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Psicologia evolutiva aplicada ao crédito?

Posted in Atualidades, banco, credito, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 18 maio, 2009

bank women

Leia a entrevista abaixo, da Susanne Arnann para o Der Spigel. Nela, a presidente do “Banco Mundial Feminino” (!!!???) faz algumas afirmações perturbadoras, supostamente apoiadas em conhecimento científico (trechos sublinhados em negrito). Gostaria muito de saber quais trabalhos científicos apoiam essas afirmações. Pelo que conheço da Psicologia Evolutiva, o que a sra. Iskenderian disse não passa de especulação e desinformação preconceituosa.

“Os homens são programados para se arriscarem mais”, diz presidente de ONG de microfinanciamento para mulheres

Segundo Mary Iskenderian, a presidente do Women’s World Banking, as instituições de microfinanciamento não estão sendo atingidas com força total pela crise financeira. Nesta entrevista ao “Spiegel Online“, ela explicou por que e falou também sobre as vantagens de contar com clientes mulheres.

Spiegel Online – Os bancos e as instituições financeiras de todo o mundo estão sofrendo com a crise financeira. Mas os bancos que você representa não estão. Por que isso?

Iskenderian – As instituições de microfinanciamento são muito cuidadosas. No passado, as renovações de empréstimos eram muito comuns e fáceis de serem obtidas. Agora estamos nos certificando de que as instituições estão sendo cuidadosas com a renovação do crédito, mas, em sua maioria, a qualidade das carteiras é boa.

Spiegel Online – Então, vocês realmente não sentiram os efeitos da crise?

Iskenderian – Estamos percebendo um impacto na forma de restrições ao crédito e da redução da capacidade das instituições de captar dinheiro e continuar financiando o crescimento. Ainda há fundos denominados em dólares e euros disponíveis. Mas o que secou completamente foi o financiamento em moeda local. A minha organização está tentando fornecer garantias de empréstimos às instituições de forma que elas possam tomar dinheiro emprestado dos bancos locais.

Spiegel Online – Os bancos não possuem reservas de equity para ajudá-los a contornar este tipo de escassez de capital?

Iskenderian – Até o momento a maioria das instituições de microfinanciamento não via de fato a poupança como fonte de financiamento. Isso era um produto que elas ofereciam àqueles clientes ansiosos por encontrar um local seguro para colocar o seu dinheiro, em uma instituição na qual confiassem, mas não como uma fonte de financiamento. Onde estamos sendo bastante ativos com os nossos membros é na elaboração de produtos de poupança. Depósitos muito pequenos que entram e saem no banco várias vezes por mês são muito caros. É necessária uma poupança de longo prazo com balanços crescentes para fazer com que valha a pena para a instituição oferecer esse tipo de produto.

Spiegel Online – No mundo em desenvolvimento, as mulheres estão sendo particularmente atingidas pela crise – mas quem de fato provocou a crise foram os homens. Será que a crise financeira teria ocorrido se um número maior de mulheres trabalhasse nos mercados financeiros?

IskenderianExistem atualmente trabalhos e pesquisas analisando por que motivo melhores decisões são feitas por grupos mais diversificados de pessoas trabalhando em conjunto. Os homens são quase que programados pelos hormônios para se arriscarem mais, o que é ótimo nos ciclos de prosperidade, quando eles obtêm retornos amplificados dos investimentos. Mas as mulheres proporcionam retornos bem mais estáveis no decorrer do tempo. Participei de muitos grupos nos quais, quando existia uma massa crítica de mulheres ou de pessoas de cor, ou qualquer outra coisa diferente da dominante hierarquia masculina branca, havia simplesmente uma outra abordagem dessa questão.

Spiegel Online – A maior parte dos empréstimos que você concede é para as mulheres. Por que isso?

Iskenderian – As mulheres são o ponto de entrada para o resto da família. Quando se fortalece economicamente a mulher, e ela é capaz de investir em um negócio, as maneiras como ela reinveste os rendimentos são as mesmas em qualquer lugar: a educação dos filhos, serviços de saúde para a família e moradia. Esses são os benefícios inter-gerações de longo prazo dos quais o lar inteiro se beneficia.

Spiegel Online – E isso não funcionaria se os empréstimos fossem concedidos aos homens?

IskenderianEu não quero entrar em uma discussão do tipo “os homens são maus e as mulheres são boas”. O que ocorre é uma divisão de trabalho ou prioridades. As mulheres reinvestem na família, no lar e nos filhos, e os homens reinvestem nos negócios, de forma que estes tendem a crescer mais rapidamente. Se todo o rendimento obtido ficasse no lar, isso seria um fato positivo. Infelizmente, o que vemos com frequência é que grande parte do dinheiro gerado pelos homens é desviado do lar. Eu vi uma estimativa não oficial segundo a qual cerca de 20 centavos de cada dólar em uma residência de baixa renda é gasto com jogo, prostituição, álcool e refrigerantes açucarados. E você provavelmente sabe que membro da família está gastando o dinheiro dessa forma.

Spiegel Online – Se o modelo de microcrédito tem tanto sucesso, por que os bancos tradicionais não passam a oferecê-lo? Será que se trata de algo de fato tão diferente do negócio central desses bancos?

Iskenderian – Existe um interesse crescente dos bancos em avaliar como eles poderiam atingir essa parcela da população – em muitos países os segmentos de baixa renda são os únicos que estão crescendo como mercados. Portanto, os bancos estão bem ansiosos. Mas as suas estruturas de custos fazem com que seja muito difícil conceder empréstimos muito pequenos. O valor médio dos nossos empréstimos é um pouco superior a US$ 500, e a melhor prática para uma instituição de microcrédito é contar com 450 clientes por agente de financiamento, algo que não existe nos bancos tradicionais. Os nossos juros variam de 30% a 40% – para cobrir os custos operacionais. Trata-se de um negócio bem caro porque há um grande foco nos clientes e em conhecer a dinâmica domiciliar deles.

Spiegel Online – A crise financeira fez com que ficasse mais difícil obter crédito no mundo desenvolvido. Será que o microfinanciamento poderia ser um modelo útil?

Iskenderian – Estamos sendo inundados por pedidos de crédito. E alguns membros da minha diretoria estão rogando que nos voltemos para os Estados Unidos. Mas neste país ainda existe bastante acesso ao crédito e, até o momento, o microfinanciamento não teve sucesso nos Estados Unidos. Alguns países desenvolvidos tiveram mais sucesso nessa área. A Espanha, por exemplo. E houve também algum sucesso, mesmo nos Estados Unidos, das operações junto a comunidades étnicas. Mas, e não quero parecer pessimista, onde ainda existe acesso ao crédito, é difícil para o microfinanciamento ganhar muito terreno.

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Remexendo no vespeiro

Posted in Evolução & comportamento by Raul Marinho on 30 março, 2009

vespeiro1

Em 12 de dezembro do ano passado, publiquei esse post aqui. O meu texto tinha exatas 8 linhas, em que dizia três coisas: 1)Que haveria um outro texto logo abaixo, o artigo da Bárbara Gancia na Folha daquele dia, sobre o término atribulado do romance da atriz Susana Vieira com um homem muito mais novo, que acabara de morrer; 2)Que aquele tipo de evento abordado pela articulista fazia parte das discussões do HBES – uma entidade estadunidense que estuda Psicologia Evolutiva, da qual participo; e 3)Que, no fundo, no fundo, o ocorrido era um conflito evolutivo clássico, uma vez que o Marcelo era um homem jovem com um largo horizonte reprodutivo, ao passo que a Susana já “havia encerrado o expediente”, digamos assim. Se vocês repararem no post, verão que não há comentários. Na verdade, houve, mas eu não os aprovei porque continham ofensas pessoais. Agora, volto ao assunto-tabu: mulheres velhas com homens novos – e, de antemão, aviso que ofensas gratuitas não serão toleradas, mas se for dentro contexto, como isso aqui, tudo bem.

Eu gosto da Susana Vieira, acho-a uma boa atriz e uma pessoa carismática. E não tenho nada contra ela namorar quem quer que seja, o problema é dela. Na verdade, o comportamento da Susana é uma dádiva para quem se mete a explicar o comportamento humano com ferramentas da Psicologia Evolutiva, como eu – não há como encontrar melhor exemplo do que o dela. Acrescento, ainda, que se eu fosse uma mulher solteira, sexagenária, e que gostasse do agito, talvez até fizesse o mesmo que a Susana! Mas tudo isso não impede que se faça uma análise racional do comportamento da atriz, que é o que faremos doravante.

A Psicologia Evolutiva parte do princípio básico de que nós somos primatas evoluídos de ancestrais das savanas africanas de cerca de 100mil anos atrás. E que, para que fosse possível existirmos hoje, foi necessário incorporar determinados comportamentos eficientes em termos reprodutivos, como o cuidado parental, por exemplo. Para nossa espécie, é fundamental que haja uma grande preocupação com o bem estar dos bebês, pois se fosse diferente, estes morreriam antes de que pudessem se reproduzir e nossa espécie acabaria extinta. Não é o que ocorre, por exemplo, com as tartarugas marinhas, que botam os ovos na praia e se mandam, deixando os bebês-tartaruguinhas à própria sorte – mas isso é como as tartarugas evoluíram, problema delas, a gente evoluiu de outro jeito.

Da mesma forma, se os homens de nossa espécie fossem especializados em se acasalar com mulheres “velhas” (isto é, que já passaram da menopausa), é certo que nossa espécie se extinguiria também. Se existimos, é porque existe uma tendência clara dos homens para gostar de mulheres “jovens” (férteis), ou pelo menos que assim se pareçam. Mas nosso comportamento é bem mais complexo do que isso, e nossos grandes cérebros possibilitaram desenvolvermos estratégias mistas mais elaboradas, como, por exemplo, a de homens que obtêm recursos com uma mulher “velha” para gastá-los com a mulher “jovem”. É exatamente isso o que fez o Marcelo, a propósito, quando trocou Susana por uma jovem mais nova até que ele mesmo.

Agora, a imprensa noticia que Susana está de namoro novo. “Tenho predisposição para a felicidade” é o nome da reportagem em que a sexagenária anuncia seu novo romance, desta vez com um rapaz de 25 anos, Sandro, que ganha a vida como “empresário, ator, mágico, malabarista e dançarino”. Algum palpite sobre onde essa história vai parar? Não sei se haverá um desfecho dramático como o que ocorreu com o Marcelo (provavelmente, não), mas se esse romance durar, o que deverá ocorrer é que Sandro sairá dele bem melhor do que entrou. Sua carreira de empresário-ator-mágico-malabarista-dançarino deverá ser beneficiada com o envolvimento com uma atriz global de 1o. time, e isso irá contribuir para aumentar o potencial reprodutivo do rapaz – isto é: as mulheres jovens deverão se interessar muito mais por ele do que se interessariam se ele nunca tivesse se envolvido com a atriz. Nesse momento – suponhamos, daqui a 5 anos – a atriz estará com 71 anos e uma dificuldade muito maior para continuar a atrair garotões, enquanto o rapaz já estará com 30 e pronto para desfrutar da fama e dos recursos conquistados. Aí, o conflito é inevitável.

Mulheres velhas e homens novos

Posted in Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 29 março, 2009

X-Phi

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 26 março, 2009

x-phi

X-Phi, Experimental Philosophy, ou simplesmente Filosofia Experimental. É uma prima da Economia Comportamental e da Psicologia Evolutiva que, de acordo com a matéria abaixo, está ganhando importância nos meios acadêmicos.

Filosofia experimental está na moda, mas também atrai hostilidades
Prospect
David Edmonds e Nigel Warburton

Katja Wiech é uma alegre pesquisadora alemã fascinada pela dor. Ela descobriu muitas coisas -por exemplo, quando católicos devotos recebem choques elétricos enquanto olham para uma imagem da Virgem Maria, eles sentem menos dor do que os ateístas quando recebem o mesmo tratamento desagradável.

Ela trabalha em um conjunto de salas no final de um labirinto de corredores no Hospital John Radcliffe, em Oxford. Em uma sala há um aparelho de imagem por ressonância magnética (IRM). As pessoas estudadas ficam deitadas na mesa do aparelho, com a cabeça dentro de seu tubo branco. Um computador aos pés delas fornece vários estímulos -imagens, perguntas e assim por diante- e é operado da sala vizinha, separada por um vidro. O barulho é alto. Há um botão de pânico caso as pessoas por acaso surtem.

Wiech é uma neurologista. Mas eis o detalhe estranho: ela está trabalhando com filósofos. A caricatura de um filósofo é a de um professor preocupado com coisas abstratas, sentado em uma poltrona confortável em uma faculdade de Oxbridge, especulando sobre a natureza da realidade usando apenas seu intelecto e alguns poucos livros. Isto tem alguma base na realidade. Mas com frequência um novo movimento derruba as ortodoxias das opiniões estabelecidas. Nós podemos estar entrando em uma dessas fases.

Uma nova escola dinâmica de pensamento está surgindo e ela deseja derrubar as paredes da filosofia recente e colocar a experimentação de volta ao seu centro. Ela tem um nome que daria prazer a um executivo de publicidade: x-phi. Ela conta com blogs e livros dedicados e conta com um número crescente de pesquisadores nas universidades de elite. Ela tem até mesmo um ícone: uma poltrona em chamas. A x-phi, a filosofia experimental, está na moda, se é que filosofia pode estar. Mas, cada vez mais, ela também está atraindo hostilidade.

Os filósofos sempre foram informados pela pesquisa científica, história e psicologia. De fato, a maioria dos gigantes da filosofia pré-século 20 combina estudos empíricos e conceituais. Mas para muitos filósofos de hoje, a ideia de uma filosofia experimental é irritante. A análise conceitual é a linha dominante da filosofia anglo-americana nos últimos 100 anos. Filosofia deste tipo não dá muita atenção para como as coisas são, mas sim para o que pensamos a respeito delas. Mas para um fã da x-phi, a pesquisa empírica não é um mero acessório para a filosofia; é filosofia.

Sob a bandeira da x-phi, é possível distinguir três tipos de atividade. A primeira usa as novas tecnologias de imagens do cérebro, na qual os filósofos se associam a neurocientistas como Wiech, para procurar por padrões de atividade neuronal quando as pessoas estudadas se veem diante de problemas filosóficos. No segundo tipo, os filósofos elaboram questionários para descobrir as intuições das pessoas e saem às ruas com uma prancheta. Na terceira, eles conduzem experimentos de campo, observando como as pessoas se comportam em situações em particular, frequentemente sem o conhecimento delas. Todas as três visam testar a suposição do filósofo de que sabe por introspecção o que as pessoas provavelmente dirão ou acreditarão. As afirmações filosóficas tradicionais -“nós temos fortes intuições de que…” ou “todos podemos concordar que…”- agora precisam ser testadas com evidências. A ideia de quem “nós” somos está sendo contestada, por exemplo, por pesquisas que sugerem amplas diferenças culturais a respeito das intuições. Pesquisas como estas levantam grandes dúvidas a respeito de nossa educação moral.

A maioria das pessoas leva décadas para chegar ao status de guru. Mas Joshua Knobe conseguiu isso em poucos anos após receber seu doutorado em filosofia por Princeton, em 2006. Ele tem uma empolgação contagiosa por sua pesquisa. Entre seus dias de estudante e de pós-graduação ele publicou alguns poucos artigos. Um foi a respeito da “intenção”: Quando as pessoas julgam que um comportamento foi intencional? Ele e um colaborador tentaram estabelecer isto por meio de alguns experimentos. Knobe diz que seu momento eureca ocorreu quando um filósofo, Alfred Mele, respondeu ao artigo. Apesar de discordar de Mele, o importante foi que Mele “tratou nosso trabalho como uma contribuição à filosofia… eu era muito idiota para perceber sozinho que as duas disciplinas (psicologia e filosofia) poderiam ser unidas desta forma”.

Seu trabalho a respeito de intenção logo chamou atenção. Uma colaboração com o colega filósofo Shaun Nichols demonstra a ambição da x-phi e quão amplamente sua metodologia pode ser aplicada. A questão do livre-arbítrio é perene na filosofia ocidental. O mundo é totalmente regido por leis causais e, se for assim, em que sentido os seres humanos podem ser considerados livres? Os pesquisadores, por meio de pesquisas, agora sabem o que as pessoas pensam.

Sem causar surpresa, talvez, a maioria das pessoas provou ser “não-determinista” -isto é, elas acham que os seres humanos têm liberdade de escolha. Mas a ciência parece revelar um mundo no qual cada evento é explicado em termos de causas anteriores e condições predominantes, sem nenhum espaço aparente para o livre arbítrio. Logo, nós somos responsáveis por nossas ações mesmo em um mundo determinista? Aqueles que acreditam que somos, e não veem contradição entre nossas ações serem determinadas casualmente e termos vontade própria, são conhecidas, no jargão, como “compatibilistas”.

Estranhamente, quanto mais detalhes -ou causas- os entrevistados são informados sobre um caso em particular, mais provavelmente as pessoas considerarão um agente responsável. Logo, ao lhes ser pedido para imaginar um Universo A, onde tudo está plenamente determinado, quase todos os pesquisados dizem que neste universo as pessoas não podem ser consideradas plenamente responsáveis. Mas ao lhes ser apresentado o mesmo universo, no qual um homem chamado Bill, que é apaixonado por sua secretária e, para ficar com ela, decide matar sua esposa e filhos (os experimentos de pensamento filosófico tendem a envolver muita morte), quase três entre quatro entrevistados insistiram que Bill era moralmente responsável. Acredita-se que o que estamos testemunhando aqui seja uma resposta emocional ao cenário.

Knobe e Nichols sugerem que o julgamento das pessoas nestes casos resulta de um “erro de desempenho”. Nossa resposta racional ao determinismo e livre-arbítrio é distorcida; nossa resposta emocional nos desencaminha. Se for verdade, então eles acreditam que o compatibilismo perde parte de sua força.

O uso de aparelhos para esclarecer mistérios filosóficos pode parecer um avanço e grandes alegações podem ser feitas com base em observações neurocientíficas. Mas Raymond Tallis, um filósofo e cientista médico que usou aparelhos de ressonância magnética por anos no estudo de derrames e epilepsia, não tem tanta certeza. Ele acha que a precisão e relevância das imagens do cérebro são superestimadas. A tecnologia IRM é excelente para investigar danos físicos no cérebro, explica Tallis, mas quando se trata de assuntos mais complexos, como a localização de processos específicos de pensamento, ela é rudimentar demais. Os dados desses exames, por exemplo, refletem a atividade média. Quando um setor do cérebro é iluminado, isto se deve a estar operando com uma carga maior do que a habitual em comparação a outras áreas. Mudanças que ocorrem por todo o cérebro não são captadas. E mesmo imagens neurais sofisticadas não podem distinguir entre dor física e rejeição social -elas “acendem” as mesmas áreas.

Mas ainda há um problema mais fundamental, diz Tallis. O tubo magnético não pode ser reproduzido no mundo real -de forma que as respostas dadas dentro dele possuem valor limitado na previsão de decisões que seriam tomadas no mundo exterior. Os cenários hipotéticos apresentados pelos voluntários são inteligentes mas implausíveis. Mesmo diante de uma suspensão da descrença, assuntos não são tratados com o mesmo pânico, indecisão, medo e angústia que os dilemas morais genuínos produzem. As decisões reais dependem da situação em particular; escolhas éticas não são como bifurcações, onde há apenas duas escolhas.

Mas apesar das críticas, as pranchetas e aparelhos de ressonância magnética estão se multiplicando, às vezes com efeitos surpreendentes sobre debates antigos. Nas últimas décadas houve um interesse renovado pela ética aristotélica e pela noção de que a ética é uma questão de cultivo da virtude. Muitos trabalhos recentes em psicologia moral destacam as formas como as situações e influências inconscientes afetam o que fazemos. Estes parecem previsores mais confiáveis de nossas ações do que nosso caráter. Há um elo aqui com a economia comportamental, que destaca nossos impulsos frequentemente ocultos e irracionais.

A filosofia moral parece um terreno particularmente fértil para combinação do conceitual e empírico. O filósofo de Princeton, Kwame Anthony Appiah, cita em seu livro mais recente, “Experiments in Ethics”, algumas experiências que demonstram o grau com que as situações afetam o modo como nos comportamos. Os teóricos da virtude aristotélica destacam a consistência entre as situações: uma pessoal compassiva provavelmente será compassiva quando se ver diante de tentações diferentes em circunstâncias diferentes. É realmente assim que as coisas são? A pesquisa empírica sugere que não. Pessoas que não sabiam que estavam participando de uma experiência, que encontraram uma moeda em uma cabine telefônica, se mostraram bem mais dispostas a ajudar alguém a pegar papéis que caíram no chão do que aquelas que não tiveram aquela pequena sorte.

As situações têm uma influência muito maior em como nos comportamos do que achamos. Talvez, então, em vez de nos preocuparmos tanto na formação do caráter do modo aristotélico, nós deveríamos estar conscientizando as pessoas de quão facilmente fatores aparentemente irrelevantes podem moldar o que somos.

Os experimentos em psicologia moral podem tornar a ética aristotélica menos plausível. Mas em outro sentido, o empreendimento da filosofia experimental é altamente aristotélica. Na famosa pintura de Rafael, “A Escola de Atenas”, Platão aponta para o reino abstrato: a verdadeira realidade, o mundo das formas que pode ser entendido apenas pelo pensamento puro. Aristóteles, entretanto, está voltado ao mundo diante dele. A x-phi parece estar aqui para ficar, e a filosofia contemporânea certamente a notará.

Mulher objeto

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 17 fevereiro, 2009

doll

Sabe aquele chavão feminista dos anos 1960, de acusar os homens de achar que as mulheres são meros objetos inanimados? Pois então, parece que não estava tão errado assim. Veja a reportagem abaixo, publicada hoje na Folha de S.Paulo pelo Eduardo Geraque:

Mulher de biquíni é objeto para o cérebro masculino

Experimento de psicóloga americana revela estrutura de pensamento machista

Imagem cerebral indica que homem “desliga” função de autocontrole ao ver mulher sensual, sobretudo quando ela não mostra seu rosto

Os homens podem não dizer isso explicitamente, mas há ocasiões em que todos tendem a pensar nas mulheres como objetos -principalmente quando elas estão de biquíni e não mostram o rosto. É isso o que acaba de mostrar um experimento realizado nos Estados Unidos com 21 homens heterossexuais estudantes de pós-graduação, apresentado em Chicago, na reunião anual da AAAS (Sociedade Americana para o Avanço da Ciência).
Talvez seja esse o efeito que explica sucesso que dançarinas mascaradas -como as personagens Tiazinha e Feiticeira- costumam ter na televisão brasileira. O experimento usou máquinas de ressonância magnética para mostrar que os circuitos cerebrais ativados nos homens durante a observação de um corpo feminino sensual desprovido de identidade são os mesmos que os permitem de reconhecer uma ferramenta, um objeto inanimado.

“Tecnicamente, podemos usar uma espécie de eufemismo neurológico e dizer que o homem não tem essa atitude de uma forma premeditada. É algo que ele não racionaliza”, afirma Susan Fiske, professora de Psicologia da Universidade de Princeton, uma das mentoras do experimento. Ela mostrou que o córtex pré-motor dos homens -uma das partes do cérebro mais envolvidas no reconhecimento- foi a área cerebral mais ativada nos voluntários que observavam fotografias de um colo feminino.
Essa parte do cérebro também é acionada quando é feita uma interpretação mecânica de uma imagem -em oposição a interpretações sociais.
Questionada pela Folha sobre o possível viés cultural que o estudo possa ter -só americanos participaram do experimento- Fiske disse não crer que o resultado mudaria se o experimento fosse feito em países, como o Brasil, onde mulheres de biquíni são comuns.

Fiske selecionou seus voluntários após aplicar um questionário a todos. Eles também precisaram passar por análises neurológicas. Só então os participantes puderam ser submetidos ao teste dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional, que registra as atividades cerebrais.

Praia ou escritório
No total do teste, cada participante ficou diante de 160 imagens. Elas eram de mulheres e de homens. Nos dois casos, foram apresentadas durante o experimento fotos com roupas de trabalho e também em trajes de banho. Imagens de rostos humanos, para medir a capacidade de reconhecimento de cada participante do teste, também foram exibidas.

Basicamente, a intenção era medir o grau de bem-estar dos voluntários após terem visto imagens de mulheres e de homens, tanto com o corpo exposto quanto coberto com roupas de trabalho. As imagens não eram pornográficas nem eróticas, disse Fiske. Os registros foram tabulados por meio de análises estatísticas de uso corrente por psicólogos.
De acordo com a pesquisadora americana, os seus resultados apresentados agora têm algumas implicações práticas. “Um dos desdobramentos pode ser o fato de que um patrão, por exemplo, pode beneficiar certas companheiras de trabalho em detrimento dos demais funcionários da empresa, dependendo de como ele idealiza aquele corpo”, diz a psicóloga.
Susan Fiske afirma que seus resultados também indicam que atitudes machistas de intimidação estão relacionadas com uma menor ativação de uma área do cérebro estudada por ela e envolvida na racionalização do pensamento, o córtex pré-frontal médio. “O sexismo hostil prediz uma menor ativação do córtex pré-frontal médio”, afirma a pesquisadora.

Smurfs medicinais

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 9 dezembro, 2008

De acordo com o psicólogo Gary Marcus, da Universidade de Nova York, assistir a um episódio dos Smurfs, como o acima, faria com que sua mente trabalhasse de maneira mais otimista. Essa e outras conclusões surpreendentes sobre a evolução e o funcionamento da mente humana estão nessa excelente matéria (que inclui uma entrevista com Dr. Marcus) publicada pelo Rafael Garcia na Folha OnLine. Vale a pena ler.

Estratégia de negócios

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 30 outubro, 2008

Mais um artigo publicado na Você S/A, sobre Economia Comportamental:

Carros usados, sexo e negócios

Três coisas bem diferentes, mas com alguma coisa em comum. Descubra o que é e aplique no seu dia-a-dia

Segundo a psicologia evolutiva, a prioridade do ser humano é a preservação da nossa carga genética. Em outras palavras: sexo. Assim como a maioria dos mamíferos, o homem também compete pelo direito de acasalar. Mas graças à nossa estrutura social e capacidade intelectual, nós não saímos por aí às cabeçadas como os bisões ou às mordidas como os leões. Nós utilizamos estratégias mais sutis, dentre elas as informações assimétricas.

Ou seja, para encontrar parceiros sexuais, tentamos convencer o parceiro do sexo oposto que somos “um bom negócio”. É o mesmo problema encontrado em uma entrevista de emprego ou na venda de um produto ou serviço: os “vendedores” sabem muito mais a respeito da qualidade do “produto” que os “compradores”. Trata-se de uma questão clássica de assimetria de informações que pode ser solucionada de acordo com o trabalho de George Akerlof, ganhador do prêmio Nobel de Economia de 2001.

Ele publicou um excelente trabalho denominado “The Market for Lemons” (algo como “O Mercado das ‘Latas Velhas’”), onde desenvolve um estudo sobre o mercado de carros usados nos EUA (os “lemons”) para descrever os mercados com forte assimetria de informações, como o mercado de trabalho. Raciocínio análogo é utilizado pela psicologia evolutiva para explicar estratégias utilizadas na competição por sexo entre os humanos. A idéia central do trabalho de Akerlof é que, como o vendedor do “lemon” sabe mais sobre a verdadeira qualidade de produto que o comprador, a tendência é que os preços se nivelem por baixo. A explicação é simples. Os compradores admitem que todos os carros usados são “lemons” – mesmo aqueles que estão em ótimo estado. O argumento mais convincente para acabar com essa assimetria é dizer que o carro não está à venda. Admite-se por hipótese que carros expostos em lojas de usados são “lemons”. Ao contrário, um carro utilizado normalmente tem mais chances de ser reconhecido como de boa qualidade simplesmente porque seu proprietário não deseja vendê-lo – pelo menos, não ostensivamente.

Esta estratégia é utilizada por homens e mulheres do mundo inteiro há milênios na escolha de um parceiro sexual. O homo sapiens tem um comportamento básico em relação ao sexo: escolher um parceiro “comprovadamente” satisfatório. Este comportamento é observado em ambos os sexos, mas as mulheres seriam mais orientadas a escolher parceiros “comprovados” – provavelmente porque a escolha feminina é associada a um maior nível de riscos durante a gravidez até os primeiros anos de vida dos filhos. Segundo este raciocínio, o melhor parceiro sexual é aquele já comprometido com outra parceira. Pelo mesmo motivo é mais fácil conseguir um bom emprego empregado do que desempregado. Admite-se que uma pessoa desempregada seria um “lemon” da mesma forma que um “solteirão” pode ser visto com desconfiança por mulheres casadoiras em potencial.

Esta teoria foi comprovada na prática pelo Pedro Mello, o leitor entusiasta desta coluna que aplicou o “Leilão de Dólar” às suas estratégias profissionais (veja o artigo “A Verdadeira Prática na Teoria”). Pedro estava negociando a venda de um projeto de e-business para uma grande marca de artigos eletro-eletrônicos quando tomou conhecimento do artigo sobre informações assimétricas. Em mais uma reunião de trabalho sobre o projeto, Pedro informou ao cliente que não poderia continuar com o trabalho porque uma outra empresa se interessou em adquirir o projeto. Esta informação caiu como uma bomba na diretoria da empresa. O interesse pelo projeto aumentou significativamente e o cliente fechou o negócio rapidamente. O projeto era o mesmo, a única mudança foi o fato de outra empresa estar interessada no mesmo serviço – e tratava-se de um trabalho que só poderia ser desenvolvido uma única vez.

Nós utilizamos esta estratégia em nossa vida pessoal de forma instintiva. Todo mundo sabe que a melhor arma de sedução em uma conquista amorosa é se mostrar relativamente indisponível. Mas ninguém nos diz para utilizar a mesma estratégia profissionalmente. Nos últimos anos, porém, vários prêmios Nobel de Economia foram concedidos a trabalhos relacionados a aspectos comportamentais, inclusive o de 2002, concedido a dois psicólogos comportamentais.

Casamentos matrilineares

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 3 outubro, 2008

A diretoria editorial deste blog tem o prazer de comunicar que adquiriu mais um artigo sobre Psicologia Evolutiva do mega-hiper-ultra-blaster escritor Raul Marinho. Esse é sobre casamento, não perca!!!

Receita para um casamento feliz

Você quer ter um casamento feliz, um relacionamento amistoso com sua mulher (ou marido) e seus filhos, ter a possibilidade de ter quantas namoradas (ou namorados) quiser, e não correr o risco de investir seus recursos em um filho que não seja seu? É fácil: basta você se mudar para uma sociedade matrilinear. Eu recomendo as Ilhas Trobriand, na costa da Nova Guiné (dizem que Kiriwina, a principal ilha do arquipélago, é excelente para o surf). Lá, os casamentos são felizes, os pais se divertem com seus filhos, os homens não correm o risco de apanhar se chegarem tarde em casa, nem existe a possibilidade de limpar o cocô de uma criança que não seja sua. Mas antes de digitar “passagem aérea trobriand” no Google, leia esse artigo até o fim. Talvez você mude de idéia.

Dizem os antropólogos que as atuais comunidades matrilineares seriam resquícios de uma organização social primitiva. Isso é controverso, mas o fato é que existem, ainda hoje, diversas comunidades matrilineares ao redor do globo. Nessas sociedades, os bens transitam pela linhagem materna: os filhos herdam os espólios dos parentes da mãe, principalmente dos tios. E é ele, o irmão da mãe, o sujeito que fica responsável pelas mesmas tarefas que o pai deveria realizar numa sociedade patrilinear. Esse “tio especial” é chamado de “avúnculo” na Antropologia: literalmente, “pequeno avô”. Nessas comunidades, há uma relação de troca peculiar (a chamada “relação avuncular): o tio ajuda a irmã a criar os sobrinhos, mas, em retribuição, é o filho da irmã que fica responsável pelo tio na velhice. Isso é mais ou menos o que acontece entre pais e filhos nas comunidades patrilineares, e, no fim das contas, há um espelhamento dos conflitos nas diferentes sociedades: Quando o tio é gente fina, o pai é mala; e quando tudo parecia paradisíaco, vem esse maldito conflito avuncular para encher o saco… E, para piorar, os conflitos tio-sobrinho acabam se refletindo em uma relação tensa também entre o irmão e a irmã – pelo ponto de vista da criança, respectivamente: o tio e a mãe.

Mas mesmo com esse problema de relacionamento entre tios e sobrinhos, e irmãos e irmãs, as relações familiares tendem a ser mais cordiais nas comunidades matrilineares. Embora haja relatos de conflitos muito sérios entre tios e sobrinhos, estes em nada se comparam às brigas por ciúmes, nem às desavenças entre pais e filhos, conflitos típicos das sociedades patrilineares. Em praticamente todas as principais sociedades ditas “primitivas” que apresentam essa característica, a mulher é brutalmente espancada. Os Maasai (uma etnia patrilinear importante da África), por exemplo, chegam ao requinte de esfregar urina de ovelha nos ferimentos decorrentes dos espancamentos por ciúme. Existe muito menos violência nas relações entre pais e filhos nestas sociedades, mas eles não são isentos de crueldade. Só que, diferente do relacionamento marido-mulher, em que a mulher sempre é a oprimida, no relacionamento pai-filho ambos podem oprimir. Muitas vezes, é o filho o opressor, principalmente quando o pai é velho, e o filho está louco para botar a mão na herança.

A sociedade brasileira é, pelo menos formalmente, bilateral: a herança segue tanto pela linhagem da mãe, como do pai. Entretanto, existe um viés claramente patrilinear nas relações afetivas familiares: em geral, o pai investe no filho, e o tio é um mero coadjuvante (quando muito). É daí que decorrem os conflitos, os espancamentos domésticos, as brigas, desavenças, bate-bocas – tanto entre marido e mulher, quanto entre pais e filhos. Se vivêssemos em uma sociedade matrilinear (ou enviesada nesse sentido), certamente os conflitos diminuiriam. O problema é que a organização matrilinear implode quando a comunidade fica muito grande e/ou muito rica. Quase sempre, a casa cai quando os tios (avúnculos) começam a desviar recursos do sobrinho para seu (suposto) filho. Enquanto for todo mundo pobre, ninguém liga para isso, mas quando as pessoas enriquecem, elas começam a se preocupar mais com o que vai acontecer depois que elas morrerem, e o filho começa a lhes parecer uma aposta mais inteligente que o sobrinho. É muito provável que, no futuro, não reste nenhuma sociedade matrilinear no mundo, infelizmente. Mas ainda dá tempo: se você se mudar hoje mesmo para Kiriwina, acho que você viverá feliz até morrer – só que você vai ter que levar o desapego material realmente a sério. Enquanto você não se decide, não perca o próximo artigo dessa série, que vai tratar das estratégias sexuais de homens e mulheres.

Chifre é uma coisa que colocaram na sua cabeça

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 3 outubro, 2008

Há cerca de um ano e meio atrás, iniciei entendimentos com uma “revista masculina” para publicar artigos baseados em conceitos de Psicologia Evolutiva aplicados à vida sexual das pessoas. Foi que foi até que, enfim, veio aquele papinho de “a editora não está en condições de lhe pagar honorários maiores que X, embora você valha muito mais que isso, e blá blá blá” – ou seja: eles queriam me pagar centavos. É uma tática esperta: como eu não sou um best-seller, eles sabem que eu cederia os textos de graça (que, afinal de contas, já estavam escritos), já que “novos talentos” são ávidos por publicidade gratuita. Só que eles não contavam com minha astúcia de especialista em teoria dos jogos, e os textos permanecem impublicados até hoje.

Ocorre que eu tenho um excelente relacionamento com o editor deste blog, e fiz um acordo multimilionário, cedendo os direitos ao “Cabeça de HP”. O fato do pagamento ter se dado em créditos liquidáveis em 100 anos não me preocupa, já que eu fiz as contas na minha HP e o valor presente é bem interessante… Bem, chega de lenga lenga e vamos ao texto. Tem mais um monte de onde saiu esse, que depois eu publico.

A origem do ciúme

A origem do ciúme está na cabeça, literalmente falando. Quando nossos ancestrais desceram das árvores e ficaram em pé sobre duas pernas, houve uma mudança anatômica que estreitou a pélvis, dificultando a saída dos bebês para as mulheres. Ao mesmo tempo, houve uma forte pressão evolutiva para mais capacidade cerebral, e o tamanho do crânio estava se expandindo. Isso levou a uma sinuca evolutiva: como fazer com que bebês com cabeças cada vez maiores fossem capazes de passar por canais cada vez mais estreitos? A solução encontrada foi fazer com que os bebês nascessem “prematuros”, e é por isso que as crianças da nossa espécie são tão frágeis em comparação a outros mamíferos. Essa fragilidade chegou a um nível tão grande que uma pessoa sozinha acabou não sendo mais capaz de viabilizar a sobrevivência da prole: a mãe passou a precisar de ajuda. Mas… Quem seria essa alma caridosa que estaria disposta a ajudá-la? Além dos parentes da mãe, o suposto pai acabou sendo o auxiliar preferencial para conseguir alimento, proteção contra predadores ou outros machos, e tudo o mais que era necessário para garantir que os bebês humanos chegassem à idade adulta. Estabeleceu-se uma sociedade entre homem e mulher para tocar o empreendimento chamado prole, e o ciúme nada mais é do que a manifestação dos conflitos que acontecem nessa sociedade.

A mulher passou a temer que o pai de seu filho se interessasse por alguma sirigaita da redondeza, o que poderia significar filhos por fora. Isso era um grave risco para ela e seu bebê, já que o homem poderia desviar recursos para outras crianças que não a sua. O homem, por outro lado, temia que sua mulher pulasse a cerca e gerasse filhos que não fossem seus, o que o faria investir seus parcos recursos na prole de terceiros. Pronto, está estabelecida a cizânia – e o ciúme. Isso tudo aconteceu, provavelmente, no alvorecer da nossa espécie. Alguns cientistas arriscam dizer que esse comportamento pode ser até mais antigo que isso, e nós seríamos ciumentos antes mesmo de nos tornarmos propriamente humanos… Mas, independente disso, o fato é que o mundo mudou radicalmente nos últimos milhares de anos, e o Homo sapiens conseguiu controlar sua reprodução quase totalmente. Então, por que, raios, nós continuamos com o mesmo comportamento, mesmo tendo acesso a inúmeros métodos contraceptivos hoje em dia?

O problema é que não é possível modificar comportamentos biologicamente construídos (ou, no popular, instintos) de uma hora para outra. A gente sente ciúme, essa é uma emoção que acontece independente de racionalizarmos a questão. Se sua mulher dissesse que dormiu com um amigo, mas usou camisinha, isso não diminuiria o seu sofrimento. Mas existe o ciúme terminal, que implode uma relação, e um ciúme – digamos – perdoável. Se você confessar que, na sua última viagem a Nova York, você acabou contratando os serviços de uma profissional, talvez você passe uma temporada dormindo no sofá. Tua mulher vai te jogar isso na cara em inúmeras situações, e vai ameaçar te deixar. Mas é pouco provável que vocês se separem só por isso… (A não ser que esta seja a gota d’água para uma separação que já era iminente.) Por outro lado, se sua mulher descobrir que você está apaixonado pela sua secretária, a sua casa vai cair mesmo que ela tenha certeza que nunca houve sexo entre vocês. Agir assim faz sentido evolutivo, uma vez que, nesse contexto, ela está correndo um sério risco de que você a abandone.

Já você deverá pensar de maneira oposta. Se sua mulher transar com seu professor de tênis, isso lhe seria devastador. Mas se ela se envolver emocionalmente com um colega de trabalho, talvez você considere a possibilidade de tentar reconstruir seu relacionamento.(Isso se você estivesse convencido que tudo não passara de uma paixonite, e que a relação sexual em si não se consumou.) Se ela mudar de emprego ou de cidade, quem sabe vocês não salvam o casamento? Para o homem, a suprema tragédia darwinista não é saber que sua mulher suspira romanticamente pelos cantos por terceiros, é investir nos filhos de outros… Se seu suposto pai, seus avôs, seus bisavôs – todos seus ancestrais homens, enfim – fossem cornos, eles poderiam não ter conseguido passar os genes deles para você. Ou seja: a evolução não premia o corno, independente de qualquer consideração moral sobre a traição. Isso não ocorre com as mulheres, que não tem como gerar filhos que não sejam seus parentes (pelo menos, de maneira natural). Como vimos, elas são igualmente ciumentas, mas por motivos totalmente diferentes. Bem, mas depois disso tudo, como fazer para viver de maneira mais tranqüila e feliz, sem ciúmes e brigas? Tem jeito? A boa notícia é que tem jeito, sim. A má é que isso vai ficar para o próximo artigo.