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X-Phi

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 26 março, 2009

x-phi

X-Phi, Experimental Philosophy, ou simplesmente Filosofia Experimental. É uma prima da Economia Comportamental e da Psicologia Evolutiva que, de acordo com a matéria abaixo, está ganhando importância nos meios acadêmicos.

Filosofia experimental está na moda, mas também atrai hostilidades
Prospect
David Edmonds e Nigel Warburton

Katja Wiech é uma alegre pesquisadora alemã fascinada pela dor. Ela descobriu muitas coisas -por exemplo, quando católicos devotos recebem choques elétricos enquanto olham para uma imagem da Virgem Maria, eles sentem menos dor do que os ateístas quando recebem o mesmo tratamento desagradável.

Ela trabalha em um conjunto de salas no final de um labirinto de corredores no Hospital John Radcliffe, em Oxford. Em uma sala há um aparelho de imagem por ressonância magnética (IRM). As pessoas estudadas ficam deitadas na mesa do aparelho, com a cabeça dentro de seu tubo branco. Um computador aos pés delas fornece vários estímulos -imagens, perguntas e assim por diante- e é operado da sala vizinha, separada por um vidro. O barulho é alto. Há um botão de pânico caso as pessoas por acaso surtem.

Wiech é uma neurologista. Mas eis o detalhe estranho: ela está trabalhando com filósofos. A caricatura de um filósofo é a de um professor preocupado com coisas abstratas, sentado em uma poltrona confortável em uma faculdade de Oxbridge, especulando sobre a natureza da realidade usando apenas seu intelecto e alguns poucos livros. Isto tem alguma base na realidade. Mas com frequência um novo movimento derruba as ortodoxias das opiniões estabelecidas. Nós podemos estar entrando em uma dessas fases.

Uma nova escola dinâmica de pensamento está surgindo e ela deseja derrubar as paredes da filosofia recente e colocar a experimentação de volta ao seu centro. Ela tem um nome que daria prazer a um executivo de publicidade: x-phi. Ela conta com blogs e livros dedicados e conta com um número crescente de pesquisadores nas universidades de elite. Ela tem até mesmo um ícone: uma poltrona em chamas. A x-phi, a filosofia experimental, está na moda, se é que filosofia pode estar. Mas, cada vez mais, ela também está atraindo hostilidade.

Os filósofos sempre foram informados pela pesquisa científica, história e psicologia. De fato, a maioria dos gigantes da filosofia pré-século 20 combina estudos empíricos e conceituais. Mas para muitos filósofos de hoje, a ideia de uma filosofia experimental é irritante. A análise conceitual é a linha dominante da filosofia anglo-americana nos últimos 100 anos. Filosofia deste tipo não dá muita atenção para como as coisas são, mas sim para o que pensamos a respeito delas. Mas para um fã da x-phi, a pesquisa empírica não é um mero acessório para a filosofia; é filosofia.

Sob a bandeira da x-phi, é possível distinguir três tipos de atividade. A primeira usa as novas tecnologias de imagens do cérebro, na qual os filósofos se associam a neurocientistas como Wiech, para procurar por padrões de atividade neuronal quando as pessoas estudadas se veem diante de problemas filosóficos. No segundo tipo, os filósofos elaboram questionários para descobrir as intuições das pessoas e saem às ruas com uma prancheta. Na terceira, eles conduzem experimentos de campo, observando como as pessoas se comportam em situações em particular, frequentemente sem o conhecimento delas. Todas as três visam testar a suposição do filósofo de que sabe por introspecção o que as pessoas provavelmente dirão ou acreditarão. As afirmações filosóficas tradicionais -“nós temos fortes intuições de que…” ou “todos podemos concordar que…”- agora precisam ser testadas com evidências. A ideia de quem “nós” somos está sendo contestada, por exemplo, por pesquisas que sugerem amplas diferenças culturais a respeito das intuições. Pesquisas como estas levantam grandes dúvidas a respeito de nossa educação moral.

A maioria das pessoas leva décadas para chegar ao status de guru. Mas Joshua Knobe conseguiu isso em poucos anos após receber seu doutorado em filosofia por Princeton, em 2006. Ele tem uma empolgação contagiosa por sua pesquisa. Entre seus dias de estudante e de pós-graduação ele publicou alguns poucos artigos. Um foi a respeito da “intenção”: Quando as pessoas julgam que um comportamento foi intencional? Ele e um colaborador tentaram estabelecer isto por meio de alguns experimentos. Knobe diz que seu momento eureca ocorreu quando um filósofo, Alfred Mele, respondeu ao artigo. Apesar de discordar de Mele, o importante foi que Mele “tratou nosso trabalho como uma contribuição à filosofia… eu era muito idiota para perceber sozinho que as duas disciplinas (psicologia e filosofia) poderiam ser unidas desta forma”.

Seu trabalho a respeito de intenção logo chamou atenção. Uma colaboração com o colega filósofo Shaun Nichols demonstra a ambição da x-phi e quão amplamente sua metodologia pode ser aplicada. A questão do livre-arbítrio é perene na filosofia ocidental. O mundo é totalmente regido por leis causais e, se for assim, em que sentido os seres humanos podem ser considerados livres? Os pesquisadores, por meio de pesquisas, agora sabem o que as pessoas pensam.

Sem causar surpresa, talvez, a maioria das pessoas provou ser “não-determinista” -isto é, elas acham que os seres humanos têm liberdade de escolha. Mas a ciência parece revelar um mundo no qual cada evento é explicado em termos de causas anteriores e condições predominantes, sem nenhum espaço aparente para o livre arbítrio. Logo, nós somos responsáveis por nossas ações mesmo em um mundo determinista? Aqueles que acreditam que somos, e não veem contradição entre nossas ações serem determinadas casualmente e termos vontade própria, são conhecidas, no jargão, como “compatibilistas”.

Estranhamente, quanto mais detalhes -ou causas- os entrevistados são informados sobre um caso em particular, mais provavelmente as pessoas considerarão um agente responsável. Logo, ao lhes ser pedido para imaginar um Universo A, onde tudo está plenamente determinado, quase todos os pesquisados dizem que neste universo as pessoas não podem ser consideradas plenamente responsáveis. Mas ao lhes ser apresentado o mesmo universo, no qual um homem chamado Bill, que é apaixonado por sua secretária e, para ficar com ela, decide matar sua esposa e filhos (os experimentos de pensamento filosófico tendem a envolver muita morte), quase três entre quatro entrevistados insistiram que Bill era moralmente responsável. Acredita-se que o que estamos testemunhando aqui seja uma resposta emocional ao cenário.

Knobe e Nichols sugerem que o julgamento das pessoas nestes casos resulta de um “erro de desempenho”. Nossa resposta racional ao determinismo e livre-arbítrio é distorcida; nossa resposta emocional nos desencaminha. Se for verdade, então eles acreditam que o compatibilismo perde parte de sua força.

O uso de aparelhos para esclarecer mistérios filosóficos pode parecer um avanço e grandes alegações podem ser feitas com base em observações neurocientíficas. Mas Raymond Tallis, um filósofo e cientista médico que usou aparelhos de ressonância magnética por anos no estudo de derrames e epilepsia, não tem tanta certeza. Ele acha que a precisão e relevância das imagens do cérebro são superestimadas. A tecnologia IRM é excelente para investigar danos físicos no cérebro, explica Tallis, mas quando se trata de assuntos mais complexos, como a localização de processos específicos de pensamento, ela é rudimentar demais. Os dados desses exames, por exemplo, refletem a atividade média. Quando um setor do cérebro é iluminado, isto se deve a estar operando com uma carga maior do que a habitual em comparação a outras áreas. Mudanças que ocorrem por todo o cérebro não são captadas. E mesmo imagens neurais sofisticadas não podem distinguir entre dor física e rejeição social -elas “acendem” as mesmas áreas.

Mas ainda há um problema mais fundamental, diz Tallis. O tubo magnético não pode ser reproduzido no mundo real -de forma que as respostas dadas dentro dele possuem valor limitado na previsão de decisões que seriam tomadas no mundo exterior. Os cenários hipotéticos apresentados pelos voluntários são inteligentes mas implausíveis. Mesmo diante de uma suspensão da descrença, assuntos não são tratados com o mesmo pânico, indecisão, medo e angústia que os dilemas morais genuínos produzem. As decisões reais dependem da situação em particular; escolhas éticas não são como bifurcações, onde há apenas duas escolhas.

Mas apesar das críticas, as pranchetas e aparelhos de ressonância magnética estão se multiplicando, às vezes com efeitos surpreendentes sobre debates antigos. Nas últimas décadas houve um interesse renovado pela ética aristotélica e pela noção de que a ética é uma questão de cultivo da virtude. Muitos trabalhos recentes em psicologia moral destacam as formas como as situações e influências inconscientes afetam o que fazemos. Estes parecem previsores mais confiáveis de nossas ações do que nosso caráter. Há um elo aqui com a economia comportamental, que destaca nossos impulsos frequentemente ocultos e irracionais.

A filosofia moral parece um terreno particularmente fértil para combinação do conceitual e empírico. O filósofo de Princeton, Kwame Anthony Appiah, cita em seu livro mais recente, “Experiments in Ethics”, algumas experiências que demonstram o grau com que as situações afetam o modo como nos comportamos. Os teóricos da virtude aristotélica destacam a consistência entre as situações: uma pessoal compassiva provavelmente será compassiva quando se ver diante de tentações diferentes em circunstâncias diferentes. É realmente assim que as coisas são? A pesquisa empírica sugere que não. Pessoas que não sabiam que estavam participando de uma experiência, que encontraram uma moeda em uma cabine telefônica, se mostraram bem mais dispostas a ajudar alguém a pegar papéis que caíram no chão do que aquelas que não tiveram aquela pequena sorte.

As situações têm uma influência muito maior em como nos comportamos do que achamos. Talvez, então, em vez de nos preocuparmos tanto na formação do caráter do modo aristotélico, nós deveríamos estar conscientizando as pessoas de quão facilmente fatores aparentemente irrelevantes podem moldar o que somos.

Os experimentos em psicologia moral podem tornar a ética aristotélica menos plausível. Mas em outro sentido, o empreendimento da filosofia experimental é altamente aristotélica. Na famosa pintura de Rafael, “A Escola de Atenas”, Platão aponta para o reino abstrato: a verdadeira realidade, o mundo das formas que pode ser entendido apenas pelo pensamento puro. Aristóteles, entretanto, está voltado ao mundo diante dele. A x-phi parece estar aqui para ficar, e a filosofia contemporânea certamente a notará.

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