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Casamentos matrilineares

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 3 outubro, 2008

A diretoria editorial deste blog tem o prazer de comunicar que adquiriu mais um artigo sobre Psicologia Evolutiva do mega-hiper-ultra-blaster escritor Raul Marinho. Esse é sobre casamento, não perca!!!

Receita para um casamento feliz

Você quer ter um casamento feliz, um relacionamento amistoso com sua mulher (ou marido) e seus filhos, ter a possibilidade de ter quantas namoradas (ou namorados) quiser, e não correr o risco de investir seus recursos em um filho que não seja seu? É fácil: basta você se mudar para uma sociedade matrilinear. Eu recomendo as Ilhas Trobriand, na costa da Nova Guiné (dizem que Kiriwina, a principal ilha do arquipélago, é excelente para o surf). Lá, os casamentos são felizes, os pais se divertem com seus filhos, os homens não correm o risco de apanhar se chegarem tarde em casa, nem existe a possibilidade de limpar o cocô de uma criança que não seja sua. Mas antes de digitar “passagem aérea trobriand” no Google, leia esse artigo até o fim. Talvez você mude de idéia.

Dizem os antropólogos que as atuais comunidades matrilineares seriam resquícios de uma organização social primitiva. Isso é controverso, mas o fato é que existem, ainda hoje, diversas comunidades matrilineares ao redor do globo. Nessas sociedades, os bens transitam pela linhagem materna: os filhos herdam os espólios dos parentes da mãe, principalmente dos tios. E é ele, o irmão da mãe, o sujeito que fica responsável pelas mesmas tarefas que o pai deveria realizar numa sociedade patrilinear. Esse “tio especial” é chamado de “avúnculo” na Antropologia: literalmente, “pequeno avô”. Nessas comunidades, há uma relação de troca peculiar (a chamada “relação avuncular): o tio ajuda a irmã a criar os sobrinhos, mas, em retribuição, é o filho da irmã que fica responsável pelo tio na velhice. Isso é mais ou menos o que acontece entre pais e filhos nas comunidades patrilineares, e, no fim das contas, há um espelhamento dos conflitos nas diferentes sociedades: Quando o tio é gente fina, o pai é mala; e quando tudo parecia paradisíaco, vem esse maldito conflito avuncular para encher o saco… E, para piorar, os conflitos tio-sobrinho acabam se refletindo em uma relação tensa também entre o irmão e a irmã – pelo ponto de vista da criança, respectivamente: o tio e a mãe.

Mas mesmo com esse problema de relacionamento entre tios e sobrinhos, e irmãos e irmãs, as relações familiares tendem a ser mais cordiais nas comunidades matrilineares. Embora haja relatos de conflitos muito sérios entre tios e sobrinhos, estes em nada se comparam às brigas por ciúmes, nem às desavenças entre pais e filhos, conflitos típicos das sociedades patrilineares. Em praticamente todas as principais sociedades ditas “primitivas” que apresentam essa característica, a mulher é brutalmente espancada. Os Maasai (uma etnia patrilinear importante da África), por exemplo, chegam ao requinte de esfregar urina de ovelha nos ferimentos decorrentes dos espancamentos por ciúme. Existe muito menos violência nas relações entre pais e filhos nestas sociedades, mas eles não são isentos de crueldade. Só que, diferente do relacionamento marido-mulher, em que a mulher sempre é a oprimida, no relacionamento pai-filho ambos podem oprimir. Muitas vezes, é o filho o opressor, principalmente quando o pai é velho, e o filho está louco para botar a mão na herança.

A sociedade brasileira é, pelo menos formalmente, bilateral: a herança segue tanto pela linhagem da mãe, como do pai. Entretanto, existe um viés claramente patrilinear nas relações afetivas familiares: em geral, o pai investe no filho, e o tio é um mero coadjuvante (quando muito). É daí que decorrem os conflitos, os espancamentos domésticos, as brigas, desavenças, bate-bocas – tanto entre marido e mulher, quanto entre pais e filhos. Se vivêssemos em uma sociedade matrilinear (ou enviesada nesse sentido), certamente os conflitos diminuiriam. O problema é que a organização matrilinear implode quando a comunidade fica muito grande e/ou muito rica. Quase sempre, a casa cai quando os tios (avúnculos) começam a desviar recursos do sobrinho para seu (suposto) filho. Enquanto for todo mundo pobre, ninguém liga para isso, mas quando as pessoas enriquecem, elas começam a se preocupar mais com o que vai acontecer depois que elas morrerem, e o filho começa a lhes parecer uma aposta mais inteligente que o sobrinho. É muito provável que, no futuro, não reste nenhuma sociedade matrilinear no mundo, infelizmente. Mas ainda dá tempo: se você se mudar hoje mesmo para Kiriwina, acho que você viverá feliz até morrer – só que você vai ter que levar o desapego material realmente a sério. Enquanto você não se decide, não perca o próximo artigo dessa série, que vai tratar das estratégias sexuais de homens e mulheres.

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