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Consciência negra? Tá de sacanagem…

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 20 novembro, 2008

zumbidospalmares 

Hoje se comemora o dia da consciência negra, o feriado (sim, em S.Paulo é) mais racista que se tem notícia – além de errado em todos os sentidos. Para começo de conversa: o que quer dizer “consciência negra”? Aliás, o que quer dizer “negro”? Como afrodescendente, sinto-me qualificado para responder.

“Raça negra”, como todos sabem, não existe (a não ser o conjunto de pagode), assim como não existe raça branca ou raça amarela, vermelha etc. Somos todos humanos, uma espécie sem sub-espécies ou raças, e pele um pouco mais ou um pouco menos escura não quer dizer nada em termos biológicos. (Talvez fosse mais sensato existir raça dos narigudos ou raça dos baixinhos do que raça negra).

“Ah, mas a ‘raça negra’ é uma construção social”, diriam os “””cientistas””” sociais… Ok, então quer dizer que as dezenas de etnias africanas dos milhões de indivíduos que foram importados para o Brasil como escravos são tudo a mesma coisa? Vá dizer isso para um bantu, um maasai ou um hutu para ver o que acontece… O pessoal “das sociais” também curte a “auto-denominação”: ou seja, o que importa é o julgamento que o indivíduo faz de si próprio – que é o critério oficial da moda. A negritude, enquanto expressão do Eu individual, define-se e é definida no nível subjacente da pessoa humana. Ou não.

Se alguém propuser criar o “dia da consciência branca”, será (corretamente) escorraçado: a última pessoa que disse alguma coisa parecida acabou seus dias (mal) incinerado nas cercanias de um bunker em Berlim. Mas, independente disso, ninguém irá propor um feriado desses simplesmente porque não precisa; nenhum “branco” precisa de tratamento paternalista. Então por que um “negro” precisaria? Será que os indivíduos que descendem de escravos africanos são inferiores aos demais, e precisam de um feriado para lembrar de cuidar de si mesmos? Isso sim é racismo!

Uma corrente paralela vai pela linha da “compensação”: os descendentes dos ex-escravos precisariam ser indenizados de alguma forma pela barbárie a que seus antepassados foram submetidos. De fato, raptar um ser humano, colocar-lhe grilhões, ambarcá-lo no porão de um navio fétido, e vendê-lo para trabalhar até o limite da exaustão no campo é, ninguém discorda, inadmissível. Pior que isso foi como o Estado (a monarquia de D.Pedro-II, aliás) promoveu a extinção do regime escravista, lavando as mãos quanto ao futuro do enorme contingente jogado às ruas. Mas pendurar essa conta no prego do Estado atual… Fica difícil, a começar pela identificação do beneficiário.

Num país miscigenado como o Brasil, a maior parte das pessoas descendem de escravos e de senhores (e de gente que chegou depois e não tem nada a ver com a história). Eu, por exemplo, tenho, do lado paterno, avós europeus, imigrantes do século XX; e do lado materno descendentes de famílias quatrocentonas (brancos portugueses) de uma parte, e de negros e índios da outra. Mereço receber uma indenização do Estado porque eu tenho uma bisavó que exerceu trabalhos forçados? Se sim, quem paga? O descendente de um sujeito que era proprietário de escravos, como meu bisavô? E quem descende dos europeus que substituíram os escravos na lavoura? Paga ou recebe?

 

 

Obs.: Na foto, Zumbi dos Palmares, proprietário de escravos de acordo com isto aqui.

16 Respostas

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  1. MIMY said, on 18 dezembro, 2008 at 12:04 am

    Além de desinformado, e c/ informações distorcidas e equivodas, não há o q dizer desse seu pseudo artigo.
    Ou melhor tem sim uma palavra q traduza isto: BOÇALIDADE.
    Vá se informar, estudar e principalmente descobrir qual é a definição de consciência negra.

  2. Raul Marinho said, on 18 dezembro, 2008 at 10:09 am

    Recebi o comentário acima acusando-me de BOÇALIDADE, termo que não tinha certeza sobre seu significado. Recorrendo ao wikicionário (http://pt.wiktionary.org/wiki/bo%C3%A7al), enconrei o significado de BOÇAL, que copio abaixo:
    “Negro recém-capturado e chegado da África”.
    Agora entendi.
    Obrigado.

  3. Spirito said, on 15 março, 2009 at 12:44 pm

    Raul,

    Estava lendo o post do macaco Travis e cheguei neste aqui, interessado no debate que você propõe, mas, convenhamos que a sua resposta ao Mimy não ajudou em nada a discussão.

    Também é uma reação hsitérica fazer o tipo de insinuação que você faz, sugerindo uma analogia entre a etimologia da palavra boçal e a qualidade do cometário do cara.

    Tá certo que você está, e termos, se defendendo, mas, para quem diz que abomina a histeria, ficou contraditório pra caramba.

    Outra: Há histeria racista nos Estados Unidos, certo. Há histeria racista aqui também, mas, isto não justifica a atitude de pessoas como você tentando desqualificar a questão, negando legitimidade a um evidente problema entalado na garganta de nossa sociedade que é o Racismo.

    Negar a existência óbvia do problema não faz com ele deixe de existir e não é uma colaboração inteligente em sua resolução.

    Este tipo de reparação social para problemas deste tipo é um tema bem comum na história da humanidade. Zombar dele não dá de você uma imagem de pessoa mais inteligente ou menos boçal do que você insinua que o Mimy é.

    (Desculpe se me estendi demais)

    Abs

  4. Raul Marinho said, on 16 março, 2009 at 4:08 pm

    “Estava lendo o post do macaco Travis e cheguei neste aqui, interessado no debate que você propõe, mas, convenhamos que a sua resposta ao Mimy não ajudou em nada a discussão.”
    =>E vc queria qyue eu respondesse o que para o sujeito que chega aqui me xingando? Tem discussão possível com um idiota desses?

    “Também é uma reação hsitérica fazer o tipo de insinuação que você faz, sugerindo uma analogia entre a etimologia da palavra boçal e a qualidade do cometário do cara.”
    =>Não é histeria, só quis mostrar que o xingamento que o Mimy usou tinha uma raiz profundamente racista.

    “Tá certo que você está, e termos, se defendendo, mas, para quem diz que abomina a histeria, ficou contraditório pra caramba.”
    =>Discordo. Não preciso me defender, basta não aprovar o comentário…

    “Outra: Há histeria racista nos Estados Unidos, certo. Há histeria racista aqui também, mas, isto não justifica a atitude de pessoas como você tentando desqualificar a questão, negando legitimidade a um evidente problema entalado na garganta de nossa sociedade que é o Racismo.”
    =>Eu não só não desqualifico a questão, como dedico minha energia e meu tempo para debatê-la. O difícil é encontrar alguém disposto a debatê-la de verdade.. Sinta-se convidado.

    “Negar a existência óbvia do problema não faz com ele deixe de existir e não é uma colaboração inteligente em sua resolução.”
    =>E desde quando eu nego o problema? Eu só acho que existem outras maneiras de abordá-lo.

    “Este tipo de reparação social para problemas deste tipo é um tema bem comum na história da humanidade. Zombar dele não dá de você uma imagem de pessoa mais inteligente ou menos boçal do que você insinua que o Mimy é.”
    =>”Reparação social” para quem? Para quem tem fenótipo negróide? Isso não faz o menor sentido! Há que haver reparação social, sim, mas não do jeito que se está fazendo (ex.: cotas). O racismo brasileiro é muito mais complicado que isso.

    “Desculpe se me estendi demais”
    =>Não, vc se estendeu de menos. Querendo debater o assunto, estou à disposição.l

  5. Spirito said, on 27 março, 2009 at 11:46 am

    Raul,

    É uma boa chance de se entender o assunto debatendo. Aceito o seu convite com a seguinte proposta: Vamos esmiuçar esta questão da natureza e das propriedades das cotas (sociais ou raciais) com argumentos menos passionais?

    Tenho também – não sei se tanto quanto você – debatido muito o assunto no meu blog (spiritosanto.wordpress.com) sempre a favor das reparações (e não propriamente me restringindoás cotas, embora as aprove também).

    Vamos nos falando (e nos lendo), além de debatendo com argumentos sadios, está combinado?

    Abs

  6. Raul Marinho said, on 27 março, 2009 at 3:26 pm

    Vamos focar a política de cotas para negros, então.
    A idéia das cotas é boa: “reparar uma injustiça histórica” (marxistas adoram abordagens historicistas). Como o Estado errou ao raptar indivíduos na África (ou concordar com que outros assim o fizessem) e obrigá-los a executar trabalhos forçados no Brasil, e continuou errando ao abandonar esses indivíduos à própria sorte após a revogação da escravidão; logo, ele (o Estado) deveria pagar pelos seus pecados, concedendo privilégios às vítimas do erro (ou aos seus descendentes) como uma forma de reparação. Na teoria, lindo. Na prática: impossível, inviável, ingênuo e tolo.
    O critério para a concessão de privilégios é baseado na aparência física atual do sujeito, o que por si só não diz nada numa comunidade miscigenada como a nossa. Nos EUA, onde negros e brancos mantêm-se relativamente segregados, branco é branco, preto é preto, é fácil saber quem é quem; não aqui, onde todo mundo é parcialmente branco e negro. O fato de o Joãozinho ser mais escurinho que o Pedrinho não significa que os ancestrais do Joãozinho foram mais prejudicados que os do Pedrinho: significa somente que os genes para a cor da pele escura acabaram se sobressaindo mais em um do que em outro. Ademais, alguém 70% negro é mais merecedor de reparação que outro, com 68% de ancestralidade negra? Qual a lógica disso? Logo de saída, a política de cotas se revela impraticável, mas os problemas não param por aí.
    Depois de 1888, outros grupos étnicos (não negros) foram trazidos para o Brasil para realizar o trabalho braçal, como italianos e japoneses. Estes não vieram nos porões dos navios negreiros, mas suas condições de vida e de trabalho, além da dignidade de seu tratamento não eram significativamente melhores, e o principal: estes grupos também foram negligenciados pelo Estado. Se os descendentes dos escravos africanos merecem reparação, os netos de italianos e japoneses também, e no fim das contas todo brasileiro terá um ancestral que justifique estar entre os beneficiados por programas reparadores.
    Finalmente, há que se considerar que o fato de um grupo específico precisar ser tratado com condescendência já ser, por si só, racismo e discriminação. Se eu sou negro e toda a sociedade sabe que pessoas da minha raça precisam de tratamento diferenciado para que eu possa vencer na vida, minhas vitórias serão sempre entendidas como decorrentes deste tratamento diferenciado. Ou seja: por causa de cotas e outras “ações afirmativas”, eu sempre estarei em desvantagem frente os demais. Entendeu por que eu sou contra as cotas para negros?

  7. […] e, de antemão, aviso que ofensas gratuitas não serão toleradas, mas se for dentro contexto, como isso aqui, tudo […]

  8. Spirito said, on 7 abril, 2009 at 8:12 am

    Raul,

    Está bem: Vamos focar a política de cotas para negros, então.

    Você não me convenceu de que “reparar uma injustiça histórica” é impossível, inviável, ingênuo e tolo. Porque seria? Tanto não é que as ações para barrar as ações já em curso neste sentido estão aí, até no Congresso. Se fosse inviável, bastava deixar a idéia morrer e pronto. E o que haveria de ingênuo em reparar ‘injustiças históricas’? A história tem sido um parâmetro social válido a partir de qualquer ponto de vista, até por falta de outro. Não é um atributo de marxistas (aliás, você é anti marxista? Ou será que não acredita na História?)

    Quando as sociedades civilizadas usam as suas referências históricas para por em prática algum tipo de ‘reparação social’ (os exemplos da necessidade de reparação social são fartos) o que se pretende é criar referenciais, aprender com os erros, evoluir rumo à civilização, à paz e, ao bem estar comum. Que mal há nisto?

    Neste caso, você comete um erro clássico ao avaliar uma questão tão complexa: Estamos tratando de um conceito chamado ‘Racismo’, uma construção simbólica muito antiga e arraigada na cultura da humanidade e que não tem nada a ver, exatamente, fisiologicamente, com raças (uma entidade biológica que, aliás, nem existe).

    Lembre-se: É o racista quem cria esta suposta, esta ‘negritude diferencial’ esta ‘inferioridade racial’, como pretexto para discriminar e excluir pessoas, enfim, para tirar vantagem social desta separação. O racismo é um artifício de dominação social. Você acha que não?

    Um grupo social não pode, ao mesmo tempo, discriminar ‘outro’, privando-o de benefícios sociais, alegando que, conotações supostamente raciais caracterizam este ‘outro’ como inferior e, no momento em que este ‘outro’ reivindica algum tipo de reparação pelos prejuízos evidentes que sobrevieram a esta exclusão, alegar que as tais características raciais ‘inferiores’ não existem. É um pensamento capcioso, imoral, convenhamos. Não se dá nenhuma chance ao sujeito excluído se redimir, evoluir. Pura covardia.

    E muito cuidado porque este conceito de ‘sociedade miscigenada’ também é uma invenção racista. Reflita comigo, por favor: Se não existem raças como poderia haver ‘raças miscigenadas’? Impossível, não é não? Logo esta afirmação sua, além de ser, tecnicamente uma alegação racista, é um paradoxo absoluto!

    Comparar os antecedentes da situação dos negros do Brasil com demais ‘grupos étnicos’ é mais um sofisma da sua parte, Raul.

    Os programas de imigração perpetrados pelo governo brasileiro não se parecem em nada com o regime de trabalho escravo da era colonial. Além disto, na verdade, em boa medida, haviam deliberados e assumidos interesses eugenistas (racistas, vale dizer) por trás das intenções destes governos. Esta constatação está escrita em qualquer livro de história de nível ginasial. É História, Raul.

    Comparar escravidão e imigração? Ora Raul, talvez você esteja, de novo, simplificando um assunto. Para começo de conversa, italianos e japoneses vieram para o Brasil em épocas de grave crise em suas regiões. Vieram n contexto de programas de intercâmbio entre governos e os referidos imigrantes receberam condições mínimas de sobrevivência para tocarem suas vidas, a saber, terras e moradia, além de, em muitos casos, insumos e previdência social.

    As agruras da vida destes imigrantes e os sacrifícios a que se submeteram – por livre e espontânea vontade, diga-se de passagem- não tem nenhum termo de comparação com o tráfico de escravos e a escravidão. A escravidão tem termos de comparação com os campos de concentração nazistas, Auschwitz, Birkenau, Treblinka.

    O que você esquece ou omite é o fato de que, admitindo-se que, efetivamente houve escravidão de negros e há até hoje racismo contra indivíduos com aparência de negros, um grupo social (os, visualmente ‘brancos’) foi, secularmente beneficiado por um sistema de privilégios (literalmente cotas ‘raciais’, meu caro).

    A expressão ‘reparação’ deve ser entendida, portanto sob este ponto de vista, sob um contexto de justiça social perfeitamente legítimo. Repor, por ação do Estado (enquanto gestor dos interesses dos indivíduos de uma sociedade) em alguma medida os benefícios dos quais um grupo foi privado, não importa muito por culpa de quem.

    A fragiliadde da sua argumentação fica gritante no seu último argumento: Basta que eu substitua o sujeito da frase (‘negro’ por ‘branco’) que estará explicada, cabalmente a justeza da reparação:

    ” Se eu sou BRANCO e toda a sociedade sabe que pessoas da minha raça SE UTILIZAM de tratamento diferenciado para que eu possa vencer na vida, minhas vitórias PODEM SER sempre entendidas como decorrentes deste tratamento diferenciado.: Ou seja: por causa de COTAS e outras “ações afirmativas”, eu sempre estarei em VANTAGEM frente os demais. Entendeu por que eu sou contra as cotas para negros?”

    Entendi, Raul. Agora eu entendi.

  9. Ricardo said, on 7 abril, 2009 at 8:55 am

    É surpreendente a (in)capacidade de especialistas e neófitos em questões de identidade – para colocar a questão no eixo – opinarem sobre o que não entendem com a veemência de guerreiros nômades. A construção da identidade negra excita seus fantasmas, remexe suas fantasias de um universalismo ultrapassado e eurocentrado apoiado na logicidade decadente. Os conceitos em que tais argumentos se baseiam aqui nesta discussão já foram ultrapassados por novas abordagens na forma e no conteúdo. Com respeito ao denodo intelectual do Espírito que me convidou a ver este debate e ao próprio Marinho que se coloca para tanto sugiro dois livrinhos para nivelar a questão. Aí dará para se fazer um debate substancial com idéias maduras e não achismos – e eu adoro insigts. Isto considerando que o debate de idéias é/será num bom nível: A identidade cultural na pós-modernidade de Stuart Hall já está na 11.a edição, ou tem muita gente que se calou ou está instruída para o debate; Identidade de Zigmunt Baumman eu prefiro O Mal Estar da Pós Moderenidade é mais denso na questão. De toda forma aí o debate pode para mim prosseguir, fora isso é uma digamos assim (como já foi dito pelo prócere da Casa Civil do príncipe sociólogo que esqueci o nome) uma masturbação sociológica.

  10. Raul Marinho said, on 8 abril, 2009 at 2:02 pm

    @Spirito:

    Obrigado pela sua resposta, Spirito. Continuemos o debate, que está ficando bom! A seguir, comento marcando com S o começo do seu texto (que estará em negrito) e com R o começo do meu. O texto é longo, mas necessário para que não paire dúvidas sobre os equívocos dos seus argumentos:
    S->Você não me convenceu de que “reparar uma injustiça histórica” é impossível, inviável, ingênuo e tolo. Porque seria?
    R->Releia minha resposta anterior. Quem é que seriam os beneficiados da reparação? Os ex-escravos já morreram, e seus descendentes são também filhos de brancos, como é que faz? Se vamos conceder privilégios a mestiços, na prática nós iremos beneficiar os netos dos donos de escravos, é essa a idéia? Percebe como não há como fazer?
    S->Tanto não é que as ações para barrar as ações já em curso neste sentido estão aí, até no Congresso. Se fosse inviável, bastava deixar a idéia morrer e pronto.
    R->Justamente por estas ações estarem equivocadas que eu iniciei esta discussão, oras… Normalmente, as boas idéias é que morrem, as más ficam sendo debatidas por décadas. Daí o nosso atraso. A proposta das cotas raciais é um absurdo que, se implementado, custará muito caro à nossa sociedade no futuro.
    S->E o que haveria de ingênuo em reparar ‘injustiças históricas’?
    R->Acreditar ser possível reparar injustiças cometidas nos séculos XVII, XVIII, XIX em 2009 é uma baita ingenuidade: é acreditar num mundo que não existe. De 1888 para cá, a sociedade mudou completamente, negros se misturaram com brancos, o país recebeu milhões de imigrantes. Os prejudicados já morreram, e seus descendentes são praticamente 100% da população. No Brasil, ou as pessoas têm sangue negro, ou são imigrantes recentes. Como é que vc vai reparar todo mundo? Não faz sentido.
    S->A história tem sido um parâmetro social válido a partir de qualquer ponto de vista, até por falta de outro. Não é um atributo de marxistas (aliás, você é anti marxista? Ou será que não acredita na História?)
    R->Acredito na História, não em mitos. O mito do branco malvado escravizando pretos bonzinhos, por exemplo… Óbvio que houve brancos portugueses e ingleses envolvidos no crime (embora a maior parte dos brancos da época não tenha se envolvido, é bom deixar claro), mas a coisa começava, em geral, com os próprios negros. Não estou falando isso por achismo, mas por conhecimento etnográfico. Estudei dezenas de etnografias de sociedades africanas, a maioria em localidades que foram doadoras de escravos para o Brasil e os EUA. A escravidão é comum nas sociedades tradicionais da África em determinados casos – ex. prisioneiros de guerra, venda de sobrinhos em sociedades matrilineares, escravidão por dívida, etc. Isso é conhecimento histórico verdadeiro, baseado em documentação etnográfica construída com método, e reconhecida por instituições antropológicas como o HRAF em Yale. Não estou falando do que se ouve falar em palestras em ONGs de meia tigela por aí. Como vê, tenho o maior apreço pela História. Quanto a ser anti-marxista… O que vc acha, meu caro?
    S->Quando as sociedades civilizadas usam as suas referências históricas para por em prática algum tipo de ‘reparação social’ (os exemplos da necessidade de reparação social são fartos) o que se pretende é criar referenciais, aprender com os erros, evoluir rumo à civilização, à paz e, ao bem estar comum. Que mal há nisto?
    R->Nenhum. Justamente por isso é que atualmente a escravidão é crime, a discriminação é crime, o racismo é crime. Nossa sociedade melhorou, “evoluiu”, ainda bem! O que não dá é querer reparar um erro do passado por meio de concessão de benefícios a um determinado grupo (indivíduos com a cor da pele mais escura) achando que, com isto, estar-se-ia fazendo justiça. Ora, mas quem está pagando ou também é descendente das vítimas ou é um imigrante recente que não tem nada a ver com os erros de portugueses e ingleses do século XVIII!!! A proposta de reparação que está em discussão nos mantém presos ao passado, não ajuda em nada o nosso progresso social.
    S->Neste caso, você comete um erro clássico ao avaliar uma questão tão complexa: Estamos tratando de um conceito chamado ‘Racismo’, uma construção simbólica muito antiga e arraigada na cultura da humanidade e que não tem nada a ver, exatamente, fisiologicamente, com raças (uma entidade biológica que, aliás, nem existe).
    R->Releia o meu post inicial e veja que fui eu quem afirmou não existirem raças humanas em termos biológicos – logo, não fui eu quem cometeu o “erro clássico”. Na verdade, o próprio racismo é um comportamento biologicamente construído, ou vc acha que uma “construção simbólica muito antiga e arraigada na cultura da humanidade” surgiu por vontade divina?
    S->Lembre-se: É o racista quem cria esta suposta, esta ‘negritude diferencial’ esta ‘inferioridade racial’, como pretexto para discriminar e excluir pessoas, enfim, para tirar vantagem social desta separação. O racismo é um artifício de dominação social. Você acha que não?
    R->Acho que sim, e condeno o racismo, principalmente quando apoiado em argumentos eugênicos. O que estamos discutindo aqui é se as cotas raciais fazem ou não sentido, não se o racismo é certo ou errado. Nesse ponto, estamos de total acordo: o racismo deve ser erradicado e punido.
    S->Um grupo social não pode, ao mesmo tempo, discriminar ‘outro’, privando-o de benefícios sociais, alegando que, conotações supostamente raciais caracterizam este ‘outro’ como inferior e, no momento em que este ‘outro’ reivindica algum tipo de reparação pelos prejuízos evidentes que sobrevieram a esta exclusão, alegar que as tais características raciais ‘inferiores’ não existem. É um pensamento capcioso, imoral, convenhamos. Não se dá nenhuma chance ao sujeito excluído se redimir, evoluir. Pura covardia.
    R->Concordo com a sua tese, mas no caso em discussão – cotas – não há como aplicá-la. O problema, de novo, é que as vítimas se misturaram aos criminosos, e hoje não há mais como reparar o dano. Eu, por exemplo, tenho ancestralidade negra, embora minha pele seja clara. Só que, por outro lado, também sou descendente de proprietários de escravos e de europeus que chegaram aqui no século XX. Como é que fica minha situação? E se, por acaso, minha pele fosse um pouco mais escura, como é em alguns parentes próximos, a coisa deveria ser diferente? Por quê?
    S->E muito cuidado porque este conceito de ’sociedade miscigenada’ também é uma invenção racista. Reflita comigo, por favor: Se não existem raças como poderia haver ‘raças miscigenadas’? Impossível, não é não? Logo esta afirmação sua, além de ser, tecnicamente uma alegação racista, é um paradoxo absoluto!
    R->Nossa espécie passou por um gargalo há cerca de 70mil anos, e quase fomos extintos (sobraram menos de 10mil indivíduos). É por isso que o homem moderno possui baixíssima diversidade genética, o que nos faz uma espécie sem sub-espécies ou raças em termos biológicos. Apesar disso, há diferenças óbvias entre os indivíduos de diferentes locais: um guerreiro Maasai é muito diferente de um caçador Inuit do pólo Norte, que é diferente de um indiano, de um chinês, de um cossaco russo, e assim por diante. No caso específico do Brasil, os escravos eram todos importados da África, e tinham características físicas muito diversas dos seus proprietários (existem muitos outros casos de escravidão em que não havia diferenças fenotípicas). Tudo bem até aqui? Ótimo. Quando da abolição, era óbvio quem descendia de escravos e quem era filho de cidadãos livres: os dois grupos eram facilmente distinguíveis. Naquele momento, a propósito, era possível (e deveria ter sido feita) alguma ação reparadora, pois o grupo das vítimas era totalmente separado do grupo dos culpados. O caso é que o grupo dos ex-escravos não ficou separado do grupo dos ex-proprietários (o oposto dos EUA, por exemplo), e hoje a maioria dos brasileiros tem ascendência tanto de escravos quanto de proprietários. Portanto, não há nem paradoxo nem racismo na minha afirmação. Deu para entender ou quer que desenhe?
    S->Comparar os antecedentes da situação dos negros do Brasil com demais ‘grupos étnicos’ é mais um sofisma da sua parte, Raul.
    R->Por que? Poderia explicar melhor?
    S->Os programas de imigração perpetrados pelo governo brasileiro não se parecem em nada com o regime de trabalho escravo da era colonial. Além disto, na verdade, em boa medida, haviam deliberados e assumidos interesses eugenistas (racistas, vale dizer) por trás das intenções destes governos. Esta constatação está escrita em qualquer livro de história de nível ginasial. É História, Raul.
    R->Eu nunca disse que era a mesma coisa, aliás deixei bem claro isso. Leia o que eu disse: “Estes [imigrantes do séc.XX] não vieram nos porões dos navios negreiros, mas suas condições de vida e de trabalho, além da dignidade de seu tratamento não eram significativamente melhores, e o principal: estes grupos também foram negligenciados pelo Estado”. E quanto ao propósito eugenista das imigrações… Bem, na verdade, a idéia era econômica mesmo: trazer mão-de-obra barata e livre de investimentos de capital, que era o principal problema dos escravos africanos, que precisavam ser comprados. Se havia um discurso eugenista por trás, é outro problema, de menor importância e sem nenhuma relação com o que estamos discutindo.
    S->Comparar escravidão e imigração? Ora Raul, talvez você esteja, de novo, simplificando um assunto. Para começo de conversa, italianos e japoneses vieram para o Brasil em épocas de grave crise em suas regiões. Vieram n contexto de programas de intercâmbio entre governos e os referidos imigrantes receberam condições mínimas de sobrevivência para tocarem suas vidas, a saber, terras e moradia, além de, em muitos casos, insumos e previdência social.
    R->Suponhamos que, hoje, um fiscal do Ministério do Trabalho visitasse uma fazenda de café do início do século XX, cheia de imigrantes italianos. Se isso acontecesse, o dono da fazenda sairia preso por prática de trabalho escravo, você concorda? Para vc ver que a coisa não era cor-de-rosa como vc está pintando…
    S->As agruras da vida destes imigrantes e os sacrifícios a que se submeteram – por livre e espontânea vontade, diga-se de passagem- não tem nenhum termo de comparação com o tráfico de escravos e a escravidão. A escravidão tem termos de comparação com os campos de concentração nazistas, Auschwitz, Birkenau, Treblinka.
    R->Em primeiro lugar, os imigrantes ficavam presos a contratos que os obrigavam a trabalhar na lavoura para pagar a conta da mercearia, eles não podiam simplesmente ir embora – logo, não há “livre e espontânea vontade” neste caso; há, na verdade, situação de escravidão. E, embora a situação dos escravos africanos seja de fato pior em termos de maus tratos e humilhações, há sim termo de comparação entre os dois, mas não em relação aos judeus da Alemanha nazista como vc sugere. Os judeus foram capturados para morrer e, se no meio do caminho fosse possível extrair algo a mais, com trabalhos forçados, tanto melhor. Isso é muito diferente da situação dos africanos, cujos proprietários não tinham o menor interesse na sua morte por motivos óbvios: eles custavam caro. Por exemplo: para os donos de escravos brasileiros, era interessante que seu plantel se reproduzisse, ao contrário dos prisioneiros judeus. Isso mostra claramente a diferença de propósito entre os dois grupos.
    S->O que você esquece ou omite é o fato de que, admitindo-se que, efetivamente houve escravidão de negros e há até hoje racismo contra indivíduos com aparência de negros, um grupo social (os, visualmente ‘brancos’) foi, secularmente beneficiado por um sistema de privilégios (literalmente cotas ‘raciais’, meu caro).
    R->De maneira nenhuma: os brancos tinham privilégios porque eram ricos, não porque eram brancos. Tanto é que, tão logo surgiram negros ricos, os privilégios também foram oferecidos instantaneamente para esses negros. É muito diferente dos EUA pré-1960 ou do apartheid sul-africano em que o negro, mesmo rico, não tinha os mesmos direitos dos brancos. A propósito, houve proprietários de escravos que eram negros no Brasil colonial, o que criaria um absurdo completo se os descendentes desses proprietários fossem beneficiados por cotas hoje em dia.
    S->A expressão ‘reparação’ deve ser entendida, portanto sob este ponto de vista, sob um contexto de justiça social perfeitamente legítimo. Repor, por ação do Estado (enquanto gestor dos interesses dos indivíduos de uma sociedade) em alguma medida os benefícios dos quais um grupo foi privado, não importa muito por culpa de quem.
    R->Mais uma vez, deparamo-nos com o velho problema: o grupo prejudicado (os negros pré-1888) está, atualmente, misturado com toda a população. Não há como reparar porque não há como saber quem é a vítima.
    S->A fragiliadde da sua argumentação fica gritante no seu último argumento: Basta que eu substitua o sujeito da frase (’negro’ por ‘branco’) que estará explicada, cabalmente a justeza da reparação:
    ” Se eu sou BRANCO e toda a sociedade sabe que pessoas da minha raça SE UTILIZAM de tratamento diferenciado para que eu possa vencer na vida, minhas vitórias PODEM SER sempre entendidas como decorrentes deste tratamento diferenciado.: Ou seja: por causa de COTAS e outras “ações afirmativas”, eu sempre estarei em VANTAGEM frente os demais. Entendeu por que eu sou contra as cotas para negros?”

    R->A questão é que, se eu sou um branco favelado, vou ser discriminado; e se eu sou um negro do Leblon, não.
    S->Entendi, Raul. Agora eu entendi.
    R->Espero que sim. Deu trabalho explicar, mas se restarem dúvidas, estou às ordens. Fico satisfeito que vc esteja concordando comigo.;-)

    @Ricardo:

    Quer dizer então que eu só posso discutir racismo se fizer um cursinho de pós-modernismo antes? Desculpe, meu caro, mas vou ficar com minha “logicidade decadente” do conhecimento antropológico, das etnografias das sociedades africanas e essas coisinhas sem importância para vc. Quando vc quiser sair do seu mundinho abstrato e discutir a realidade, sinta-se à vontade.

  11. Spirito said, on 9 abril, 2009 at 10:50 pm

    Raul,

    “…Os ex-escravos já morreram, e seus descendentes são também filhos de brancos, como é que faz? Se vamos conceder privilégios a mestiços…”

    Desculpa aí, mas sem querer ofender, não dá: Que papo é este ? Esta doeu, Raul.

    Você não me parece um cara disposto a, realmente refletir sobre o assunto. Literalmente você é um cara intolerante com uma idéia fechada sobre este tema e fala abobrinhas e chavões como se fosse um doutor incompreendido, ou seja: O perfil exato de um racista clássico.

    Você passa batido pela minha argumentação, repete tudo que já havia dito, sem fundamentar nada (só afirma e pronto) e me dá a impressão que eu vou perder o meu tempo sem nenhuma chance. Não tenho porque seguir este papo. Não me interessa conversar assim. Pra que?

    E não distorça minhas palavras: Eu não concordei com você em nada. De onde você tirou esta idéia? Não sabe ler não?

    Você vai bater com a cabeça na parede sozinho.

    Byebye

  12. Raul Marinho said, on 10 abril, 2009 at 10:24 am

    Eu não estou disposto a discutir? Vc viu o tamanho do meu texto? Vc viu que, em nenhum momento ofendi vc? Se meus argumentos estiverem errados, cabe a vc demonstrar que estão, como eu demonstrei que sua argumentação estava completamente equivocada. Agora, vir aqui me xingar de racista, quando eu defendo o tempo todo o anti-racismo… O que que é isso, companheiro? Só porque eu sou contra as cotas raciais? São elas (as cotas) que são racistas, não eu.

  13. […] seriam as mesmas pessoas que foram prejudicadas, não seus herdeiros. Ao contrário das cotas raciais, que seria uma forma de compensar os negros contemporâneos pelos grilhões impostos a antepassados […]

  14. Raul Marinho said, on 12 abril, 2009 at 12:48 pm

    A propósito, veja esse post do blog do Reinaldo:
    http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2009/04/esta-moca-nao-aprendeu-odiar-entao-um.html

  15. […] em homenagem ao leitor que assina Ricardo, o único pós-modernista que frequenta esse espaço materialista-darwinista e paleoliberal. […]

  16. Raul Marinho said, on 27 abril, 2009 at 1:37 pm

    Só para constar, segue reproduzido abaixo o editorial da Folha de hoje:

    Tribunais da raça

    Critérios raciais para ampliar acesso a escolas públicas produzem situações absurdas e devem ser abandonados

    MULTIPLICAM-SE os exemplos de distorções geradas pela adoção de critérios raciais para o ingresso nas universidades públicas.
    Na sexta-feira, esta Folha noticiou que 25% das matrículas de alunos que passaram no vestibular da Universidade Federal de São Carlos por meio dessa política foram canceladas, após questionamentos. O critério adotado para concorrer às vagas na instituição utilizando cotas raciais é a autodeclaração -o candidato precisa se declarar negro, pardo ou descendente direto de negros (pai ou mãe). Aprovado, o aluno faz a matrícula automaticamente. Se surgir contestação, porém, precisa “provar” o que declarou.
    Foi o que aconteceu com uma caloura do curso de imagem e som da UFSCar. A universidade não aceitou documentos apresentados pela aluna, que deveriam ter indicação de cor e ser reconhecidos pela Justiça. Não bastou registro em cartório com uma autodeclaração de que é parda. Mesmo com a apresentação de documentos e fotos de parentes, a estudante não conseguiu reverter a decisão, que, segundo a universidade, será discutida judicialmente.
    Já na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, uma aluna disse que foi vítima de preconceito. A instituição, que destina parte de suas vagas para alunos cotistas, não considerou a estudante parda e retirou-lhe a vaga. A UFSM adotou um modelo de checagem para a reserva racial. O controle se baseia em entrevista feita por uma comissão que inclui professores, técnicos da universidade, estudantes e ativistas de organizações pró-direito dos negros: um autêntico e estapafúrdio tribunal racial.
    Nas entrevistas, são feitas perguntas, como se a pessoa já se declarou negra ou parda em ocasiões anteriores ou se já foi vítima de preconceito. Segundo a caloura, como afirmou que nunca havia sofrido discriminação, foi excluída. Então a discriminamos nós, foi o sentido da resposta da banca racialista.
    Outro vexame semelhante, talvez mais emblemático, ocorreu em 2007, na Universidade de Brasília (UnB). Dois gêmeos univitelinos tentaram ingressar na faculdade pelo sistema de cotas raciais. O comitê racial da instituição considerou um deles negro. O outro, não.
    Todos esses casos são exemplos cristalinos da impossibilidade de categorizar pessoas segundo o parâmetro de raças -diferenciação que não encontra fundamento científico. Mais que isso: revelam a assombrosa banalização, em instituições de ensino superior, de tribunais raciais, uma prática segregacionista, ofensiva à democracia e estranha à história brasileira desde o fim da escravidão.
    É possível ampliar o acesso de estratos tradicionalmente excluídos ao ensino superior de qualidade sem atropelar direitos fundamentais -e sem alimentar o monstro racialista. Para tanto, é preciso adotar, como único critério nacionalmente válido nas políticas de ação afirmativa, o fato, objetivo, de o vestibulando ser egresso de escola pública.


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