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Lendas darwinistas

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 9 março, 2009

darwin

Incrível como a Teoria da Evolução é mal compreendida, mesmo por quem a aceita. Uma das principais confusões que se faz é sobre o próprio significado da palavra “evolução”, entendida no senso comum como avanço, melhoria, como na charge acima (publicada no blog do Noblat), que trata do caso do aborto da menina de 9 anos que fora estuprada pelo padrasto. Nela, o chargista tentou fazer uma crítica à Igreja Católica, que teria sido retrógrada (não evoluída) ao condenar à excomunhão os envolvidos no aborto, mas poupado o próprio estuprador.

Eu mesmo achei a posição da Igreja retrógrada, como se pode ver nesse post. O problema é que a palavra evolução, quando colocada na boca de Charles Darwin, não significa a mesma coisa que evolução no senso comum. As espécies não evoluem para ficarem melhores ou mais avançadas, a evolução darwinista é sobre a sobrevivência diferencial dos indivíduos mais adaptados ao meio em uma determinada população, mesmo que isso signifique retrocesso. Por exemplo: determinados peixes deixam de ter olhos funcionais ao evoluírem para sobreviver em profundidades marinhas abissais, e não se pode dizer que peixes cegos são mais avançados que peixes que enxergam, se tomarmos a palavra evolução no seu senso comum.

Outro equívoco da charge é insinuar que o ser humano seria a espécie mais evoluída do planeta. Nós não somos mais evoluídos que uma formiga, uma samambaia ou uma bactéria modernas: nós somos tão evoluídos quanto estas espécies. O fato de termos mais capacidade cognitiva ou desenvolvermos tecnologia e cultura nos faz mais evoluídos no senso comum, mas não no sentido darwinista do termo. Nós somos tão adaptados a sobreviver no meio ambiente quanto qualquer outra espécie viva, e mesmo em relação às espécies extintas, também seria incorreto dizermos que alguma é mais ou menos evoluída, já que estas eram adaptadas no meio ambiente delas.

De qualquer maneira, no mesmo blog do Noblat, também é possível encontrar um exemplo de autor “leigo” (não biólogo) que entende, de fato, o que significa evolução no sentido darwinista. Vale a pena ler esse artigo, do Luís Fernando Veríssimo, para ver um exemplo de bom texto sobre darwinismo.

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Mulher objeto

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 17 fevereiro, 2009

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Sabe aquele chavão feminista dos anos 1960, de acusar os homens de achar que as mulheres são meros objetos inanimados? Pois então, parece que não estava tão errado assim. Veja a reportagem abaixo, publicada hoje na Folha de S.Paulo pelo Eduardo Geraque:

Mulher de biquíni é objeto para o cérebro masculino

Experimento de psicóloga americana revela estrutura de pensamento machista

Imagem cerebral indica que homem “desliga” função de autocontrole ao ver mulher sensual, sobretudo quando ela não mostra seu rosto

Os homens podem não dizer isso explicitamente, mas há ocasiões em que todos tendem a pensar nas mulheres como objetos -principalmente quando elas estão de biquíni e não mostram o rosto. É isso o que acaba de mostrar um experimento realizado nos Estados Unidos com 21 homens heterossexuais estudantes de pós-graduação, apresentado em Chicago, na reunião anual da AAAS (Sociedade Americana para o Avanço da Ciência).
Talvez seja esse o efeito que explica sucesso que dançarinas mascaradas -como as personagens Tiazinha e Feiticeira- costumam ter na televisão brasileira. O experimento usou máquinas de ressonância magnética para mostrar que os circuitos cerebrais ativados nos homens durante a observação de um corpo feminino sensual desprovido de identidade são os mesmos que os permitem de reconhecer uma ferramenta, um objeto inanimado.

“Tecnicamente, podemos usar uma espécie de eufemismo neurológico e dizer que o homem não tem essa atitude de uma forma premeditada. É algo que ele não racionaliza”, afirma Susan Fiske, professora de Psicologia da Universidade de Princeton, uma das mentoras do experimento. Ela mostrou que o córtex pré-motor dos homens -uma das partes do cérebro mais envolvidas no reconhecimento- foi a área cerebral mais ativada nos voluntários que observavam fotografias de um colo feminino.
Essa parte do cérebro também é acionada quando é feita uma interpretação mecânica de uma imagem -em oposição a interpretações sociais.
Questionada pela Folha sobre o possível viés cultural que o estudo possa ter -só americanos participaram do experimento- Fiske disse não crer que o resultado mudaria se o experimento fosse feito em países, como o Brasil, onde mulheres de biquíni são comuns.

Fiske selecionou seus voluntários após aplicar um questionário a todos. Eles também precisaram passar por análises neurológicas. Só então os participantes puderam ser submetidos ao teste dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional, que registra as atividades cerebrais.

Praia ou escritório
No total do teste, cada participante ficou diante de 160 imagens. Elas eram de mulheres e de homens. Nos dois casos, foram apresentadas durante o experimento fotos com roupas de trabalho e também em trajes de banho. Imagens de rostos humanos, para medir a capacidade de reconhecimento de cada participante do teste, também foram exibidas.

Basicamente, a intenção era medir o grau de bem-estar dos voluntários após terem visto imagens de mulheres e de homens, tanto com o corpo exposto quanto coberto com roupas de trabalho. As imagens não eram pornográficas nem eróticas, disse Fiske. Os registros foram tabulados por meio de análises estatísticas de uso corrente por psicólogos.
De acordo com a pesquisadora americana, os seus resultados apresentados agora têm algumas implicações práticas. “Um dos desdobramentos pode ser o fato de que um patrão, por exemplo, pode beneficiar certas companheiras de trabalho em detrimento dos demais funcionários da empresa, dependendo de como ele idealiza aquele corpo”, diz a psicóloga.
Susan Fiske afirma que seus resultados também indicam que atitudes machistas de intimidação estão relacionadas com uma menor ativação de uma área do cérebro estudada por ela e envolvida na racionalização do pensamento, o córtex pré-frontal médio. “O sexismo hostil prediz uma menor ativação do córtex pré-frontal médio”, afirma a pesquisadora.

Smurfs medicinais

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 9 dezembro, 2008

De acordo com o psicólogo Gary Marcus, da Universidade de Nova York, assistir a um episódio dos Smurfs, como o acima, faria com que sua mente trabalhasse de maneira mais otimista. Essa e outras conclusões surpreendentes sobre a evolução e o funcionamento da mente humana estão nessa excelente matéria (que inclui uma entrevista com Dr. Marcus) publicada pelo Rafael Garcia na Folha OnLine. Vale a pena ler.

I’m not dog no

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, teoria da evolução, teoria dos jogos by Raul Marinho on 9 dezembro, 2008

waldick

Deu na Folha de hoje:

Cães entendem injustiça e sentem inveja, diz estudo

Experimento atribui aos cães habilidade que só tinha sido vista em primatas

Austríacos descrevem em revista científica teste que comparou 29 animais que haviam sido treinados para “dar a patinha” a estranhos

Friederike Range

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Quem tem mais de um cachorro sabe o óbvio: que na hora de dar um biscoito ou um osso, todos têm que ter o seu próprio. Mas o “óbvio” do dono de um animal doméstico não é o mesmo da ciência. Foi preciso uma equipe de pesquisadores na Áustria testar se existe “inveja” entre cães para deixar claro que isso não só existe, como faz parte de um mecanismo biológico vinculado à evolução da cooperação em indivíduos de uma mesma espécie.
Testados, os cães deixaram claro que possuem uma natural “aversão à iniqüidade”, e que fazem “greve” se não forem tratados do mesmo modo como seus semelhantes, algo já descoberto em macacos.
O estudo, liderado por Friederike Range, da Universidade de Viena (Áustria), está na edição de hoje da revista “PNAS”.
Os experimentos parecem mais adestramento canino doméstico do que algo associado a um laboratório universitário. Foram testados 29 cães capazes de “dar a patinha”. Os cachorros selecionados eram já adestrados nesse comando com seus donos, mas o teste envolvia “dar a patinha” para um experimentador desconhecido, acompanhados pelo dono e por um outro cachorro logo ao lado.
Leve-se em conta que são cachorros austríacos, acostumados à dieta local. Ao obedecer ao comando, o cachorro poderia receber uma recompensa boa -um pedaço de salsicha-, ou uma nem tanto -um pedaço de pão preto. Pior, poderiam não receber nada pelo “trabalho” de dar a pata.
Os testes foram planejados de modo a excluir interpretações alternativas. Os cães foram testados, por exemplo, sem receber recompensa; ou sem o cão parceiro; ou com ambos recebendo o prêmio.
“Cães têm uma forma de ciúme, e todo dono de mais de um cão sabe que se faz carinho em um, o outro vem pedir”, diz Cesar Ades, especialista em comportamento animal do Instituto de Psicologia da USP, que elogia o experimento. “É um trabalho cuidadoso, eles mostram a recompensa ao cachorro, feita com vários controles. Se um recebe e o outro não, ele pára de dar a pata até antes daquele que não recebe recompensa sem contato social.”
Ao contrário dos experimentos com chimpanzés, os cães não davam importância à qualidade da recompensa (salsicha ou pão preto). Já os macacos eram mais discriminantes quanto ao tipo de recompensas que ganhavam. Os cães também sempre comiam o que recebiam; os macacos podiam rejeitar a comida se achavam que estavam sendo injustamente tratados. Só não há explicação clara no estudo para o fato de um cão não fazer distinção entre salsicha e pão, diz Ades.
Experimentos anteriores mostraram que os cães cansam da brincadeira e param de dar a pata depois de 15 a 20 vezes sem receber nenhuma recompensa. O resultado do novo teste foi o que os donos de cães poderiam prever: animais sem prêmio pelo mesmo “trabalho” do colega ao lado logo pararam de “cumprimentar” o experimentador, e mostravam sinais de “indignação” – ficavam se coçando, bocejando, lambendo a boca ou desviando o olhar.

(Na foto acima, uma homenagem póstuma ao precursor da etologia canina comparada – por mais que ele nunca tenha sabido o significado do termo.)

Como ter sorte nos negócios – parte III

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A Teoria dos Jogos é uma ferramenta matemática tão importante quanto a Estatística na tomada de decisões econômicas, ou seja: ajuda à beça, mas não resolve. Em relação à taxa de sucesso de um agente econômico – seja ele um empresário, um executivo, um profissional liberal, um artista, um atleta profissional ou qualquer outro jogador de mercados de tudo ou nada -, é a sorte o que faz diferença mesmo. Mas, digamos que você possa utilizar dados (cubos tradicionais, seqüenciados de 1 a 6*) descompensados (“crooked dices”, vide foto acima), mais propensos a dar 6 ou 5 do que 2 ou 1. Numa série muito extensa de jogadas, os pontos que você obtiver deverão ser superiores aos pontos obtidos pelos jogadores que jogam com dados honestos, é evidente: em 100 rodadas, a maioria deverá ter algo próximo aos 300 pontos no placar, e você talvez tenha 500. De qualquer maneira, não seria tão espantoso se você, que joga com dados viciados – tendenciosos a dar 5 ou 6 -, estiver atrás, já que também há incidência de 1s, 2s, 3s, e 4s, só que em menor grau. Em outras palavras: na 3ª. Rodada, não seria algo tão esquisito se o jogador com dados viciados estiver atrás do jogador com dados honestos. Se você tiver ferramentas para aferir qual a tendência dos dados de quem joga contra você, você tem como antecipar para que lado o cara vai sair numa interação econômica: se vai cooperar ou trair. Na prática, essa é a única forma de aumentar a sua sorte.

(Na figura abaixo, um dado sendo calibrado mecanicamente)

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Nma decisão de crédito, por exemplo: “se eu sou padeiro, devo emprestar dinheiro ao meu freguês (abrir uma conta para o cliente pendurar e pagar por mês?)”? Para uma linha de crédito de R$30/mês, não há análise de crédito cujo custo faça sentido para um padeiro fazer. O padeiro pode conceder ou não conceder crédito, mas a decisão sempre vai ser adversa: não há nenhuma certeza de que o freguês pagará em dia. Mas se o padeiro souber que você vai se mudar para a Austrália na semana que vem, pode ser que ele estranhe a sua mulher fazer uma compra maior que a média na padaria hoje. “Por que Prosecco, pacotes de cigarro, whisky – só itens de alto valor?” – poderia pensar o comerciante. Será que vocês estão comemorando a mudança, ou estocando coisas para não pagar? Vocês estão se mudando para outro país porque apareceu uma oportunidade profissional incrível, ou porque seu nome está no SERASA?

O padeiro não precisa estudar em Harvard para descobrir que é preciso tomar cuidado com crédito quando um cliente está se mudando para muito longe. Talvez haja um ditado popular na sua cultura, talvez um vizinho tenha comentado sobre um caso semelhante alguns anos atrás, e certamente não foi por conhecimento em Teoria dos Jogos que o padeiro achará uma boa idéia pedir para a freguesa (que jaz no caixa com uma garrafa de espumante) que liquide sua fatura com a padaria. É o velho e bom modelo do “dilema dos prisioneiros em jogos repetidos”, já tantas vezes citado aqui (pesquise esse termo na caixa ao lado para você ver). Existem outros modelos, porém, bem mais sutis – na verdade, a diferença estatística sempre é muito pequena. Por exemplo: por que o relacionamento com os filhos do irmão tende a ser diferente do que existe para com os filhos da irmã? Falaremos mais sobre eles no próximo artigo desta série.

Obs*: Se, com “cubos tradicionais, seqüenciados de 1 a 6”, o resultado é surpreendente, imagine com um cubo como o dado de apostas do gamão, seqüenciado em pg (2, 4, 8, … , 64)!?

Vale a pena consultar o verbete “dado” na wiki. Clique aqui para a versão em português e aqui para a original em inglês.

Partes I e II desta série.

Como ter sorte nos negócios – parte II

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 12 novembro, 2008

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Um bom jogdor de gamão consegue, nos enfrentamentos contra um jogador meia-boca, uma vantagem mínima, de cerca de 5-8%. Por exemplo: um sujeito que lê livros sobre estratégias em gamão, pratica com outros ótimos jogadores, e está acostumado aos torneios em cassinos que pagam dezenas de milhares de euros aos mais bem colocados, se jogasse 100 partidas de um ponto contra mim, ganharia por volta de 55-58 delas , e eu 42-45. O que é bem diferente do xadrez: um profissional internacional versus um jogador de fim-de-semana certamente apresentaria um placar de 100 x 0 – um Khasparov ganharia todas as partidas contra o melhor enxadrista de Rio Preto. Por outro lado, mesmo ganhando pouco mais de 40% das vezes, se as partidas forem de muitos pontos (p.ex.: 7 pontos), eu posso ganhar do melhor jogador do mundo se esta partida estiver valendo 8 pontos – aposta dobrada duas vezes em p.g. (vide post anterior dessa série).

Na prática, isso quer dizer que, mais importante que (ou, no mínimo, tão importante quanto) saber jogar, é crucial dominar a técnica de apostar. Se, quando você perder, perder 1 ou 2 pontos, mas quando ganhar, ganhar 8 ou 16, você terá uma altíssima vantagem em jogos de muitos pontos. Se forem jogos infinitos (em que o que importa é a diferença de pontos entre os jogadores, que são convertidos em algum valor monetário pré-combinado), melhor ainda. Uma partida pode ser redobrada ad infinitum, e como é p.g., logo logo os jogadores estão apostando 256, 512, 1.024… pontos – que, se for um jogo de míseros R$10/ponto, resulta em ganhos de mais de R$10mil (muito dinheiro mesmo para um cara rico que esteja jogando em um lugar sofisticado, que vai pagar ou receber do adversário mais de 50 vezes o valor de sua conta no bar).

No curto período em que joguei futebol (no dente-de-leite do Monte Líbano, de Rio Preto, como beque direito), tive um treinador, o Joãozinho, que tinha uma receita infalível para o batedor de pênaltis: “bata forte, colocado, na forquilha do lado em que o goleiro não está”. Ok, Joãozinho, quero ver você ganhar uma aposta alta num jogo de gamão contra um jogador esperto e experiente. Ganhar no atacado e perder no varejo é o santo graal de qualquer jogador de gamão, e seguindo os conselhos do meu ex-técnico, a primeira coisa a fazer é saber para que lado o goleiro vai: qual será a estratégia do outro jogador. Em outras palavras: você precisa pensar no que o outro pensa, inclusive sobre você mesmo. Existe uma técnica racional para isso, chamada teoria dos jogos.

Os modelos da teoria dos jogos, entretanto, são muito difíceis de se trabalhar, especialmente para alguém com pouca facilidade com ferramentas matemáticas. Considerando que 99% das pessoas que necessitam antecipar o movimento do oponente no mundo dos negócios são pessoas que não resolvem equações trigionométricas como passatempo (o que é especialmente verdadeiro para os advogados), é muito mais eficiente conhecer os modelos mais importantes de aplicações da treoria dos jogos ao comportamento humano do que conhecer toda a teoria dos jogos. Mesmo porque, para a maior parte das necessidades
do dia-a-dia das predições comportamentais, não é preciso calcular precisamente os resultados,  basta simplesmente saber como a coisa funciona. É desse ponto que iremos partir no próximo post dessa série.

(Obs.: O jogo ilustrado acima é um jogo de Go. Não confundir com o jogo de gamão, ilustrado na foto abaixo)

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Lula & preconceito

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 30 outubro, 2008

Raramente escrevo artigos históricos, mas este aqui é uma exceção, publicado na Você S/A logo antes do Lula tomar posse em seu primeiro mandato:

O preconceito do preconceito

Pela primeira vez na história, temos um presidente de origem popular. Lula é nordestino, sem formação acadêmica e portador de uma mutilação física. Se FHC diz ter um “pé na cozinha”, Lula tem os dois na senzala. Com todos estes atributos, Lula é igual à maioria dos presidiários, bóias-frias, porteiros de prédio e pedreiros do país. Em outras palavras: temos um Presidente da República que teria problemas para entrar em um restaurante fino de São Paulo – não fosse ele, obviamente, o morador do Palácio da Alvorada. Acredito que chegou a hora de encararmos de frente o preconceito e a discriminação que fingimos não ter. Temos, sim. Todos nós. Segundo a Biologia Evolutiva, o ser humano é um animal preconceituoso e discriminatório por natureza. Essas características foram essenciais para nossa evolução e são impossíveis de serem extirpadas, a não ser que se desenvolva uma técnica de cirurgia genética.

Existe uma antiga anedota sobre o namoro da Xuxa com o Pelé. A então jovem modelo chegou em casa e falou que estava namorando um negro. O pai, escandalizado, arrancou os cabelos por isto; sua mãe quase desmaiou. Mas quando a Xuxa disse que o negro era o Pelé, seu pai disse: “Ah, filha! Mas o Pelé não é tão negro assim!”. Da mesma forma, a maioria dos eleitores brancos e educados do sudeste que votaram no Lula provavelmente não o consideram tão nordestino, retirante e iletrado assim. Daí a grande idéia do seu marketeiro de vendê-lo como “Lula Light” ou “Lulinha Paz e Amor”. A mensagem subliminar para a classe média é a de que o Lula é ex-nordestino, ex-operário, ex-iletrado. Ou, visto por outro ângulo, o Lula agora é “um dos nossos”.

Vamos entender o preconceito pelo começo. Nossos antepassados não tinham uma vida tranqüila. No início da nossa existência como espécie, os Homo sapiens, agrupados em pequenas comunidades de caçadores-coletores, viviam em guerras tribais. A escassez de alimentos nas estiagens era devastadora e a equação básica da sobrevivência – representada pela quantidade de alimento dividida pela população – só fecharia se o denominador fosse reduzido. Visto de outra forma: se não houvesse guerra e morticínio, todos morreriam de subnutrição. Por outro lado, era preciso identificar claramente os componentes de sua própria tribo. Para que fosse possível saber a que tribo um indivíduo pertencia, era essencial discriminar. E nós desenvolvemos habilidades específicas de reconhecimento através das características físicas, como a cor da pele, por exemplo.

Como o traço comportamental de cooperar com quem é da mesma tribo e desertar com quem for da tribo vizinha trouxe vantagens evolutivas para nossos ancestrais, este comportamento se perpetuou na nossa espécie. Todos nós sempre discriminamos toda pessoa que vemos pela frente. Isto é tão natural quanto nossa boca salivar ao sentir cheiro de churrasco. Sempre que somos apresentados a alguém, nosso cérebro trabalha freneticamente para enquadrar esta pessoa em algum estereótipo que nos faça sentido. Uma grande gama de informações é checada em poucos segundos: da cor da pele ao formato do nariz; do sotaque à construção gramatical; dos gestos à vestimenta, nada escapa ao cérebro humano, construído e treinado para discriminar.

Devido a isto, nossa espécie tende a achar que todos que são diferentes de seu grupo étnico são, a princípio, inimigos. Este comportamento fazia sentido há 50.000 anos – na verdade, era determinante para a sobrevivência. Mas na sociedade moderna, este mesmo comportamento leva a distorções gravíssimas. Sobram exemplos do lado perverso do comportamento discriminatório. Os alemães da década de 30 achavam que os culpados de tudo eram os judeus. Muitos sulistas do Brasil acham que os culpados pelo desemprego e pela violência são os nordestinos. A maioria dos judeus israelita acha que os palestinos são uma praga a ser dizimada. Os brancos sul-africanos achavam que os negros nativos eram uma sub-raça, e assim por diante. Por ironia, a espécie humana é uma das que apresenta menor variação genética entre as espécies animais. Em essência, é um erro pensar que nós nos dividimos entre negros, pardos, brancos ou amarelos. O ser humano é uma raça única.

Na sociedade atual, organizada em supertribos multi-étnicas, o traço comportamental discriminatório ainda faz sentido em determinadas situações. Se, por uma mutação genética, alguém nascesse sem este traço comportamental, provavelmente esta pessoa teria problemas sérios. Um bom exemplo seria se esta pessoa estivesse andando pela rua de madrugada e encontrasse com uma gang de trombadinhas. Uma pessoa desprovida do sentimento discriminatório não saberia que seria assaltada ou agredida, ao passo que uma pessoa normal fugiria ou se esconderia do perigo. Mas o lado perverso da discriminação também existe e, apesar de “natural”, deve ser combatido. Com a eleição do Lula, acho que demos um passo importante para diminuir o preconceito, pois agora temos uma referência clara de que quem é pobre, nordestino e fala errado também pode chegar lá!

A União Faz a Força?

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 30 outubro, 2008

O artigo abaixo, publicado originalmente no administradores.com, foi escrito para o projeto da Diretoria de Redes colaborativas do Banco ABN-Amro/Real (atual Santander). Voltaremos ao assunto em breve.

A UNIÃO FAZ A FORÇA OU É A FORÇA QUE FAZ A UNIÃO?
Como ocorre o sucesso evolutivo das empresas por meio de estruturas associativas
Se existem muitas maneiras de estar vivo, existem muito mais possibilidades de morrer. Essa é a cruel lógica da evolução: as chances de uma nova espécie prosperar são infinitamente menores das dela ser extinta, tanto é que 99% das espécies que surgiram na Terra já sucumbiram. Entretanto, a luta pela sobrevivência tem um efeito positivo: aqueles que sobrevivem são absurdamente adaptados à vida; todas as espécies que restaram são exemplos de experiências de sucesso evolutivo. Todos os ancestrais dos cães, gafanhotos ou andorinhas atuais são indivíduos que, no mínimo, conseguiram sobreviver até a idade reprodutiva. Nenhum ancestral nosso morreu jovem, ou foi fracassado sexualmente. Nós – e todas as espécies modernas – somo herdeiros de linhagens de sucesso. Essa é a lógica do darwinismo: os mais adaptados ao ambiente prosseguem no jogo; a maioria cai fora antes mesmo de conseguir jogar suas fichas no pano verde.

A grande questão é: quais são as regras do jogo? Como a evolução acontece? A evolução morfológica é razoavelmente simples de entender. Os ancestrais dos animais modernos deixaram pistas claras nos registros fósseis que, confrontados com os indícios sobre as transformações geológicas e climáticas que ocorreram no planeta, indicam que as adaptações foram sensatas para a sobrevivência. Todavia, a coisa se complica um pouco quando se pretende entender como o comportamento evoluiu. Explicar porque descemos das árvores é fácil: mudanças no clima devastaram as florestas, transformando-as em campos abertos – ou seja: não fomos nós que descemos das árvores, foram as árvores que desapareceram debaixo de nossos pés. Resquícios dessa transformação na paisagem são inequívocos, e eles se casam perfeitamente com os esqueletos de primatas que nos antecederam.

Mas entender como o nosso comportamento se modificou até o ponto em que nos tornamos Homo economicus eficientes – ou melhor: empreendedores – é bem mais complicado. Comportamentos, ao contrário de ossos, não fossilizam, e as pistas são bem mais sutis que um crânio de Australopithecus afarensis. As chaves desse entendimento são duas: Economia e Ecologia. Não é por acaso que essas duas palavras comecem por um mesmo prefixo: “eco-”, em grego “oikos”, que significa a casa, a moradia, o lar. Como o sufixo “-nomia” (em grego, “nomos”) significa administração, organização, a “Economia” é sobre como está organizada uma família, ou seja: como os integrantes de um lugar se relacionam em relação aos recursos presentes naquele lugar. Já o sufixo para “Ecologia”, “logia” (em grego, “logos”), é o mesmo onipresente no final das palavras psicologia e arqueologia, e significa “estudo”; ou, nesse contexto, o “estudo da casa”. De acordo com a definição precisa, Ecologia é “o estudo das interações dos seres vivos entre si e com o meio ambiente”.

No fundo, no fundo, Economia e Ecologia são a mesma coisa: elas tratam de como indivíduos jogam o jogo dos recursos escassos, basicamente alimento e sexo. Todo o resto gira em volta disso, mesmo que de maneira indireta. Se a Ecologia se preocupa com os efeitos que os predadores da Amazônia têm sobre a vegetação, uma vez que eles regulam a população dos herbívoros que as come; a Economia está interessada em entender o efeito do aumento de impostos sobre a saúde ou a fome dos brasileiros, uma vez que estas são correlacionadas à renda da população. Mas, na essência, os mecanismos são os mesmos, a lógica é a mesma. O panda está na corda bamba da extinção porque ele não é eficiente economicamente. Ele ocupa um mercado (nicho) restrito, o que significa concentração de riscos. Ele tem somente um fornecedor de alimento, os bambus: se um bambuzal for devastado, adeus pandas. Como o bambu é um produto excessivamente “light”, mesmo comendo o dia todo, os pandas mal conseguem a energia para manter funcionando os órgãos vitais. Isso sem contar com o fato de ser um bicho invocado para se reproduzir; em resumo: sem a ajuda do “BNDES conservacionista”, a Pandas S.A. vai à falência.

Da mesma forma, a “selva dos mundos dos negócios” não é uma mera analogia despretensiosa. “O sapo não pula por boniteza, mas por precisão”, e o rouxinol não canta para nosso deleite: o sapo pula para fugir dos inimigos, e o rouxinol canta para conseguir acasalar. Nossa vida de contas bancárias, notebooks e celulares tem o mesmo sentido da vida de um lobo-guará ou de um gavião: sobreviver e reproduzir. Considerações metafísicas à parte, o fato é que nossos pais tiveram sucesso nas duas coisas, e os pais deles também, assim como os pais dos pais deles, e assim por diante. Com o perdão da filosofia de botequim: o sentido da vida é dar sentido à vida, ou seja: jogar o jogo da evolução – e o jogo é econômico (em todos os sentidos).

A lógica evolutiva é muito semelhante à que se aplica na luta pela sobrevivência empresarial, particularmente num contexto hostil e competitivo como o cenário econômico brasileiro. Nossa batalha é dura, cruel, diária, tão complicada quanto a dos peixes ou dos morcegos – e, no fim das contas, nós buscamos os mesmos prêmios: sobreviver e passar os genes para a frente. E, para isso, precisamos agir. Mas, como? No caso dos humanos, a sobrevivência e a reprodução estão ligadas às habilidades e competências sociais, como as formigas. A diferença é que as formigas se comportam de maneira inequivocamente cooperativa, enquanto que nós cooperamos de maneira seletiva. Entretanto, ambos estão maximizando as mesmas variáveis: o velho binômio sobrevivência e reprodução. Mesmíssima coisa ocorre entre as empresas, abstrações humanas que nada mais são que indivíduos lutando para sobreviver e se reproduzir.

As formigas nunca trapaceiam com suas irmãs porque, para elas, a coletividade – o formigueiro – é muito mais negócio que as comunidades humanas são para nós. Sendo estéreis, a única chance dos genes de uma operária continuarem a existir será se o formigueiro e sua respectiva rainha sobreviverem. Uma formiga não pode pedir demissão de seu formigueiro e procurar emprego nos classificados. Mas nós podemos mudar de emprego, de turma, de parceiros de negócios – eventualmente, até de família. Mesmo que nós tendamos a cooperar mais com quem for mais próximo em termos de parentesco, a cooperação humana também ocorre com quem não é nosso parente sangüineo; nós cooperamos por formas diferentes, mas pelos mesmos motivos: aumentar a eficiência econômica.

Sendo animais ultrassociais, nossa eficiência reside na competência em extrair benefícios do meio ambiente formado, principalmente, por outros humanos. Ou seja: nosso principal fator de sucesso evolutivo são os relacionamentos econômicos. Nós temos uma principal decisão a tomar nas nossas vidas: cooperar ou não cooperar – decisão essa que é tomada de maneira racional e emocional simultaneamente. O principal mecanismo que orienta essa decisão é o da reciprocidade de benefícios ao longo do tempo. Nós, instintivamente, fazemos os cálculos de maior ganho econômico em termos de valor presente o tempo todo, e tomamos nossas decisões baseadas nas planilhas mentais que criamos sem perceber nos nossos cérebros. Da mesma maneira que achamos o gosto do chocolate, um alimento altamente energético, muito melhor que o do capim (sem valor energético algum para nós), nós não damos esmolas a mendigos bem vestidos e não gostamos de receber um calote financeiro. Nossas ações acontecem numa espécie de “piloto automático comportamental”, num mecanismo vulgarmente conhecido por “instinto”.

Ocorre que, além de cooperarmos de acordo com a proximidade parental, e mais do que meras relações de reciprocidade, nós também nos comportamos de uma maneira peculiar quando nos organizamos em grupos: tribos, etnias, times de futebol, paróquias, exércitos, sindicatos, Rotary Clubs, e por aí afora. Uma pessoa – seja um tongolês, um chileno ou um sueco – sempre vai gostar de quem coopera com ela, e dificilmente fará amizades com quem age de maneira diferente. Ou, pelo menos, vai tentar agir assim a maior parte do tempo, o que não significa que ela não possa ser traída vez ou outra. E, evidentemente, quanto maior a sua eficiência em formar relacionamentos mutuamente cooperativos, maior a chance de sobreviver e se reproduzir.

Isso não é muito diferente da organização cooperativas de muitos outros animais, mas os humanos cooperam de maneira peculiar quando em grupos: nestes casos, nós cooperamos sem esperar, necessariamente, a retribuição específica de todos os atos praticados que beneficiam terceiros. Da mesma forma, ocorre idêntico efeito em sentido contrário e, quando integramos um grupo, também recebemos benefícios que não precisamos retribuir. Se você se associa a um clube esportivo, por exemplo, você tenderá a cooperar com os outros associados das mais variadas formas, mesmo quando estes nem tenham como saber que estão sendo beneficiados por você. Isso acontece porque você utilizou a sua planilha mental automática e chegou à conclusão que os benefícios que você obtém por ser sócio do clube também são originários de atitudes benéficas praticadas por pessoas que você nem conhece.

Quando um sócio do clube se empenha em comprar uma bola de basquete nova (mesmo que com os recursos da coletividade), ele vai proporcionar um benefício para todos aqueles que jogam naquela quadra, indistintamente. Isso é um bom negócio para ele próprio, que joga todo final de semana naquele clube, mas também para vários outros e, por essa razão, todos os outros terão interesse que você continue desfrutando dos jogos que ocorrem ali. Isso faz com que a melhor decisão econômica para qualquer sócio do clube seja cooperar indistintamente, independente do benefício ser estendido a quem nem se conheça.

É devido a essa lógica econômica que temos uma forte tendência em sermos amigos dos amigos dos nossos amigos, um fenômeno psicossocial denominado “transitividade”. Comportando-nos dessa forma, nós aumentamos as chances de estabelecer novas conexões sociais, e o segredo do negócio é a densidade do grupo que compomos. Quanto maior a densidade dos relacionamentos em um agrupamento humano – ou seja: quanto mais os sócios de um clube se relacionarem entre si – maior a sua efetividade econômica. Isso é particularmente forte nos agrupamentos cujos benefícios estejam relacionados ao trânsito de informações complexas, como as associações empresariais. Além de favorecer a prática de benefícios de maneira indiscriminada pelo efeito cascata previamente comentado, nesses casos, o custo de transmissão de informações se reduz de maneira dramática.

Se um grupo de empresas enfoca o desenvolvimento de novas tecnologias, por exemplo, não só ocorre um óbvio ganho de escala na obtenção do conhecimento, como também existe um segundo efeito, agora na eficiência da transmissão dessa nova tecnologia. Como os membros de um grupo já estão conectados, as informações fluirão com muito mais facilidade, rapidez e economia. Esta é a lógica que está por trás da tendência que temos em nos associar a grupos de todos os tipos: agir assim é um ótimo negócio, e nossos antepassados evoluíram dessa forma.

Entretanto, existem riscos associados à excessiva densidade do grupo: pode ocorrer seu isolamento, impedindo a entrada de novas idéias. Quando todas as relações dos membros de um grupo se resumem àquelas ocorridas entre eles mesmos, há uma diminuição sensível na obtenção de informações únicas: novas idéias, tecnologias ou conhecimentos que não sejam dominados pelos membros daquele grupo. Talvez, pior do que isso, grupos muito coesos podem levar à perda de competitividade, principalmente quando aquela associação é artificialmente protegida – subsidiada, em outras palavras. Isso, a propósito, foi um fenômeno muito estudado no passado recente do nosso país, que experimentou uma complicada abertura econômica no final do século passado.

Em termos evolutivos (ou empresariais, dá no mesmo), a configuração ótima das estruturas associativas humanas é a seguinte: dentro da associação, uma alta densidade, com todos os membros conectados o máximo possível uns aos outros; e entre as associações, conexões mais esparsas, com algum trânsito de informações que mantenha o fluxo de novas idéias. Esta é a maneira que permite obter os maiores resultados na extração de benefícios do meio-ambiente, qualquer que seja o propósito do agrupamento em questão. Exemplos disso não faltam.

Na Ásia, temos a maior concentração humana do planeta. Muita gente significa muitas oportunidades de agrupamento e, de fato, existe uma profusão de grupos humanos naquele continente como em nenhum outro lugar, desde há muitos séculos. Ocorre que estes grupos humanos, fortemente densos, eram isolados do resto do mundo, por diversos motivos. A China maoísta, por exemplo, era um planeta à parte há até poucas décadas, e não havia trânsito de informações com o resto do mundo. Mas isso começou a mudar: primeiro foi o Japão, que conseguiu sair rapidamente da ruína do pós-guerra para se tornar mega-potência econômica; depois, os tigres asiáticos, como Taiwan e Coréia do Sul. E, a partir de meados da década de 1970, após a morte de Mao, o gigante chinês. O que construiu o sucesso desses países foi a conjugação de associações densamente estabelecidas (condição pré-existente) com novos laços associativos, menos densos, com o resto do mundo.

Na natureza, uma onça pintada do pantanal matogrossense não compete pelos mesmos recursos com um guepardo das savanas africanas. A onça talvez se preocupe com os lobos-guará, mas os guepardos não representam nenhuma ameaça. Estes, por sua vez, competem com hienas e leões, mas sua sobrevivência não tem nada a ver com os ursos canadenses; cada um ocupa um nicho ecológico completamente diferente. O mesmo acontecia com a competição humana há até alguns segundos na escala evolutiva: os Incas, Maias e Astecas não tinham que se preocupar com os egípcios, e esses nem sonhavam com a existência dos aborígenes australianos. Hoje, tudo mudou, o mundo encolheu, e todos disputamos os mesmos recursos – competimos pelos mesmos mercados. Estamos numa mesma selva que os chineses e coreanos, e a competição é de vida ou morte. Como faremos para sobreviver e nos reproduzir nesse novo contexto? A resposta: sendo mais eficientes em termos evolutivos.

Nós somos um país com um passado colonial e escravagista recente. Tanto uma como outra característica são contrárias à formação de estruturas associativas, mas não vai adiantar nada lamentar nossa história. Se os asiáticos venceram as barreiras culturais milenares, e estabeleceram conexões em nível global, por que nós não podemos modificar nossas práticas sociais? O Brasil tem uma infinidade de empreendedores criativos, trabalhadores – enfim, aptos a vencer a competição. Nosso povo é aberto a estabelecer conexões com outros povos, outras culturas, mesmo porque nós somos essencialmente estrangeiros aqui. Só que nos falta habilidade para construir mecanismos associativos entre nossas empresas, nós somos carentes de grupos com conexões fortes e sólidas. E, para piorar, nós temos pouco tempo para mudar isso.

Foi somente no século XX – principalmente após Getúlio Vargas – que nós começamos a montar estruturas associativas formais. Existem hoje uma infinidade de sindicatos, associações comerciais, arranjos produtivos locais (APLs) espalhados pelo país; grande parte, infelizmente, com pouca efetividade. Os empresários ainda são reticentes quanto à cooperação associativa, ou seja: em priorizar seus negócios por meio das estruturas de grupos existentes. Isso precisa mudar urgentemente, sob pena de sermos extintos do ecossistema global e nos tornarmos uma imensa plantação. Do mesmo jeito que o panda, nós corremos o risco de sermos engolidos pelos competidores se não tomarmos medidas conservacionistas urgentes quanto à espécie do Homo economicus brasiliensis.

A lógica evolutiva para que isso aconteça já foi decifrada: nós precisamos nos organizar de maneira mais eficiente, priorizando os relacionamentos econômicos dentro das associações, e construindo pontes entre estas, além de conexões destas com o mundo exterior. Não há outra alternativa, os recursos são (e sempre serão) escassos, e os competidores sempre irão trabalhar pelo seu próprio sucesso, não podemos esperar nada diferente disso. Mas nós temos a vantagem de, hoje, saber como os mecanismos evolutivos acontecem, e por que determinados grupos têm mais sucesso que outros. Agora é mãos à obra, utilizando a nossa força para nos unirmos, pois é dessa união que virá a nossa força.

Malandragem sutil

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 29 outubro, 2008

Do site do ICED:

Não é novidade para ninguém que passamos por uma seriíssima crise ética na política brasileira, cujo epicentro localiza-se no Congresso Nacional. Desencadeada pela denúncia de um esquema de corrupção nos Correios envolvendo o então deputado Roberto Jefferson, todos os dias, há mais de seis meses, lemos e assistimos a novas denúncias sobre atitudes questionáveis envolvendo parlamentares. Um dos últimos lances deste jogo foi o constrangimento relacionado ao fato de que os cofres públicos foram obrigados a desembolsar mais de cem milhões de reais – a maior parte em salários extras para parlamentares – para que o Congresso funcione durante o recesso. Incrivelmente, os parlamentares conseguiram complicar ainda mais a questão com uma série de atitudes em relação ao destino dos recursos extraordinários que receberam. Agora que a questão parece estar encerrada em função das mudanças na legislação sobre os pagamentos de salários extras aos parlamentares, é o momento oportuno para analisarmos a questão retrospectivamente.

Diz-se que, em mandarim, o ideograma utilizado para escrever “crise” é a junção dos símbolos de “risco” (ou “perigo”) e “oportunidade”. Desconheço algum parlamentar que seja fluente no idioma chinês, mas a grande maioria é mestre em fazer de limões, limonada. Percebendo uma janela para a autopromoção, vários deputados e senadores resolveram abrir mão dos salários extras e, numa atitude supostamente ética, decidiram devolver seus salários. Alguns demoram semanas para decidir se são ou não éticos – como se essa pudesse não ser uma decisão imediata. Isso fez com que estes parlamentares fossem furtivamente surpreendidos por vis procedimentos burocráticos que os impediram de abrir mão de seus salários em prol do bem comum. Porém, firmemente imbuídos de espírito cívico, não se renderam aos pormenores administrativos da Casa a que pertencem, e entregaram seus rendimentos líquidos a entidades supostamente filantrópicas. Alguns, ainda, preferiram doar seus salários mesmo dentro do prazo hábil para a recusa formal sob o argumento de que, se eles abrissem mão de receber salários, isso implicaria em contribuir com a nefasta política neoliberal do governo.

O resultado disso é que se chegou a um largo espectro de comportamento entre os parlamentares: os que nada fizeram, os que se recusaram a receber salários, os que doaram seus rendimentos por perda de prazo, e os que doaram por inclinação ideológica. Dentre os que doaram seus salários, percebeu-se depois que havia alguns problemas. Alguns foram acusados de comprar recibos de valor superior ao efetivamente doado, e outros chegaram até a doar recursos a entidades administradas por eles mesmos – o que podemos chamar de “limonada suíça” (nada a ver com o fato da Suíça ser um notório paraíso fiscal). No fim da história, todos atacaram todos: quem nada fez, acusou de hipocrisia quem devolveu; quem devolveu disse que quem doou pecou; quem doou para o Instituto A alegou que quem fez o mesmo para o B foi desonesto; e assim por diante.

Muita gente acha que ética é preto ou branco, e da mesma maneira que não existiria meia gravidez, também inexistiria uma zona moralmente cinzenta. Pelo que se apreende das declarações dos parlamentares, entretanto, tem-se a impressão oposta: existiria, sim, uma gradação ética, mas o ponto de corte que separa os honestos dos desonestos varia e acordo com o gosto do freguês. Não é intenção desse artigo “fulanizar” a questão, muito menos estabelecer critérios de conduta ética para parlamentares. O que este artigo se propõe é somente analisar alguns aspectos dos diferentes jogos que ocorrem entre os parlamentares e a opinião pública (ou entre eles mesmos) com as ferramentas combinadas do darwinismo e da teoria dos jogos.

Os jogos principais são os que se desenrolam entre os parlamentares e seus eleitores. Sendo este um ano eleitoral, esses jogos são particularmente importantes, o que se comprova com um simples raciocínio hipotético. Imagine que um deputado tenha um mandato de 20 anos, e que este ano seja um dos primeiros anos de sua legislatura. Neste caso, seria de se esperar que houvesse uma taxa de adesão à recusa em receber salário muitíssimo menor que num caso em que os mandatos são de quatro anos e eles estejam a menos de doze meses das eleições. Essa obviedade nos indica que, dependendo dos custos e benefícios envolvidos no jogo, a decisão de um jogador pode ser uma ou outra – em “teoriadojoguês”, poderíamos dizer que o equilíbrio do jogo varia de acordo com os pay-offs envolvidos. No caso real (mandatos de 4 ou 8 anos e eleições próximas), o equilíbrio tende a ser cooperativo: o parlamentar coopera com o eleitor, “agindo de forma ética” (recusando-se a receber os salários ou doando seus proventos) na esperança que o eleitor coopere com ele em outubro próximo (digitando seu respectivo número na máquina de votar). Isso é o oposto do que se espera que aconteça na hipótese acima proposta (a dos 10 anos de mandato), pois como o parlamentar sabe que sua “ação ética” de hoje será ignorada daqui a 19 ou 18 anos, ele não tem motivos racionais para cooperar com o eleitor. Alguns parlamentares poderiam cooperar mesmo assim, e devolveriam o dinheiro ainda que tivessem mandatos vitalícios, mas isso seria uma exceção tão rara quanto esperarmos que um banqueiro empreste dinheiro para uma entidade sem capacidade de pagamento e sem garantias – como, aliás, parece ter sido a forma que ocorreram os “empréstimos” ao PT.

Da mesma forma, os jogos coadjuvantes também terão seus resultados dependentes dos respectivos pay-offs. Nas relações entre os parlamentares – jogos muito parecidos com o onipresente “Dilema dos Prisoneiros” –, o equilíbrio tende a ser não cooperativo, mesmo entre deputados do mesmo partido. Um parlamentar, ao se recusar a receber seu salário, está agindo contra os interesses de seu colega, independente do que este faça. A “ação ética” de um parlamentar (recusar-se a receber o salário) implica em perda para seu colega que também é “ético” uma vez que haverá um “empate ético” frente ao eleitorado. Como o eleitor só vota em um nome, e ambos “agiram eticamente” nessa questão, a não-cooperação mútua não privilegia ninguém. Porém, também é possível que deputados que dividam o mesmo eleitorado entrem em um acordo do tipo “eu não devolvo e você também não”, tornando o jogo entre eles cooperativo. Isso equivaleria a permitir que os criminosos do “Dilema dos Prisioneiros” conversassem entre si antes de tomarem suas decisões. Essa estratégia é tão mais factível quanto menor for o número de deputados dividindo um mesmo eleitorado (deputados de Roraima teriam muito mais chances de sucesso que deputados paulistas, por exemplo), e seria bem menos aplicável aos senadores, que nessa eleição irão disputar uma única cadeira.

Esse tipo de acordo (“eu não devolvo, você também não”), assim como o jogo principal entre parlamentares e eleitores, podem ser entendidos como jogos de “altruísmo recíproco”. Estudiosos da evolução do comportamento utilizam freqüentemente esse mecanismo para explicar porque determinadas espécies agem de forma mutuamente cooperativa mesmo sem vínculos de parentesco, como os morcegos hematófagos. Esses animais vivem do sangue coletado em caçadas noturnas freqüentemente infrutíferas, mas os que têm sucesso usualmente dividem o sangue obtido com seus colegas menos afortunados, uma vez que, no futuro, a situação pode ser inversa. Entre primatas, esse tipo de comportamento também é muito comum, e um bom exemplo são os chimpanzés. Nossos primos são organizados em bandos com clara liderança dos chamados machos-alfa, que conquistam o posto de primazia em acordos políticos também baseados em mecanismos de altruísmo recíproco, seja na coalizão com líderes subalternos (os machos beta e gama), seja na conquista de simpatia da maioria dos componentes do grupo. Quando o bando está em “época de eleição” – ou seja, quando o posto de macho-alfa está em disputa –, pesquisadores notaram que os candidatos a líder distribuem frutas e são amistosos, comportamento que cessa quando a liderança se consolida. Não por acaso, compartilhamos cerca de 99% dos genes com essa espécie.

Ocorre que o mecanismo do “altruísmo recíproco” não elimina conflitos, pelo contrário. Se compararmos a eficiência de dois indivíduos agindo isoladamente, percebe-se nitidamente que a cooperação mútua traz um resultado melhor para ambos, e é por isso que várias espécies, inclusive a humana, praticam atos mutuamente vantajosos, como a caça cooperativa. Entretanto, também é fato que aquele que recebe um favor e não retribui leva vantagem sobre aquele que retribui um favor recebido. Por isso, é muito comum entre as espécies que agem de forma mutuamente cooperativa haver severa retaliação contra indivíduos que rompem o ciclo de trocas altruístas. Um morcego que recebe sua cota de sangue de um outro componente do bando em uma noite de má sorte e não retribui quando a coleta lhe seja favorável dificilmente vai ser alimentado de novo, pelo menos por aquele que lhe ajudou inicialmente. Casos de reiterada recusa em retribuição podem ser punidos com agressão física ou o ostracismo, que é a exclusão permanente ou temporária do convívio no bando, o que não raramente significa a morte do animal excluído.

Animais sofisticados em termos de comportamento, porém, praticam uma outra forma de trapaça, muito mais sutil: eles “fingem” que são cooperativos quando, na verdade, não pretendem retribuir o favo recebido. Entre certas espécies de pássaros, por exemplo, esse comportamento está fartamente documentado, como os casos de fêmeas que “traem” seus parceiros. Nesses casos, o macho se esforça para prover a fêmea de alimento enquanto esta deveria estar chocando os ovos do casal, mas exames de DNA da prole comprovaram que grande parte da ninhada não pertence ao macho, que fora “enganado” durante uma de suas intermináveis buscas por alimento. Entre humanos, esse tipo de estratégia também é muito comum, não só nas relações reprodutivas. É precisamente isto o que está ocorrendo neste momento no Congresso brasileiro.

Do modo com que a imprensa abordou a questão, ficou claro que abrir mão do salário seria uma atitude bem vinda junto à opinião pública. Como o salário extra recebido seria da ordem de R$25mil, a pergunta que um deputado racional se faria é “parecer ético frente ao meu eleitorado neste momento vale mais que R$25mil?”. Analisados os custos e benefícios, o deputado que concluir que a resposta é “sim, vale a pena abrir mão de R$25mil para parecer ‘ético’ frente ao um eleitorado” agirá contra seu próprio interesse econômico para maximizar seu ganho no longo prazo. Mas, em um segundo momento, esse deputado racional percebe que pode fazer um negócio ainda melhor: parecer “ético” junto à opinião pública sem gastar R$25mil! Eureka!!! Para isto, basta comportar-se como se fosse ético, sem sê-lo de fato. Por exemplo: obtendo um recibo de doação “fria”, ou – o melhor dos mundos – doando para si próprio. Esse é um comportamento análogo ao do pássaro do parágrafo anterior.

Robert Trivers, o zoólogo estadunidense que descreveu o mecanismo do “altruísmo recíproco” e a evolução da imitação, porém, também notou que, em espécies organizadas dessa forma, verifica-se uma “corrida armamentista” entre imitadores de comportamento reciprocamente cooperativo e detectores desse tipo de comportamento. Em um formigueiro, por exemplo, não existe falsa cooperação: formigas são cooperadoras incondicionais que jamais traem suas companheiras. Já entre mamíferos, aves e peixes – dentre outros animais –, a retribuição da cooperação é incerta, e mecanismos de “malandragem” são freqüentes. Isso é particularmente verdadeiro na nossa espécie, uma das mais pródigas nesse tipo de comportamento embusteiro (mas não a única).

Na atual crise da convocação extraordinária do Congresso, esse fato pôde ser verificado por quem acompanhou os noticiários na imprensa. Quem teve a pachorra de ler jornais ou acompanhar o noticiário na internet ou na TV durante as férias certamente presenciou inúmeras declarações de políticos, jornalistas e analistas apontando quem tentou se fazer passar por “ético” sem abrir mão efetivamente do salário. Iniciou-se um movimento de caça às bruxas parecido com o do meio do ano passado, quando vários parlamentares foram apontados como “mensaleiros”. Sob a ótica da evolução do comportamento, isso é uma típica “corrida armamentista” entre imitadores de comportamento mutuamente cooperativo e detectores do comportamento embusteiro.

O problema é que essa “corrida armamentista” é ruidosa e maléfica para os parlamentares, sejam eles “éticos legítimos” ou imitadores. No jogo principal entre a classe política e a opinião pública, não interessa a nenhum parlamentar esse novo desgaste, principalmente às vésperas de uma nova eleição. Numa Câmara recentemente presidida por um personagem do calibre de um Severino Cavalcante, novos escândalos são um prato cheio para o crescimento de pára-quedistas, do “voto Cacareco”, e de outras conseqüências danosas a todos os 513 deputados e 81 senadores. O resultado disso foi a aprovação em tempo recorde da eliminação do pagamento dos salários extras, num efêmero acordo entre praticamente 100% do Congresso.

(escrito em 2005)

Aborto, estupro & outras polêmicas

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 29 outubro, 2008

Do site do ICED:

Recentemente, na Argentina, ocorreu um fato dramático: uma jovem de 21 anos matou seu próprio filho, gerado em decorrência de um estupro, e foi condenada a 14 anos de prisão. Trata-se, inegavelmente, de uma gigantesca tragédia: infanticídios são sempre trágicos, e se o autor for o próprio pai ou a mãe, tanto pior. Mas, independente da comoção que o fato gera, também podemos refletir sobre este evento sob outros aspectos. Se os mecanismos evolucionários favorecem o investimento de recursos nos filhos, como se explica o assassinato de um filho pela mãe? No artigo anterior, abordamos o mecanismo da Seleção pelos Consangüíneos, segundo o qual deveria haver cooperação entre pais e filhos, não o assassinato. Sendo assim, como a Evolução poderia explicar esta tragédia?

Para entendermos por que este fato ocorreu, temos que ter em mente que o mecanismo da Seleção pelos Consangüíneos está baseado no pressuposto do “gene egoísta”, ou seja: ele existe porque favorece a disseminação do patrimônio genético do próprio indivíduo na população. Se eu coopero mais com meu filho que com meu sobrinho, e meu filho tem 50% de meus genes – contra 25%, no caso do meu sobrinho –, cooperar mais com meu filho do que com meu sobrinho terá um efeito positivo na perpetuação de meus próprios genes. Mas, em determinadas situações, a cooperação com o filho pode diminuir a probabilidade de disseminação dos genes do indivíduo na população, e parece-me que a tragédia ocorrida na Argentina seria um desses casos.

Naquele evento, temos que atentar para dois aspectos: 1)A mãe é muito jovem e pobre; e 2)A gravidez foi gerada por estupro. Sendo vítima de um estupro, a mãe teria que arcar sozinha com os custos da criação de seu filho e, sendo pobre, não teria condições de investir em outros filhos além do primeiro. Desta forma, o que teríamos é um agudo conflito de interesses entre mãe e filho, agravado pela juventude desta, que teria sua capacidade reprodutiva seriamente afetada pelo fato de ter que investir em um filho sem ajuda do pai. Em termos reprodutivos, a atratividade desta mulher estaria seriamente diminuída na medida em que seus eventuais parceiros seriam desestimulados em escolhê-la, haja vista a sobrecarga representada pelo investimento em seu primeiro filho.

Isto nos leva a uma segunda reflexão sobre o tema. Como se sabe, o aborto é proibido no Brasil, salvo raras exceções. Mesmo no caso do feto não possuir cérebro – o que impede a vida extra-uterina –, o aborto ainda não é legalmente permitido, o que dá uma idéia do quão difícil é aprovar dispositivos legais pró-aborto no nosso país. Uma destas exceções se aplica aos casos em que existe grave risco de vida para a gestante, o que me parece bastante razoável, uma vez que, se a mãe morrer, também morrerá o feto. A outra é em caso da gravidez ter sido gerada por um estupro. À primeira vista, fica difícil entender porque não se permite o aborto de um feto sem chances de sobrevivência (o anencéfalo), mas é legalmente autorizado abortar um feto perfeitamente saudável, se gerado por estupro.

Ocorre que, analisando o desfecho trágico do fato ocorrido na Argentina, percebe-se que a permissão do aborto em caso de estupro no Brasil faz todo sentido simplesmente porque está coerente com nossas necessidades evolucionárias. A despeito de toda a discussão ética, moral e religiosa que cerca o tema, a interrupção de uma gravidez gerada por estupro deve realmente ser permitida para que não ocorra situação ainda pior, como a tragédia da Argentina.

Tudo ou nada

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 28 outubro, 2008

O artigo publicado abaixo está disponível no site do ICED e no informativo jurídico Migalhas (um dos melhores da área jurídica), e é particularmente recomendável para quem pretende seguir carreira de advogado (ou astronauta).

Muitos dos atuais advogados foram, quando crianças, futuros astronautas, jogadores da seleção Brasileira de futebol ou astros de Hollywood. Entretanto, esses mesmos indivíduos desistiram de seus sonhos de infância porque, ao amadurecerem, perceberam que ser um novo Neil Armstrong, Zico ou James Dean nada mais era que uma doce e pueril ilusão. Anos de desenvolvimento intelectual os conscientizaram que, no mundo real, estas escolhas são impraticáveis: somente uma fração infinitesimal dos aspirantes a jogador profissional de futebol (de time grande, pelo menos) ou a ator de primeira linha no mundo do cinema internacional chega ao objetivo – e, no ultra-restrito círculo dos astronautas, a fração é ainda menor. Decidiram, então, ser advogados, uma profissão onde alcançar o estrelato tem uma chance concreta e realista de acontecer. Será?

Observando a carreira da imensa maioria daqueles que escolheram a advocacia, verifica-se que grande parte destes profissionais está se esfalfando para pagar as contas no fim do mês – o que nem sempre é possível, diga-se de passagem. Onde está a aparente racionalidade que apontava para um futuro de sucesso quase certo? Por que a grande maioria dos advogados nunca chega ao Nirvana sonhado na faculdade? Falta de sorte? Conjuntura sócio-econômica desfavorável? …Ou talvez seria o fato de que a escolha pelo caminho do sucesso por meio da advocacia era tão racional quanto à do futebol, do cinema ou, em última análise, das viagens interplanetárias? Temo que esta última opção seja a que melhor explica os verdadeiros motivos das frustrações neste mercado, e é disto que iremos tratar neste artigo: da (ir)racionalidade na escolha profissional típica de determinados mercados onde se verificam concentrações exageradas de renda, como a advocacia.

A maior parte da renda auferida na advocacia é obtida em atuações nas demandas judiciais, o popular contencioso. Acontece que, se advogar em processos de grande ou pequena monta requer esforço semelhante, suas respectivas rentabilidades em nada se assemelham – e, por essa razão, a estratégia óbvia é concentrar esforços nas grandes causas. À exceção do idealismo, não haveria maior interesse em advogar em pequenas causas que não a própria subsistência – ou, na melhor das hipóteses, o acúmulo de experiência. Mas, como estratégia profissional racional (economicamente falando, evidentemente), advogar só faz sentido se for nas grandes demandas. Desta forma, o sucesso na advocacia é tão simples quanto ficar à espreita de uma oportunidade de pegar uma grande causa para, em seguida, aparecer na fotografia coroado de louros – de preferência, substituindo as folhas do vegetal por cédulas da moeda estadunidense. Mas, infelizmente, não é isso o que se verifica na prática e, anos depois de formados, muitos estão desiludidos com a profissão.

O problema é que o mesmo motivo que impede que o sonho de jovens e ambiciosos advogados se realize é o mesmo que os desencorajara anos antes a tentar a NASA, Hollywood ou o Maracanã. Trata-se do que um dos maiores expoentes da economia comportamental da atualidade (Robert Frank, de Cornell) definiu como “Mercados de Tudo ou Nada” (“The Winner Takes All Markets”, no original), caracterizados pelo fato de que diferenças sutis de desempenho levam a gigantescas distorções na remuneração. A advocacia é uma profissão em que uma escassa minoria poderá ter sucesso, enquanto a grande massa deverá obter rendimentos inferiores ao obtido em profissões muito menos glamourosas. Felizmente para poucos – e infelizmente para quase todos –, é justamente por esta característica que o mercado da advocacia é tão sedutor, ao contrário de tantas outras profissões que garantem o arroz e feijão na mesa, mas dispensam a gravata e a caneta Mont Blanc no bolso.

Grandes causas existem, é óbvio, mas as verdadeiras chances de um jovem e talentoso advogado as defender tendem a zero. Grandes causas pertencem a grandes clientes que, por sua vez, tenderão a decidir como gerir seu risco de modo a maximizar a sua própria eficiência econômica, não a fomentar a carreira de jovens e promissores advogados. Agindo assim, o grande cliente jamais arriscará grandes somas monetárias desnecessariamente, ou seja: ele sempre vai procurar o melhor advogado possível para atuar nestes casos. Não vai ser por um abatimento nos honorários que ele entregará sua estimada demanda para o segundo melhor advogado na questão, mesmo que a diferença de qualidade do segundo para o primeiro seja ínfima. Na verdade, ele não pode agir assim, a menos que sua estratégia não seja a de maximizar seus ganhos – mas aí aquele provavelmente não seria o demandante de uma causa de grande magnitude. É por esse mesmo motivo que um estúdio de primeira linha paga milhões para um Robert de Niro, uma Julia Roberts ou um Al Pacino: mesmo que um ator off Boroadway possa ser quase tão bom quanto uma estrela consagrada: é muito mais interessante para um produtor de um filme de orçamento multimilionário contratar uma estrela do que um talento promissor. A mesma coisa acontece com um time de futebol de primeira linha ou com a NASA: em mercados de tudo ou nada não existe espaço para segundos colocados.

As pessoas, em geral, tendem a pensar que são melhores que todas as outras e que vão vencer a corrida do tudo ou nada de alguma forma. Esse comportamento tem profundas raízes na nossa história evolutiva: nossos ancestrais já eram pródigos em se considerarem melhores que a maioria, um auto-engano muito útil na corrida da seleção sexual da nossa espécie. É por isso que, hoje, se você fizer uma enquête sobre como seus amigos acham que são em relação, por exemplo, à habilidade ao volante, vai perceber que a maioria se acha acima da média – o que, evidentemente, é impossível em termos estatísticos. Outro comportamento típico do ser humano relacionado a este mecanismo evolutivo de auto-engano é a memória seletiva para as exceções. É claro que, por mais difícil que seja vencer na advocacia, alguém acaba efetivamente vencendo, e quando isso acontece, freqüentemente acaba virando manchete na imprensa. Isso, entretanto, não mostra que as chances de outra pessoa também vencer sejam altas, pelo contrário: se os casos de sucesso são tão raros que merecem destaque na mídia, então deve ser realmente muito improvável que se vença esse jogo. Mas nosso cérebro está estruturado para lembrar das exceções positivas, não da massa de insucessos.

O resultado disso na advocacia é que muita gente – a maioria, na verdade – acabará obtendo um rendimento significativamente inferir ao que seria possível em outras carreiras menos prestigiadas. Em decorrência deste auto-engano, percebe-se um altíssimo índice de frustração profissional na classe. Se fossem realistas sobre suas próprias chances, será que tantos cérebros privilegiados se contentariam com a mediocridade que acaba por atingir a maior parte da militância na advocacia? Bem, se for para se frustrar de uma forma ou de outra, talvez tivesse sido melhor ter seguido em frente com o sonho de ser astronauta…

José Massey-Ferguson Dirceu

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 28 outubro, 2008

Um dos artigos mais populares que escrevi até hoje foi o “trator movido a nitroglicerina”, publicado na Gazeta Mercantil em meados de 2005, logo após o lançamento do meu 1o. livro (“Prática na teoria”, ed.Saraiva). Nele, tratava da demissão do então Ministro-Chefe da Casa Civil, José Dirceu, sob a ótica da teoria dos jogos evolucionários. Acho que é um artigo interessante até hoje, por isso o republico abaixo:

Trator movido a nitroglicerina

Nos dois primeiros anos do Governo Lula, usava-se uma metáfora agro-mecânica para definir José Dirceu: ele seria o “trator” da Casa Civil. Essa metáfora, tida como elogiosa na maioria das vezes, dava a entender que Dirceu era um sujeito que conseguia obter a cooperação de terceiros para que o governo atingisse seus objetivos – “passando por cima das cercas e buracos”, se fosse o caso. O que o deputado Roberto Jefferson fez com suas denúncias sobre o “mensalão” foi, mantendo a linha original de metáforas agro-mecânicas, dizer que o ex-Chefe da Casa Civil era um trator que não usava como combustível o pouco inflamável óleo diesel, mas nitroglicerina. E a atual crise política nada mais seria do que alguns respingos deste inusitado combustível no solo, explodindo o próprio trator, e ferindo os que a ele estavam próximos.

Não é novidade em Brasília que Dirceu não é (nem nunca foi) uma pessoa amplamente querida, nem entre os aliados (grande parte do PT, inclusive), nem entre a oposição. Sejamos francos: à exceção do presidente Lula e mais uma meia-dúzia, ninguém gostava (ou gosta) de Dirceu, principalmente no Congresso. Esse não-gostar generalizado foi o que fez, a se confirmarem as denúncias, que o ex-Chefe da casa Civil exercesse seu poder pela força – no caso, econômica. Ninguém precisa colaborar com alguém que lhe paga diretamente: o jornaleiro não precisa gostar de você para lhe vender o jornal do dia, basta que você o pague. O problema é que, por mais corrupta e venal que seja grande parte da classe política no nosso país, as relações políticas são bem mais complexas que as puramente comerciais.

Segundo os teóricos da evolução do comportamento, o mecanismo que possibilitou a cooperação entre indivíduos não-aparentados é o altruísmo recíproco. De acordo com o biólogo de Harvard que concebeu essa teoria (Robert Trivers), se em uma determinada espécie, o indivíduo X coopera com o indivíduo Y hoje, e, amanhã, Y retribui a cooperação a X, então X e Y acabarão tendo maior sucesso evolutivo do que se eles agissem egoisticamente. Desta forma, sob determinadas condições (como, por exemplo, um longo ciclo de vida, que possibilite a retribuição de um ato altruísta), o comportamento mutuamente cooperativo acabou sendo selecionado em diversas espécies de animais sociais. Esse comportamento, o altruísmo recíproco, pode ser verificado, por exemplo, na simbiose de limpeza entre peixes, onde um peixe hospedeiro e um peixe limpador agem de forma mutuamente cooperativa. Da mesma forma que o peixe limpador não morde a carne do peixe hospedeiro, o peixe hospedeiro não come o peixe limpador mesmo que este passeie dentro da sua boca. Em espécies com cérebros mais desenvolvidos, como os primatas (onde o Homo sapiens se enquadra), a evolução acabou criando um complexo sistema de emoções para regular o altruísmo recíproco. Chimpanzés, gorilas e seres humanos agem de forma cooperativa (ou não) porque são movidos por sentimentos – ou seja: porque gostam ou desgostam de outros indivíduos –, não porque racionalizem que a cooperação mútua é mais ou menos eficiente. Ocorre que esses sentimentos surgem em decorrência de relações altruisticamente recíprocas: nós somos amigos de quem gostamos, e gostamos de quem não nos trai.

Mas além da cooperação movida por sentimentos, existe uma outra alternativa, que é a cooperação forçada. Um gorila silverback (o macho dominante de um bando de gorilas, que tem esse nome por ter as costas prateadas) sempre é o maior indivíduo do bando, e usa da força bruta para manter seu poder. O problema é que, quando o silverback envelhece e perde sua força, um membro mais forte toma o poder e expulsa o antigo líder do bando. Sozinho, o ex-chefe acaba perecendo. Entre humanos, além da força física, desenvolveu-se também a coerção moral e, muito mais recentemente (em termos evolutivos), a coerção econômica. Mas, de forma análoga à verificada entre os gorilas, esta forma de poder também é muito instável, se comparada à exercida por meio dos sentimentos provenientes do mecanismo do altruísmo recíproco. Laços de amizade baseados em sentimentos, forjados por anos de comportamento mutuamente cooperativo, são muito mais estáveis que a cooperação obtida pela força bruta, seja ela econômica ou física.

A atual crise decorre justamente da inabilidade do ex-Chefe da Casa Civil na gestão dos relacionamentos altruisticamente recíprocos. O “trator” José Dirceu conseguia a cooperação por meio da força bruta, não da amizade e dos sentimentos construídos pelo comportamento mutuamente cooperativo. Muito pelo contrário: os deputados beneficiados pelo “mensalão” podiam até votar com o Governo porque haviam sido pagos para isso, mas o dinheiro não os fazia gostar de quem os pagava (temo, inclusive, que tinha um efeito oposto nesse sentido). Deu no que deu.

Amado mestre…

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 17 outubro, 2008

O artigo abaixo foi publicado originalmente em 2003 na revista Você S/A, por coincidência o ano da morte do ator Rogério Cardoso, o “Rolando Lero” da Escolinha do Professor Raimundo. A enrolação, por mais cômica que possa parecer, é um dos problemas mais complicados em Recursos Humanos. O chefe que conseguir diminuir a enrolação de seus subordinados em 1% pode ser considerado um bom gestor; e se diminuir mais de 10%, é um gênio. Um dos estudos de caso mais marcantes que eu me lembro da faculdade tem a ver com esse tema, e vou resumi-lo abaixo (os caso é real, embora não tenha referências para apresentar).

Uma determinada empresa fabricante de papel possuía uma grande área de reflorestamento, cujas árvores precisavam ter o espaço ao redor do tronco capinado regularmente, para evitar ervas daninhas e acelerar o processo de crescimento. Os trabalhadores que exerciam a função eram pagos por dia de trabalho, e o gerente responsável logo percebeu que era muito difícil fazer com que esses bóias-frias trabalhassem mais do que 6 horas efetivas: havia muita enrolação para começar o dia, o almoço se estendia além do horário, e se a supervisão virasse as costas, os trabalhadores logo puxavam um cigarro de palha. Foi aí que o jovem gerente da operação, recém graduado em Administração pela USP, percebeu que os salários eram muito baixos e que conceder um aumento real significativo não iria representar um grande acréscimo nos custos, mas isso poderia trazer um grande aumento na produtividade, que é o que lhe interessava, afinal de contas, esse era um item importante na sua avaliação de desempenho.

Esse gerente sabia que dar o aumento pura e simplesmente não melhoraria a produtividade, então ele consultou os manuais de Recursos Humanos e concluiu que se ele passasse a pagar por produtividade, provavelmente conseguiria melhorar seus índices – afinal de contas, aqueles eram trabalhadores muito humildes, que teriam um substancial aumento na qualidade de vida se obtivessem mais renda. Todas as contas feitas, o gerente arbitrou um determinado valor por árvore capinada que possibilitaria aos trabalhadores dobrar o salário se eles executassem o trabalho com seriedade por 8 horas diárias. Com isso, ele imaginou que a jornada de trabalho fosse, no mínimo, respeitada, mas o gerente cogitava inclusive que os trabalhadores capinassem umas 10 horas por dia ou mais.

Sabem qual foi o resultado? A produtividade diminuiu, e os trabalhadores passaram a trabalhar somente 4 horas por dia, passando o resto do dia sentados à sombra, conversando, jogando truco, fumando o cigarrinho de palha, alguns até bebendo. Isso deixou o gerente estupefato, pois ele pensava que ocorreria exatamente o oposto – “se fosse eu”, disse ele, “trabalharia 16 horas por dia, para ver se deixava de ser bóia-fria o mais rápido possível”. Quando foi investigar por que isso estava acontecendo, ele logo encontrou a resposta. Os trabalhadores entendiam que ganhar “muito pouco” ou “o dobro de muito pouco” era a mesma coisa: eles permaneceriam miseráveis; mas se tivessem 4 horas por dia de lazer, aí sim a qualidade de vida deles melhoraria.

Esse é um paradoxo que só a Economia Comportamental explica; o paradigma do “agente econômico racional”, que por tantos anos se ensinou nas universidades, não dá a menor pista para entender o comportamento humano. Feito esse alerta preliminar, vamos ao artigo, então:

O antídoto da enrolação

Neste primeiro artigo da coluna “Prática na Teoria” baseado na contribuição dos leitores, vamos tratar de um assunto tão comum quanto pouco discutido nos meios corporativos: a enrolação. O Prof. Dr. Emilton Lima Júnior escreveu de Liège, na Bélgica, onde está concluindo seu doutorado sobre estresse profissional, para relatar seu ponto de vista sobre o assunto. Seu artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino Médico aborda de forma brilhante a famosa frase “eles fingem que nos pagam – a gente finge que trabalha” sob a ótica da Teoria dos Jogos e das Informações Assimétricas. Apesar do artigo ter sido concebido originalmente para tratar a questão do ensino de medicina no país, este também é um assunto aplicável à maioria das empresas e órgãos públicos dentro ou fora do Brasil.

A enrolação no trabalho não é uma invenção brasileira. Prova disto é o fato de Bill Gates ter incluído jogos e passatempos como a paciência logo na primeira versão do Microsoft Windows. A enrolação nada mais é do que uma resposta desertora de um funcionário que entende que seu patrão não coopera o quanto ele acha que deveria. Como o funcionário sabe que existe um certo grau de assimetria de informações entre ele e a empresa, ele se sente seguro para enrolar. Além disso, ele sabe que a assimetria de informações também o protegerá caso ele seja despedido do atual emprego, pois dificilmente seu novo empregador irá saber que ele deixou a empresa anterior por ser um enrolador. Na verdade, o funcionário enrolador faz com que toda a produtividade de seu departamento ou empresa caia, prejudicando os funcionários mais trabalhadores, o que faz com que haja um equilíbrio progressivo em níveis cada vez mais altos de enrolação.

A estratégia mais básica em Teoria dos Jogos é a “tit-for-tat”, algo como “olho-por-olho”: eu coopero com quem coopera e deserto com quem deserta. Se eu achar que meu empregador não está agindo cooperativamente comigo, eu tendo a desertar. Por outro lado, se meu patrão achar que eu não estou cooperando o quanto deveria, ele é que tende a desertar. Como os dois acham que o outro está desertando ou irá desertar (uma incerteza devido à assimetria de informações), eles antecipam suas próprias deserções, caminhando rapidamente para um equilíbrio de Nash clássico: ambos desertam, pois esta é a melhor estratégia possível independentemente da estratégia escolhida pela outra parte. A grande questão é: quem nasceu primeiro? O ovo do funcionário enrolador ou a galinha do patrão ganancioso?

Isto é, no fundo, o famoso “Dilema do Biscoito”, criado há cerca de uma década pela publicidade nacional para vender uma determinada marca de biscoitos que não se sabia se era fresquinha porque vendia mais ou se vendia mais porque era fresquinha. O que se sabe somente é que todos os funcionários enrolam em maior ou menor grau; toda empresa oferece menos vantagens para seus empregados do que poderia ou deveria (uma outra visão da mais-valia marxista); e ambos fingem que não estão vendo a traição do outro para manter o equilíbrio entre eles. Perceba que este equilíbrio possui um grande viés inercial: qualquer uma das partes que tentar sair do equilíbrio se expõe a riscos. Se o empregado decidir parar de enrolar, ele corre o risco do patrão não só não retribuir, como atribuir um novo patamar de produtividade com a mesma cesta de remuneração oferecida anteriormente. A empresa que tomar a iniciativa de adotar uma postura mais cooperativa, por outro lado, também estará exposta à falta de reciprocidade por parte dos seus empregados e dificilmente conseguirá voltar aos patamares de remuneração anteriores – inclusive por imposição legal.

Antes que o leitor ache que este artigo é – ele mesmo – uma enrolação, vejamos o que o Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, pensa sobre este assunto. Segundo Stiglitz, a forma de romper este equilíbrio de Nash do tipo “eles fingem que nos pagam – a gente finge que trabalha” seria através de um nível de remuneração acima da média. A despeito do brilho intelectual de Stiglitz, esta teoria foi adotada empiricamente já em 1914 com estrondoso sucesso por um cidadão chamado Henry Ford. Naquele ano, a Ford Motors passou a pagar 5 dólares por dia para seus funcionários, contra uma média de 2 ou 3 dólares dos concorrentes e dele mesmo em anos anteriores. A produtividade na Ford cresceu vertiginosamente (51%, segundo relatórios da época) e o lucro da companhia dobrou entre 1913 e 1916.

O problema é que neste momento ocorre uma outra corrida de desertores, desta vez empresa contra empresa. Quando a concorrência percebeu que a Ford lucrava mais, passou a pagar mais de 5 dólares. No momento seguinte, a Ford passou a pagar mais que a concorrência e assim foi até as empresas atingirem o limite de lucro zero em suas empresas. A estratégia simplista do Mr. Henry naufragava pelo mesmo motivo que teve sucesso: a Teoria dos Jogos (na verdade, uma variante do “Leilão de Dólar”). Neste momento, aparece em cena um novo conceito em remuneração, o “Salário de Eficiência”: uma remuneração paga aos funcionários para que não enrolem.

O “Salário de Eficiência” foi publicado originalmente na Harvard Business Review em maio-junho de 1978 por Jacob Gonik. Apesar de ter quase um quarto de século, este conceito ainda hoje é visto como inovador. Na Você S/A deste mês, os repórteres Rodrigo Vieira da Cunha e Alessandra Fontana nos mostram como a remuneração variável (nomenclatura mais adotada no país para o “Salário de Eficiência”) é um assunto cada vez mais comum no Brasil e como isto tem a ver com você (leia a matéria “Você valendo mais” http://vocesa.abril.com.br/edi51/1318_1.shl).

A remuneração variável é a fórmula mais usada na composição da vacina anti-enrolação adotada hoje em todo o mundo.

Lanterna na proa*

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 17 outubro, 2008

Na década de 1960, antes dos exames de ultra-som, havia um médico (clínico geral) em Rio Preto que acertava em 100% das vezes o sexo do bebê. Ele olhava para a mãe logo que esta sabia estar grávida e dizia, enigmaticamente: “é menino” (ou “é menina”), e em seguida pegava a ficha da paciente e anotava o palpite, à caneta, pedindo que a paciente retornasse ao consultório após o parto. O detalhe é que esse médico anotava na ficha o palpite oposto do que ele informara de viva voz, ou seja: se ele dissesse que era menino, ele anotava menina, e vice-versa. No retorno, duas coisas poderiam acontecer: 1)a paciente estava feliz porque o médico acertara, ou 2)ela estava indignada com o erro do profissional. No primeiro caso, era só festa; mas se a mãe estivesse decepcionada com o prognóstico errado do médico, este abria o arquivo, pegava a ficha, e dizia: “Moça, acho que a senhora estava nervosa e se confundiu… Olha aqui a ficha: eu anotei menino e não menina, como a senhora estava achando” (ou o contrário). Constrangida, a mãe voltava para casa convencida de que ela é que havia entendido errado.

Muitos profissionais da incerteza têm esse tipo de estratégia. Eu poderia, por exemplo, me consolidar como um vidente de sucesso, adivinhando quem será o campeão paulista de futebol de 2009. Se eu publicar nos classificados da Folha que o Palmeiras será campeão, no Estadão que será o São Paulo, no Diário de S.Paulo, o Crinthians, e assim sucessivamente, eu terei provas do meu acerto qualquer que seja o resultado. Como os jornais que estampavam um resultado diferente do verificado já estariam no lixo (e ninguém guarda classificados de “declarações à praça”, a não ser o próprio interessado), eu, que guardei todos eles, escolheria o que me convém e pronto, nasceu um vidente. O grande problema desta estratégia é que eu só conseguiria sucesso uma única vez. No ano que vem, quando eu fosse fazer as previsões para 2010, as pessoas provavelmente estariam atentas para declarações em meu nome, e logo perceberiam o engodo (risco que o médico do parágrafo acima não corria, já que as informações dele eram privadas).

Economistas, de uma forma geral, utilizam estratégias mais arriscadas para conseguir fama. Sou viciado em sebos, e veja o livro que encontrei um dia desses:

Ravi Batra, atualmente professor da prestigiosa Universidade Metodista Sulista em Dallas, Texas, previu um cataclisma na economia estadunidense nos anos 1990. Abarrotado de tabelas, gráficos e equações, o livro de Batra tinha tudo para ser um bestseller global, e seu autor um sério candidato ao Nobel, não fosse por um pequeno detalhe: os anos 1990 foram espetaculares para os EUA. Houve crise no México, na Rússia, nos “Tigres Asiáticos”, e o Brasil sofreu com a era Collor (e depois com a estagnação dos anos FHC), mas o foco do trabalho de Batra, os EUA, foram de vento em popa. (O que me assusta é que o mais novo lançamento de Batra é “The New Golden Age”, lançado em abril de 2008).

Hoje em dia, Nouriel Roubini desponta como o grande gênio da crise dos sub-primes. Foi ele quem alertou o mundo sobre o precipício logo em frente, mas ninguém deu atenção às suas sábias palavras. Curioso que o próprio Roubini não ouviu sua voz, já que se tivesse ouvido poderia ser o homem mais rico do mundo atualmente, apostando no mercado a termo ou de opções contra o Dow Jones. (Mas não se engane, mr. Roubini é um professor pardal da academia que não tem tempo para essas coisas mundanas como o dinheiro, como se percebe na foto abaixo). Agora, esse economista faz um novo alerta: “o mundo vai levar entre 18 e 24 meses para sair da crise”. Anotem isso em suas cadernetas! (Aliás, anotem também que eu estou prevendo que haverá inundações em grandes cidades do Brasil no início de 2009, devido às fortes chuvas que ocorrerão no próximo verão).

Varrendo a web para ver se achava alguém que não incenssasse Roubini, encontrei uma voz dissonante: Stephen Kanitz, que publicou um execelente artigo sobre o tema no seu site. Conheço o Kanitz, essa lenda do mundo dos negócios desde os anos 1980, quando era estudante de administração da FEA-USP, e ele um dos professores mais famosos da mesma instituição. Tornei-me amigo do Stephen uns anos atrás, ao comentar um artigo que ele escrevera na Veja, e acabamos fazendo uma viagem juntos no ano passado, para Williamsburg (EUA), onde participamos de uma conferência sobre Evolução & Comportamento. Numa tediosa viagem de trem entre Washington e Williamsburg, o Kanitz me convenceu porque não se deve confiar em economistas como o Batra ou o Roubini (sim, eu também ia na onda desses caras há até um ano e meio atrás): estes sujeitos são oportunistas, como o médico de Rio Preto do início deste artigo, e ficam cavando oportunidades para aparecer na mídia como os verdadeiros profetas o tempo todo (é aquele negócio: até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia). Simplesmente não existe esse negócio de previsão econômica do tipo Batra/Roubini, o que existe é chute que, por acaso, acerta o gol. Se você ainda duvida, leia “A lógica do cisne negro”, do Nassim Nicholas Taleb (ou assista à minha resenha do livro, abaixo). Depois não digam que não avisei.

*”Lanterna na proa” é um trocadilho com o título do último livro do Roberto Campos (aliás, sua autobiografia), o pai de todos os economistas do tipo Batra/Roubini.

Como vender geladeira para esquimó (e deixar o esquimó feliz)

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 16 outubro, 2008

Vender é uma arte? Sim, da mesma forma que pintar quadros é uma arte, esculpir é uma arte, compor músicas é uma arte. Isso não significa que não haja técnica para escrever uma partitura, entalhar a pedra, usar o pincel, ou vender. A teoria dos jogos, muito embora amplamente desconhecida do pessoal de vendas (teóricos e práticos), oferece ferramentas muito eficientes para a área comercial. Uma das mais interessantes é o que ficou conhecido como “leilão de dólar”, que eu explico no artigo abaixo, também publicado na coluna “Prática na teoria” da revista Você S/A, em 2003. Se isso fosse só um blá-blá-blá de escritor metido a sabichão como eu, essa técnica até poderia ser inócua, mas não fui eu quem teve a sacada para esse texto. O responsável intelectual, nesse caso, foi o Pedro Mello, um dos caras mais geniais da área comercial do empreendedorismo no Brasil, especialmente no que se refere às franquias (para quem não conhece o Pedro, sugiro uma visita ao seu blog, o “Blog do empreendedor” da revista Exame/PME). Toda vez que eu converso com o Pedro, aprendo uma coisa nova na área de empreendedorismo e negócios, e o que você vai encontrar a seguir é o resultado de uma das primeiras vezes que eu passei por esta experiência.

A verdadeira prática na teoria

Este é o décimo-terceiro artigo que escrevo nesta coluna. Como o ano tem doze meses, o décimo-terceiro mês seria o primeiro mês do ano seguinte, o que sugere que o treze seria um recomeço. Além disto, treze – o número de Santo Antônio, santo da minha devoção – também é meu número de sorte, superstição que divido com o único ser humano verdadeiramente tetra-campeão de futebol do mundo, Mário Jorge Lobo Zagallo. Se o treze deu sorte para ele, espero que dê para a coluna também. Isto tudo me sugere que o artigo de número treze seria propício a uma mudança, a um recomeço (pelo menos, é assim que eu interpreto). Por isto, a partir deste artigo, a “Prática na Teoria” vai ser reiniciada com um outro enfoque, baseado nas experiências que os leitores têm me contado sobre aplicações reais da Teoria dos Jogos, Informações Assimétricas e outros assuntos que temos discutido neste espaço.

Desde março deste ano, quando comecei a escrever aqui, recebi centenas de correspondências dos leitores (precisamente, 284 até ontem). Fiz grandes amigos entre os leitores e, na semana passada, até recebi um presente (um livro) pelo correio de um deles. Tenho, inclusive, um leitor que está desenvolvendo uma tese acadêmica em Direito sobre Teoria dos Jogos – fato que me deixa muito lisonjeado, pois ele conheceu a Teoria dos Jogos através da coluna. Por isto, achei que seria interessante dividir com os outros leitores algumas experiências sobre aplicações práticas das teorias que têm sido discutidas aqui. Aos leitores que queiram me enviar suas experiências, meu e-mail aparece no final da coluna. Eu prometo que todas as mensagens serão respondidas – como, a propósito, todas foram até o momento – e as aplicações mais interessantes serão publicadas.

Um dos leitores que mais têm aplicado as teorias que escrevo é meu grande amigo Pedro Mello. O Pedro, aliás, já aplicava estes conceitos antes mesmo de conhecê-los. Como diretor de uma empresa de tecnologia, conheci o Pedro no papel de fornecedor de uma solução de Internet para a minha empresa de consultoria. Quando ele apresentou sua proposta, um detalhe me chamou a atenção. Se eu fechasse o negócio em 48 horas, ele me concederia 20% de desconto sobre o preço proposto. Se eu me decidisse em até uma semana, o desconto cairia para 10% e, após este prazo, não haveria mais desconto.

Como eu também sou prestador de serviços, eu sei que o Leilão de Dólar pode ser algo terrível em negociações comerciais, principalmente no setor de serviços. O Leilão de Dólar é uma aplicação da Teoria dos Jogos abordada no artigo “Eu penso que você pensa que eu penso…”. O mecanismo do leilão mostra que uma negociação que se arrasta por um prazo muito longo tende a chegar em um ponto em que você já gastou tanto tempo, energia e recursos que você tem que fechar o negócio a qualquer preço – mesmo com prejuízo – para encerrar o leilão o mais rápido possível.

Martin Schubik, o idealizador deste jogo, aplicou-o inúmeras vezes entre seus alunos de Yale com resultados muito semelhantes. As regras são muito simples: uma nota de um dólar era leiloada com um lance mínimo de um cent. Mas existe uma particularidade: o segundo colocado também deve pagar o lance – porém, sem receber a nota. Desta forma, se o ganhador do leilão desse um lance de US$0,20 contra US$0,19 do segundo colocado, o ganhador pagaria US$0,20 e receberia US$1,00: US$0,80 líquidos. O segundo colocado somente pagaria os US$0,19. Acontece que, na média dos leilões, a nota foi vendida por US$3,40. Seria de se esperar que o primeiro jogador desse um lance de US$0,01 e lucrasse o máximo possível. Mas este jogo não privilegia a cooperação e, com deserções de parte a parte, o equilíbrio é atingido em um ponto em que ambos jogadores perdem. Com o passar do tempo, o objetivo do jogo passa a ser não ficar em segundo lugar, ao invés de ganhar a disputa.

O que o Pedro desenvolveu foi, em última análise, um dispositivo anti-Leilão de Dólar. Para evitar que a negociação se arrastasse por muito tempo, ele criou um mecanismo de descontos para estimular o fechamento rápido do negócio. Quando eu li a proposta do Pedro, eu mostrei para ele o fundamento teórico sobre o mecanismo que ele criara e, a partir de então, ele tem aplicado vários outros conceitos da Teoria dos Jogos, Informações Assimétricas, etc em sua vida prática. Em uma outra oportunidade, ele me contou sobre uma aplicação das Informações Assimétricas a uma outra negociação, mas esta história fica para um próximo artigo.

O interessante desta história é que este dispositivo anti-Leilão do Pedro foi criado antes dele conhecer a teoria sobre o Leilão de Dólar. Isto mostra como estes conceitos são intuitivos, o que valida ainda mais a teoria. Na verdade, a Teoria dos Jogos teve um grande impulso através da Biologia. Em 1971, um biólogo de Harvard chamado Robert Trivers escreveu um trabalho chamado “A evolução do altruísmo recíproco”, onde demonstrava através da Teoria dos Jogos as vantagens evolucionárias que a espécie humana obteve com a cooperação. A partir daí, a Teoria dos Jogos cresceu interativamente com a Biologia, com grandes benefícios para ambas áreas de conhecimento.

Nos próximos artigos, eu pretendo contar as suas histórias, o seu exemplo de aplicação das teorias abordadas nesta coluna. Aproveite esta oportunidade para demonstrar sua disposição à cooperação recíproca e divida suas experiências com os outros leitores!

Teoria do búfalo

Posted in Just for fun by Raul Marinho on 14 outubro, 2008

Quando uma manada de búfalos é caçada, só os búfalos mais fracos e lentos, em geral doentes, que estão atrás do rebanho, são mortos primeiro. Essa seleção natural é boa para a manada como um todo, porque aumenta a velocidade média e a saúde de todo o rebanho pela matança regular dos seus membros mais fracos. De forma parecida opera o cérebro humano: beber álcool em excesso, como nós sabemos, mata neurônios, mas, naturalmente, ele ataca os neurônios mais fracos e lentos primeiro. Neste caso, o consumo regular de cerveja, cachaça, whisky, vinho, rum, vodka, elimina os neurônios mais lentos, tornando seu cérebro uma máquina mais rápida e eficiente. E mais: 23% dos acidentes de trânsito são provocados pelo consumo de álcool. Isto significa que os outros 77% dos acidentes são causados pelos filhos da put@ que bebem água, suco ou refrigerante ou outra merda qualquer!!!. Colabore!!Seja inteligente!

JÁ PRO BOTECO!

Confiança com ou sem fiança?

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 14 outubro, 2008

A piada é velha, mas ainda hoje engraçada:

O turquinho tinha subido no telhado e não sabia descer. Aí o pai dele (o turcão) apareceu e, do chão, gritava “Bula vilhinha, bula que babai sigura!!!”. O garoto não se convencia “Mas babai, eu tem medo de cai nu chom, e se babai num sigura eu?”, mas o pai reforçava “Vilhinha, bode bula, gônvia babai, babai sigura!!!”. Muito a contragosto, o turquinho acabou pulando para os braços do pai, que na última hora tira o corpo fora e deixa o filho se estatelar no chão. Ainda chorando, com dentes quebrados e todo machucado, o garoto reclama “Mas púrque babai num sigura vilhinha!!! Púrque babai tira corpo fora e deixa vilhinha esborrachar nu chom???”, ao que o turcão explica a grande lição do dia “Izo é brá vilhinha abrendi num gônvia nem nu babai!!!”.

Bem… Parece que o tal do “mercado” está que nem o turquinho da piada, que agora “num gônvia nínguem”… Talvez seja o caso de colocar oxitocina na água de Nova York. Leia o artigo abaixo, publicado originalmente na revista Você S/A em 2002:

A história da confiança (e da crise de confiança)

Se observarmos o homem em comparação com qualquer outro animal, fica evidente que somos uma das espécies menos dotadas de mecanismos de sobrevivência na natureza. Praticamente todos os animais têm alguma vantagem competitiva na luta pela vida: dentes afiados, garras poderosas, velocidade na terra, no ar ou na água, sistemas inoculadores de veneno ou capacidade de gerar descargas elétricas são alguns dos exemplos. Nós, ao contrário, temos pele sensível, não enxergamos à noite, precisamos dormir um terço do dia e somos totalmente indefesos nos primeiros anos de nossas vidas. Mesmo assim, o homem é um dos animais que teve o maior sucesso evolutivo na história do planeta.

Apesar de sermos uma espécie com enormes habilidades físicas e intelectuais para fabricar ferramentas e adotar estratégias elaboradas de caça, o homem deve seu desenvolvimento à sua capacidade de organização social. Um homem sozinho, por mais hábil e inteligente que seja, teria suas chances de sobrevivência bastante restritas na natureza. Enquanto isto, um grupo bem coordenado de seres humanos é praticamente imbatível. Mas nós não somos os únicos animais sociais do planeta. Muitas outras espécies também se organizam socialmente, e uma delas obteve êxito comparável ao nosso: as formigas.

Existe, porém, uma diferença básica entre a organização social das formigas e a nossa: formigas são cooperadoras incondicionais e nós não. As formigas são totalmente desprovidas de sentimento individual. Elas existem para o bem-estar do formigueiro e não delas próprias. Nós, ao contrário, vivemos o conflito de interesses constante de agir em proveito próprio ou da comunidade. O homem convive com a perspectiva da deserção da outra parte constantemente e, justamente por isto, nós damos tanta importância à reputação cooperativa do outro. Nossa estrutura social é baseada em confiança, a certeza que o outro vai se manter cooperativo em uma situação de conflito de interesses mesmo se houver vantagem em não cooperar.

Os primeiros seres humanos formaram grupos de caçadores-coletores que dividiam o trabalho de coleta de vegetais e formavam grupos de caça baseados em confiança. Estes caçadores-coletores primitivos evoluíram e aprenderam a cultivar seus alimentos e a trocar seus excedentes com membros de outras aldeias. Com o aparecimento da agricultura e do comércio, os mesmos mecanismos de confiança dos caçadores-coletores continuaram existindo e sua importância só aumentou. O homem atravessou eras, desenvolveu tecnologias, inventou o dinheiro e, em decorrência dele, o crédito.

Com o aparecimento do crédito, as relações humanas se tornaram ainda mais baseadas na cooperação mútua. E este mecanismo de confiança proporcionou o desenvolvimento da civilização em uma velocidade nunca antes vista, pois a riqueza de um financiava o desenvolvimento do outro e o comércio adquiriu uma importância impensável para um caçador-coletor primitivo. Mas tanto o homem primitivo quanto o financista de Wall Street do século XXI têm o mesmo equipamento biológico, o mesmo cérebro. E é este cérebro que criou mecanismos de cooperação nas atividades caçadoras de dezenas de milhares de anos atrás que toma decisões financeiras hoje em dia.

O mecanismo de funcionamento do cérebro humano ainda é pouco conhecido, mas já se identificou um hormônio, a oxitocina, que parece estar relacionado com a disposição em confiar do ser humano. Disto, podemos concluir que quando se diz que o mercado precisa tomar calmante para voltar à normalidade, talvez seja mais correto dizer que o mercado precise tomar oxitocina, já que o problema real é a falta de confiança, o nervosismo é somente um efeito colateral.

De qualquer forma, com ou sem oxitocina, o homem desenvolveu uma mecânica de pensamento para avaliar se pode ou não confiar no outro com base na reputação. E reputação é decorrente do histórico de um indivíduo em situações de conflito de interesses entre o benefício individual ou comunitário como a situação do Dilema do Prisioneiro, onde cada um dos participantes deve decidir se coopera ou não baseado no que ele pensa que o outro pensa sobre ele mesmo. O problema é que destas conjecturas acerca da deserção ou cooperação do outro podem surgir crises de confiança devastadoras com graves conseqüências econômicas: são as crises de confiança do mercado financeiro.

Os atores da crise estão em equilíbrio cooperativo antes dela acontecer: o credor mantém o crédito aberto ao devedor que retribui pagando seus compromissos regularmente. Subitamente, uma das partes pode concluir que a outra parte irá desertar e, para antecipar a deserção do outro, decide desertar primeiro. O interessante é que o outro não precisa tomar nenhuma medida efetiva para que a crise aconteça, basta dar algum indício de mudança de comportamento para acender o pavio do conflito.

Como o homem é o mesmo em termos biológicos há dezenas de milhares de anos, nosso cérebro interpreta uma crise de confiança em um mercado financeiro sofisticado como o nosso da mesma forma que interpretaria uma deserção em uma patrulha de caçadores primitivos há cinqüenta mil anos. Um caçador que não fosse digno de confiança seria excluído da aldeia. De maneira análoga, uma pessoa, uma empresa ou um país que for visto como não confiável financeiramente será excluído deste mercado: é o mecanismo do ostracismo. Foi este comportamento que fez do homem um sucesso evolutivo.

Cooperação: manual do proprietário

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 14 outubro, 2008

Este é o 5o. artigo publicado na Você S/A, que explica diferentes maneiras de organização social cooperativa:

Lições do formigueiro

Tanto entre os animais (não-humanos) quanto entre os homens, a cooperação parece ser o fator-chave do sucesso. Golfinhos formam grupos para encurralar cardumes de peixes com resultados muito melhores que a caça individual. Chimpanzés formam bandos de mais de cem indivíduos que os protege contra predadores e bandos rivais. E a humanidade forma grupos de trabalho há muitos milhares de anos. Henry Ford revolucionou a indústria com o conceito de linha de montagem, que nada mais é do que uma nova forma de organizar a cooperação humana. Mas como convencer cada indivíduo a atuar cooperativamente como parte de um grupo? Por mais que o desempenho cooperativo de um grupo seja a opção mais interessante para a coletividade, os mecanismos do individualismo, da deserção e da trapaça tendem a trazer benefícios ainda maiores para cada indivíduo em particular.

Imagine que você faça parte de um grupo de caçadores aborígines. Vocês estão à caça de um animal de grande porte que irá matar a fome de toda a aldeia – um gnu, por exemplo. Para isto, é necessário que haja uma coordenação da equipe para cercar o bicho e possibilitar o seu abate. Entretanto, num dado momento você vê um coelho passando. Você sabe que um coelho é suficiente para matar a fome da sua família. Por outro lado, se você for atrás do coelho, toda a operação de caça pode naufragar se o gnu tentar escapar justamente pelo seu lado. Você também sabe que, mesmo com a cooperação de todo o grupo, as chances de pegar o gnu são muito menores que a sua possibilidade de sucesso individual com o coelho. Existe ainda a possibilidade de você cooperar com o grupo e esquecer o coelho – mas se algum outro componente do grupo for atrás do seu coelho, você vai ficar sem nada. O que fazer, então?

Segundo o conceito original da Teoria dos Jogos, a deserção seria a alternativa racional. Em um jogo de rodada única, o caçador que for atrás do seu coelho estaria exercendo a melhor opção. Mas na vida real, o que acontece com maior freqüência são situações de repetição do jogo, onde a cooperação mútua tende a trazer os melhores resultados tanto individual quanto coletivamente. Nos grupos humanos em geral – e no exemplo dos aborígines em particular – é essencial que se possa acreditar que cada membro irá se comportar cooperativamente. É a base de um conceito que costumamos chamar de confiança. Se todos tiverem a certeza que todos cooperam, será muito melhor o desempenho do grupo como um todo. O grande problema é convencer cada um dos componentes do grupo a cooperar mesmo em situações em que a deserção traz o melhor resultado individual imediato.

Em termos de cooperação, entretanto, nada se compara ao que acontece com as formigas. Estes insetos têm uma organização sem hierarquia formal definida, sem mecanismos coercitivos, sem punições ou recompensas e sem estruturas de comando que funciona maravilhosamente bem. Todas as formigas cooperam e colocam a sobrevivência do formigueiro acima de sua própria sobrevivência. Não existe deserção individual entre as elas. Formigas jogam segundo a estratégia do “coopere sempre” há milhões de anos com excelentes resultados. Mas não é isto que acontece entre os humanos, que sempre estão à mercê de uma traição de outra parte. Os seres humanos precisaram desenvolver mecanismos para estimular a cooperação mútua baseado na punição.

Para que a sociedade humana funcione, foi necessário criar o mecanismo do ostracismo, em que o indivíduo não-cooperativo é excluído do grupo. Para que se saiba quem é que não coopera – e, portanto, quem é que deve ser mantido fora do grupo – criou-se um outro mecanismo denominado estigmatização. O estigma é uma marca que o indivíduo condenado ao ostracismo carrega para ser facilmente identificado. No Oriente Médio, a amputação das mãos é um mecanismo usado até hoje para estigmatizar um ladrão. Uma pessoa maneta é facilmente reconhecida como uma ladra e, com isto, toda a sociedade sabe que ela não é digna de confiança. Ao contrário das formigas, nós só conseguimos obter a cooperação recíproca na marra. Se nós cooperássemos sempre espontaneamente, não haveria a necessidade de tantos mecanismos punitivos, como leis e contratos.

O maior problema do mecanismo do estigma e do ostracismo é que o indivíduo é impedido de permanecer no grupo por um comportamento passado, mas nada garante que isto se repetiria no futuro. Um caçador pode eventualmente desertar do grupo para caçar o coelho porque sua mulher acabou de parir um bebê e ele não podia prescindir de alimento naquele momento específico. Mas, no futuro, aquele caçador poderia voltar a se comportar cooperativamente e fazer a diferença para a sobrevivência do grupo, coisa que não vai ser possível se ele for estigmatizado e condenado ao ostracismo. O processo de estigmatização faz com que a sociedade dirija somente olhando no retrovisor e não para frente. Parece que temos muito a aprender ainda com as formigas.

Altruísmo recíproco

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 13 outubro, 2008

No artigo abaixo, de 2002, eu falo pela 1a vez em “altruísmo recíproco”, que seria o centro do livro que eu iria lançar três anos depois (“Prática na Teoria”, ed.Saraiva, 2005):

Uma mão lava a outra

Segundo a Teoria da Evolução de Darwin, todas as espécies que hoje existem no planeta são a evolução de alguma outra. Admitindo que o Homo Sapiens surgiu segundo este princípio evolutivo, e sabendo mais recentemente que cerca de 99,5% de nossos genes são idênticos ao de um chimpanzé, podemos concluir que existe uma grande relação de parentesco entre os homens e os símios. A despeito de toda a polêmica envolvendo o criacionismo, a Teoria da Evolução de Darwin é hoje tão aceita cientificamente quanto a Teoria da Gravitação Universal. Seria muito mais agradável (moralmente, pelo menos) se fôssemos uma espécie especialmente concebida por Deus no último dia da Criação. Mas, infelizmente, as evidências científicas indicam que não foi isto que aconteceu.

A semelhança morfológica entre nós e os símios é a mais óbvia: basta olhar para um chimpanzé ou um gorila para verificar como eles se parecem conosco, especialmente quando jovens. Mas existem outras semelhanças ainda mais interessantes. Os chimpanzés e os bonomos (um outro símio que era tido como um chimpanzé anão até 1929) são os únicos animais que se reconhecem no espelho além do homem (que, a propósito, só adquire esta capacidade aos 18 meses). Os bonomos, por sua vez, compartilham conosco a prática do sexo frente a frente (todos os outros têm relações sexuais com a fêmea de costas para o macho), muito provavelmente para que os parceiros possam se reconhecer mutuamente.

Quanto ao comportamento, existe uma experiência que ilustra muito bem a inteligência (se é que se pode descrevê-la nestes termos) dos símios: o “teste do ahá!”. O pesquisador pendura uma fruta no teto de uma sala e espalha caixas e um cabo de vassoura pelo chão. O chimpanzé, ao entrar na sala, fica observando a fruta e os objetos, até que ele empilha as caixas e, ahá!, alcança a fruta com o cabo de vassoura. O uso de ferramentas também pode ser observado entre chimpanzé selvagens, que utilizam varas para “pescar” formigas e cupins e pedras para quebrar castanhas mais duras. Os chimpanzés também se assemelham aos humanos em nosso lado mais obscuro, preparando emboscadas para matar outros chimpanzés de bandos concorrentes. Frente a todas estas evidências, fica muito difícil não reconhecer de onde viemos.

Não seria de espantar, portanto, que alguns animais também jogassem de acordo com o previsto na Teoria dos Jogos. Uma habilidade fundamental para isto é a capacidade de reconhecimento individual. A reciprocidade carrega implicitamente a capacidade de saber quem é quem: se eu não sei quem é que habitualmente coopera e quem deserta, como poderei retribuir um favor ou punir uma deserção? Justamente por isto é que os animais que se comportam desta forma são aqueles que possuem cérebros mais desenvolvidos, com especial destaque para os símios (chimpanzés, bonomos, orangotangos e gorilas) e algumas espécies de golfinhos e morcegos.

Os chimpanzés são animais sociais que vivem em grandes grupos, de cerca de 150 indivíduos (aproximadamente, o mesmo número de humanos nos grupos de caçadores-coletores ancestrais ou de uma moderna comunidade religiosa ou mesmo de uma companhia do Exército). Os gorilas, ao contrário, vivem em grupos bem menores, de cerca de uma dúzia. Entre os gorilas, o líder geralmente é o macho maior e mais forte, já que a liderança é obtida pela força bruta. Os chimpanzés, entretanto, por mais forte que sejam, jamais conseguiriam conquistar o poder pela força: sempre haveria opositores em número suficiente para deter uma tentativa de supremacia por estes meios. A habilidade política em formar coalizões é fundamental entre os chimpanzés.

Um bando de chimpanzés geralmente conta com três indivíduos dominantes: os machos alfa, beta e gama. Estes três indivíduos decidem como se dá a divisão do alimento, que espaço físico deverá ser ocupado e tendem a monopolizar os favores sexuais das fêmeas. O macho alfa tende a hostilizar o macho beta (seu concorrente direto), formando coalizões com o macho gama. As similaridades entre as práticas dos chimpanzés e dos humanos são inúmeras, mas nada se assemelha ao que acontece nas “eleições da selva”.

Quando o macho alfa perde a posição e o seu “cargo” fica vago, geralmente acontece uma disputa pelo poder entre os machos beta e gama. Neste processo, estes machos beligerantes chegam a subir nas árvores com os frutos mais apreciados e jogam as frutas para os companheiros no chão. Uma vez eleito, o macho alfa jamais repete tal gentileza. Impossível deixar de reconhecer a similaridade com nossas próprias práticas, seja nas eleições seja dentro das próprias empresas.

A observação do comportamento animal levou à criação de uma nova ciência: a Etologia. Assim como a Teoria dos Jogos, a Etologia também é controversa e foi redimida do obscurantismo por um prêmio Nobel (no caso, o de Medicina, em 1973). Ao se analisar o comportamento humano pelas bases da Etologia com as ferramentas da Teoria dos Jogos, nós nos deparamos com novas formas de analisar o altruísmo. O velho “eu coço suas costas, você coça as minhas” passa a ter um novo significado.