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Juros e pecados

Posted in credito by Raul Marinho on 21 maio, 2009

usura

Está impagável a coluna de hoje do Luís Fernando Veríssimo no blog do Noblat:

Quantos anjos

A Igreja medieval tinha muitas razões para condenar o juro. Ele era produto de uma coisa infecunda, o dinheiro, e portanto contra a Natureza. Era um preço dado ao tempo, que é de Deus, e portanto uma apropriação indébita, além de herética. Era fruto de trabalho improdutivo e ímpio, já que dinheiro gerava dinheiro o tempo todo, sem respeitar os dias santos, e era portanto um péssimo exemplo para os fiéis. Mas desconfia-se que a Igreja combatia o juro, acima de tudo, para proteger sua metafísica da metafísica emergente do mercado.

A Igreja acabou cedendo e hoje não excomunga mais ninguém por usura. Com algumas adaptações – como a invenção do Purgatório, uma alternativa suportável ao Inferno para banqueiros e agiotas – aceitou o juro para não ficar de fora do melhor negócio do mundo, que é o do dinheiro produzido por dinheiro. Mas a grande vitória não foi da realidade do dinheiro, foi da sua irrealidade. A metafísica sem Deus do mercado foi mais forte do que a metafísica da fé, o valor arbitrário dado a abstrações financeiras foi muito mais potente do que qualquer abstração religiosa.

O bom da metafísica é que, como é feita no ar, só tem os limites que ela mesma se dá. Aqueles concílios da Igreja em que discutiam coisas como quantos anjos poderiam dançar na ponta de um alfinete são os antecedentes diretos dos conluios do capital financeiro que geraram as pirâmides de papel desligadas de qualquer lastro real, para o dinheiro produzir cada vez mais dinheiro, cada vez mais abstrato. Na questão dos anjos a discussão era entre os que diziam que o número de anjos que cabiam na ponta de um alfinete era limitado e os que diziam que era infinito. As mesmas especulações etéreas devem ter sido feitas sobre até onde iria a farra do capital especulativo. O número de anjos, descobriu-se com a chegada da Crise, era finito.

Mas o melhor das metafísicas é que elas se auto-regeneram. A Crise tem significado uma espécie de Purgatório para o capital financeiro descontrolado, mas nenhum dos seus beneficiários acabará no Inferno. Wall Street reage e retoma seus maus hábitos. A metafísica medieval pelo menos garantia a remissão dos pobres e dos virtuosos no fim dos tempos. A metafísica do mercado só garante a felicidade para ricos e espertos.

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Santo companheiro PROER, rogai por nós

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 20 março, 2009

charge-reza-canina

Se eu fosse o Lula, iria para o Vaticano pedir para o Papa canonizar o Pedro Malan e o FHC em vida por eles terem feito o PROER. Foi por causa deles que o circo não está pegando fogo agora e, pelo contrário, o setor bancário é nosso maior trunfo contra a crise. Veja a nota abaixo, da BBC/UOL:

Bancos brasileiros são ‘exceção lucrativa’ no setor, diz Economist
Os bancos brasileiros estão seguros e seriam uma “exceção” no setor em meio à crise, segundo reportagem publicada pela revista britânica Economist que chega às bancas nesta sexta-feira.

Comentando o corte de 1,5 ponto percentual da taxa de juros Selic na semana passada, a revista afirma que o Banco Central conseguiu cortar as taxas “dura e rapidamente”, e que mais cortes são esperados.

“Esta é uma novidade bem vinda: no passado, a frágil moeda e a alta inflação impediam que o país adotasse medidas anti-cíclicas como esta”, afirma a reportagem.

Mas a revista destaca que os cortes nas taxas não estão sendo repassados para os clientes, alimentado a discussão sobre os altos lucros dos bancos com seus spreads (a diferença entre as taxas cobradas sobre o dinheiro que o banco toma emprestado e que ele empresta aos seus clientes).

“Os bancos brasileiros podem ser caros, mas pelo menos eles estão seguros”, diz a Economist, “Até agora, nenhum deles teve problemas com a crise financeira mundial. Isso pode ser porque seus lucros com as atividades diárias são tão altos que eles não precisaram assumir riscos tolos.” A Economist afirma que, segundo um cálculo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), o Brasil tem os spreads bancários mais altos do mundo. O cálculo, no entanto, é disputado pela Federação de Bancos, que alegam que os spreads são inflados pelos impostos sobre as transações bancárias.

De acordo com a revista, a segurança também se deve ao fato de os regulamentos serem mais duros desde que vários bancos quebraram quando a inflação foi domada, em meados dos anos 90.

A Economist comenta ainda que os bancos HSBC e Citibank, que enfrentam problemas no resto do mundo, vão bem no Brasil. “De uma maneira ou de outra, o sistema bancário do Brasil parece que vai continuar a ser a lucrativa exceção aos desastres em outros lugares”, conclui a reportagem.

O enigma do crédito

Posted in Atualidades, crise de credito by Raul Marinho on 27 fevereiro, 2009

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Ontem, a mídia soltou três informações sobre o crédito para pessoas físicas e pequenas empresas no Brasil:

1)A inadimplência subiu;

2)O volume de crédito caiu; e

3)O spread médio baixou.

O problema é que o item 1 está coerente com o 2, mas não se alinha com o 3. Ouvi rádio, assisti TV, li jornal, e até agora não encontrei ninguém para explicar esse enigma. Alguém se habilita? Fernando Blanco, vc está por aqui?

O major Healey nunca aprende

Posted in Uncategorized by Raul Marinho on 6 fevereiro, 2009

Quando era garoto, adorava assistir “Jeannie é um gênio”, o seriado que mostrava a vida de um oficial da força aérea estadunidense (o major Nelson) e a Jeannie, sua gênia particular, que morava em uma garrafa e atendia a todos os seus pedidos (ou quase isso). Para quem não se lembra, acima tem um vídeo com o trecho inicial do 1º episódio, que mostra como a Jeannie foi parar na vida do Nelson. O major Nelson era todo certinho, e jamais usava os poderes da Jeannie para tirar vantagem, mas o mesmo não acontecia com o melhor amigo do Nelson, o major Healey, que sempre tentava trapacear utilizando os poderes mágicos da Jeannie. Em um episódio, o Healey convenceu a Jeannie a lhe dar um exemplar do jornal do dia seguinte e, com base nos resultados das corridas de cavalo que o jornal informava, ele ia ao hipódromo e sempre apostava no cavalo ganhador, o que o tornou um homem rico. Bem… Na verdade, tudo acabou dando errado no final, e o major Healey perdeu tudo.

Muitos anos depois que eu assisti a esse episódio da Jeannie, já na faculdade, percebi que aquele desejo do major Healey era o Santo Graal dos economistas e dos profissionais do mercado financeiro. O que todos eles queriam (e continuam querendo) é conseguir o jornal do dia seguinte, não só com a relação dos cavalos vencedores, mas também com o preço das ações, o câmbio, a taxa de juros… Inúmeros fundos de investimentos mundo afora se baseiam no pressuposto de que é possível ter um exemplar do jornal de amanhã, da semana que vem, do final do ano. É mais ou menos o que querem os meteorologistas em relação ao clima, ou os políticos em relação às eleições, mas mesmo que alguns acertem aqui e ali, os erros continuam sendo a regra, e no final tudo dá errado, como para o major Healey. Que nunca aprende, e sempre volta a se meter em enrascadas.

A lenda do cartel dos bancos

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 3 fevereiro, 2009

Ultimamente, um dos assuntos mais freqüentes na imprensa são os juros e o spread bancário brasileiros, ambos recordistas mundiais – estamos atravessando uma crise financeira centrada no problema do crédito, afinal de contas. Não sei quanto tempo ainda vai perdurar esta crise, mas duas coisas são certas: A)Um dia, ela vai passar; e B)Mesmo depois disso, os juros e, principalmente, os spreads, vão continuar altos no Brasil. São vários os motivos para que isso aconteça, e num próximo post eles serão abordados em detalhes. Neste, o foco será refutar a teoria de que há um cartel bancário no Brasil, o verdadeiro motivo pelo qual os spreads seriam tão elevados, a tese do prof. Marcos Cintra do post abaixo.

Se os bancos são cartelizados, é de se esperar que haja alguma forma de comunicação entre os dirigentes bancários, de modo a combinar a manutenção dos spreads em níveis elevados. Ou seja, os presidentes do Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Citibank, BIC, HSBC etc., todos teriam que sentar em uma mesa e acertar que ninguém deveria cobrar menos que um determinado valor de spread. O problema é que tem banco demais para combinar, alguns nacionais, outros estrangeiros, uns grandes, outros pequenos, e grande parte do setor é estatal. Como é que se daria um arranjo desses? E, ainda por cima, sem dar na vista? Para piorar, já que o mercado é aberto ao capital externo, a combinação deveria ser global, pois nada impediria que um banco australiano, sul-africano ou mexicano furasse a barreira e entrasse no mercado cobrando menos. Mais do que isso, os donos de factorings, os dirigentes de financeiras, de cartões de crédito, das grandes redes de lojas, de fundos de recebíveis, etc., também teriam que participar do conluio. Isso parece razoável?

O mercado bancário brasileiro não é cartelizado, pode espernear professor Marcos Cintra. A FEBRABAN é um pega-prá-capar, não tem nada a ver com o que imaginamos que era a OPEP na primeira crise do petróleo. Aliás, hoje se sabe que a própria OPEP teve muito pouco a ver com a subida dos preços do petróleo na crise de 1973 – na verdade, foi uma ação dos produtores de petróleo dos EUA, que estavam com custos de produção muito elevados. Não que os bancos não queiram se cartelizar – praticamente qualquer setor econômico gostaria de manipular suas margens para cima -, a dificuldade é que é muito complicado conseguir isso com tantos e tão diversificados participantes.

Bola dentro!

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 12 dezembro, 2008

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Pela 2a vez na semana, o Clóvis Rossi dá uma bola dentro – o que faz desta, uma das melhores em desempenho do colunista da Folha nos últimos 10 anos, pelo menos (de acordo com a memória do editor deste blog, que também não é aquela beleza toda). Bem, resumindo: o artigo de hoje (abaixo copiado) vale a pena ser lido. (Somente uma correção: a rigor, nem o Meirelles nem o Lula têm autonomia plena para ditar a taxa Selic, que é definida por um comitê com poderes para tal, o COPOM).

Quem preside, Lula ou Meirelles?

De Luiz Inácio Lula da Silva, em mais uma das cerimônias-comício em que é especializado, no dia 2, em Recife: “Todo mundo sabe que temos uma taxa de juros acima daquilo que o bom senso indica que deveríamos ter”.
Cabe explicar ao leitor distraído que Luiz Inácio Lula da Silva vem a ser o presidente da República, eleito em 2002 e reeleito em 2006.
Nessa condição, cabe a ele indicar todos os ministros e também o presidente do Banco Central, a instituição que estabelece a taxa de juros que está “acima daquilo que o bom senso indica”.
Em um país normal, quem faz o que o chefe acha “insensatez” é demitido liminarmente, sem direito a indenização.
Aliás, esta Folha publica mensalmente, faz um bocado de tempo, um texto que, com pequenas variações, afirma que “Lula pressiona Banco Central por queda na taxa de juros” (foi o título mais recente da série, dia 4). Periodicamente, o BC dá uma solene banana às “pressões” de Lula -e não acontece nada. Nem Lula renuncia por ser desautorizado por um subordinado, nem demite o presidente do banco.
Ainda por cima, vem a corrente majoritária do PT, supostamente o partido do governo, e ataca frontalmente o BC como “último bastião da ortodoxia”, como se o presidente do BC tivesse dado um golpe e se sentado na marra na cadeira, em vez de ter sido nomeado por Lula (aliás presidente de honra do PT) e por ele mantido no cargo por seis anos, mesmo sendo supostamente tão desobediente e “insensato”.
Seria tudo muito ridículo não fosse o seguinte fato da vida: Lula terceirizou a política econômica para Meirelles, que faz o que bem entende com os juros. Foi a maneira que encontrou de acalmar as piranhas do mercado financeiro, as únicas que podem desestabilizar um governo que não lhes dê o sangue que pedem insaciavelmente.

Agiotagem?

Posted in Atualidades, banco, credito, crise de credito, crise financeira, mercado financeiro by Raul Marinho on 10 dezembro, 2008

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Deu no UOL Economia de hoje que os juros do cheque especial subiram a 9,33%a.m. em dezembro (equivalente a 191,65%a.a.). Só que isso é uma média, havendo um banco (o Safra) que está a cobrar 12,30%a.m. (302,3%a.a.). Agiotagem? De jeito nenhum!!! Mais respeito com os agiotas!!!

(Na foto acima, Al Pacino como Shylock, o agiota mais famoso do teatro, personagem de “O Mercador de Veneza”, de Shakespeare. Existe uma versão em filme, e recomendo fortemente o DVD).

Você é o que você dirige

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 13 outubro, 2008

(Essa imagem foi extraída do excelente blog português “Menos um carro”)

Há exatamente um ano, deixei de usar automóvel no dia-a-dia. Hoje em dia, uso uma combinação de metrô e táxi para fazer tudo o que preciso, e as vantagens são muito significativas. Mas não é para todo mundo (infelizmente), muito embora seja possível tomar atitudes que tornem essa decisão possível (felizmente). Morar perto de uma estação do metrô e de um supermercado são algumas das coisas que ajudam uma pessoa a deixar o carro de lado. Aguns highlights sobre a questão:

Custos:

Some o que você gasta com combustível, material de consumo (óleos, filtros, pneus, etc.), manutenção (periódica e esporádica), seguro, IPVA, multas (de rodízio, inclusive), batidas, depredações, estacionamentos/zona azul, pedágios, juros (se o carro for financiado), custo de oportunidade (se o dinheiro para comprar o carro for seu), depreciação, etc. em um ano.  Divida o número obtido por 12, e anote o valor num papel no último dia de um determinado mês. No primeiro dia do mês seguinte, deixe seu carro parado na garagem, e esqueça que ele existe por 30 dias, anotando tudo o que você gastou com táxis, metrôs, ônibus etc. Compare os números: se o número anotado não for superior a pelo menos o dobro do valor gasto no mês-teste, eu sou a macaca Chita.

Segurança:

Pedestre não sofre seqüestro-relâmpago. Não há registro de motoristas bêbados abalroando vagões do metrô. Assaltantes de semáforos podem assaltar passageiros de táxis, mas eles preferem motoristas particulares (a proporção é de mais de 100 para 1). Embora sempre haja o risco de ser atropelado (risco esse que um motorista também corre a partir do momento em que estaciona seu veículo), quem não anda de carro tem muito menos chances de sofrer qualquer tipo de violência.

Conforto:

Certamente, o automóvel é muito mais confortável que um trem do metrô, com seus bancos duros, eventualmente superlotados e barulhentos. Mas experimente andar de metrô fora dos horários de pico, com um iPod no ouvido, e um livro ou revista para distrair (joguinho de celular também serve). Tirando os dias mais quentes em que o ar-condicionado realmente faz falta, a diminuição no nível de conforto acaba sendo compensada pelo menor tempo gasto nas viagens, e o resultado é, geralmente, mais conforto total.

Status:

Aí não tem jeito, nada substitui o carro. Mas… Bem, para começo de conversa, os carros de hoje têm os vidros escuros, e ninguém sabe que quem está dirigindo aquela Mercedes é você – sem contar que quase ninguém vê você chegando onde quer que seja. Além disso, se você precisa de uma estrela de três pontas no capô para se sentir bem, talvez seja melhor pagar um bom psicanalista para melhorar sua auto-estima (e dinheiro para a análise não será um problema se você deixar o carro na garagem).

Sem contar que:

1)Você está colaborando com a diminuição das emissões de carbono;

2)Você está ajudando a melhorar o trânsito;

3)Você está se exercitando enquanto caminha até o metrô;

4)É divertido ver as pessoas mais esquisitas do planeta, que frequentam o metrô; e

5)É um exercício de humildade, muito recomendável para quem “se acha”;