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Quem sabe sabe*

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 15 outubro, 2008

Não voto em São Paulo (cidade), mas votaria no Kassab se pudesse, só para premiá-lo pela implantação da Lei Cidade Limpa, a melhor coisa que o poder público poderia ter feito para os comerciantes paulistanos. Para quem não sabe, a Lei Cidade Limpa tornou ilegal todo tipo de outdoor, restringindo as placas dos estabelecimentos comerciais a pequenos retângulos. E, ainda por cima, é um dos melhores exemplos para explicar o mecanismo econômico conhecido como “tragédia dos comuns”, o centro do argumento do artigo abaixo, publicado na revista Você S/A em 2002 (muito antes da lei, por sinal).

Quem se lembra do que ocorria em São Paulo antes da lei vai entender rapidamente onde quero chegar. Para um dado comerciante – por exemplo: uma sapataria na rua Padre Antonio, a principal do Brooklin –, a melhor decisão racional era a de ter uma placa um pouco mais chamativa que a da loja ao lado, pois isso deveria atrair mais consumidores daquele lugar. Entretanto, para o vizinho deste comerciante, aplica-se o mesmo raciocínio, o que significa que esse empreendedor também deverá procurar ter uma fachada mais chamativa; mesma coisa com todos os outros comerciantes de sapatos da rua Padre Antonio. No fim das contas, todos os vendedores de sapatos daquela rua têm que ter as maiores e mais escandalosas placas possíveis, não porque estas sejam muito eficientes em termos de marketing, mas porque o vizinho adota a mesma estratégia.

Quando a prefeitura limitou a publicidade imobiliária, todos os comerciantes voltaram à mesma condição de equilíbrio, só que gastando uma fração do que gastavam anteriormente. Interessante notar que os empresários paulistanos, em sua maioria, criticaram a lei, alegando prejuízos e prevendo queda nas vendas, quando foi exatamente o contrário o que ocorreu. O pulso firme do prefeito, fazendo com que a lei fosse cumprida à risca (até o Fórum Federal da avenida Paulista foi multado!), mesmo representando uma queda significativa na sua popularidade, é algo que deve ser premiado.

*Quem sabe sabe/ canta comigo/ federal é Kassab/ estadual é Rodrigo

Refrão do jingle de campanhas passadas do atual prefeito de S.Paulo.

(O Rodrigo em questão é o deputado estadual Rodrigo Garcia).

A (des)vantagem do egoísmo

Imagine que você saiu para jantar com o pessoal do escritório, todas as 100 pessoas do seu departamento. Você está numa fase complicada de dinheiro, mas… Como a conta vai ser dividida por igual, por que não pedir lagosta? Se todo o resto do departamento pedir filé com fritas que custa 10 reais e você pedir a lagosta de 40 reais, todos pagarão R$10,30. Sua vantagem então será de R$29,70, contra um acréscimo de módicos R$0,30 para cada um dos outros colegas. Genial, não? Sim, se não fosse pelo fato de todos os outros pensarem de maneira análoga e todo mundo pedir os pratos mais caros do cardápio – até quem realmente gostaria de comer um simples filé com fritas pediria um prato caro para não ficar em desvantagem frente aos demais. No final, todo mundo vai pagar uma conta salgada. O que aconteceu nesse jantar hipotético ficou conhecido como a Tragédia dos Comuns, uma outra aplicação da Teoria dos Jogos.
A Tragédia dos Comuns é uma espécie de Dilema do Prisioneiro com um grande número de participantes. A deserção de cada indivíduo em particular afeta muito pouco o restante da coletividade, mas traz grandes vantagens para o desertor. Mas é justamente aí que está o problema: como cada um pensa que sua própria deserção tem pouco significado, todo mundo tende a desertar, o que faz com que a massa de pessoas desertando influencie significativamente o resultado de todo o grupo. No fim das contas, acontece o equilíbrio do sistema na situação em que todos desertam, de forma muito semelhante ao Dilema do Prisioneiro.
Na verdade, a Tragédia dos Comuns é um fenômeno percebido e estudado muito antes do aparecimento da Teoria dos Jogos. Na Europa da Idade Média, havia muita terra sem um dono específico, onde os pastores podiam criar seu rebanho livremente. Seria vantajoso para cada pastor sempre aumentar uma cabeça de gado no seu plantel. Acontece que, se todos agissem assim, em pouco tempo o pasto comum estaria superpovoado e todos sairiam prejudicados. Na Inglaterra medieval existiam leis para regular a quantidade de cabeças que cada pastor poderia cuidar nas propriedades comuns justamente para evitar que a coletividade saísse perdendo.
Hoje em dia, podemos perceber várias Tragédias dos Comuns acontecendo à nossa volta. Um bom exemplo pode ser visto no trânsito das grandes cidades. Repare nos automóveis na rua: a grande maioria deles tem um único ocupante. Todos sabem que o trânsito poderia ser muito melhor se as pessoas se organizassem de modo a andar com três ou quatro pessoas por carro. Mas, por outro lado, também existe a sensação de que “não é o meu carro que está fazendo com que o trânsito fique tão engarrafado”. Pois é, a culpa é sempre dos outros…
Para evitar a tragédia dos comuns, existem duas opções: ou o Estado cria mecanismos legais para coibir determinadas práticas – como acontecia na Inglaterra da Idade Média; ou a própria comunidade cria mecanismos de autodefesa. Cada vez mais, a segunda opção tem sido utilizada. Os “Gérsons” não são exclusividade brasileira e o mundo todo tem adotado práticas auto-reguladoras. Em um mundo com recursos naturais cada vez mais escassos, mecanismos anti-Tragédia dos Comuns têm sido particularmente necessários para impedir que nós destruamos o planeta. O Protocolo de Kyoto é, no fundo, um mecanismo criado para evitar uma Tragédia dos Comuns ambiental. A não adesão dos Estados Unidos ao Protocolo seria equivalente à pessoa que pede lagosta no restaurante quando todos pedem filé com fritas – com o fator agravante do peso da deserção americana ser desproporcionalmente grande. Seria muito diferente se, por exemplo, o Uruguai não aderisse ao Protocolo.
Segundo os estudiosos das estratégias utilizadas em Teoria dos Jogos, a única forma de derrotar um jogador que adote a estratégia do “deserte sempre” é o ostracismo: não jogar com quem adota este tipo de estratégia. Mas como condenar o país mais rico e influente do planeta ao ostracismo? Isto é impossível e os Estados Unidos sabem disto. Justamente por isto que eles adotam a postura do “deserte sempre”. É uma decisão racional dos Estados Unidos. Não é justa, mas é racional. A propósito: se alguém lhe disse que o mundo é justo, sinto muito, mas você foi enganado.

Uma resposta

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  1. raul marinho | aqui tem coisa said, on 8 abril, 2009 at 12:30 pm

    […] o comentário do Raul Marinho ao meu post sobre sustentabilidade aí em baixo. Em seu blog, Raul publica este texto, abordando aspectos presentes no meu post, que reproduzo […]


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