Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

Crise econômica e seleção natural

Posted in Atualidades, crise financeira, Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 1 junho, 2009

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Nova Granada, no interior de São Paulo, é uma cidade interessante. Conheço cerca de uma dúzia de granadenses, nenhum deles pessoas “normais”. Fábio Gandour é um desses “pontos fora da curva”: para se ter uma idéia do quão incomum é o sujeito, o Fábio é, ao mesmo tempo, médico (pediatra, se não me engano) e cientista-chefe da IBM(!!!). Conheci o Fábio no lançamento do meu livro “Prática na teoria”, e infelizmente nunca mais falei com ele.

Ao ler a última edição da revista Galileu, deparei com um artigo do Fábio, sobre crise econômica e seleção natural. Googlei “fabio gandour” de todo jeito, e não consegui encontrar nem o e-mail do Fábio, nem uma versão eletrônica do artigo (no site da revista, não está disponível). Por isso, escaneei o texto (vide abaixo) para poder comentá-lo, e fica aqui o convite para o Fábio responder aos meus comentários, se ele chegar a trombar com esse post. (Se algum conhecido do Fábio estiver lendo, peço a gentileza de encaminhar o link do post para ele).

A solução para a crise econômica? Seleção natural

No ano em que comemoramos os 200 anos do nascimento de Charles Daarwin e 150 da publicação do livro A Origem das Espécies, talvez também seja a hora de discutirmos uma questão bastante incômoda a ponto de ser constantemente evitada. Se em sua obra-prima Darwin construiu a teoria da evolução dos seres vivos, por que não analisar os obstáculos causados pelo progresso da ciência ao pleno exercício da seleção natural?

Antes de embarcarmos nessa direção, é recomendável que o leitor se desfaça, temporariamente, de qualquer influência de princípios éticos, morais e, principalmente, religiosos, para poder se concentrar apenas em aspectos técnicos e científicos. Sob o ponto de vista essencialmente científico, o homem, quando se empenha em tratar doenças e evitar a morte, impede a ação da seleção natural. Sim, visto pelo ângulo técnico da dinâmica populacional, o progresso da medicina atrapalha a seleção natural.

Ao impedir ou mesmo adiar a morte de indivíduos que apresentam alguma inaptidão para sobreviver e que morreriam naturalmente, evitamos ou prorrogamos a ação da seleção natural. O prolongamento da vida de um ser vivo frágil também aumenta suas chances de se reproduzir e transmitir essa fragilidade a seus descendentes.

A seleção natural sepultaria essa fragilidade e, por isso, tem o notório efeito de melhorar a competitividade, eliminando falhas e abrindo espaço para a sobrevivência dos indivíduos mais resistentes e bem adaptados.

Ao tolher a sua ação, evitamos que aquela população evolua para um novo patamar, mais competitivo. Essa verdade, um tanto inconveniente, vale tanto para a medicina quanto para qualquer outra ciência destinada a prolongar a vida de um ser vivo que se encontre enfermo por uma determinada razão. Trata-se de uma verdade cruel, mas incontestável.

E já que viemos até aqui, podemos ir mais longe na mesma direção. No caso do homem, a atitude de proteger a vida e impedir a seleção natural dos inaptos ao ecossistema do momento já se transformou em um valor social incorporado ao comportamento das populações. Um valor às vezes questionável, mas que, mesmo assim, se manifesta com frequência.

Um exemplo disso pode ser visto na atual crise econômica. O cenário globalizado em que ela acontece pode, com alguma poesia, ser chamado de ecossistema financeiro mundial. De repente, alguns “indivíduos” dessa população começaram a apresentar sintomas de grave enfermidade, que logo se alastrou por quase todo o ecossistema. Se deixássemos a seleção natural atuar, esses bancos adoecidos por dívidas impagáveis, créditos de origem duvidosa, pagamentos de bônus de mérito discutível e outras fragilidades estruturais, deveriam ser naturalmente selecionados para morrer.

Assim, levariam para o túmulo seus atributos genéticos representados por uma administração ineficiente e que bordeja a ilegalidade. Seria a seleção natural atuando com liberdade, eliminando uma espécie frágil e deficiente para abrir espaço no ecossistema para o surgimento de outra espécie mais bem adaptada e, portanto, mais forte.

Mas não é isso que vem acontecendo – e que seria extremamente saudável nesses casos. Como já incorporamos um valor social que combate a seleção natural, internamos os bancos enfermos em UTls de hospitais com nomes incomuns, como Federal Reserve Bank, sistematicamente mantidos por governos. Nessas UTIs, bilhões de dólares são injetados nas veias dos “pacientes”, e eles não morrerão. Ao sobreviver, terão novas chances para reproduzir e transmitir a seus descendentes todas as falhas atuais de seus organismos. Mais uma vez, a seleção natural não ocorreu. Na verdade, o ecossistema involuiu.

Charles Darwin nunca foi banqueiro – nem bancário -, mas até no ecossistema financeiro globalizado sua teoria da evolução teria sido útil se acontecesse com liberdade e naturalidade.

Comento:

Tudo o que comentar a seguir não terá, como recomenda o autor, qualquer viés moral (aliás, é a mesma recomendação que faço no meu livro). O problema é que, focando no aspecto exclusivamente material, deixar a seleção natural agir livremente não leva, necessariamente, aos melhores resultados. “Evolução”, no sentido darwinista, nada tem a ver com “melhoria” ou “progresso”, mas sim com “sobrevivência diferencial de populações”. Vejamos, como exemplo, o que está ocorrendo em relação à resistência à malária – uma das poucas frentes de evolução humana atualmente em curso.

Em determinadas regiões do planeta, existem populações portadoras de uma mutação que produz hemácias ligeiramente deformadas, o que gera uma doença hereditária chamada anemia falciforme. Essa doença gera diversos problemas mais ou menos similares à anemia comum: hemorragias, descolamento de retina, acidente vascular cerebral, enfarte, calcificações em ossos, e insuficiência renal e pulmonar. Mas, por outro lado, imuniza a pessoa contra a malária (ou atenua as crises). Em regiões muito afetadas pela malária, a seleção natural favorece a sobrevivência de populações portadoras da mutação porque a malária mata mais que as conseqüências da anemia falciforme. Essas populações, mais evoluídas no sentido darwinista, serão, de fato, melhores que as populações sem anemia falciforme? De jeito nenhum, tanto é que em regiões em que a malária está sob controle, a anemia falciforme acaba selecionada para desaparecer.

Por isso, é sempre muito temerário fazer qualquer afirmação como a da primeira parte do artigo, de que a seleção natural “tem o notório efeito de melhorar a competitividade, eliminando falhas e abrindo espaço para a sobrevivência dos indivíduos mais resistentes e bem adaptados”. Mas este não é o problema mais grave do artigo. Quando o autor sugere que se deixe as empresas afetadas pelos erros que levaram à crise econômica mundial à sorte da “seleção natural”, está cometendo um erro já testado em várias crises anteriores, em especial a crise de 1929. Trata-se da aplicação do liberalismo clássico, que Keynes mostrou não resolver em situações de grave crise.

Internar empresas como o Citibank e a GM em UTIs financeiras, por outro lado, não significa “involução” – pelo contrário: o Citi e a GM do futuro deverão ser empresas muito melhoradas. Empresas não são organismos, embora se pareçam com eles em alguns aspectos. O Citibank de 2012 não deverá carregar os “genes ruins” que o levaram à insolvência em 2008/09 justamente porque passou por uma situação que quase o matou. Empresas, ao contrário de organismos, podem alterar seus genes.

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Citi-Fênix

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 15 abril, 2009

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Como ex-citibanquense, fico feliz em saber que o Citibank não só não sucumbiu como muitos previam, como parece que vai, mais uma vez, ressuscitar. Veja essa nota do blog do Kanitz, “O Brasil que dá certo“, que diz que as ações do Citi subiram 25% em um único dia.

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Santo companheiro PROER, rogai por nós

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 20 março, 2009

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Se eu fosse o Lula, iria para o Vaticano pedir para o Papa canonizar o Pedro Malan e o FHC em vida por eles terem feito o PROER. Foi por causa deles que o circo não está pegando fogo agora e, pelo contrário, o setor bancário é nosso maior trunfo contra a crise. Veja a nota abaixo, da BBC/UOL:

Bancos brasileiros são ‘exceção lucrativa’ no setor, diz Economist
Os bancos brasileiros estão seguros e seriam uma “exceção” no setor em meio à crise, segundo reportagem publicada pela revista britânica Economist que chega às bancas nesta sexta-feira.

Comentando o corte de 1,5 ponto percentual da taxa de juros Selic na semana passada, a revista afirma que o Banco Central conseguiu cortar as taxas “dura e rapidamente”, e que mais cortes são esperados.

“Esta é uma novidade bem vinda: no passado, a frágil moeda e a alta inflação impediam que o país adotasse medidas anti-cíclicas como esta”, afirma a reportagem.

Mas a revista destaca que os cortes nas taxas não estão sendo repassados para os clientes, alimentado a discussão sobre os altos lucros dos bancos com seus spreads (a diferença entre as taxas cobradas sobre o dinheiro que o banco toma emprestado e que ele empresta aos seus clientes).

“Os bancos brasileiros podem ser caros, mas pelo menos eles estão seguros”, diz a Economist, “Até agora, nenhum deles teve problemas com a crise financeira mundial. Isso pode ser porque seus lucros com as atividades diárias são tão altos que eles não precisaram assumir riscos tolos.” A Economist afirma que, segundo um cálculo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), o Brasil tem os spreads bancários mais altos do mundo. O cálculo, no entanto, é disputado pela Federação de Bancos, que alegam que os spreads são inflados pelos impostos sobre as transações bancárias.

De acordo com a revista, a segurança também se deve ao fato de os regulamentos serem mais duros desde que vários bancos quebraram quando a inflação foi domada, em meados dos anos 90.

A Economist comenta ainda que os bancos HSBC e Citibank, que enfrentam problemas no resto do mundo, vão bem no Brasil. “De uma maneira ou de outra, o sistema bancário do Brasil parece que vai continuar a ser a lucrativa exceção aos desastres em outros lugares”, conclui a reportagem.

Porque sou um “otimista racional”

up-down

Desculpem pelo post autobiográfico, mas a melhor forma que eu encontrei para explicar o momento atual é revivendo os últimos vinte e poucos anos, desde que “virei gente” (i.e.: saí da alienação adolescente – pelo menos, a mais aguda). Entrei na faculdade (FEA-USP) na época do Plano Cruzado, que é quando começa a se delinear o cenário que hoje vivemos. Era uma época esquisita: não houve bife por um bom tempo no bandejão da universidade porque a carne sumira do mercado, e a gente tomava vodca porque a cerveja também desaparecera – um prosaico churrasquinho com uma gelada dependia de contatos obscuros, com o cuidado de não despertar a atenção de nenhum “fiscal do Sarney”. Estava tendo aula de Introdução à Economia II quando a bolsa de N.York quebrou, em 1987, o que de certa forma foi um privilégio acadêmico. Em 1989, a inflação era tão alta que existia um produto bancário chamado “pagamento de impostos”, que nada mais era do que… Pagamento de impostos, mas com um “rebate” para o pagador. Por exemplo: a empresa ABC recolhe um milhão de dinheiros no caixa do banco tal. Acontece que, como esse banco tal demorava X dias para repassar o dinheiro para o Tesouro, havia um “floating“, uma espécie de prazo para o banco pagar. O overnight pagava coisa de 2%a.d. ou mais (veja bem: ao dia, não ao mês). Na maioria dos casos, o floating era superior a cinco dias, algo como 10-15%% pelo período, e 10-15% de muita grana era muita grana também. Para uma empresa que paga um milhão de ICMS, o lucro bruto é de R$100-150mil, um valor que podia ser “rebatido” (dividido) entre o banco e o cliente. Olha que época absurda…

A hiperinflação fazia com que a economia ficasse surreal, mas nada se compara a bizarrice de 1990, com o Plano Collor (e o próprio), a Zélia, o Ibrahim Eris, o PC Farias, um pessoal muito, mas muito estranho mesmo. A primeira coisa que o ex-presidente Fernando Collor fez (ou uma das primeiras) foi decretar feriado bancário. Trabalhava no Citibank na época, e houve expediente interno, a maior parte passada na frente da TV, assistindo às explicações das “torneirinhas” do bloqueio de Cruzados Novos. O governo simplesmente tomou a maior parte do dinheiro de todo mundo, é possível um negócio desses? Logo depois, o plano fracassa, a inflação dispara, a credibilidade do governo vira pó, as reservas do país desaparecem, e o Fernandinho acaba impeachado (ou seria impichado?). A seguir, toma posse o Itamar, que faz beicinho para ressuscitar a produção do Fusca… Imagine o que é um presidente ficar dando pitaco em lançamento de produto, que coisa mais esquisita. Chega 1994 e, no meio dele, um plano mirabolante, que dolarizava a economia com uma moeda virtual (URV, lembram?), e depois desdolarizava convertendo tudo a uma taxa de 2,75:1 (!!!). Por ironia, esse plano fantástico se chamou Real.

No resto dos anos 1990, até 2001, de tempos em tempos estouravam crises internacionais: crise do México, crise dos Tigres Asiáticos, crise da Rússia, a crise cambial brasileira de 1999 (uma crise doméstica com contornos de crise internacional), o estouro da bolha da internet e, finalmente, a crise decorrente dos ataques de 11 de setembro de 2001. De 2002 até o início de 2008, entretanto, fora a balbúrdia na transição FHC-Lula (que nem foi tão dramática assim), vivemos um período excepcionalmente calmo na economia, tão calmo que deu até tempo para discutirmos Ecologia. Mas eis que a crise dos subprimes emerge em 2008, os bancos acabam contaminados, as commodities idem, o crédito e a sua prima, a confiança, desaparecem, e o resultado é a atual crise financeira, que em 2009 está com a corda toda. Será o fim do capitalismo? O sistema financeiro global está condenado à extinção? Ou essa é só mais uma das tantas crises tão comuns outrora, mas que nos desacostumamos a passar?

Certamente não estamos atravessando uma marolinha, mas também não há dúvidas que já vivemos momentos bem piores no passado “recente” (vamos considerar como recente o período do governo Sarney para cá). Como o grande problema que a maior parte do mundo está vivendo tem a ver com os bancos – que, no Brasil pós PROER, são razoavelmente sólidos -, o país está sendo impactado principalmente pela queda no valor das commodities que produzimos, e pelo encolhimento do mercado comprador externo. Lógico que também sofreremos por outros fatores, como as dificuldades por que as multinacionais instaladas aqui deverão passar em suas respectivas matrizes, o calote que tomaremos em nossas exportações, os problemas pelos quais a Petrobras deverá passar devido à depressão no preço do petróleo etc., mas nada de bancos quebrando em massa, descrença no sistema financeiro, e calamidades do gênero.

Na verdade, para um brasileiro é muito menos arriscado acreditar no futuro do que duvidar dele. Como a chance do Brasil se sair melhor que a média dos outros países é muito alta, a turma dos otimistas tem maior probabilidade de se dar bem que a dos pessimistas. Admitindo que o que conta é o sucesso relativo e não o absoluto, perder uma oportunidade (ganhar pouco quando todos os outros ganham muito) é tão danoso quanto entrar numa roubada (perder quando os outros ganham pouco). Por isso, no cenário atual, as apostas otimistas estão pagando muito mais que as pessimistas. Você pode não gostar do presidente Lula, pode achar que o otimismo é uma praga ingênua, sua visão sobre o mundo pode ser sombria até por questões psicológicas, mas se pensar bem vai concluir que a postura otimista é a melhor atualmente em termos racionais.

O duplo A do Citibank

Posted in Atualidades, citibank by Raul Marinho on 2 fevereiro, 2009

No início de 1987, morava no Paraíso (não o celestial, mas o bairro de São Paulo, bem entendido) e, num sábado, resolvi almoçar no McDonald’s da av. Paulista, que ficava (e ainda fica) na esquina da al. Joaquim Eugênio de Lima. Era uma manhã ensolarada em época de férias, e a cidade estava vazia, o que deixou a cena ainda mais esquisita. Havia atiradores de elite por toda parte, carros de combate estacionados nas esquinas, soldados de farda camuflada correndo ao lado de caminhões blindados, uma operação de guerra acontecia ali, no novo centro financeiro de São Paulo (na época).

A ditadura militar havia acabado há pouco tempo, e como ex-aluno da Escola de Cadetes do Exército, a primeira coisa que me ocorreu é que estava presenciando uma revolução armada. Mas o motivo era bem menos dramático: o Citibank estava se mudando de sua antiga sede na av. Ipiranga para o novo prédio da Paulista, e naquela manhã estava sendo feito o transporte de valores do cofre do banco. Na era pré-Collor, a maior parte dos investimentos era em títulos ao portador, e o Citi tinha o maior depósito de ouro privado e o maior cofre de aluguel do país, daí a necessidade de tamanha precaução. Logo circularam rumores de que o banco tinha um cofre subterrâneo de 20 andares, equivalente à altura visível do edifício (o que era mentira, mas o banco realmente tem 5 andares de subsolo).

Ainda hoje, o prédio do Citibank se destaca na av. Paulista – na verdade, mesmo em comparação aos novíssimos prédios da av. Berrini, o Citicorp Center não faz feio. Mas, no final dos anos 1980, era coisa de ficção científica, e quando entrei lá pela primeira vez, achei que estava em outro planeta, com gente de suspensório e gel no cabelo por todo lado, elevadores panorâmicos, e computadores por toda parte (ainda estávamos na época da anacrônica Lei de Informática que impedia a livre importação de equipamentos eletrônicos). Isso sem contar que o Citi era o maior banco do mundo, o maior credor externo do Brasil, e uma das instituições mais agressivas do mercado nacional, além de contar com os profissionais mais bem preparados da indústria bancária. Foi nesse ambiente em que eu fui trabalhar há exatos 20 anos.

Ao contrário da minha expectativa, havia muito poucos estrangeiros no Citibank. E o mais curioso é que os bam-bam-bans todos tinham o nome começado pela letra A: o presidente se chamava Antonio Boralli, e havia vice-presidentes chamados Alberto Duarte, Ademir Nunes, Álvaro de Souza, Arnoldo de Oliveira… Mas o nome que realmente provocava frisson nas pessoas tinha dois As: Alcides Amaral. De acordo com a lenda citibanquense, o “seu Alcides” havia entrado no banco como office boy e, galgando degrau a degrau, acabou responsável pela dívida do Brasil junto ao banco que, se não me falha a memória, ficava ao redor de US$4bilhões – que, se é muito dinheiro hoje, na época era uma cifra incalculável. Muito alto e muito magro, havia um misto de Clint Eastwood com Charles Bronson na figura do Alcides Amaral, e quando ele estava no elevador com você, havia a impressão de que Abraão ou Maomé (ou o próprio Jeová) estava lá.

Mais ou menos um ano depois, ainda trainee, tive que ir falar com o “seu Alcides” para aprovar uma operação de crédito. O ano era 1990, e estávamos no meio da Copa da Itália. O presidente e os principais VPs do banco ficavam no 17º andar, que o baixo-clero chamava de “xoxotão” (só entram grandes membros), onde eu nunca tinha ido, muito menos para falar com o homem de U$4bilhões. Estava nervoso, é óbvio, ainda mais por que aquele era um dos meus primeiros processos de crédito a defender, e era uma operação difícil, com uma empresa complicada, de um setor que causava arrepios no comitê de crédito do banco (curiosamente, era uma construtora, e o Citi havia quase falido por… empréstimos hipotecários, exatamente igual ao que aconteceu no ano passado). Entrei na sala esperando ver um sujeito ranzinza e nervoso atulhado de documentos, com telas de computador para todo lado, telefone tocando etc, mas o cenário com que me deparei foi exatamente o oposto. Havia uma TV ligada, passando um jogo sem-graça de dois países sem tradição, e um cara assistindo interessadíssimo, como se fosse uma final Brasil e Argentina. Quase nenhum papel em cima da mesa, nada parecido com computador por perto, e o telefone não tocou pela primeira meia-hora, tempo em que só ficamos assistindo ao jogo (muito ruim, pelo que me lembro).

Depois dessa oportunidade, estive com o Alcides Amaral mais uma meia-dúzia de vezes, e uma das últimas foi num evento em fins de 1992, onde tiramos essa foto aqui (ele está no canto superior direito). Em agosto de 1994, eu deixei o Citibank, e logo depois o “seu Alcides” foi, finalmente, nomeado presidente – muito embora ele já fosse mais respeitado que os presidentes anteriores, apesar de que fosse a eles subordinado. De 1994 a 2008, li esporadicamente seus artigos na imprensa, até setembro último, quando me deparei com um texto dele no Blog do Crédito do meu amigo Fernando Blanco , que me motivou a entrar em contato (e a replicar o texto no Toca Raul!!!). Reproduzo abaixo o e-mail da 1a. resposta dele:

Prezado Raul

Gratissimo pelo simpático e muito reconfortante e-mail. É verdade, todos esqueceram de falar daqueles que genuinamente sonhavam em ter a casa própria e hoje são uma espécie de favelados. De outro lado, milhares ficaram ricos e outros milionários com a desgraça alheia. E o que dói é ver é que a autoridade americana não faz nada para punir os responsáveis, como existe aqui no Brasil. Quando o governo brasileiro coloca dinheiro publico nos bancos para salva-los, todos os diretores estatutários têm seus bens bloqueados… Nem mais cheques podem assinar. Enquanto isso, lá na terra do Tio Sam, o Prince que quebrou o Citi (não quebrou, pois o FED não deixou) sai com quase US$ 30 milhões no bolso, um pacote de bônus e stock-option de quase US$ 70 milhões, escritório, carro e motorista … Quando deveria sair algemado tal a incompetência em administrar uma organização que nos orgulhávamos em trabalhar.

Mais uma vez grato, e boa sorte para você.

Abraços

Alcides Amaral

Trocamos, ainda, mais algumas mensagens, desde reflexões sobre a crise até comentários sobre o Landau que ele tinha na época do Citi (achava tão impressionante o Landau do “seu Alcides” que acabei comprando um no final dos anos 1990), sendo que o último e-mail que recebi foi no dia do meu casamento (18/10/2008). Depois disso, não nos falamos mais, e na 4ª feira passada, dois dias antes dele morrer, havia comentado com o Fernando Blanco sobre ele, e estava redigindo um e-mail para o “seu Alcides” quando soube de seu falecimento. Fiquei (e ainda estou) chocado.

Muitos anos depois que saí do Citi, conheci com mais profundidade o “modus operandi de Brasília” – algo que só é possível conhecer se você passar pela situação, pois isso é literalmente indescritível. Numa reunião que tive no Banco Central, de repente tive um insight sobre o Alcides Amaral, o que deveria ter sido conversar com o pessoal do governo nos anos 1970/80 como representante do maior credor do Brasil, e entendi porque ele havia tido uma crise emocional grave naquela época (quando a nomenclatura em moda era “crise de estafa”). No fim das contas, foi isso o que acabou o matando na última sexta-feira. Lamento profundamente, não por ele, que não está mais sofrendo, mas por nós, que perdemos um dos cérebros mais brilhantes que o mercado bancário já viu. Vai ser difícil aparecer outro Alcides Amaral.

Blue Friday para as finanças no Brasil

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 31 janeiro, 2009

Ontem, este modesto blog teve uma enxurrada de acessos no post “Eu prefiro o Alcides Amaral“, um texto antigo, de 21/11/2008 (mais de 2 meses, hoje). O WordPress, que me hospeda, tem um bom serviço de estatísticas, inclusive investigando os termos de busca que os leitores usaram para chegar a até mim. Fui ver se achava uma pista do motivo dos acessos e encontrei referências a suicídio associadas ao nome Alcides Amaral para chegar a até mim. Bastou uma googlada para ver de onde vinha tanto alarde: de fato, ontem, o ex-presidente do Citibank no Brasil, Alcides Amaral, morreu. De acordo com a imprensa, foi suicídio (ele se atirou do 12º andar do prédio em que morava, no Itaim) motivado por uma forte depressão.
Uma pessoa infectada pelo vírus da AIDS não morre de AIDS, mas de insuficiência respiratória decorrente de uma pneumonia oportunista ou algo do gênero. Da mesma forma, a depressão em si não mata, mas a “infecção” é mental, portanto, imaterial. O problema é que a mente é um “órgão” vital para a sobrevivência, tanto quanto os pulmões, o fígado, os rins; e se a “infecção” for muito grave, ela mata, seja definhando, seja causando um desconforto tão absurdo que a morte surge como o melhor negócio possível. O suicida depressivo não é um sujeito que, em sã consciência, conclui não valer a pena viver porque tomou um chute da(o) namorada(o), porque faliu, porque a(o) esposa/marido/filho/a etc. faleceu, porque se descobriu doente terminal. Também não é um harakiri, ou qualquer outro tipo de comportamento do tipo “escorpião ferroando a si próprio quando ameaçado pelo fogo” (aliás, parece que não é bem assim que o escorpião se comporta na realidade, mas tudo bem). Já vi muito filme de guerra, e se existe um pingo de realismo em filmes como “Cartas de Iwojima”, o soldado japonês suicida que, cercado pelos estadunidenses, segura a granada no ventre e tira o pino, assim o faz por que: 1)está pressionado pelo superior, que pode matá-lo se não cometer suicídio; 2)acredita que poderá ser torturado e acabar morrendo igualmente se o inimigo o pegar; e 3)por vergonha, respeito às tradições, sentimento de honra, etc. Nada a ver com o suicida acometido pela doença mental conhecida por depressão, que tira a própria vida por causa da doença. Desconheço o posicionamento da Teologia, e acredito que grande parte das denominações religiosas não concorde comigo, mas não entendo ser razoável admitirmos que o depressivo que tira a vida possa ser entendido como um suicida “comum”. Pelo menos não é assim que eu vejo o caso do ex-presidente, jornalista, blogueiro, escritor, e lenda do mercado bancário, que morreu ontem.
Daqui a pouco eu volto ao assunto.

Geni

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 26 novembro, 2008

citi

Por suas qualidades e pelos seus defeitos, o Citi é a Geni da vez – e para quem não se lembra da música do Chico Buarque (do tempo em que o Chico fazia boas músicas), segue a letra abaixo:

Geni e o zepelin


De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo – Mudei de idéia
– Quando vi nesta cidade
– Tanto horror e iniqüidade
– Resolvi tudo explodir
– Mas posso evitar o drama
– Se aquela formosa dama
– Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
– e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

A memória do Clóvis Rossi

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 25 novembro, 2008

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Agora virou vício; não consigo mais parar de meter o pau no Clóvis Rossi. Tanto que já estou escrevendo posts antecipando as besteiras futuras do czar da Folha, só para poder falar “não disse!!!???” com mais gosto. Os 14 leitores habituais deste blog devem ter lido esse post aqui, onde falo que o Citibank passou por uma crise tão grave quanto a atual 20 anos atrás. Naquela época, o Citi estava sob intervenção branca do FED, e só não quebrou porque um príncipe árabe investiu uma montanha de dinheiro no banco, salvando-o da morte certa. Minha memória não é nenhuma Brastemp, mas trabalhava no Citibank naquela época, por isso lembro certinho dos detalhes.

Na sua coluna de hoje, entretanto, señor Rossi se vangloria de sua privilegiada memória para afirmar que, olha só, como é que pode o imbatível, indestrutível e imaculado Citibank precisar de ajuda do governo para não quebrar? Logo ele, um banco que nunca precisou de ajuda de ninguém e blá blá blá… Tome desinformação!!! Não só o Citi quase faliu 20 anos atrás, como o Citibank de hoje não é, de fato, o Citibank original, após a fusão com o Travelers no final dos anos 1990 (que era maior que ele; logo, o Citi atual é mais um sucessor do Travelers do que qualquer outra coisa). E, para completar, o slogan “The Citi never sleeps” não foi encampado pela cidade de Nova York; foi o Frank Sinatra, com a música New York New York que inventou o mote, depois adotado pela cidade e pelo banco (este último, como uma paródia).

Para quem quiser conferir mais esse mau exemplo de jornalismo, segue o artigo original abaixo (com piadinhas e trocadilhos com o futebol, bem ao estilo Marolinha):

Memórias que nunca dormem

Até anteontem, só uma coisa me surpreenderia mais do que alguém me dizer que o Citibank poderia quebrar: se alguém me dissesse que o São Paulo poderia, algum dia, cair para a segunda divisão. Não que não seja desejável (a queda do São Paulo), mas a suposição é absurdamente irrealista.
Como era a quebra do Citibank, que, no entanto, só não aconteceu porque o governo deu uma ajudazinha de US$ 20 bilhões (o suficiente para comprar 40 mil mansões de quatro dormitórios e 788 metros quadrados de área total no Morumbi, conforme anúncio de ontem de uma grande corretora).
Fora a garantia descomunal para papéis que podem ser “tóxicos”.
Pelo menos na minha memória, o Citi era, na área financeira, o equivalente ao São Paulo de hoje no futebol: forte, campeão sucessivas vezes, modelo. Mas era também mais arrogante do que os são-paulinos, pelo menos os que conheço mais de perto.
Bill Rhodes, um dos principais executivos do banco desde que minha memória alcança (e olha que alcança longe), era o verdadeiro “Mestre do Universo” na negociação da dívida externa dos países latino-americanos nos anos 80, Brasil incluído. Passava sermão em ministro atrás de ministro, ditava regras, era, a rigor, até mais importante do que o secretário do Tesouro da época ou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (se não era mais importante, parecia ser).
O Citi era tão influente que um slogan seu (“The Citi never sleeps” ou o Citi nunca dorme) foi encampado pela cidade de Nova York, que geralmente exporta slogans/modismos em vez de importá-los.
Pois é, o Citi dormiu e foi até a beira do precipício. E o foi justamente depois que muita gente boa dizia que passara o pior da crise no setor financeiro. Se é assim, ninguém mais pode ser dado como seguro. Nem o São Paulo, espero.

Ciclos de 20 anos?

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 18 novembro, 2008

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Quando comecei a trabalhar no Citibank, em 1989, o banco passava por uma grave crise, iniciada em 1988 por causa de… Adivinhe? Hipotecas. Houve cortes em massa, e parcela significativa dos funcionários foi demitida. 20 anos depois (ou quase 20), olha a notícia que aparece no jornal (Folha de hoje):

Citigroup anuncia corte de 52 mil vagas

Metade das reduções já foi feita com venda de unidades; banco perdeu mais de US$ 20 bilhões desde o 4º tri de 2007

No Brasil, Citi afirma que vai “administrar com cuidado” o atual quadro de funcionários para adequá-lo à “realidade de mercado”

DA REDAÇÃO

Com perdas de mais de US$ 20 bilhões desde o final do ano passado e suas ações em contínua desvalorização, o Citigroup pretende cortar cerca de 52 mil postos de trabalho em todo o mundo e reduzir em 20% as suas despesas.
Cerca da metade desses cortes já foi realizada nos últimos meses com a venda de algumas unidades do grupo, como na Índia (com 18 mil empregados) e na Alemanha (com 5.000 funcionários). A outra metade, no entanto, deve ocorrer por meio de demissões. O Citigroup, o segundo maior banco americano em valor de ativos, contava com 352 mil empregados no final de setembro e já tinha demitido 23 mil neste ano.
A nova redução -a maior de uma empresa americana desde 1993, segundo a consultoria Challenger, Gray & Christmas- é mais um sinal da crise que vive o setor financeiro e expõe as dificuldades vividas pelo Citigroup. Ele não conseguiu aproveitar oportunidades que surgiram com a crise e se expandir como os rivais JPMorgan Chase e Bank of America, já perdeu mais de US$ 20 bilhões desde o fim de 2007 e suas ações se desvalorizaram em 69,8% neste ano -valem menos de US$ 10 pela primeira vez em 12 anos (ele tinha o quarto maior valor de mercado no mundo no fim de 2006).
Ontem, elas estavam cotadas a US$ 8,89, com queda de 6,62%. O recuo ajudou para o dia negativo na Bolsa de Nova York. O índice Dow Jones caiu 2,63%, com a Alcoa e os bancos registrando as maiores quedas. Já o S&P 500 recuou 2,58%.
“Essa [as demissões] é provavelmente a parte mais difícil do meu trabalho aqui. Não estamos fazendo isso porque queremos, mas porque temos que fazer”, afirmou o presidente-executivo Vikram Pandit em encontro fechado com funcionários do banco. O executivo, que assumiu o posto no fim de 2007, também disse que o banco pretende diminuir em 20% os gastos no ano que vem, para cerca de US$ 52 bilhões.
No Brasil, o Citigroup afirmou que vai “administrar com cuidado” o atual quadro de funcionários para adequá-lo à nova “realidade de mercado”. O banco emprega 6.184 funcionários em 127 agências no país. O banco disse em nota não saber ainda como a programa global de demissões afetará o Brasil. “Trata-se de um esforço global. Não há dados precisos referentes ao Brasil, pois trata-se mais de um trabalho em andamento do que um fato consumado.”
As demissões, porém, não são exclusividade do Citigroup. Calcula-se que as empresas de Wall Street tenham cortado mais de 150 mil vagas em todo o mundo. E, apesar de não haver números precisos, a maior parte do impacto deve ter ocorrido na região metropolitana de Nova York, onde, no final de junho, cerca de 579 mil trabalhavam na área de finanças. A Moody’s Economy.com calcula que 70 mil pessoas perderão seus empregos no setor em Nova York até meados de 2010.
Segundo dados do governo, o setor financeiro perdeu 96 mil vagas no ano -40 mil apenas entre setembro e outubro.

Sim, é só o rabo do tubarão – mas que rabo, hein!?

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 6 novembro, 2008

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Hoje o mercado financeiro do Brasil possui os mais espetaculares bancos do mundo posicionados na rabeira da tropa de elite, dentre eles o Citi e o HSBC. O santista* Fernando Blanco, de seu excelente blog (o Blog do Crédito), repercutiu ontem uma entrevista muitíssimo bem feita (publicada originalmente no Estadão) com o presidente da instituição sino-inglesa, Shaun Wallis, que comento os seguintes pontos:

“O Brasil é um país simplesmente fantástico. É enorme e tão diverso. Vocês têm tudo.”… e blá blá blá – Come on, mr. Wallis, menas, menas

“Para a maior parte da população, o real a R$ 2,17 ou a R$ 2,34 não faz muita diferença.” – Tá de sacanagem, né? Quer dizer que o câmbio agora só interessa para quem viaja de férias para a Disney?

“Não achamos as empresas brasileiras tão alavancadas quanto muitas outras no mundo. Provavelmente, porque tiveram a experiência de outras crises no passado.” – Sei… Vai me anganar agora que o brasileiro não se alavanca porque é um povo disciplinado e receoso quanto a dívidas? Balela, nós não nos endividamos porque: 1)Não nos emprestam; e 2)Quando emprestam, cobram juros escorchantes. E só.

“Crédito encurtado? Não sei se é verdade.” – Pôxa, será que eu estou mais bem informado que o presidente do HSBC? Para onde eu mando meu currículo?

“Mas há bancos retirando o crédito de clientes pessoais? Não. Fizemos isso? Não.” – Se eu provar que é sim e sim, o que que eu ganho?

“As pessoas estão emprestando menos? Há uma sazonalidade. O Natal está chegando. As pessoas emprestam muito dinheiro em setembro e outubro? Não sei. Provavelmente esperam até perto do Natal.” – Pôxa, desse jeito meu boy também vai mandar o currículo dele…

“Não, nada mudou no HSBC.” [respondendo à pergunta se algo havia mudado na instituição] – Quer dizer então que o mundo mergulha na pior crise financeira em 80 anos e o presidente do banco não muda nada na gestão dos negócios? Desse jeito até a filha da mulher do cafezinho vai mandar o currículo dela também (e ela topa por dois salários mínimos mais o dinheiro do busão).

“Globalmente, há menos dinheiro. Os mercados financeiros secaram em muitos países. Em nosso caso, somos extremamente líquidos, muito capitalizados e preferimos emprestar dinheiro para nossos próprios clientes. É por isso que você não nos vê comprando outros bancos. Agora não é o momento. Não sabemos quais balanços os bancos nos EUA, na Europa e em muitos outros países têm. Não sabemos quais problemas eles têm. Nossa prioridade nesta situação em todo o mundo é nos apoiar em nosso capital.” [Tudo isso para responder á simples pergunta “Os juros vão subir?”] – Vocês lembram do Paulo Maluf? Tá fazendo escola o turco, hein!?

Leiam o resto, vale a pena.

*Aproveito o momento para registrar a delicadeza do Fernando Blanco, que incluiu este modesto instrumento de mídia cibernética no espetacular blogroll de seu afamado sítio eletrônico, apesar do sofrimento que seu coração alvinegro deve estar passando após a adversidade sofrida no último domingo, quando o meu alviverde derrotou o Santos com um gol aos 45min. do 2o. tempo. Fernando, você é um gentleman!

Cavalo selado

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 13 outubro, 2008

Hoje me lembrei do meu ex-chefe no Citi (na verdade, ex-chefe do chefe do chefe) Ademir Pautasso Nunes. Era cheio de marra, tipo mandar um decalque do Snoopy num memorando (genial a propósito). Ele era do QCC, se não me engano, e uma espécie de reserva-moral do banco, como alguns outros executivos lendários que eu conheci no Citibank. Lembrei dele pela frase/conselho: “se o cavalo passar selado na tua frente, monte o mais rápido possível”, que todo mundo que se deu bem hoje na bolsa seguiu (a alta de hoje na BOVESPA foi de quase 15%).

QCC* do B

Posted in Uncategorized by Raul Marinho on 11 outubro, 2008

Você trabalhou no Citibank,N.A. (o da estrela de quatro pontas, não essa fajutagem de gurdachuvinha que está aí agora) entre 1989 e 1994, como eu (Raul Marinho Gregorin)?

Você foi da 1a. (e única) turma de “sub-trainees” de 1989, como o Paulo Ishimura?

Você trabalhou no Commercial Banking Division, cujo chefe era o Mário Márcio Ramalho?

Você foi da turma de trainees selecionada em 1990 que fez o “Entenring the Citi” em 1991, como o Paulo Duailibi?

Você trabalhou na “plataforma” das filiais (uma espécie de corporate bank dos pobres) como RM/relationship manager (como o Mauro Cunha), especialista de serviços (como o Joaquim Augusto Alves), head da filial (como o Sérgio Porto), como secretária (como a Concenila), como estagiário (como o Fabinho, que hoje deve ser o Dr. Fábio)?

Você se chama Marco Aurélio Rossi, Jorge Longo Helu, Fábio Mentone, Henrique Sperandio, Mônica Becker Mau, Beatriz Adler, Cid Morato da Conceição, Edmilson (ex-SMO do Commercial), Fábio Amorosino, Flora Portellada, Cosmo Falco, Rubens de Almeida Prado, Silvinha de Porangaba, Alexandre Grupenmacher, Milton Penna Júnior, José Bianchini, Nilton Bomfim, Márcio Magliozzi, Alberto Duarte, Ademir Pautasso Nunes, Victor Hugo Homrich, Adriana (que depois se casou com o Victor), Roseli Kostiuk (e o marido Zeca, da mesa – tomara que ainda seja), Sylas Ribeiro, Kika Capocchi Ribeiro, Maria Inês Bulcão, Daniela Araújo, Aristéia Amaral, Geraldo (do Citi Campinas), João Carlos Haddad (Casso), Rita (minha colega do Commercial no Entering), Eduardo Alkalay, Marcelo Karvelis, “Lobinho”, Manuel Carlos Celestino Blessa, ou Ricardo Tony?

A seguir, algumas fotos da época (daqueles diplominhas que ficama em cima das nossas mesas, lembram?):

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Um abração,

Raul

*QCC é o Quarter Century Club, o clube de quem tem mais de 25 anos de trabalho no Citibank