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RL=C+ΔP

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Nesse post sobre a pós-crise, começamos a falar sobre o problema do consumismo epidêmico (que chamo de boletite), sua relação com a gênese da crise atual, e como fazer para evitar que crises como a que o mundo passa atualmente ocorram novamente. Neste, veremos que tudo se reduz a uma equação bem simplezinha, mais ou menos como a famosa E=m.c² do Einstein, que explicava a relatividade com somente 3 variáveis:

RL=C+ΔP, onde:

*RL: renda líquida auferida em um determinado período;

*C: consumo neste mesmo período; e

*ΔP: aumento ou diminuição da poupança líquida no período (P1-P0)

Ou seja:

Tudo o que uma pessoa obtém de rendimentos em um determinado ano é equivalente ao que essa pessoa consumiu neste mesmo ano mais a variação verificada em seus investimentos (diferença entre os saldos em 01/01 e 31/12 daquele ano). Se eu ganhei $100mil em 2008 e aumentei minha poupança em R$20mil, concluo que meu consumo foi de R$80mil. Simples assim.

Quando o Malloch Brown (vide artigo do Clóvis Rossi no post sobre a pós-crise) fala sobre “uma nova visão de futuro de um mundo menos conduzido pelo consumismo”, isso significa que teremos de encontrar maneiras de diminuir a boletite, a tendência das pessoas a consumir exageradamente. Já se tentou isso antes várias vezes, e nunca se conseguiu muito sucesso, como no malfadado exemplo do comunismo soviético, e no cristianismo. No fim, as pessoas sempre encontram formas de burlar as regras para ostentar um padrão de consumo superior ao dos seus pares, isso é um comportamento esperado para indivíduos da espécie H.sapiens.

Entretanto, se mudarmos a tributação, da renda para o consumo, haverá um forte estímulo para que as pessoas destinem parcelas cada vez maiores de sua renda para a poupança, evitando uma epidemia consumista. Basta manipular a fórmula: se RL=C+ΔP, então C=RLΔP; assim, se a tributação incidir sobre a diferença entre entre a renda e o aumento da poupança, quanto mais se poupar menos imposto se pagará. Esta seria, então, a fórmula mágica do mundo pós-crise.

(Essa não é uma proposta minha, e também não se trata de nenhuma novidade. Ela aparece no capítulo final de “Luxury Fever – Money and happiness in an era of excess” – foto acima, um livro de 1999 do Robert H. Frank).

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Como ter sorte nos negócios – parte III

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A Teoria dos Jogos é uma ferramenta matemática tão importante quanto a Estatística na tomada de decisões econômicas, ou seja: ajuda à beça, mas não resolve. Em relação à taxa de sucesso de um agente econômico – seja ele um empresário, um executivo, um profissional liberal, um artista, um atleta profissional ou qualquer outro jogador de mercados de tudo ou nada -, é a sorte o que faz diferença mesmo. Mas, digamos que você possa utilizar dados (cubos tradicionais, seqüenciados de 1 a 6*) descompensados (“crooked dices”, vide foto acima), mais propensos a dar 6 ou 5 do que 2 ou 1. Numa série muito extensa de jogadas, os pontos que você obtiver deverão ser superiores aos pontos obtidos pelos jogadores que jogam com dados honestos, é evidente: em 100 rodadas, a maioria deverá ter algo próximo aos 300 pontos no placar, e você talvez tenha 500. De qualquer maneira, não seria tão espantoso se você, que joga com dados viciados – tendenciosos a dar 5 ou 6 -, estiver atrás, já que também há incidência de 1s, 2s, 3s, e 4s, só que em menor grau. Em outras palavras: na 3ª. Rodada, não seria algo tão esquisito se o jogador com dados viciados estiver atrás do jogador com dados honestos. Se você tiver ferramentas para aferir qual a tendência dos dados de quem joga contra você, você tem como antecipar para que lado o cara vai sair numa interação econômica: se vai cooperar ou trair. Na prática, essa é a única forma de aumentar a sua sorte.

(Na figura abaixo, um dado sendo calibrado mecanicamente)

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Nma decisão de crédito, por exemplo: “se eu sou padeiro, devo emprestar dinheiro ao meu freguês (abrir uma conta para o cliente pendurar e pagar por mês?)”? Para uma linha de crédito de R$30/mês, não há análise de crédito cujo custo faça sentido para um padeiro fazer. O padeiro pode conceder ou não conceder crédito, mas a decisão sempre vai ser adversa: não há nenhuma certeza de que o freguês pagará em dia. Mas se o padeiro souber que você vai se mudar para a Austrália na semana que vem, pode ser que ele estranhe a sua mulher fazer uma compra maior que a média na padaria hoje. “Por que Prosecco, pacotes de cigarro, whisky – só itens de alto valor?” – poderia pensar o comerciante. Será que vocês estão comemorando a mudança, ou estocando coisas para não pagar? Vocês estão se mudando para outro país porque apareceu uma oportunidade profissional incrível, ou porque seu nome está no SERASA?

O padeiro não precisa estudar em Harvard para descobrir que é preciso tomar cuidado com crédito quando um cliente está se mudando para muito longe. Talvez haja um ditado popular na sua cultura, talvez um vizinho tenha comentado sobre um caso semelhante alguns anos atrás, e certamente não foi por conhecimento em Teoria dos Jogos que o padeiro achará uma boa idéia pedir para a freguesa (que jaz no caixa com uma garrafa de espumante) que liquide sua fatura com a padaria. É o velho e bom modelo do “dilema dos prisioneiros em jogos repetidos”, já tantas vezes citado aqui (pesquise esse termo na caixa ao lado para você ver). Existem outros modelos, porém, bem mais sutis – na verdade, a diferença estatística sempre é muito pequena. Por exemplo: por que o relacionamento com os filhos do irmão tende a ser diferente do que existe para com os filhos da irmã? Falaremos mais sobre eles no próximo artigo desta série.

Obs*: Se, com “cubos tradicionais, seqüenciados de 1 a 6”, o resultado é surpreendente, imagine com um cubo como o dado de apostas do gamão, seqüenciado em pg (2, 4, 8, … , 64)!?

Vale a pena consultar o verbete “dado” na wiki. Clique aqui para a versão em português e aqui para a original em inglês.

Partes I e II desta série.

Estratégia & evolução

Posted in Evolução & comportamento by Raul Marinho on 14 novembro, 2008

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Se aparecer um leão na sua frente, você correrá em sentido oposto, certo? Sim, afinal você tem um cérebro enorme para te ajudar a não cometer uma insanidade como correr em direção ao leão. Mas… E se você tivesse um cérebro minúsculo, será que seria diferente? Se você acha que sim, leia o artigo abaixo, da Folha de hoje, e supreenda-se:

Baratas têm estratégia para rota de fuga

Animais escapam em um ângulo que varia entre 90 e 180 da direção da ameaça, segundo pesquisa

RICARDO BONALUME NETO – DA REPORTAGEM LOCAL

Você acende a luz da cozinha e topa com ela: grande, marrom, cascuda. Uma barata de respeitável tamanho. Enquanto o ser humano hesita entre o inseticida e o chinelo, ela começa uma rápida trajetória de escape na direção oposta. Feito barata tonta? Não.
Segundo um estudo de quatro pesquisadores de Itália, Reino Unido e EUA, a barata escapa em direções predeterminadas e preferidas, em um ângulo que varia entre 90 e 180 da direção da ameaça.
Baratas são um bom modelo biológico para estudar o comportamento de fuga de um animal frente a um predador. Aparentemente elas parecem fugir ao acaso, mas experimentos mostraram que há estratégia por trás das rotas de fuga.
Os pesquisadores, liderados por Paolo Domenici, do Instituto de Metodologia Química, do Conselho Nacional de Pesquisa italiano, publicaram seus resultados na última edição da revista “Current Biology”.
O experimento básico consistia em simular um predador usando uma rajada de vento que a barata captaria e interpretaria como uma potencial ameaça. Cinco baratas de uma espécie comum (Periplaneta americana) tiveram suas trajetórias gravadas em vídeo, depois de estimuladas com vento, entre 75 e 93 vezes. Os cientistas mediam o ângulo entre a direção do vento e a da fuga.
O resultado indicou pelo menos quatro picos de rotas de fuga, aproximadamente nos ângulos de 90, 120, 150 e 180. Os números foram confirmados por outra bateria de testes, desta vez com 86 outras baratas, “assustadas” apenas uma vez. “Direções ao acaso também incluiriam direções para a boca do predador, por isso o acaso completo não é desejável. Da seleção natural se espera que evolua um mecanismo que seja suficientemente imprevisível para que os predadores não possam aprender um padrão de fuga específico, repetitivo por parte da presa”, disse Domenici à Folha.
“Sobre por que existem trajetórias preferidas em vez de trajetórias igualmente possíveis, isso pode ter algo a ver com como as escapadas são controladas, possivelmente pelo modo como os neurônios direcionalmente sensíveis controlam a escapada”, continua.
Ainda não se conhece o mecanismo biológico responsável pela estratégia de escape das baratas. “Nosso trabalho ressalta a necessidade de revisitar a base neurobiológica do comportamento de fuga das baratas”, diz ele. “O comportamento de fuga é controlado por um número de neurônios que são direcionalmente sensíveis. Portanto, as direções específicas de escape podem ser o resultado desses neurônios”, conclui Domenici.
A pesquisa também tem seu lado prático. Confrontado com uma barata, já se pode prever o melhor lugar para mirar o chinelo. “Embora nós gostemos de baratas e não recomendamos o esmagamento. Cada animal é especial à sua própria maneira”, diz o pesquisador.

Como ter sorte nos negócios – parte II

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 12 novembro, 2008

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Um bom jogdor de gamão consegue, nos enfrentamentos contra um jogador meia-boca, uma vantagem mínima, de cerca de 5-8%. Por exemplo: um sujeito que lê livros sobre estratégias em gamão, pratica com outros ótimos jogadores, e está acostumado aos torneios em cassinos que pagam dezenas de milhares de euros aos mais bem colocados, se jogasse 100 partidas de um ponto contra mim, ganharia por volta de 55-58 delas , e eu 42-45. O que é bem diferente do xadrez: um profissional internacional versus um jogador de fim-de-semana certamente apresentaria um placar de 100 x 0 – um Khasparov ganharia todas as partidas contra o melhor enxadrista de Rio Preto. Por outro lado, mesmo ganhando pouco mais de 40% das vezes, se as partidas forem de muitos pontos (p.ex.: 7 pontos), eu posso ganhar do melhor jogador do mundo se esta partida estiver valendo 8 pontos – aposta dobrada duas vezes em p.g. (vide post anterior dessa série).

Na prática, isso quer dizer que, mais importante que (ou, no mínimo, tão importante quanto) saber jogar, é crucial dominar a técnica de apostar. Se, quando você perder, perder 1 ou 2 pontos, mas quando ganhar, ganhar 8 ou 16, você terá uma altíssima vantagem em jogos de muitos pontos. Se forem jogos infinitos (em que o que importa é a diferença de pontos entre os jogadores, que são convertidos em algum valor monetário pré-combinado), melhor ainda. Uma partida pode ser redobrada ad infinitum, e como é p.g., logo logo os jogadores estão apostando 256, 512, 1.024… pontos – que, se for um jogo de míseros R$10/ponto, resulta em ganhos de mais de R$10mil (muito dinheiro mesmo para um cara rico que esteja jogando em um lugar sofisticado, que vai pagar ou receber do adversário mais de 50 vezes o valor de sua conta no bar).

No curto período em que joguei futebol (no dente-de-leite do Monte Líbano, de Rio Preto, como beque direito), tive um treinador, o Joãozinho, que tinha uma receita infalível para o batedor de pênaltis: “bata forte, colocado, na forquilha do lado em que o goleiro não está”. Ok, Joãozinho, quero ver você ganhar uma aposta alta num jogo de gamão contra um jogador esperto e experiente. Ganhar no atacado e perder no varejo é o santo graal de qualquer jogador de gamão, e seguindo os conselhos do meu ex-técnico, a primeira coisa a fazer é saber para que lado o goleiro vai: qual será a estratégia do outro jogador. Em outras palavras: você precisa pensar no que o outro pensa, inclusive sobre você mesmo. Existe uma técnica racional para isso, chamada teoria dos jogos.

Os modelos da teoria dos jogos, entretanto, são muito difíceis de se trabalhar, especialmente para alguém com pouca facilidade com ferramentas matemáticas. Considerando que 99% das pessoas que necessitam antecipar o movimento do oponente no mundo dos negócios são pessoas que não resolvem equações trigionométricas como passatempo (o que é especialmente verdadeiro para os advogados), é muito mais eficiente conhecer os modelos mais importantes de aplicações da treoria dos jogos ao comportamento humano do que conhecer toda a teoria dos jogos. Mesmo porque, para a maior parte das necessidades
do dia-a-dia das predições comportamentais, não é preciso calcular precisamente os resultados,  basta simplesmente saber como a coisa funciona. É desse ponto que iremos partir no próximo post dessa série.

(Obs.: O jogo ilustrado acima é um jogo de Go. Não confundir com o jogo de gamão, ilustrado na foto abaixo)

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Estratégia de negócios

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 30 outubro, 2008

Mais um artigo publicado na Você S/A, sobre Economia Comportamental:

Carros usados, sexo e negócios

Três coisas bem diferentes, mas com alguma coisa em comum. Descubra o que é e aplique no seu dia-a-dia

Segundo a psicologia evolutiva, a prioridade do ser humano é a preservação da nossa carga genética. Em outras palavras: sexo. Assim como a maioria dos mamíferos, o homem também compete pelo direito de acasalar. Mas graças à nossa estrutura social e capacidade intelectual, nós não saímos por aí às cabeçadas como os bisões ou às mordidas como os leões. Nós utilizamos estratégias mais sutis, dentre elas as informações assimétricas.

Ou seja, para encontrar parceiros sexuais, tentamos convencer o parceiro do sexo oposto que somos “um bom negócio”. É o mesmo problema encontrado em uma entrevista de emprego ou na venda de um produto ou serviço: os “vendedores” sabem muito mais a respeito da qualidade do “produto” que os “compradores”. Trata-se de uma questão clássica de assimetria de informações que pode ser solucionada de acordo com o trabalho de George Akerlof, ganhador do prêmio Nobel de Economia de 2001.

Ele publicou um excelente trabalho denominado “The Market for Lemons” (algo como “O Mercado das ‘Latas Velhas’”), onde desenvolve um estudo sobre o mercado de carros usados nos EUA (os “lemons”) para descrever os mercados com forte assimetria de informações, como o mercado de trabalho. Raciocínio análogo é utilizado pela psicologia evolutiva para explicar estratégias utilizadas na competição por sexo entre os humanos. A idéia central do trabalho de Akerlof é que, como o vendedor do “lemon” sabe mais sobre a verdadeira qualidade de produto que o comprador, a tendência é que os preços se nivelem por baixo. A explicação é simples. Os compradores admitem que todos os carros usados são “lemons” – mesmo aqueles que estão em ótimo estado. O argumento mais convincente para acabar com essa assimetria é dizer que o carro não está à venda. Admite-se por hipótese que carros expostos em lojas de usados são “lemons”. Ao contrário, um carro utilizado normalmente tem mais chances de ser reconhecido como de boa qualidade simplesmente porque seu proprietário não deseja vendê-lo – pelo menos, não ostensivamente.

Esta estratégia é utilizada por homens e mulheres do mundo inteiro há milênios na escolha de um parceiro sexual. O homo sapiens tem um comportamento básico em relação ao sexo: escolher um parceiro “comprovadamente” satisfatório. Este comportamento é observado em ambos os sexos, mas as mulheres seriam mais orientadas a escolher parceiros “comprovados” – provavelmente porque a escolha feminina é associada a um maior nível de riscos durante a gravidez até os primeiros anos de vida dos filhos. Segundo este raciocínio, o melhor parceiro sexual é aquele já comprometido com outra parceira. Pelo mesmo motivo é mais fácil conseguir um bom emprego empregado do que desempregado. Admite-se que uma pessoa desempregada seria um “lemon” da mesma forma que um “solteirão” pode ser visto com desconfiança por mulheres casadoiras em potencial.

Esta teoria foi comprovada na prática pelo Pedro Mello, o leitor entusiasta desta coluna que aplicou o “Leilão de Dólar” às suas estratégias profissionais (veja o artigo “A Verdadeira Prática na Teoria”). Pedro estava negociando a venda de um projeto de e-business para uma grande marca de artigos eletro-eletrônicos quando tomou conhecimento do artigo sobre informações assimétricas. Em mais uma reunião de trabalho sobre o projeto, Pedro informou ao cliente que não poderia continuar com o trabalho porque uma outra empresa se interessou em adquirir o projeto. Esta informação caiu como uma bomba na diretoria da empresa. O interesse pelo projeto aumentou significativamente e o cliente fechou o negócio rapidamente. O projeto era o mesmo, a única mudança foi o fato de outra empresa estar interessada no mesmo serviço – e tratava-se de um trabalho que só poderia ser desenvolvido uma única vez.

Nós utilizamos esta estratégia em nossa vida pessoal de forma instintiva. Todo mundo sabe que a melhor arma de sedução em uma conquista amorosa é se mostrar relativamente indisponível. Mas ninguém nos diz para utilizar a mesma estratégia profissionalmente. Nos últimos anos, porém, vários prêmios Nobel de Economia foram concedidos a trabalhos relacionados a aspectos comportamentais, inclusive o de 2002, concedido a dois psicólogos comportamentais.

Lanterna na proa*

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 17 outubro, 2008

Na década de 1960, antes dos exames de ultra-som, havia um médico (clínico geral) em Rio Preto que acertava em 100% das vezes o sexo do bebê. Ele olhava para a mãe logo que esta sabia estar grávida e dizia, enigmaticamente: “é menino” (ou “é menina”), e em seguida pegava a ficha da paciente e anotava o palpite, à caneta, pedindo que a paciente retornasse ao consultório após o parto. O detalhe é que esse médico anotava na ficha o palpite oposto do que ele informara de viva voz, ou seja: se ele dissesse que era menino, ele anotava menina, e vice-versa. No retorno, duas coisas poderiam acontecer: 1)a paciente estava feliz porque o médico acertara, ou 2)ela estava indignada com o erro do profissional. No primeiro caso, era só festa; mas se a mãe estivesse decepcionada com o prognóstico errado do médico, este abria o arquivo, pegava a ficha, e dizia: “Moça, acho que a senhora estava nervosa e se confundiu… Olha aqui a ficha: eu anotei menino e não menina, como a senhora estava achando” (ou o contrário). Constrangida, a mãe voltava para casa convencida de que ela é que havia entendido errado.

Muitos profissionais da incerteza têm esse tipo de estratégia. Eu poderia, por exemplo, me consolidar como um vidente de sucesso, adivinhando quem será o campeão paulista de futebol de 2009. Se eu publicar nos classificados da Folha que o Palmeiras será campeão, no Estadão que será o São Paulo, no Diário de S.Paulo, o Crinthians, e assim sucessivamente, eu terei provas do meu acerto qualquer que seja o resultado. Como os jornais que estampavam um resultado diferente do verificado já estariam no lixo (e ninguém guarda classificados de “declarações à praça”, a não ser o próprio interessado), eu, que guardei todos eles, escolheria o que me convém e pronto, nasceu um vidente. O grande problema desta estratégia é que eu só conseguiria sucesso uma única vez. No ano que vem, quando eu fosse fazer as previsões para 2010, as pessoas provavelmente estariam atentas para declarações em meu nome, e logo perceberiam o engodo (risco que o médico do parágrafo acima não corria, já que as informações dele eram privadas).

Economistas, de uma forma geral, utilizam estratégias mais arriscadas para conseguir fama. Sou viciado em sebos, e veja o livro que encontrei um dia desses:

Ravi Batra, atualmente professor da prestigiosa Universidade Metodista Sulista em Dallas, Texas, previu um cataclisma na economia estadunidense nos anos 1990. Abarrotado de tabelas, gráficos e equações, o livro de Batra tinha tudo para ser um bestseller global, e seu autor um sério candidato ao Nobel, não fosse por um pequeno detalhe: os anos 1990 foram espetaculares para os EUA. Houve crise no México, na Rússia, nos “Tigres Asiáticos”, e o Brasil sofreu com a era Collor (e depois com a estagnação dos anos FHC), mas o foco do trabalho de Batra, os EUA, foram de vento em popa. (O que me assusta é que o mais novo lançamento de Batra é “The New Golden Age”, lançado em abril de 2008).

Hoje em dia, Nouriel Roubini desponta como o grande gênio da crise dos sub-primes. Foi ele quem alertou o mundo sobre o precipício logo em frente, mas ninguém deu atenção às suas sábias palavras. Curioso que o próprio Roubini não ouviu sua voz, já que se tivesse ouvido poderia ser o homem mais rico do mundo atualmente, apostando no mercado a termo ou de opções contra o Dow Jones. (Mas não se engane, mr. Roubini é um professor pardal da academia que não tem tempo para essas coisas mundanas como o dinheiro, como se percebe na foto abaixo). Agora, esse economista faz um novo alerta: “o mundo vai levar entre 18 e 24 meses para sair da crise”. Anotem isso em suas cadernetas! (Aliás, anotem também que eu estou prevendo que haverá inundações em grandes cidades do Brasil no início de 2009, devido às fortes chuvas que ocorrerão no próximo verão).

Varrendo a web para ver se achava alguém que não incenssasse Roubini, encontrei uma voz dissonante: Stephen Kanitz, que publicou um execelente artigo sobre o tema no seu site. Conheço o Kanitz, essa lenda do mundo dos negócios desde os anos 1980, quando era estudante de administração da FEA-USP, e ele um dos professores mais famosos da mesma instituição. Tornei-me amigo do Stephen uns anos atrás, ao comentar um artigo que ele escrevera na Veja, e acabamos fazendo uma viagem juntos no ano passado, para Williamsburg (EUA), onde participamos de uma conferência sobre Evolução & Comportamento. Numa tediosa viagem de trem entre Washington e Williamsburg, o Kanitz me convenceu porque não se deve confiar em economistas como o Batra ou o Roubini (sim, eu também ia na onda desses caras há até um ano e meio atrás): estes sujeitos são oportunistas, como o médico de Rio Preto do início deste artigo, e ficam cavando oportunidades para aparecer na mídia como os verdadeiros profetas o tempo todo (é aquele negócio: até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia). Simplesmente não existe esse negócio de previsão econômica do tipo Batra/Roubini, o que existe é chute que, por acaso, acerta o gol. Se você ainda duvida, leia “A lógica do cisne negro”, do Nassim Nicholas Taleb (ou assista à minha resenha do livro, abaixo). Depois não digam que não avisei.

*”Lanterna na proa” é um trocadilho com o título do último livro do Roberto Campos (aliás, sua autobiografia), o pai de todos os economistas do tipo Batra/Roubini.

Tenha sucesso na carreira – pergunte-me como.

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 16 outubro, 2008

Você sabe qual é o segredo para subir na carreira? Quem leu o artigo abaixo, que eu publiquei em 2002 na revista Você S/A, já sabe faz tempo.

O fator credibilidade

No último artigo publicado nesta coluna [a coluna “Prática na Teoria” da revista Você S/A], foi comentado que grandes gurus da administração entendem que o melhor lugar para aprender a fazer negócios é a feira. Para mostrar uma das lições que se pode aprender na rua, foi apresentada uma aplicação da Teoria dos Jogos para estratégias de localização através do exemplo de um sorveteiro vendendo sorvetes na praia. Neste artigo, nós vamos apresentar uma aplicação das Informações Assimétricas a outra “lição das ruas”, onde prática e teoria se unem para mostrar novas abordagens para estratégias profissionais.

No fim-de-semana posterior à sua aventura como sorveteiro na praia, vá para uma feira de antiguidades com grande movimento. Se você estiver em São Paulo, eu recomendo que você visite a feira do Masp, na avenida Paulista [vide foto acima]. Preste bastante atenção no que você vai encontrar pelo caminho, principalmente nas barracas de camelôs na calçada. Repare como os artigos vendidos vão variando à medida que você se aproxima do vão central do Masp: tem-se a impressão que as barracas estão dispostas em faixas ou anéis em volta do museu. As barracas mais distantes do Masp vendem produtos industrializados: tiaras de cabelo, balas, etc. Mais adiante, você encontra artesanato barato, como colares e pulseiras de contas. Bem próximo ao centro, você encontra quadros pintados à mão, bonecas russas e outros apetrechos mais sofisticados. Finalmente, sob a marquise do museu estão as barracas dos vendedores de antiguidades e objetos mais nobres.

Os mercados com Informação Assimétrica têm como característica o fato do vendedor saber muito mais sobre a qualidade do produto que o comprador. Os produtos colocados mais à periferia do Masp têm baixa assimetria de informações: são produtos industrializados, muitas vezes com uma marca conhecida, onde o consumidor pode identificar sua qualidade facilmente. O artesanato já não é padronizado e fica mais difícil reconhecer se o artigo é realmente de boa qualidade. Os quadros, por sua vez, são absolutamente únicos e é bem mais complicado atestar sua verdadeira qualidade, principalmente para um leigo. Mas a maior parte dos objetos expostos sob a marquise do museu é muito difícil de ser avaliada: você pode (e deve) negociar o preço, mas é muito provável que o vendedor esteja mais bem informado sobre o real valor do produto que você. Note que os objetos sob a marquise do Masp são pertencentes a um mercado com altíssima assimetria de informações; e, à medida que se caminha para a periferia, os objetos vendidos tendem a ser cada vez mais facilmente reconhecidos quanto à sua real qualidade.

Perceba agora o perfil dos vendedores de cada uma das zonas de comércio no Masp: quanto mais padronizado é o produto, menos qualificado tende a ser o vendedor. Muitas vezes, os vendedores de produtos industrializados são funcionários de pessoas com várias barracas, enquanto os vendedores de antiguidades normalmente são os próprios donos, pessoas de mais idade e muito mais cultura. Além disso, a localização dos vendedores em anéis não é por acaso: é muito mais custoso se estabelecer próximo ao centro e, para expor embaixo da marquise, é necessário obter uma licença e pagar taxas à Prefeitura. Como os custos são maiores à medida que se caminha para o centro, presume-se que a rentabilidade do negócio também caminhe nesta direção. A reputação do vendedor de mercadorias com alta assimetria de informações, por sua vez, tende a ter grande relevância. Você não precisa confiar no vendedor de balas de menta de marca conhecida. Mas você não vai comprar uma obra de arte do século XIX de qualquer um.

Agora compare o que você notou na feira do Masp com o mercado de trabalho e sua própria carreira. Na feira, quanto mais sofisticado e único é o produto, mais importante fica a reputação do vendedor e maior a margem de lucro. A negociação é mais complexa e o vendedor tem que passar uma imagem muito forte de credibilidade e profissionalismo. No mercado de trabalho ocorre algo muito semelhante. Para um diretor comercial conseguir se vender como profissional de alta qualidade, ele vai depender muito mais da reputação que um gerente de vendas ou um vendedor. Para o empregador, por sua vez, é muito mais difícil contratar um gerente comercial que um vendedor – e é mais difícil ainda recrutar um novo diretor comercial. Note que os salários pagos a cada um destes profissionais também tendem a crescer à medida que cresce a dificuldade de avaliação de sua real competência.

O vendedor de antiguidades do Masp sabe que a assimetria de informações é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e uma ameaça. Como ele tem consciência que o cliente não tem como saber a verdadeira qualidade dos seus produtos, o vendedor fica em uma situação de aparente vantagem: o cliente fica dependente das informações que só o vendedor tem. Justamente por isto que a dificuldade em vender produtos com alta assimetria de informações tem grande relação com o grau de credibilidade que o vendedor possui. Com a carreira profissional acontece a mesma coisa. Quanto mais alto o nível do profissional, maior a dificuldade para o empregador avaliar a verdadeira qualidade do empregado. Em última análise, devido às Informações Assimétricas, a credibilidade que o empregado demonstra ter é que vai ser decisiva para sua avaliação. E esta credibilidade vai ser tão mais relevante quanto maior for o nível de responsabilidade e autoridade exigida para o profissional em questão.

Quem sabe sabe*

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 15 outubro, 2008

Não voto em São Paulo (cidade), mas votaria no Kassab se pudesse, só para premiá-lo pela implantação da Lei Cidade Limpa, a melhor coisa que o poder público poderia ter feito para os comerciantes paulistanos. Para quem não sabe, a Lei Cidade Limpa tornou ilegal todo tipo de outdoor, restringindo as placas dos estabelecimentos comerciais a pequenos retângulos. E, ainda por cima, é um dos melhores exemplos para explicar o mecanismo econômico conhecido como “tragédia dos comuns”, o centro do argumento do artigo abaixo, publicado na revista Você S/A em 2002 (muito antes da lei, por sinal).

Quem se lembra do que ocorria em São Paulo antes da lei vai entender rapidamente onde quero chegar. Para um dado comerciante – por exemplo: uma sapataria na rua Padre Antonio, a principal do Brooklin –, a melhor decisão racional era a de ter uma placa um pouco mais chamativa que a da loja ao lado, pois isso deveria atrair mais consumidores daquele lugar. Entretanto, para o vizinho deste comerciante, aplica-se o mesmo raciocínio, o que significa que esse empreendedor também deverá procurar ter uma fachada mais chamativa; mesma coisa com todos os outros comerciantes de sapatos da rua Padre Antonio. No fim das contas, todos os vendedores de sapatos daquela rua têm que ter as maiores e mais escandalosas placas possíveis, não porque estas sejam muito eficientes em termos de marketing, mas porque o vizinho adota a mesma estratégia.

Quando a prefeitura limitou a publicidade imobiliária, todos os comerciantes voltaram à mesma condição de equilíbrio, só que gastando uma fração do que gastavam anteriormente. Interessante notar que os empresários paulistanos, em sua maioria, criticaram a lei, alegando prejuízos e prevendo queda nas vendas, quando foi exatamente o contrário o que ocorreu. O pulso firme do prefeito, fazendo com que a lei fosse cumprida à risca (até o Fórum Federal da avenida Paulista foi multado!), mesmo representando uma queda significativa na sua popularidade, é algo que deve ser premiado.

*Quem sabe sabe/ canta comigo/ federal é Kassab/ estadual é Rodrigo

Refrão do jingle de campanhas passadas do atual prefeito de S.Paulo.

(O Rodrigo em questão é o deputado estadual Rodrigo Garcia).

A (des)vantagem do egoísmo

Imagine que você saiu para jantar com o pessoal do escritório, todas as 100 pessoas do seu departamento. Você está numa fase complicada de dinheiro, mas… Como a conta vai ser dividida por igual, por que não pedir lagosta? Se todo o resto do departamento pedir filé com fritas que custa 10 reais e você pedir a lagosta de 40 reais, todos pagarão R$10,30. Sua vantagem então será de R$29,70, contra um acréscimo de módicos R$0,30 para cada um dos outros colegas. Genial, não? Sim, se não fosse pelo fato de todos os outros pensarem de maneira análoga e todo mundo pedir os pratos mais caros do cardápio – até quem realmente gostaria de comer um simples filé com fritas pediria um prato caro para não ficar em desvantagem frente aos demais. No final, todo mundo vai pagar uma conta salgada. O que aconteceu nesse jantar hipotético ficou conhecido como a Tragédia dos Comuns, uma outra aplicação da Teoria dos Jogos.
A Tragédia dos Comuns é uma espécie de Dilema do Prisioneiro com um grande número de participantes. A deserção de cada indivíduo em particular afeta muito pouco o restante da coletividade, mas traz grandes vantagens para o desertor. Mas é justamente aí que está o problema: como cada um pensa que sua própria deserção tem pouco significado, todo mundo tende a desertar, o que faz com que a massa de pessoas desertando influencie significativamente o resultado de todo o grupo. No fim das contas, acontece o equilíbrio do sistema na situação em que todos desertam, de forma muito semelhante ao Dilema do Prisioneiro.
Na verdade, a Tragédia dos Comuns é um fenômeno percebido e estudado muito antes do aparecimento da Teoria dos Jogos. Na Europa da Idade Média, havia muita terra sem um dono específico, onde os pastores podiam criar seu rebanho livremente. Seria vantajoso para cada pastor sempre aumentar uma cabeça de gado no seu plantel. Acontece que, se todos agissem assim, em pouco tempo o pasto comum estaria superpovoado e todos sairiam prejudicados. Na Inglaterra medieval existiam leis para regular a quantidade de cabeças que cada pastor poderia cuidar nas propriedades comuns justamente para evitar que a coletividade saísse perdendo.
Hoje em dia, podemos perceber várias Tragédias dos Comuns acontecendo à nossa volta. Um bom exemplo pode ser visto no trânsito das grandes cidades. Repare nos automóveis na rua: a grande maioria deles tem um único ocupante. Todos sabem que o trânsito poderia ser muito melhor se as pessoas se organizassem de modo a andar com três ou quatro pessoas por carro. Mas, por outro lado, também existe a sensação de que “não é o meu carro que está fazendo com que o trânsito fique tão engarrafado”. Pois é, a culpa é sempre dos outros…
Para evitar a tragédia dos comuns, existem duas opções: ou o Estado cria mecanismos legais para coibir determinadas práticas – como acontecia na Inglaterra da Idade Média; ou a própria comunidade cria mecanismos de autodefesa. Cada vez mais, a segunda opção tem sido utilizada. Os “Gérsons” não são exclusividade brasileira e o mundo todo tem adotado práticas auto-reguladoras. Em um mundo com recursos naturais cada vez mais escassos, mecanismos anti-Tragédia dos Comuns têm sido particularmente necessários para impedir que nós destruamos o planeta. O Protocolo de Kyoto é, no fundo, um mecanismo criado para evitar uma Tragédia dos Comuns ambiental. A não adesão dos Estados Unidos ao Protocolo seria equivalente à pessoa que pede lagosta no restaurante quando todos pedem filé com fritas – com o fator agravante do peso da deserção americana ser desproporcionalmente grande. Seria muito diferente se, por exemplo, o Uruguai não aderisse ao Protocolo.
Segundo os estudiosos das estratégias utilizadas em Teoria dos Jogos, a única forma de derrotar um jogador que adote a estratégia do “deserte sempre” é o ostracismo: não jogar com quem adota este tipo de estratégia. Mas como condenar o país mais rico e influente do planeta ao ostracismo? Isto é impossível e os Estados Unidos sabem disto. Justamente por isto que eles adotam a postura do “deserte sempre”. É uma decisão racional dos Estados Unidos. Não é justa, mas é racional. A propósito: se alguém lhe disse que o mundo é justo, sinto muito, mas você foi enganado.

Cooperação: manual do proprietário

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 14 outubro, 2008

Este é o 5o. artigo publicado na Você S/A, que explica diferentes maneiras de organização social cooperativa:

Lições do formigueiro

Tanto entre os animais (não-humanos) quanto entre os homens, a cooperação parece ser o fator-chave do sucesso. Golfinhos formam grupos para encurralar cardumes de peixes com resultados muito melhores que a caça individual. Chimpanzés formam bandos de mais de cem indivíduos que os protege contra predadores e bandos rivais. E a humanidade forma grupos de trabalho há muitos milhares de anos. Henry Ford revolucionou a indústria com o conceito de linha de montagem, que nada mais é do que uma nova forma de organizar a cooperação humana. Mas como convencer cada indivíduo a atuar cooperativamente como parte de um grupo? Por mais que o desempenho cooperativo de um grupo seja a opção mais interessante para a coletividade, os mecanismos do individualismo, da deserção e da trapaça tendem a trazer benefícios ainda maiores para cada indivíduo em particular.

Imagine que você faça parte de um grupo de caçadores aborígines. Vocês estão à caça de um animal de grande porte que irá matar a fome de toda a aldeia – um gnu, por exemplo. Para isto, é necessário que haja uma coordenação da equipe para cercar o bicho e possibilitar o seu abate. Entretanto, num dado momento você vê um coelho passando. Você sabe que um coelho é suficiente para matar a fome da sua família. Por outro lado, se você for atrás do coelho, toda a operação de caça pode naufragar se o gnu tentar escapar justamente pelo seu lado. Você também sabe que, mesmo com a cooperação de todo o grupo, as chances de pegar o gnu são muito menores que a sua possibilidade de sucesso individual com o coelho. Existe ainda a possibilidade de você cooperar com o grupo e esquecer o coelho – mas se algum outro componente do grupo for atrás do seu coelho, você vai ficar sem nada. O que fazer, então?

Segundo o conceito original da Teoria dos Jogos, a deserção seria a alternativa racional. Em um jogo de rodada única, o caçador que for atrás do seu coelho estaria exercendo a melhor opção. Mas na vida real, o que acontece com maior freqüência são situações de repetição do jogo, onde a cooperação mútua tende a trazer os melhores resultados tanto individual quanto coletivamente. Nos grupos humanos em geral – e no exemplo dos aborígines em particular – é essencial que se possa acreditar que cada membro irá se comportar cooperativamente. É a base de um conceito que costumamos chamar de confiança. Se todos tiverem a certeza que todos cooperam, será muito melhor o desempenho do grupo como um todo. O grande problema é convencer cada um dos componentes do grupo a cooperar mesmo em situações em que a deserção traz o melhor resultado individual imediato.

Em termos de cooperação, entretanto, nada se compara ao que acontece com as formigas. Estes insetos têm uma organização sem hierarquia formal definida, sem mecanismos coercitivos, sem punições ou recompensas e sem estruturas de comando que funciona maravilhosamente bem. Todas as formigas cooperam e colocam a sobrevivência do formigueiro acima de sua própria sobrevivência. Não existe deserção individual entre as elas. Formigas jogam segundo a estratégia do “coopere sempre” há milhões de anos com excelentes resultados. Mas não é isto que acontece entre os humanos, que sempre estão à mercê de uma traição de outra parte. Os seres humanos precisaram desenvolver mecanismos para estimular a cooperação mútua baseado na punição.

Para que a sociedade humana funcione, foi necessário criar o mecanismo do ostracismo, em que o indivíduo não-cooperativo é excluído do grupo. Para que se saiba quem é que não coopera – e, portanto, quem é que deve ser mantido fora do grupo – criou-se um outro mecanismo denominado estigmatização. O estigma é uma marca que o indivíduo condenado ao ostracismo carrega para ser facilmente identificado. No Oriente Médio, a amputação das mãos é um mecanismo usado até hoje para estigmatizar um ladrão. Uma pessoa maneta é facilmente reconhecida como uma ladra e, com isto, toda a sociedade sabe que ela não é digna de confiança. Ao contrário das formigas, nós só conseguimos obter a cooperação recíproca na marra. Se nós cooperássemos sempre espontaneamente, não haveria a necessidade de tantos mecanismos punitivos, como leis e contratos.

O maior problema do mecanismo do estigma e do ostracismo é que o indivíduo é impedido de permanecer no grupo por um comportamento passado, mas nada garante que isto se repetiria no futuro. Um caçador pode eventualmente desertar do grupo para caçar o coelho porque sua mulher acabou de parir um bebê e ele não podia prescindir de alimento naquele momento específico. Mas, no futuro, aquele caçador poderia voltar a se comportar cooperativamente e fazer a diferença para a sobrevivência do grupo, coisa que não vai ser possível se ele for estigmatizado e condenado ao ostracismo. O processo de estigmatização faz com que a sociedade dirija somente olhando no retrovisor e não para frente. Parece que temos muito a aprender ainda com as formigas.

Eu penso que você pensa que eu penso…

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 13 outubro, 2008

Este é o 3o artigo que eu publiquei na revista Você S/A. Modéstia à parte, é um bom artigo sobre Teoria dos Jogos:

Eu penso que você pensa que eu penso…

Imagine uma cidadezinha com somente dois postos de gasolina: Posto Alfa e Posto Beta. Ambos vendem gasolina de qualidade idêntica por R$ 2,00 o litro e a compram da distribuidora por R$ 1,50. Supondo que os consumidores agem motivados somente por preço, se o Posto Alfa baixar o preço para R$ 1,99, ele vai conquistar a totalidade do mercado local imediatamente. Iniciada a guerra de preços, o Posto Beta baixaria para R$ 1,98, o que motivaria o Posto Alfa a remarcar seu preço para baixo – e assim sucessivamente, até ambos atingirem um preço próximo de R$ 1,50 onde o lucro tende a zero. Trata-se do mesmo raciocínio do já comentado Dilema do Prisioneiro aplicado à Economia: “Se eu pensar sobre como você pensa sobre minha forma de pensar, eu não devo cooperar”. Eu pressuponho que o outro vai me julgar não cooperativo e antecipo a minha deserção, pois se o outro pensar assim, certamente vai desertar também. Esta é a base do pensamento do matemático John Nash Jr. em seu trabalho sobre a Teoria dos Jogos (“O Problema da Barganha”, Princeton – 1950).

O mesmo acontece com outro jogo com um Dilema do Prisioneiro embutido: o “Leilão de Dólar”. Como no Dilema do Lobo (leia o artigo anterior ), o Leilão de Dólar é jogado entre participantes que não têm possibilidade de comunicação entre si. Uma nota de um dólar é leiloada. Quem der o maior lance leva a nota. A diferença é que o segundo colocado também tem que pagar o lance – mas nada leva em troca. Por exemplo: se o vencedor ganhar com um lance de US$ 0,20, ele tem um lucro de US$ 0,80. O segundo colocado que deu um lance de US$ 0,19 somente paga os US$ 0,19 e fim. A banca então recebe US$ 0,39 e paga US$ 1,00. Iniciado o jogo, o primeiro participante tem a perspectiva de alto lucro – coisa que desperta a cobiça de outro participante. Rompida a barreira de US$ 0,50, a banca começa a lucrar e, a partir de US$ 1,00, o jogo fica totalmente irracional. Martin Shubik, o eminente matemático de Yale e estudioso de Teoria dos Jogos que concebeu o jogo em 1971 relatou que, em média, a nota era arrematada por US$3,40.

O Leilão de Dólar é um jogo com aplicações práticas inimagináveis. Por exemplo: as emissoras de TV o utilizam para dimensionar o tamanho dos trechos nas exibições de filmes. Fazendo com que o primeiro trecho seja maior, elas induzem o telespectador a entrar no Leilão e, uma vez dentro, os trechos ficam cada vez menores – e os intervalos mais longos. Mas, neste momento, o telespectador tem muita dificuldade em desistir: ele já passou do “limite de US$1,00”. Raciocínio semelhante faz com que pessoas se mantenham anos a fio em empregos ruins ou casamentos falidos. O mantra “eu investi demais para desistir” é repetido à exaustão. Dilema parecido foi enfrentado na construção do Concorde, quando França e Inglaterra viram que o projeto era inviável economicamente, mas mesmo assim decidiram ir até o fim – justamente por já terem investido demais. No fim das contas, o Leilão de Dólar também trata de cooperação e deserção e o resultado final é tão catastrófico quanto o que acontece no Dilema do Prisioneiro.

Acontece que tanto o Dilema do Prisioneiro ou do Lobo quanto o Leilão de Dólar são jogos únicos, de uma só rodada. Se os jogadores jogarem várias partidas em seqüência, a deserção tende a diminuir, até desaparecer. Um Leilão de Dólar jogado várias vezes tenderia a um acordo entre os jogadores para a divisão dos lucros: um dos jogadores daria um lance de US$ 0,01 que não seria superado e dividiriam-se os US$ 0,99 de lucro. O mesmo aconteceria no exemplo dos postos de gasolina – daí a grande dificuldade em evitar a formação de cartéis. A cooperação em jogos com muitas rodadas é um ótimo negócio. Existe uma grande tendência das pessoas construírem sua reputação cooperativa e, com isto, obterem vantagens reais (financeiras ou não) com isto.

A reputação cooperativa talvez seja o maior bem que uma pessoa possa ter. Não por acaso, a maior parte das pessoas tende a reforçar esta característica. Você se lembra da questão do engarrafamento abordada no último artigo? Quanto mais provável a pessoa ser reconhecida, menor a chance dela tomar uma atitude não cooperativa (no caso, andar pelo acostamento). Mesmo sabendo que nunca será identificada, a maior parte das pessoas tende a não se mostrar desertora (ou não cooperativa). Afinal de contas, o risco de manchar a reputação é gigantesco; e as conseqüências, desastrosas. O oposto disto está acontecendo no Oriente Médio, aonde atitudes cada vez menos cooperativas de parte a parte vêm sendo praticadas. São dois jogadores praticando a estratégia “deserte sempre”: tanto palestinos quanto judeus jamais agem cooperativamente um com o outro e o resultado é um impasse muito difícil de ser superado.

Se a estratégia “deserte sempre” não é a melhor, também a “coopere sempre” é perigosa. O cooperador incondicional fica excessivamente vulnerável a oportunistas e seu desempenho tende a ser medíocre. Observando o comportamento de animais sociais, como chimpanzés, golfinhos e morcegos hematófagos, percebeu-se que a estratégia mais comum era a mesma praticada pelos humanos: o “olho-por-olho”. Reagindo cooperativamente a uma cooperação e punindo a deserção com outra deserção, o “olho-por-olho” tende a ter um bom desempenho. Todavia, um jogador de “olho por olho” perde para um jogador de “deserte sempre”. A única solução para anular o jogador de “deserte sempre” é o ostracismo: excluir o desertor contumaz do jogo.

No próximo artigo exploraremos outras estratégias de jogo e suas correlações com o observado no comportamento animal. A interação entre a Teoria dos Jogos e a Etologia (ramo da Zoologia que estuda o comportamento animal) ocorreu em ambas as direções: a Etologia fornecendo novos modelos para a Teoria dos Jogos tanto quanto a Teoria dos Jogos ajudando a entender a Etologia. E ambas disciplinas ajudando a nos entender.

Moedinha No.01

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 6 outubro, 2008

Sabe a “moeda número um” do Tio Patinhas, aquela que ele deixa numa redoma de vidro, e que acha que é sua fonte de sorte? Eu também tenho a minha: o primeiro artigo que eu publiquei na revista Você S/A, no início de 2002 (ele ainda está disponível no site da revista, aqui). Honestamentem eu acho esse artigo muito bom até hoje (isso não acontece comn a maioria dos meus textos), um ótimo artigo para um leitor que nunca ouviu falar da teoria dos jogos começar a entendê-la.

Uma Estratégia Brilhante

Com o sucesso que o filme “Uma Mente Brilhante” está fazendo, a história do matemático John Forbes Nash Jr. se tornou popular. Mas suas idéias ainda não. Muito mais interessante que sua esquizofrenia ou seu casamento, o trabalho de Nash foi tão revolucionário que não foi aceito como tese de doutorado em Princeton em 1950 (ao contrário do que o filme dá a entender) para ser reconhecido com o Nobel em 1994. Na verdade, aquele Nobel foi um reconhecimento da comunidade científica sobre um trabalho desdenhado 44 anos antes.
Nash trabalhou sobre o que ficou conhecido como “Teoria dos Jogos”. Esta teoria foi concebida em 1944 por dois outros matemáticos: Oskar Morgenstern e John von Neumann; este último famoso por ter sido um dos pais da bomba atômica e do computador digital. A “Teoria dos Jogos”, assim como o trabalho de Nash, é extremamente polêmico. Morgenstern e Neumann conceberam uma série de “jogos” onde os “jogadores” se defrontavam com situações em que tinham que realizar escolhas com base na escolha do outro “jogador”. O “jogo” mais famoso ficou conhecido como “O Dilema do Prisioneiro”, uma função matemática que explica a cooperação ou não-cooperação entre os “jogadores”. O que Nash fez foi explicar o ponto de equilíbrio desta cooperação, no que ficou conhecido como “O Equilíbrio de Nash”.
Mas o que o matemático fez de realmente notável foi expandir esses conceitos puramente matemáticos para o mundo das ciências sociais, inicialmente a economia. Da economia, a “Teoria dos Jogos” migrou para a sociologia, a antropologia e ficou especialmente interessante quando chegou à biologia. Hoje em dia, o que existe de mais moderno em direito, administração, psicologia, e uma série de outras disciplinas aplicadas deriva da “Teoria dos Jogos”. E, após o Nobel de Nash, o assunto ganhou tanta importância que hoje norteia importantes correntes acadêmicas de pensamento no mundo.
Na biologia, a “Teoria dos Jogos” encontrou grande receptividade na zoologia em geral e na etologia em particular quando se percebeu que os animais também “jogavam”, em muitos casos de forma análoga ao homem. Neste ponto, houve a mistura de conceitos e disciplinas diversas, o que dificultou a compreensão do todo. Seria a matemática (“Teoria dos Jogos”) explicando o comportamento animal (etologia) que, por sua vez, explicaria o comportamento humano (Sociologia e Antropologia) que levaria a conseqüências no dia-a-dia humano (economia, administração, direito, psicologia, etc.).
Além da complexidade de cada assunto em particular, existe o agravante deles geralmente serem estudados por grupos antagônicos. Os matemáticos pertencem a um grupo diferente dos biólogos e dos cientistas sociais e, freqüentemente, não se compreendem. Fora isto, quando os conceitos evolucionistas de Darwin se incorporam a esta salada, volta à tona a polêmica ética e religiosa com os criacionistas. Somente para ilustrar: segundo uma pesquisa realizada em 2001 pelo instituto Gallup nos EUA, 57% dos norte-americanos não acreditam que o homem é uma evolução dos símios. Note-se que isto decorre do trabalho de Darwin feito no século XIX (1859, para ser preciso). Se Darwin ainda é polêmico hoje em dia, imagine Neumann, Morgenstern e Nash!
Este assunto é extenso, complexo e fascinante. Os desdobramentos dele atingem o que de mais interessante existe nas relações humanas. Na economia, existem exemplos fantásticos, como o tema do Nobel de 2001 sobre informações assimétricas. Em sociologia e antropologia, estudos sobre cupins e formigas levaram à criação da sociobiologia, com conceitos muito interessantes para explicar nosso complexo arranjo social. Estudos sobre símios revelaram um novo conceito psicossocial, o MPI (Male Parental Investment ou, mal traduzindo, Taxa de Investimento Paterno) que explicaria as razões básicas emocionais que levariam uma mulher a se interessar por um homem. No direito e na justiça, inúmeros conceitos de “Teoria dos Jogos” vêm sendo utilizados para a formatação de concorrências públicas mais eficazes e contratos mais justos e aplicáveis, assim como está sendo mais fácil prever a ocorrência de crimes como estupro.
Em administração de empresas, a aplicação da etologia em geral e da “Teoria dos Jogos” em particular oferece um vasto campo de trabalho. Aplicações de conceitos de observação de chimpanzés, por exemplo, nos ensinam muito sobre as estruturas de poder nas relações corporativas. Estudos sobre a repetição contínua do “Dilema do Prisioneiro” por outro lado, levam a conclusões surpreendentes sobre estratégias profissionais de longo prazo. Tudo isto leva à criação de estratégias empresariais verdadeiramente brilhantes, onde a grande vantagem é a aderência à mecânica comportamental do ser humano.
Hoje em dia, governos e empresas têm utilizado a “Teoria dos Jogos” para suas estratégias micro-econômicas. Basicamente, sempre que a sua decisão é interdependente e simultânea em relação à decisão do outro, estes conceitos podem ser aplicados. Um bom exemplo são as estratégias mais ou menos protecionistas que os governos adotam no comércio internacional, onde o objetivo é maximizar o rendimento total variando o grau de cooperação entre países em função da reação do restante do mundo relacionada à sua própria decisão.
Simplificando a “Teoria dos Jogos”, o que se pretende é responder à pergunta: “O que é mais vantajoso para mim, tendo em mente que a minha decisão vai implicar em uma reação da(s) outra(s) parte(s): cooperar ou desertar?” A resposta a esta pergunta leva a desdobramentos espetaculares, onde a melhor estratégia nem sempre é o que parece ser. Exatamente aí é que está o brilho desta estratégia. Brilho nem sempre percebido, diga-se.