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Amado mestre…

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 17 outubro, 2008

O artigo abaixo foi publicado originalmente em 2003 na revista Você S/A, por coincidência o ano da morte do ator Rogério Cardoso, o “Rolando Lero” da Escolinha do Professor Raimundo. A enrolação, por mais cômica que possa parecer, é um dos problemas mais complicados em Recursos Humanos. O chefe que conseguir diminuir a enrolação de seus subordinados em 1% pode ser considerado um bom gestor; e se diminuir mais de 10%, é um gênio. Um dos estudos de caso mais marcantes que eu me lembro da faculdade tem a ver com esse tema, e vou resumi-lo abaixo (os caso é real, embora não tenha referências para apresentar).

Uma determinada empresa fabricante de papel possuía uma grande área de reflorestamento, cujas árvores precisavam ter o espaço ao redor do tronco capinado regularmente, para evitar ervas daninhas e acelerar o processo de crescimento. Os trabalhadores que exerciam a função eram pagos por dia de trabalho, e o gerente responsável logo percebeu que era muito difícil fazer com que esses bóias-frias trabalhassem mais do que 6 horas efetivas: havia muita enrolação para começar o dia, o almoço se estendia além do horário, e se a supervisão virasse as costas, os trabalhadores logo puxavam um cigarro de palha. Foi aí que o jovem gerente da operação, recém graduado em Administração pela USP, percebeu que os salários eram muito baixos e que conceder um aumento real significativo não iria representar um grande acréscimo nos custos, mas isso poderia trazer um grande aumento na produtividade, que é o que lhe interessava, afinal de contas, esse era um item importante na sua avaliação de desempenho.

Esse gerente sabia que dar o aumento pura e simplesmente não melhoraria a produtividade, então ele consultou os manuais de Recursos Humanos e concluiu que se ele passasse a pagar por produtividade, provavelmente conseguiria melhorar seus índices – afinal de contas, aqueles eram trabalhadores muito humildes, que teriam um substancial aumento na qualidade de vida se obtivessem mais renda. Todas as contas feitas, o gerente arbitrou um determinado valor por árvore capinada que possibilitaria aos trabalhadores dobrar o salário se eles executassem o trabalho com seriedade por 8 horas diárias. Com isso, ele imaginou que a jornada de trabalho fosse, no mínimo, respeitada, mas o gerente cogitava inclusive que os trabalhadores capinassem umas 10 horas por dia ou mais.

Sabem qual foi o resultado? A produtividade diminuiu, e os trabalhadores passaram a trabalhar somente 4 horas por dia, passando o resto do dia sentados à sombra, conversando, jogando truco, fumando o cigarrinho de palha, alguns até bebendo. Isso deixou o gerente estupefato, pois ele pensava que ocorreria exatamente o oposto – “se fosse eu”, disse ele, “trabalharia 16 horas por dia, para ver se deixava de ser bóia-fria o mais rápido possível”. Quando foi investigar por que isso estava acontecendo, ele logo encontrou a resposta. Os trabalhadores entendiam que ganhar “muito pouco” ou “o dobro de muito pouco” era a mesma coisa: eles permaneceriam miseráveis; mas se tivessem 4 horas por dia de lazer, aí sim a qualidade de vida deles melhoraria.

Esse é um paradoxo que só a Economia Comportamental explica; o paradigma do “agente econômico racional”, que por tantos anos se ensinou nas universidades, não dá a menor pista para entender o comportamento humano. Feito esse alerta preliminar, vamos ao artigo, então:

O antídoto da enrolação

Neste primeiro artigo da coluna “Prática na Teoria” baseado na contribuição dos leitores, vamos tratar de um assunto tão comum quanto pouco discutido nos meios corporativos: a enrolação. O Prof. Dr. Emilton Lima Júnior escreveu de Liège, na Bélgica, onde está concluindo seu doutorado sobre estresse profissional, para relatar seu ponto de vista sobre o assunto. Seu artigo publicado na Revista Brasileira de Ensino Médico aborda de forma brilhante a famosa frase “eles fingem que nos pagam – a gente finge que trabalha” sob a ótica da Teoria dos Jogos e das Informações Assimétricas. Apesar do artigo ter sido concebido originalmente para tratar a questão do ensino de medicina no país, este também é um assunto aplicável à maioria das empresas e órgãos públicos dentro ou fora do Brasil.

A enrolação no trabalho não é uma invenção brasileira. Prova disto é o fato de Bill Gates ter incluído jogos e passatempos como a paciência logo na primeira versão do Microsoft Windows. A enrolação nada mais é do que uma resposta desertora de um funcionário que entende que seu patrão não coopera o quanto ele acha que deveria. Como o funcionário sabe que existe um certo grau de assimetria de informações entre ele e a empresa, ele se sente seguro para enrolar. Além disso, ele sabe que a assimetria de informações também o protegerá caso ele seja despedido do atual emprego, pois dificilmente seu novo empregador irá saber que ele deixou a empresa anterior por ser um enrolador. Na verdade, o funcionário enrolador faz com que toda a produtividade de seu departamento ou empresa caia, prejudicando os funcionários mais trabalhadores, o que faz com que haja um equilíbrio progressivo em níveis cada vez mais altos de enrolação.

A estratégia mais básica em Teoria dos Jogos é a “tit-for-tat”, algo como “olho-por-olho”: eu coopero com quem coopera e deserto com quem deserta. Se eu achar que meu empregador não está agindo cooperativamente comigo, eu tendo a desertar. Por outro lado, se meu patrão achar que eu não estou cooperando o quanto deveria, ele é que tende a desertar. Como os dois acham que o outro está desertando ou irá desertar (uma incerteza devido à assimetria de informações), eles antecipam suas próprias deserções, caminhando rapidamente para um equilíbrio de Nash clássico: ambos desertam, pois esta é a melhor estratégia possível independentemente da estratégia escolhida pela outra parte. A grande questão é: quem nasceu primeiro? O ovo do funcionário enrolador ou a galinha do patrão ganancioso?

Isto é, no fundo, o famoso “Dilema do Biscoito”, criado há cerca de uma década pela publicidade nacional para vender uma determinada marca de biscoitos que não se sabia se era fresquinha porque vendia mais ou se vendia mais porque era fresquinha. O que se sabe somente é que todos os funcionários enrolam em maior ou menor grau; toda empresa oferece menos vantagens para seus empregados do que poderia ou deveria (uma outra visão da mais-valia marxista); e ambos fingem que não estão vendo a traição do outro para manter o equilíbrio entre eles. Perceba que este equilíbrio possui um grande viés inercial: qualquer uma das partes que tentar sair do equilíbrio se expõe a riscos. Se o empregado decidir parar de enrolar, ele corre o risco do patrão não só não retribuir, como atribuir um novo patamar de produtividade com a mesma cesta de remuneração oferecida anteriormente. A empresa que tomar a iniciativa de adotar uma postura mais cooperativa, por outro lado, também estará exposta à falta de reciprocidade por parte dos seus empregados e dificilmente conseguirá voltar aos patamares de remuneração anteriores – inclusive por imposição legal.

Antes que o leitor ache que este artigo é – ele mesmo – uma enrolação, vejamos o que o Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, pensa sobre este assunto. Segundo Stiglitz, a forma de romper este equilíbrio de Nash do tipo “eles fingem que nos pagam – a gente finge que trabalha” seria através de um nível de remuneração acima da média. A despeito do brilho intelectual de Stiglitz, esta teoria foi adotada empiricamente já em 1914 com estrondoso sucesso por um cidadão chamado Henry Ford. Naquele ano, a Ford Motors passou a pagar 5 dólares por dia para seus funcionários, contra uma média de 2 ou 3 dólares dos concorrentes e dele mesmo em anos anteriores. A produtividade na Ford cresceu vertiginosamente (51%, segundo relatórios da época) e o lucro da companhia dobrou entre 1913 e 1916.

O problema é que neste momento ocorre uma outra corrida de desertores, desta vez empresa contra empresa. Quando a concorrência percebeu que a Ford lucrava mais, passou a pagar mais de 5 dólares. No momento seguinte, a Ford passou a pagar mais que a concorrência e assim foi até as empresas atingirem o limite de lucro zero em suas empresas. A estratégia simplista do Mr. Henry naufragava pelo mesmo motivo que teve sucesso: a Teoria dos Jogos (na verdade, uma variante do “Leilão de Dólar”). Neste momento, aparece em cena um novo conceito em remuneração, o “Salário de Eficiência”: uma remuneração paga aos funcionários para que não enrolem.

O “Salário de Eficiência” foi publicado originalmente na Harvard Business Review em maio-junho de 1978 por Jacob Gonik. Apesar de ter quase um quarto de século, este conceito ainda hoje é visto como inovador. Na Você S/A deste mês, os repórteres Rodrigo Vieira da Cunha e Alessandra Fontana nos mostram como a remuneração variável (nomenclatura mais adotada no país para o “Salário de Eficiência”) é um assunto cada vez mais comum no Brasil e como isto tem a ver com você (leia a matéria “Você valendo mais” http://vocesa.abril.com.br/edi51/1318_1.shl).

A remuneração variável é a fórmula mais usada na composição da vacina anti-enrolação adotada hoje em todo o mundo.

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Lanterna na proa*

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 17 outubro, 2008

Na década de 1960, antes dos exames de ultra-som, havia um médico (clínico geral) em Rio Preto que acertava em 100% das vezes o sexo do bebê. Ele olhava para a mãe logo que esta sabia estar grávida e dizia, enigmaticamente: “é menino” (ou “é menina”), e em seguida pegava a ficha da paciente e anotava o palpite, à caneta, pedindo que a paciente retornasse ao consultório após o parto. O detalhe é que esse médico anotava na ficha o palpite oposto do que ele informara de viva voz, ou seja: se ele dissesse que era menino, ele anotava menina, e vice-versa. No retorno, duas coisas poderiam acontecer: 1)a paciente estava feliz porque o médico acertara, ou 2)ela estava indignada com o erro do profissional. No primeiro caso, era só festa; mas se a mãe estivesse decepcionada com o prognóstico errado do médico, este abria o arquivo, pegava a ficha, e dizia: “Moça, acho que a senhora estava nervosa e se confundiu… Olha aqui a ficha: eu anotei menino e não menina, como a senhora estava achando” (ou o contrário). Constrangida, a mãe voltava para casa convencida de que ela é que havia entendido errado.

Muitos profissionais da incerteza têm esse tipo de estratégia. Eu poderia, por exemplo, me consolidar como um vidente de sucesso, adivinhando quem será o campeão paulista de futebol de 2009. Se eu publicar nos classificados da Folha que o Palmeiras será campeão, no Estadão que será o São Paulo, no Diário de S.Paulo, o Crinthians, e assim sucessivamente, eu terei provas do meu acerto qualquer que seja o resultado. Como os jornais que estampavam um resultado diferente do verificado já estariam no lixo (e ninguém guarda classificados de “declarações à praça”, a não ser o próprio interessado), eu, que guardei todos eles, escolheria o que me convém e pronto, nasceu um vidente. O grande problema desta estratégia é que eu só conseguiria sucesso uma única vez. No ano que vem, quando eu fosse fazer as previsões para 2010, as pessoas provavelmente estariam atentas para declarações em meu nome, e logo perceberiam o engodo (risco que o médico do parágrafo acima não corria, já que as informações dele eram privadas).

Economistas, de uma forma geral, utilizam estratégias mais arriscadas para conseguir fama. Sou viciado em sebos, e veja o livro que encontrei um dia desses:

Ravi Batra, atualmente professor da prestigiosa Universidade Metodista Sulista em Dallas, Texas, previu um cataclisma na economia estadunidense nos anos 1990. Abarrotado de tabelas, gráficos e equações, o livro de Batra tinha tudo para ser um bestseller global, e seu autor um sério candidato ao Nobel, não fosse por um pequeno detalhe: os anos 1990 foram espetaculares para os EUA. Houve crise no México, na Rússia, nos “Tigres Asiáticos”, e o Brasil sofreu com a era Collor (e depois com a estagnação dos anos FHC), mas o foco do trabalho de Batra, os EUA, foram de vento em popa. (O que me assusta é que o mais novo lançamento de Batra é “The New Golden Age”, lançado em abril de 2008).

Hoje em dia, Nouriel Roubini desponta como o grande gênio da crise dos sub-primes. Foi ele quem alertou o mundo sobre o precipício logo em frente, mas ninguém deu atenção às suas sábias palavras. Curioso que o próprio Roubini não ouviu sua voz, já que se tivesse ouvido poderia ser o homem mais rico do mundo atualmente, apostando no mercado a termo ou de opções contra o Dow Jones. (Mas não se engane, mr. Roubini é um professor pardal da academia que não tem tempo para essas coisas mundanas como o dinheiro, como se percebe na foto abaixo). Agora, esse economista faz um novo alerta: “o mundo vai levar entre 18 e 24 meses para sair da crise”. Anotem isso em suas cadernetas! (Aliás, anotem também que eu estou prevendo que haverá inundações em grandes cidades do Brasil no início de 2009, devido às fortes chuvas que ocorrerão no próximo verão).

Varrendo a web para ver se achava alguém que não incenssasse Roubini, encontrei uma voz dissonante: Stephen Kanitz, que publicou um execelente artigo sobre o tema no seu site. Conheço o Kanitz, essa lenda do mundo dos negócios desde os anos 1980, quando era estudante de administração da FEA-USP, e ele um dos professores mais famosos da mesma instituição. Tornei-me amigo do Stephen uns anos atrás, ao comentar um artigo que ele escrevera na Veja, e acabamos fazendo uma viagem juntos no ano passado, para Williamsburg (EUA), onde participamos de uma conferência sobre Evolução & Comportamento. Numa tediosa viagem de trem entre Washington e Williamsburg, o Kanitz me convenceu porque não se deve confiar em economistas como o Batra ou o Roubini (sim, eu também ia na onda desses caras há até um ano e meio atrás): estes sujeitos são oportunistas, como o médico de Rio Preto do início deste artigo, e ficam cavando oportunidades para aparecer na mídia como os verdadeiros profetas o tempo todo (é aquele negócio: até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia). Simplesmente não existe esse negócio de previsão econômica do tipo Batra/Roubini, o que existe é chute que, por acaso, acerta o gol. Se você ainda duvida, leia “A lógica do cisne negro”, do Nassim Nicholas Taleb (ou assista à minha resenha do livro, abaixo). Depois não digam que não avisei.

*”Lanterna na proa” é um trocadilho com o título do último livro do Roberto Campos (aliás, sua autobiografia), o pai de todos os economistas do tipo Batra/Roubini.

Informações assimétricas

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 14 outubro, 2008

Imprima e guarde para usar quando você for comprar um carro usado, contratar alguém, ou pedir crédito num banco:

Assimetria de informações

Imagine que você queira comprar um carro usado: um Gol ano 98, por exemplo. Você encontra este modelo em várias lojas da cidade, mas quando volta para casa, você vê o Gol 98 do seu vizinho com uma placa de “vende-se” na janela. Qual carro você irá preferir: o da loja ou do seu vizinho? Agora, coloque-se na pele de um gerente de produção que precisa contratar um engenheiro. Você tem inúmeros currículos na sua mesa, mas um deles é do filho do seu amigo, que você conhece desde pequeno. Qual seria sua escolha natural? Ambos os casos tratam da questão da Informação Assimétrica, uma das teorias mais importantes para entender o funcionamento dos desvios de eficiência no mercado de trabalho.

Depois do Nobel de Economia para a Teoria dos Jogos em 1994, a comunidade acadêmica tem se interessado cada vez mais pela Microeconomia, como foi o Nobel de 2001 para a Informação Assimétrica. Determinados mercados, como os de carros usados, seguros, crédito e serviços especializados têm a característica de uma das partes saber muito mais do que a outra sobre a real qualidade do que está sendo negociado. O vendedor do carro usado sabe muito mais sobre o estado do veículo que o comprador. Quem contrata um plano de seguro médico conhece melhor seu próprio estado de saúde que a empresa de seguro. E, no caso do mercado de trabalho, o empregado também sabe muito mais sobre si mesmo que o empregador.

A Informação Assimétrica, porém, tem uma conseqüência nefasta sobre os vendedores: a Seleção Adversa. Quando compradores e vendedores não têm como determinar a real qualidade do produto, fazendo com que produtos de qualidades distintas sejam vendidos pelo mesmo preço, a Seleção Adversa cria um desvio de eficiência no mercado. Este desvio se traduz em uma depreciação indiscriminada de preços. Para entender o efeito da Informação Assimétrica sobre o mercado de trabalho, o ganhador do prêmio Nobel George Akerlof estudou o mercado de carros usados nos Estados Unidos, lá conhecidos como “lemons”.

Akerlof concluiu que, como vendedores e compradores não tinham como saber a verdadeira qualidade dos veículos, o mercado tendia a ter seu ponto de equilíbrio baseado no preço dos carros de baixa qualidade. Na verdade, somente pelo fato do veículo estar à venda em uma loja de usados, seu preço já seria substancialmente depreciado. Em contrapartida, os consumidores estariam dispostos a pagar mais pelos “carros de vizinho”. Acontece que o carro do seu vizinho vale mais para você que o conhece. Este mesmo carro em uma loja de usados é um “lemon”. Ou seja, o que faz a diferença é a assimetria de informações.

De forma análoga, um profissional que já esteja empregado vai ter muito mais facilidade em conseguir um outro emprego que alguém que esteja desempregado. Apesar de um potencial empregador eventualmente nem conhecer a empresa onde determinada pessoa trabalhe, ele vai admitir por hipótese que se trata de uma pessoa mais qualificada simplesmente por não estar no mercado de “lemons”. Se os efeitos da Informação Assimétrica são tão devastadores para quem está desempregado, os economistas começaram então a entender o que poderia ser feito para diminuir a Seleção Adversa no mercado de trabalho.

Neste ponto, a Informação Assimétrica se encontra com a Teoria dos Jogos ao concluir que a reputação seria um dos principais fatores para diminuir a disparidade de informações. Uma outra forma de diminuir a assimetria de informações seria através da sinalização de mercado. Um MBA em Harvard é um forte sinalizador não só porque significa que o profissional tenha conhecimentos específicos sobre administração de empresas. Talvez mais importante que o conhecimento, ter um título destes sinaliza outras qualidades, como inteligência, disciplina e empenho. O mesmo acontece com profissionais que trabalham à noite e nos finais de semana. Muitas vezes, estes profissionais trabalham fora do horário normal simplesmente para sinalizar comprometimento e dedicação, mesmo em situações onde a demanda profissional não seja tão alta.

McDonald’s é uma empresa que tira proveito das Informações Assimétricas pela padronização. Você pode não jantar no McDonald’s de sua cidade, mas se você estiver viajando com sua família pelo interior, provavelmente vai preferir a segurança de um McDonald’s à incerteza de um restaurante de estrada. A mesma estratégia pode ser adotada por um profissional que possua certificações reconhecidas mundialmente: a padronização aumenta a segurança de quem o contrata.

Nada, porém, é mais eficiente para diminuir as informações assimétricas que o velho e bom networking. Dê uma olhada no seu currículo. Mesmo que você tenha seguido todas as orientações para construir um currículo perfeito, ele vai conter uma fração da informação sobre quem você realmente é. Seria comparável ao manual do proprietário de um carro usado, onde você vê os carimbos das revisões: o.k., o carro teve manutenção, mas como ele foi dirigido de fato? Seus amigos, parentes e colegas de trabalho, por outro lado, sabem o que você andou fazendo nos últimos anos. É comparável ao carro do vizinho que você vê todo dia – e, a propósito, não vai dar a mínima importância para o manual, caso se interesse em comprá-lo.

A assimetria de informações é um fenômeno relativamente recente na história do homem. Antes da evolução das tribos primitivas para as supertribos que originaram as cidades modernas, as pessoas se conheciam mutuamente e a assimetria de informações era praticamente nula. Hoje em dia, o homem vive no anonimato em decorrência da hiper-população: ninguém mais conhece ninguém e a assimetria de informações é enorme. O networking é, na verdade, uma estratégia para diminuir os efeitos das enormes aglomerações em que vivemos. Nós ficamos menos anônimos e, conseqüentemente, as informações sobre nós ficam mais simétricas.

“””Ciências””” Econômicas

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 14 outubro, 2008

Depois dessa crise, espero que, de uma vez por todas, entenda-se que Economia NÃO é ciência. Interpretei o Nobel de Economia deste ano como um sinal da Academia neste sentido,  já que o Paul Krugman é um anti-economista.

Na verdade, nenhuma “””ciência””” social pode ser considerada ciência no sentido popperiano (o único que faz sentido). “””Ciência””” jurídica ou hermenêutica, então, nem pensar (isso é a quintessência das contradições). Ciência de verdade é Física, Química, Biologia, onde se pode fazer predições, testes, falsear e replicar os experimentos, o resto é técnica (ex. Engenharia e Administração) e/ou coleção de selos (ex. Sociologia e Economia).

And the Oscar goes to…

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 13 outubro, 2008

Acabou de sair o “Prêmio Nobel em Economia” deste ano (vide nota abaixo). Interessante que, normalmente, o Nobel de Economia vai para uma “escola” ou abordagem importante para a Economia (Ciência Econômica), ex.: Teoria dos Jogos (1994), Informações Assimétricas (2001), Economia Comportamental (2002), etc. Dessa vez, o Paul Krugman levou o prêmio por sua posição política anti-Bush e anti-liberalismo, e mais por sua postura como jornalista econômico do New York Times do que pela sua pesquisa acadêmica em si (embora seja um acadêmico brilhante). Na verdade, esse prêmio foi de anti-Economia, no sentido em que o PK sempre remou contra a maré do pensamento econômico do mainstream.

Bem, mas o fato é que o “Prêmio Nobel de Economia” não é um Prêmio Nobel de verdade… Quando o industrial Alfred Nobel institui a premiação e seus respectivos fundos (cada prêmio custa 10 milhões de coroas suecas, atualmente), a Economia não estava em seus planos. Só muito tempo depois incluíram a premiação para a Economia, com o nome oficial de “Prêmio do Banco Central da Suécia em Memória de Alfred Nobel para Trabalhos em Economia”, custeada pelo BC sueco, e anunciado na mesma época dos prêmios legítimos. Como o nome da premiação era muito longa, resolveram abreviá-la para “Prêmio do Banco Central da Suécia em Memória de Alfred Nobel para Trabalhos em Economia”, denominação que a imprensa engoliu “com chumbada e tudo”, fazendo com que os desavisados achem que se trata de um Nobel de verdade. É o velho guerreiro Abelardo Barbosa, o Chacrinha, e sua célebre frase “eu vim para confundir, não para explicar”.

ESTOCOLMO (Reuters) – O economista norte-americano Paul Krugman ganhou o Nobel de Economia de 2008 por fazer uma análise conjunta de padrões comerciais e de onde as atividades econômicas acontecem, informou o comitê do prêmio na segunda-feira.

A Academia Real Sueca de Ciências informou que o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (1,4 milhão de dólares) foi para Krugman devido à formulação de uma teoria que responde as questões que motivam a urbanização mundial.

“Ele integrou campos de pesquisa anteriormente díspares sobre comércio internacional e geografia econômica”, disse o comitê em um comunicado.

Krugman é professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

Krugman é crítico da administração Bush por conta de políticas que ele afirma terem gerado a atual crise financeira. Krugman escreve colunas para o New York Times e há tempos figurava entre os favoritos para conquistar um Nobel.

Falando durante uma teleconferência com jornalistas, Krugman disse que foi pego de surpresa pela notícia.

“Eu corri para tomar um banho para que eu pudesse participar da conferência. Eu liguei para a minha esposa e para meus pais. Ainda nem consegui tomar uma xícara de café”, disse o economista.

Moedinha No.01

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 6 outubro, 2008

Sabe a “moeda número um” do Tio Patinhas, aquela que ele deixa numa redoma de vidro, e que acha que é sua fonte de sorte? Eu também tenho a minha: o primeiro artigo que eu publiquei na revista Você S/A, no início de 2002 (ele ainda está disponível no site da revista, aqui). Honestamentem eu acho esse artigo muito bom até hoje (isso não acontece comn a maioria dos meus textos), um ótimo artigo para um leitor que nunca ouviu falar da teoria dos jogos começar a entendê-la.

Uma Estratégia Brilhante

Com o sucesso que o filme “Uma Mente Brilhante” está fazendo, a história do matemático John Forbes Nash Jr. se tornou popular. Mas suas idéias ainda não. Muito mais interessante que sua esquizofrenia ou seu casamento, o trabalho de Nash foi tão revolucionário que não foi aceito como tese de doutorado em Princeton em 1950 (ao contrário do que o filme dá a entender) para ser reconhecido com o Nobel em 1994. Na verdade, aquele Nobel foi um reconhecimento da comunidade científica sobre um trabalho desdenhado 44 anos antes.
Nash trabalhou sobre o que ficou conhecido como “Teoria dos Jogos”. Esta teoria foi concebida em 1944 por dois outros matemáticos: Oskar Morgenstern e John von Neumann; este último famoso por ter sido um dos pais da bomba atômica e do computador digital. A “Teoria dos Jogos”, assim como o trabalho de Nash, é extremamente polêmico. Morgenstern e Neumann conceberam uma série de “jogos” onde os “jogadores” se defrontavam com situações em que tinham que realizar escolhas com base na escolha do outro “jogador”. O “jogo” mais famoso ficou conhecido como “O Dilema do Prisioneiro”, uma função matemática que explica a cooperação ou não-cooperação entre os “jogadores”. O que Nash fez foi explicar o ponto de equilíbrio desta cooperação, no que ficou conhecido como “O Equilíbrio de Nash”.
Mas o que o matemático fez de realmente notável foi expandir esses conceitos puramente matemáticos para o mundo das ciências sociais, inicialmente a economia. Da economia, a “Teoria dos Jogos” migrou para a sociologia, a antropologia e ficou especialmente interessante quando chegou à biologia. Hoje em dia, o que existe de mais moderno em direito, administração, psicologia, e uma série de outras disciplinas aplicadas deriva da “Teoria dos Jogos”. E, após o Nobel de Nash, o assunto ganhou tanta importância que hoje norteia importantes correntes acadêmicas de pensamento no mundo.
Na biologia, a “Teoria dos Jogos” encontrou grande receptividade na zoologia em geral e na etologia em particular quando se percebeu que os animais também “jogavam”, em muitos casos de forma análoga ao homem. Neste ponto, houve a mistura de conceitos e disciplinas diversas, o que dificultou a compreensão do todo. Seria a matemática (“Teoria dos Jogos”) explicando o comportamento animal (etologia) que, por sua vez, explicaria o comportamento humano (Sociologia e Antropologia) que levaria a conseqüências no dia-a-dia humano (economia, administração, direito, psicologia, etc.).
Além da complexidade de cada assunto em particular, existe o agravante deles geralmente serem estudados por grupos antagônicos. Os matemáticos pertencem a um grupo diferente dos biólogos e dos cientistas sociais e, freqüentemente, não se compreendem. Fora isto, quando os conceitos evolucionistas de Darwin se incorporam a esta salada, volta à tona a polêmica ética e religiosa com os criacionistas. Somente para ilustrar: segundo uma pesquisa realizada em 2001 pelo instituto Gallup nos EUA, 57% dos norte-americanos não acreditam que o homem é uma evolução dos símios. Note-se que isto decorre do trabalho de Darwin feito no século XIX (1859, para ser preciso). Se Darwin ainda é polêmico hoje em dia, imagine Neumann, Morgenstern e Nash!
Este assunto é extenso, complexo e fascinante. Os desdobramentos dele atingem o que de mais interessante existe nas relações humanas. Na economia, existem exemplos fantásticos, como o tema do Nobel de 2001 sobre informações assimétricas. Em sociologia e antropologia, estudos sobre cupins e formigas levaram à criação da sociobiologia, com conceitos muito interessantes para explicar nosso complexo arranjo social. Estudos sobre símios revelaram um novo conceito psicossocial, o MPI (Male Parental Investment ou, mal traduzindo, Taxa de Investimento Paterno) que explicaria as razões básicas emocionais que levariam uma mulher a se interessar por um homem. No direito e na justiça, inúmeros conceitos de “Teoria dos Jogos” vêm sendo utilizados para a formatação de concorrências públicas mais eficazes e contratos mais justos e aplicáveis, assim como está sendo mais fácil prever a ocorrência de crimes como estupro.
Em administração de empresas, a aplicação da etologia em geral e da “Teoria dos Jogos” em particular oferece um vasto campo de trabalho. Aplicações de conceitos de observação de chimpanzés, por exemplo, nos ensinam muito sobre as estruturas de poder nas relações corporativas. Estudos sobre a repetição contínua do “Dilema do Prisioneiro” por outro lado, levam a conclusões surpreendentes sobre estratégias profissionais de longo prazo. Tudo isto leva à criação de estratégias empresariais verdadeiramente brilhantes, onde a grande vantagem é a aderência à mecânica comportamental do ser humano.
Hoje em dia, governos e empresas têm utilizado a “Teoria dos Jogos” para suas estratégias micro-econômicas. Basicamente, sempre que a sua decisão é interdependente e simultânea em relação à decisão do outro, estes conceitos podem ser aplicados. Um bom exemplo são as estratégias mais ou menos protecionistas que os governos adotam no comércio internacional, onde o objetivo é maximizar o rendimento total variando o grau de cooperação entre países em função da reação do restante do mundo relacionada à sua própria decisão.
Simplificando a “Teoria dos Jogos”, o que se pretende é responder à pergunta: “O que é mais vantajoso para mim, tendo em mente que a minha decisão vai implicar em uma reação da(s) outra(s) parte(s): cooperar ou desertar?” A resposta a esta pergunta leva a desdobramentos espetaculares, onde a melhor estratégia nem sempre é o que parece ser. Exatamente aí é que está o brilho desta estratégia. Brilho nem sempre percebido, diga-se.