Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

Faltou um topete

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 24 março, 2009

itamar

Estive no evento dos 15 anos do Plano Real hoje de manhã, na Fecomércio. Estavam lá o FHC, o Malan, o Gustavo Franco, o Andrea Calabi, o João Sayad, dentre outros. Mas nada do Itamar Franco (o da direita, na foto) que, bem ou mal, era o presidente na época. Tudo bem que o Itamar não foi o protagonista, mas como presidente-tampão no pós-impeachment do Collor, seu papel foi importante também. E, no mínimo, foi uma indelicadeza não chamar o homem do topete.

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Coincidência incrível

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 16 fevereiro, 2009

Nos idos de 2001, a revista The Economist publicou um dossiê sobre a legalização das drogas, reportagem de capa da edição de 28 de julho daquele ano. Guardo uma cópia dessa revista até hoje, e sempre que o assunto volta à discussão dou uma olhada nas reportagens daquela edição da The Economist só para constatar que não se falou nada de novo sobre o tema desde então. Semana passada, mais uma vez o assunto retornou à mídia, com o nosso ex-presidente FHC discusando sobre o tema – novamente, uma repetição da revista.

Ainda estava com a minha The Economist sobre a bancada de trabalho quando chega o final de semana, e com ele uma nova edição da revista Época. Que, por uma incrível coincidência, estampa uma capa quase idêntica à revista inglesa. Para quem quiser conferir a similaridade:

epte

A conclusão da The Economist é que a legalização das drogas é a única coisa sensata que se pode fazer para combatê-la (mais uma coincidência, dessa vez, tripla: é o mesmo que FHC e a revista Época concluem).

Dilma, a anti-líder

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 15 janeiro, 2009

O prof. Renato Janine Ribeiro, na Folha de hoje, escreve um excelente artigo sobre o déficit de liderança da possível candidata petista à cadeira do Marolinha. Veja abaixo:

Líderes, gerentes ou chefes
FHC e Lula definiram um alto padrão para a função presidencial: o de líder. É o que torna difícil imaginar Dilma na Presidência

QUATRO MANDATOS sucessivos de governantes do calibre de Fernando Henrique e Lula foram definindo um alto padrão para a função presidencial: o de líder. Esse papel é referência e modelo para quem quiser o cargo em 2010. É o que torna difícil imaginar Dilma Rousseff na Presidência. Pode ser uma boa gerente de projetos, mas não é uma líder que mobilize as pessoas. Sabe ser dura e mandar. Mas a qualidade dos dois últimos presidentes é outra: persuadir, unir, em suma, liderar.
Vamos distinguir gerente, chefe e líder. Um jornalista econômico lamentava a falta de apetite gerencial de FHC. Não concordo. Gerente pode ser o governador de São Paulo, presidenciável constante, mas a quem talvez falte a fagulha da liderança.
Um presidente tem de ir além do seu partido, e não só porque vai costurar uma coalizão, mas porque precisa lidar com um país complexo e liderar, em última análise, o próprio Brasil.
Assim foi que FHC emplacou o Plano Real, as privatizações e a posse tranquila de Lula, e Lula viabilizou uma política social mais audaz e a inclusão da esquerda entre os atores políticos aceitos no país. Fossem gerentes…
Dilma presidenta seria, apesar de seus méritos, um enorme problema para o PT. Pouco do que ela diz ou faz corresponde aos valores históricos centrais do partido. Parece mais empenhada em aumentar a produção, em articular governo e empresários.
Isso deixa um vazio de valores. É como se o meio -o crescimento econômico- se tornasse fim. E os fins -múltiplos, mesmo contraditórios- que o PT propunha? Eles somem.
Imaginemos, em seu lugar, um chefe. Fernando Haddad disputa esse papel. É o único ministro importante que tem mídia constante e favorável, graças em parte a uma ótima assessoria. Defende uma causa nobre (educação), enquanto Dilma se dispõe, para ter energia no rio Madeira, a sacrificar bagres. Melhor educar que eliminar peixes. O plano de Haddad para a educação é bem concebido, embora reste ver se e quando será executado.
Mas um chefe não é um líder. Um chefe dá ordens, nomeia, demite. Um presidente, não. O único ministro que Lula demitiu diretamente -Cristovam Buarque, por celular- lhe custou caro. Melhor mandar um emissário pedir o cargo. Presidentes, se forem líderes, não mandam. Falam. Seduzem. Quem chefia um ministério pode querer que ele seja homogêneo. Já um presidente administra ministros em conflito e, além disso, precisa de pontes com a oposição.
Ouvi um político francês definir um líder: “Sua melhor qualidade é que ele descobre muito rapidamente o que as pessoas querem”. Esse é um dom: o líder dá menos do que as pessoas pedem, mas isso porque elas mesmas não sabem o que desejam. Tal capacidade de escutar nada tem a ver com gerenciar ou mandar. É estratégia, não tática; é persuasão, não ordem.
Não é disciplina, é conciliação.
O Brasil não terá governos de um partido só. Estamos fadados a ter maiorias de coalizão no Congresso. O presidente da República, embora poderoso (ainda bem, senão viraria refém dos parlamentares), precisa unir da esquerda do PT até Delfim Netto.
Daí que seja tão importante ele falar.
Delega a gestão a primeiros-ministros de fato, gerentes como Sérgio Motta, Dirceu, Dilma. Eles podem dizer grosserias: “masturbação mental” (Motta), “tiro no pé” (Dilma). O presidente deve se poupar.
O PT tem um líder a propor para 2010? Difícil. Uma hipótese é viabilizar Patrus Ananias, que vive uma espantosa discrição: afinal, ele tem a pasta do Bolsa Família; mas, mineiramente calado, não se queima. Porém, a prioridade um do PT é: se este é o governo mais popular em várias décadas, por que dar a sucessão a outro partido? O PT proporá um nome de dentro, mas seu estoque é pequeno.
Por outro lado, como a prioridade dois -não do PT, mas de Lula- parece ser eleger o próprio Lula em 2014, poderia ser alguém que se contentasse com um mandato. Pois, hoje, elegemos governantes por oito anos, com um “recall” no meio. Talvez Dilma tope ficar um mandato só. Haddad, não.
Para ele, é melhor esperar do que se queimar como Medvedev brasileiro.
A alternativa é eleger alguém de oposição. O PT sairia do governo, recuperaria as raízes, Lula seria candidato natural em 2014. Mas quem a oposição tem? Serra, seu nome óbvio, lembra Dilma. Gerente, chefe, seu forte não é a persuasão. E como FHC era bom nisso! Ele e Lula, depois e ao contrário de Collor, souberam ir além de suas identidades imediatas. Mais uma vez: esse é o papel de um líder.
Por isso, Alckmin não servia. Estava longe desse perfil elevado. Serra, com esforço, talvez se torne líder.
Haddad tem tempo para isso, mas ainda não o é. Na oposição, quem hoje parece mais talhado para líder é Aécio -que tem seu primeiro-ministro, um ótimo vice, Antonio Anastasia.
Em suma, o Brasil colocou a política acima da gerência. Acho isso bom.
Custa alguma coisa deixar a gestão em segundo plano, mas custaria ainda mais gerir sem apoio político. Técnicos no poder funcionaram na ditadura. Na democracia, não bastam.

Lula gigante

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 4 novembro, 2008

lula-gigante

Como é que surgiu um líder patético como o Hitler num país tão sério como a Alemanha? Mesmo na Itália, um país mais bizarro, um sujeito como o Mussolini no poder é estranho: como é que um italiano médio admite ser representado por um líder tão esquisito? Collor de Mello, Menem, Fujimori… Foram todos péssimos exemplos, mas não eram tão espalhafatosos como um Chavez, um Idi Amin Dadá ou um Jânio. O que me intriga e sempre me intrigou é: como um país aceita ter um líder notoriamente grotesco, que passa vexame sem constrangimentos? Fale o que quiser de um FHC, de um Gorbachov, de um Hiroito, mas essam sempre foram figuras comedidas, não personagens de circo. Falo isso no momento em que leio esse post no blog do Noblat, sobre o Lula. Acho que estamos assistindo à gênese de uma entidade folclórica como nunca antes se viu nesse país.

Lula & preconceito

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 30 outubro, 2008

Raramente escrevo artigos históricos, mas este aqui é uma exceção, publicado na Você S/A logo antes do Lula tomar posse em seu primeiro mandato:

O preconceito do preconceito

Pela primeira vez na história, temos um presidente de origem popular. Lula é nordestino, sem formação acadêmica e portador de uma mutilação física. Se FHC diz ter um “pé na cozinha”, Lula tem os dois na senzala. Com todos estes atributos, Lula é igual à maioria dos presidiários, bóias-frias, porteiros de prédio e pedreiros do país. Em outras palavras: temos um Presidente da República que teria problemas para entrar em um restaurante fino de São Paulo – não fosse ele, obviamente, o morador do Palácio da Alvorada. Acredito que chegou a hora de encararmos de frente o preconceito e a discriminação que fingimos não ter. Temos, sim. Todos nós. Segundo a Biologia Evolutiva, o ser humano é um animal preconceituoso e discriminatório por natureza. Essas características foram essenciais para nossa evolução e são impossíveis de serem extirpadas, a não ser que se desenvolva uma técnica de cirurgia genética.

Existe uma antiga anedota sobre o namoro da Xuxa com o Pelé. A então jovem modelo chegou em casa e falou que estava namorando um negro. O pai, escandalizado, arrancou os cabelos por isto; sua mãe quase desmaiou. Mas quando a Xuxa disse que o negro era o Pelé, seu pai disse: “Ah, filha! Mas o Pelé não é tão negro assim!”. Da mesma forma, a maioria dos eleitores brancos e educados do sudeste que votaram no Lula provavelmente não o consideram tão nordestino, retirante e iletrado assim. Daí a grande idéia do seu marketeiro de vendê-lo como “Lula Light” ou “Lulinha Paz e Amor”. A mensagem subliminar para a classe média é a de que o Lula é ex-nordestino, ex-operário, ex-iletrado. Ou, visto por outro ângulo, o Lula agora é “um dos nossos”.

Vamos entender o preconceito pelo começo. Nossos antepassados não tinham uma vida tranqüila. No início da nossa existência como espécie, os Homo sapiens, agrupados em pequenas comunidades de caçadores-coletores, viviam em guerras tribais. A escassez de alimentos nas estiagens era devastadora e a equação básica da sobrevivência – representada pela quantidade de alimento dividida pela população – só fecharia se o denominador fosse reduzido. Visto de outra forma: se não houvesse guerra e morticínio, todos morreriam de subnutrição. Por outro lado, era preciso identificar claramente os componentes de sua própria tribo. Para que fosse possível saber a que tribo um indivíduo pertencia, era essencial discriminar. E nós desenvolvemos habilidades específicas de reconhecimento através das características físicas, como a cor da pele, por exemplo.

Como o traço comportamental de cooperar com quem é da mesma tribo e desertar com quem for da tribo vizinha trouxe vantagens evolutivas para nossos ancestrais, este comportamento se perpetuou na nossa espécie. Todos nós sempre discriminamos toda pessoa que vemos pela frente. Isto é tão natural quanto nossa boca salivar ao sentir cheiro de churrasco. Sempre que somos apresentados a alguém, nosso cérebro trabalha freneticamente para enquadrar esta pessoa em algum estereótipo que nos faça sentido. Uma grande gama de informações é checada em poucos segundos: da cor da pele ao formato do nariz; do sotaque à construção gramatical; dos gestos à vestimenta, nada escapa ao cérebro humano, construído e treinado para discriminar.

Devido a isto, nossa espécie tende a achar que todos que são diferentes de seu grupo étnico são, a princípio, inimigos. Este comportamento fazia sentido há 50.000 anos – na verdade, era determinante para a sobrevivência. Mas na sociedade moderna, este mesmo comportamento leva a distorções gravíssimas. Sobram exemplos do lado perverso do comportamento discriminatório. Os alemães da década de 30 achavam que os culpados de tudo eram os judeus. Muitos sulistas do Brasil acham que os culpados pelo desemprego e pela violência são os nordestinos. A maioria dos judeus israelita acha que os palestinos são uma praga a ser dizimada. Os brancos sul-africanos achavam que os negros nativos eram uma sub-raça, e assim por diante. Por ironia, a espécie humana é uma das que apresenta menor variação genética entre as espécies animais. Em essência, é um erro pensar que nós nos dividimos entre negros, pardos, brancos ou amarelos. O ser humano é uma raça única.

Na sociedade atual, organizada em supertribos multi-étnicas, o traço comportamental discriminatório ainda faz sentido em determinadas situações. Se, por uma mutação genética, alguém nascesse sem este traço comportamental, provavelmente esta pessoa teria problemas sérios. Um bom exemplo seria se esta pessoa estivesse andando pela rua de madrugada e encontrasse com uma gang de trombadinhas. Uma pessoa desprovida do sentimento discriminatório não saberia que seria assaltada ou agredida, ao passo que uma pessoa normal fugiria ou se esconderia do perigo. Mas o lado perverso da discriminação também existe e, apesar de “natural”, deve ser combatido. Com a eleição do Lula, acho que demos um passo importante para diminuir o preconceito, pois agora temos uma referência clara de que quem é pobre, nordestino e fala errado também pode chegar lá!