isso… (A não ser que esta seja a gota d’água para uma separação que já era iminente.) Por outro lado, se sua mulher descobrir que você está apaixonado pela sua secretária, a sua casa vai cair mesmo que ela tenha certeza que nunca houve sexo entre vocês. Agir assim faz sentido evolutivo, uma vez que, nesse contexto, ela está correndo um sério risco de que você a abandone.

Já você deverá pensar de maneira oposta. Se sua mulher transar com seu professor de tênis, isso lhe seria devastador. Mas se ela se envolver emocionalmente com um colega de trabalho, talvez você considere a possibilidade de tentar reconstruir seu relacionamento.(Isso se você estivesse convencido que tudo não passara de uma paixonite, e que a relação sexual em si não se consumou.) Se ela mudar de emprego ou de cidade, quem sabe vocês não salvam o casamento? Para o homem, a suprema tragédia darwinista não é saber que sua mulher suspira romanticamente pelos cantos por terceiros, é investir nos filhos de outros… Se seu suposto pai, seus avôs, seus bisavôs – todos seus ancestrais homens, enfim – fossem cornos, eles poderiam não ter conseguido passar os genes deles para você. Ou seja: a evolução não premia o corno, independente de qualquer consideração moral sobre a traição. Isso não ocorre com as mulheres, que não tem como gerar filhos que não sejam seus parentes (pelo menos, de maneira natural). Como vimos, elas são igualmente ciumentas, mas por motivos totalmente diferentes. Bem, mas depois disso tudo, como fazer para viver de maneira mais tranqüila e feliz, sem ciúmes e brigas? Tem jeito? A boa notícia é que tem jeito, sim. A má é que isso vai ficar para o próximo artigo.

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