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O enigma gay

Posted in Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 17 junho, 2009

saopaulinos

A Folha de hoje traz uma matéria interessante sobre evolução & homossexualidade, de autoria do Ricardo Mioto:

Homossexualismo ajuda a moldar evolução, diz estudo

Pesquisadores dos EUA dizem que há milhares de exemplos desse comportamento

Um dos casos é o de fêmeas de espécie de albatroz do Havaí, que formam casais lésbicos que lhes conferem vantagem para criar filhotes

Entre os albatrozes-de-laysan, até um terço dos casais são formados por fêmeas

Relações homossexuais são quase universais no reino animal e podem ser agentes importantes de mudança evolutiva, afirma uma dupla de pesquisadores dos EUA. No entanto, eles alertam que os zoólogos podem estar rotulando de “homossexualismo” uma série de comportamentos diferentes.

O estudo, publicado hoje no periódico “Trends in Ecology and Evolution”, é uma revisão das pesquisas já feitas sobre relações homossexuais animais.

Essa área ganhou grande atenção do público após 1999, quando o zoólogo Bruce Baghemil publicou o livro “Biological Exuberance”, documentando homossexualismo em mais de 400 espécies. Há milhares de exemplos na literatura.

Que machos gostem de fazer sexo com machos e fêmeas com fêmeas é um enigma evolutivo. Afinal, um gene gay (ou vários genes) seria eliminado, pois à primeira vista ele não ajuda a espécie a se perpetuar.

“A grande questão é como explicar qual é o sentido evolutivo”, diz César Ades, etólogo (especialista em comportamento animal) da USP (Universidade de São Paulo).

Qual é, então, a vantagem da homossexualidade para os animais? Os autores do novo estudo, Nathan Bailey e Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, dão um exemplo. Veja as fêmeas do albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis), do Havaí.

Essas aves se unem em casais lésbicos que às vezes duram a vida inteira para criar os filhotes, especialmente quando há escassez de machos. Até um terço dos casais da espécie são formados por fêmeas. O resultado é que elas têm mais sucesso do que fêmeas “solteiras” na criação dos filhotes. O comportamento homossexual, portanto, muda a dinâmica da população -e pode ter consequências evolutivas importantes.

A conclusão do estudo é que não existe apenas uma vantagem universal. Ao contrário, a homossexualidade ajudou as espécies de diferentes formas ao longo da evolução. O nome designa, então, vários fenômenos diferentes, com motivações distintas.

Humanos

Por isso, é complicado transpor essas conclusões para humanos. “Existe homossexualidade numa variedade grande de animais: moscas, lagartos, golfinhos. Qual animal tomar como medida para comparar conosco?”, diz Ades.

Entre os animais, os mais próximos de nós são os bonobos. As fêmeas dessa espécie de chimpanzé são vistas frequentemente se relacionando sexualmente – e não raro atingem o orgasmo dessa maneira. Alguns machos se beijam e praticam sexo oral uns nos outros.

É mais difícil entender as causas do homossexualismo em primatas, especialmente em humanos. A quantidade de fatores envolvidos é muito maior. Ao contrário do que acontece com os peixes-mexerica, por exemplo, não se trata de algo simples como não saber diferenciar machos e fêmeas.

Algumas coisas, entretanto, se sabe. Estudos com gêmeos mostram que existe uma tendência hereditária a ser gay ou lésbica. Mas esses trabalhos não conseguem mostrar quais os mecanismos por trás disso.

Além disso, comportamento homossexual é diferente de orientação sexual. Foram encontradas boas explicações para o primeiro item no reino animal, mas ainda é complicado entender quais as vantagens evolutivas que se pode ter simplesmente nunca se relacionando com seres do outro sexo.

Animais diferentes têm motivos diferentes para a comportamento homossexual

>> Para fazer as pazes

Nada melhor do que o sexo para criar um ambiente de intereção que facilite reconciliações

É visto no macaco japonês

>> Por engano

Algumas espécies não possuem maneiras boas de saber quem é macho e quem é fêmea

É visto no peixe mexirica

>> Para formar alianças

Relações entre indivíduos do mesmo sexo permitem a formação de fortes laços, prevenindo conflitos

É visto nos golfinhos-nariz-de-garrafa

>> Para praticar

Indívíduos com pouca experiência sexual aprendem a cortejar com animais do mesmo sexo

É visto na mosca-das-frutas

>> Para reforçar a hierarquia

Para mostrar quem manda em que quem, os bichos estabelecem relações de poder através do sexo homossexual

É visto nos bisões.

>> Para criar os filhos

Fêmeas podem se unir depois de a prole nascer, tendo mais sucesso do que as não-lésbicas

É visto nas albatrozes-de-laysan

Acrescento:

No caso humano, acredito que a “hipótese do tiozinho” tem grande poder para explicar a existência do comportamento homossexual. Essa hipótese, sugerida pelo Antonio Maia na sua dissertação de mestrado sobre o avunculado (2006-IB/USP), tem a ver com a organização familiar. Em sociedades matrilineares, os homossexuais ajudariam a criar a prole de suas irmãs. Sob determinadas condições, famílias com alguns membros homossexuais poderiam, então, ter mais sucesso reprodutivo que famílias compostas somente por heterossexuais. Voltaremos a esse assunto em breve.

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Organização social é isso

Posted in Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 25 maio, 2009

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O artigo abaixo, da Adele Conover, publicado hoje no The New York Times, mostra como é dura a vida de um etologista/entomologista. E também como é complexa a organização social de seres tão minúsculos.

Cientista estuda insetos sociais, um a um

Anna Dornhaus espia em um pequeno ninho de papelão uma “família” de cerca de cem formigas das rochas europeias. Conhecidas como temnos, as formigas -pintadas com cores distintas- realizam suas tarefas de carregar, abastecer e alimentar a prole de larvas.

Ao lado de uma temnos colorida, um grão de arroz pareceria um tronco velho. Quando se levanta a tampa de uma colônia de formigas, nota-se uma barata morta -a ração das formigas. Uma rainha maior e tranquila, pintada de marrom, é objeto de estudo. “Ela não é exatamente uma chefe de Estado”, disse Dornhaus. “Parece mais um ovário.”

Ali perto há colmeias de abelhas sob vidro, onde cada abelha exibe um número de 1 a 100 em minúsculas etiquetas coladas a suas costas.

Para compreender o que realmente acontece em uma colônia de formigas ou abelhas, Dornhaus, professora-assistente de ecologia e biologia evolutiva na Universidade do Arizona, EUA, acompanha as pequenas criaturas individualmente -por isso a tinta e os números. As formigas, ela disse, têm “seus próprios cérebros e pernas, assim como reações complexas e flexíveis”. Ela continua: “O comportamento de cada formiga e as regras segundo as quais ela age geram um padrão para a colônia, por isso é crucial descobrir sua técnica cognitiva individual”.

Dornhaus, 34, uma cientista alemã alta e loura, tem muita paciência, requisito básico em seu ramo, e uma ligação com as criaturas que estuda. Quando as pessoas descobrem que “eu estudo formigas, abelhas e outras coisas que se arrastam, a primeira coisa que perguntam é como matá-las”. Ela acrescentou: “Eu não diria mesmo que soubesse”. Os insetos sociais, ela opinou, são “as criaturas mais interessantes que a evolução produziu”.

Dornhaus fez contato com o Departamento de Sociobiologia e Fisiologia Comportamental da Universidade de Wurzburg, na Alemanha, chefiado por Bert Hölldobler, coautor do livro “The Ants” [As formigas] e do recém-publicado “The Superorganism”.

Seu orientador de tese foi Lars Chittka, especialista na ecologia das capacidades sensoriais e cognitivas dos insetos, que estudava abelhas. Chittka -que disse que o grupo das abelhas do gênero Bombu, embora altamente social, era considerado primitivo em hábitos sociais- se perguntou por que uma única abelha, depois de voltar ao ninho, batia as asas e corria como louca em círculos. Logo as outras abelhas se excitavam e saíam do ninho.

Ele pediu que Dornhaus descobrisse o que acontecia. O experimento dela revelou que a abelha maluca estava fabricando e dispersando na colmeia um feromônio que alertava outras abelhas: “Ei, tem comida lá fora!”

Mas, como disse Dornhaus, “as abelhas não precisam se encontrar pessoalmente para se comunicar; elas deixam recados para as outras abelhas, dizendo que podem encontrar comida”. Dornhaus está abrindo terreno com seus estudos sobre se a eficiência da sociedade de formigas, baseada em uma divisão do trabalho entre formigas especialistas, é importante para seu sucesso. Para isso, ela disse, “anestesiei brevemente 1.200 formigas, uma a uma, e as pintei usando tinta e um pincel de um único pêlo”.

Ela analisou 300 horas de vídeo das formigas em ação. Descobriu que as formigas rápidas levavam de 1 a 5 minutos para realizar uma tarefa como coletar um pedaço de comida, enquanto as formigas lentas levavam entre 1 e 2 horas. E ela descobriu que cerca de 50% das outras formigas não faziam qualquer trabalho. Talvez a divisão de trabalho não seja a chave do sucesso das formigas. Possivelmente, disse Dornhaus, “as formigas preguiçosas estejam descansando ou esperando em reserva caso algo dê errado”. Ou, conjecturou, “é possível que não estejam fazendo absolutamente nada”.

Profissão antiga MESMO

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 8 abril, 2009

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De acordo com o artigo abaixo do Independent, reproduzido hoje pela Folha, chimpanzés fêmeas se prostituem em troca de carne, o que seria uma pista de onde surgiu a prostituição humana (que, embora seja uma explicação sedutora, não acredito que haja como prová-la). De qualquer maneira, acho uma boa idéia você levar sua próxima candidata a namorada numa churrascaria no primeiro encontro, vai que o consumo de carne desperte seus instintos mais primitivos? – obviamente, certificando-se antes de que ela não seja vegetariana.

Chimpanzé fêmea troca carne por sexo

Cientistas descobriram que trocar carne por sexo faz parte da vida social de um grupo de chimpanzés selvagens na floresta Taï, na Costa do Marfim.
A venezuelana Cristina Gomes, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha, explica que as fêmeas de chimpanzé, com dificuldades para conseguir carne sem ajuda, recorrem a essa forma primitiva de prostituição para aumentar a sua ingestão de calorias sem o risco associado à caça.
No estudo, publicado na revista “PLoS One”, os cientistas explicam que, apesar de a promiscuidade ser uma característica tanto dos machos quanto das fêmeas de chimpanzé, eles conseguem copular mais se aceitarem compartilhar a carne com o sexo oposto.
A descoberta favorece a hipótese de que essa tendência também existia em sociedades humanas primitivas. Segundo os antropólogos, a troca de carne por sexo fazia com que os melhores caçadores tivessem mais parceiras.

I’m not dog no

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, teoria da evolução, teoria dos jogos by Raul Marinho on 9 dezembro, 2008

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Deu na Folha de hoje:

Cães entendem injustiça e sentem inveja, diz estudo

Experimento atribui aos cães habilidade que só tinha sido vista em primatas

Austríacos descrevem em revista científica teste que comparou 29 animais que haviam sido treinados para “dar a patinha” a estranhos

Friederike Range

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Quem tem mais de um cachorro sabe o óbvio: que na hora de dar um biscoito ou um osso, todos têm que ter o seu próprio. Mas o “óbvio” do dono de um animal doméstico não é o mesmo da ciência. Foi preciso uma equipe de pesquisadores na Áustria testar se existe “inveja” entre cães para deixar claro que isso não só existe, como faz parte de um mecanismo biológico vinculado à evolução da cooperação em indivíduos de uma mesma espécie.
Testados, os cães deixaram claro que possuem uma natural “aversão à iniqüidade”, e que fazem “greve” se não forem tratados do mesmo modo como seus semelhantes, algo já descoberto em macacos.
O estudo, liderado por Friederike Range, da Universidade de Viena (Áustria), está na edição de hoje da revista “PNAS”.
Os experimentos parecem mais adestramento canino doméstico do que algo associado a um laboratório universitário. Foram testados 29 cães capazes de “dar a patinha”. Os cachorros selecionados eram já adestrados nesse comando com seus donos, mas o teste envolvia “dar a patinha” para um experimentador desconhecido, acompanhados pelo dono e por um outro cachorro logo ao lado.
Leve-se em conta que são cachorros austríacos, acostumados à dieta local. Ao obedecer ao comando, o cachorro poderia receber uma recompensa boa -um pedaço de salsicha-, ou uma nem tanto -um pedaço de pão preto. Pior, poderiam não receber nada pelo “trabalho” de dar a pata.
Os testes foram planejados de modo a excluir interpretações alternativas. Os cães foram testados, por exemplo, sem receber recompensa; ou sem o cão parceiro; ou com ambos recebendo o prêmio.
“Cães têm uma forma de ciúme, e todo dono de mais de um cão sabe que se faz carinho em um, o outro vem pedir”, diz Cesar Ades, especialista em comportamento animal do Instituto de Psicologia da USP, que elogia o experimento. “É um trabalho cuidadoso, eles mostram a recompensa ao cachorro, feita com vários controles. Se um recebe e o outro não, ele pára de dar a pata até antes daquele que não recebe recompensa sem contato social.”
Ao contrário dos experimentos com chimpanzés, os cães não davam importância à qualidade da recompensa (salsicha ou pão preto). Já os macacos eram mais discriminantes quanto ao tipo de recompensas que ganhavam. Os cães também sempre comiam o que recebiam; os macacos podiam rejeitar a comida se achavam que estavam sendo injustamente tratados. Só não há explicação clara no estudo para o fato de um cão não fazer distinção entre salsicha e pão, diz Ades.
Experimentos anteriores mostraram que os cães cansam da brincadeira e param de dar a pata depois de 15 a 20 vezes sem receber nenhuma recompensa. O resultado do novo teste foi o que os donos de cães poderiam prever: animais sem prêmio pelo mesmo “trabalho” do colega ao lado logo pararam de “cumprimentar” o experimentador, e mostravam sinais de “indignação” – ficavam se coçando, bocejando, lambendo a boca ou desviando o olhar.

(Na foto acima, uma homenagem póstuma ao precursor da etologia canina comparada – por mais que ele nunca tenha sabido o significado do termo.)

Altruísmo recíproco

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 13 outubro, 2008

No artigo abaixo, de 2002, eu falo pela 1a vez em “altruísmo recíproco”, que seria o centro do livro que eu iria lançar três anos depois (“Prática na Teoria”, ed.Saraiva, 2005):

Uma mão lava a outra

Segundo a Teoria da Evolução de Darwin, todas as espécies que hoje existem no planeta são a evolução de alguma outra. Admitindo que o Homo Sapiens surgiu segundo este princípio evolutivo, e sabendo mais recentemente que cerca de 99,5% de nossos genes são idênticos ao de um chimpanzé, podemos concluir que existe uma grande relação de parentesco entre os homens e os símios. A despeito de toda a polêmica envolvendo o criacionismo, a Teoria da Evolução de Darwin é hoje tão aceita cientificamente quanto a Teoria da Gravitação Universal. Seria muito mais agradável (moralmente, pelo menos) se fôssemos uma espécie especialmente concebida por Deus no último dia da Criação. Mas, infelizmente, as evidências científicas indicam que não foi isto que aconteceu.

A semelhança morfológica entre nós e os símios é a mais óbvia: basta olhar para um chimpanzé ou um gorila para verificar como eles se parecem conosco, especialmente quando jovens. Mas existem outras semelhanças ainda mais interessantes. Os chimpanzés e os bonomos (um outro símio que era tido como um chimpanzé anão até 1929) são os únicos animais que se reconhecem no espelho além do homem (que, a propósito, só adquire esta capacidade aos 18 meses). Os bonomos, por sua vez, compartilham conosco a prática do sexo frente a frente (todos os outros têm relações sexuais com a fêmea de costas para o macho), muito provavelmente para que os parceiros possam se reconhecer mutuamente.

Quanto ao comportamento, existe uma experiência que ilustra muito bem a inteligência (se é que se pode descrevê-la nestes termos) dos símios: o “teste do ahá!”. O pesquisador pendura uma fruta no teto de uma sala e espalha caixas e um cabo de vassoura pelo chão. O chimpanzé, ao entrar na sala, fica observando a fruta e os objetos, até que ele empilha as caixas e, ahá!, alcança a fruta com o cabo de vassoura. O uso de ferramentas também pode ser observado entre chimpanzé selvagens, que utilizam varas para “pescar” formigas e cupins e pedras para quebrar castanhas mais duras. Os chimpanzés também se assemelham aos humanos em nosso lado mais obscuro, preparando emboscadas para matar outros chimpanzés de bandos concorrentes. Frente a todas estas evidências, fica muito difícil não reconhecer de onde viemos.

Não seria de espantar, portanto, que alguns animais também jogassem de acordo com o previsto na Teoria dos Jogos. Uma habilidade fundamental para isto é a capacidade de reconhecimento individual. A reciprocidade carrega implicitamente a capacidade de saber quem é quem: se eu não sei quem é que habitualmente coopera e quem deserta, como poderei retribuir um favor ou punir uma deserção? Justamente por isto é que os animais que se comportam desta forma são aqueles que possuem cérebros mais desenvolvidos, com especial destaque para os símios (chimpanzés, bonomos, orangotangos e gorilas) e algumas espécies de golfinhos e morcegos.

Os chimpanzés são animais sociais que vivem em grandes grupos, de cerca de 150 indivíduos (aproximadamente, o mesmo número de humanos nos grupos de caçadores-coletores ancestrais ou de uma moderna comunidade religiosa ou mesmo de uma companhia do Exército). Os gorilas, ao contrário, vivem em grupos bem menores, de cerca de uma dúzia. Entre os gorilas, o líder geralmente é o macho maior e mais forte, já que a liderança é obtida pela força bruta. Os chimpanzés, entretanto, por mais forte que sejam, jamais conseguiriam conquistar o poder pela força: sempre haveria opositores em número suficiente para deter uma tentativa de supremacia por estes meios. A habilidade política em formar coalizões é fundamental entre os chimpanzés.

Um bando de chimpanzés geralmente conta com três indivíduos dominantes: os machos alfa, beta e gama. Estes três indivíduos decidem como se dá a divisão do alimento, que espaço físico deverá ser ocupado e tendem a monopolizar os favores sexuais das fêmeas. O macho alfa tende a hostilizar o macho beta (seu concorrente direto), formando coalizões com o macho gama. As similaridades entre as práticas dos chimpanzés e dos humanos são inúmeras, mas nada se assemelha ao que acontece nas “eleições da selva”.

Quando o macho alfa perde a posição e o seu “cargo” fica vago, geralmente acontece uma disputa pelo poder entre os machos beta e gama. Neste processo, estes machos beligerantes chegam a subir nas árvores com os frutos mais apreciados e jogam as frutas para os companheiros no chão. Uma vez eleito, o macho alfa jamais repete tal gentileza. Impossível deixar de reconhecer a similaridade com nossas próprias práticas, seja nas eleições seja dentro das próprias empresas.

A observação do comportamento animal levou à criação de uma nova ciência: a Etologia. Assim como a Teoria dos Jogos, a Etologia também é controversa e foi redimida do obscurantismo por um prêmio Nobel (no caso, o de Medicina, em 1973). Ao se analisar o comportamento humano pelas bases da Etologia com as ferramentas da Teoria dos Jogos, nós nos deparamos com novas formas de analisar o altruísmo. O velho “eu coço suas costas, você coça as minhas” passa a ter um novo significado.

Eu penso que você pensa que eu penso…

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 13 outubro, 2008

Este é o 3o artigo que eu publiquei na revista Você S/A. Modéstia à parte, é um bom artigo sobre Teoria dos Jogos:

Eu penso que você pensa que eu penso…

Imagine uma cidadezinha com somente dois postos de gasolina: Posto Alfa e Posto Beta. Ambos vendem gasolina de qualidade idêntica por R$ 2,00 o litro e a compram da distribuidora por R$ 1,50. Supondo que os consumidores agem motivados somente por preço, se o Posto Alfa baixar o preço para R$ 1,99, ele vai conquistar a totalidade do mercado local imediatamente. Iniciada a guerra de preços, o Posto Beta baixaria para R$ 1,98, o que motivaria o Posto Alfa a remarcar seu preço para baixo – e assim sucessivamente, até ambos atingirem um preço próximo de R$ 1,50 onde o lucro tende a zero. Trata-se do mesmo raciocínio do já comentado Dilema do Prisioneiro aplicado à Economia: “Se eu pensar sobre como você pensa sobre minha forma de pensar, eu não devo cooperar”. Eu pressuponho que o outro vai me julgar não cooperativo e antecipo a minha deserção, pois se o outro pensar assim, certamente vai desertar também. Esta é a base do pensamento do matemático John Nash Jr. em seu trabalho sobre a Teoria dos Jogos (“O Problema da Barganha”, Princeton – 1950).

O mesmo acontece com outro jogo com um Dilema do Prisioneiro embutido: o “Leilão de Dólar”. Como no Dilema do Lobo (leia o artigo anterior ), o Leilão de Dólar é jogado entre participantes que não têm possibilidade de comunicação entre si. Uma nota de um dólar é leiloada. Quem der o maior lance leva a nota. A diferença é que o segundo colocado também tem que pagar o lance – mas nada leva em troca. Por exemplo: se o vencedor ganhar com um lance de US$ 0,20, ele tem um lucro de US$ 0,80. O segundo colocado que deu um lance de US$ 0,19 somente paga os US$ 0,19 e fim. A banca então recebe US$ 0,39 e paga US$ 1,00. Iniciado o jogo, o primeiro participante tem a perspectiva de alto lucro – coisa que desperta a cobiça de outro participante. Rompida a barreira de US$ 0,50, a banca começa a lucrar e, a partir de US$ 1,00, o jogo fica totalmente irracional. Martin Shubik, o eminente matemático de Yale e estudioso de Teoria dos Jogos que concebeu o jogo em 1971 relatou que, em média, a nota era arrematada por US$3,40.

O Leilão de Dólar é um jogo com aplicações práticas inimagináveis. Por exemplo: as emissoras de TV o utilizam para dimensionar o tamanho dos trechos nas exibições de filmes. Fazendo com que o primeiro trecho seja maior, elas induzem o telespectador a entrar no Leilão e, uma vez dentro, os trechos ficam cada vez menores – e os intervalos mais longos. Mas, neste momento, o telespectador tem muita dificuldade em desistir: ele já passou do “limite de US$1,00”. Raciocínio semelhante faz com que pessoas se mantenham anos a fio em empregos ruins ou casamentos falidos. O mantra “eu investi demais para desistir” é repetido à exaustão. Dilema parecido foi enfrentado na construção do Concorde, quando França e Inglaterra viram que o projeto era inviável economicamente, mas mesmo assim decidiram ir até o fim – justamente por já terem investido demais. No fim das contas, o Leilão de Dólar também trata de cooperação e deserção e o resultado final é tão catastrófico quanto o que acontece no Dilema do Prisioneiro.

Acontece que tanto o Dilema do Prisioneiro ou do Lobo quanto o Leilão de Dólar são jogos únicos, de uma só rodada. Se os jogadores jogarem várias partidas em seqüência, a deserção tende a diminuir, até desaparecer. Um Leilão de Dólar jogado várias vezes tenderia a um acordo entre os jogadores para a divisão dos lucros: um dos jogadores daria um lance de US$ 0,01 que não seria superado e dividiriam-se os US$ 0,99 de lucro. O mesmo aconteceria no exemplo dos postos de gasolina – daí a grande dificuldade em evitar a formação de cartéis. A cooperação em jogos com muitas rodadas é um ótimo negócio. Existe uma grande tendência das pessoas construírem sua reputação cooperativa e, com isto, obterem vantagens reais (financeiras ou não) com isto.

A reputação cooperativa talvez seja o maior bem que uma pessoa possa ter. Não por acaso, a maior parte das pessoas tende a reforçar esta característica. Você se lembra da questão do engarrafamento abordada no último artigo? Quanto mais provável a pessoa ser reconhecida, menor a chance dela tomar uma atitude não cooperativa (no caso, andar pelo acostamento). Mesmo sabendo que nunca será identificada, a maior parte das pessoas tende a não se mostrar desertora (ou não cooperativa). Afinal de contas, o risco de manchar a reputação é gigantesco; e as conseqüências, desastrosas. O oposto disto está acontecendo no Oriente Médio, aonde atitudes cada vez menos cooperativas de parte a parte vêm sendo praticadas. São dois jogadores praticando a estratégia “deserte sempre”: tanto palestinos quanto judeus jamais agem cooperativamente um com o outro e o resultado é um impasse muito difícil de ser superado.

Se a estratégia “deserte sempre” não é a melhor, também a “coopere sempre” é perigosa. O cooperador incondicional fica excessivamente vulnerável a oportunistas e seu desempenho tende a ser medíocre. Observando o comportamento de animais sociais, como chimpanzés, golfinhos e morcegos hematófagos, percebeu-se que a estratégia mais comum era a mesma praticada pelos humanos: o “olho-por-olho”. Reagindo cooperativamente a uma cooperação e punindo a deserção com outra deserção, o “olho-por-olho” tende a ter um bom desempenho. Todavia, um jogador de “olho por olho” perde para um jogador de “deserte sempre”. A única solução para anular o jogador de “deserte sempre” é o ostracismo: excluir o desertor contumaz do jogo.

No próximo artigo exploraremos outras estratégias de jogo e suas correlações com o observado no comportamento animal. A interação entre a Teoria dos Jogos e a Etologia (ramo da Zoologia que estuda o comportamento animal) ocorreu em ambas as direções: a Etologia fornecendo novos modelos para a Teoria dos Jogos tanto quanto a Teoria dos Jogos ajudando a entender a Etologia. E ambas disciplinas ajudando a nos entender.

Cuckoldry

Posted in Evolução & comportamento, Just for fun by Raul Marinho on 7 outubro, 2008

“Comportamento análogo ao dos pássaros que criam filhotes de pássaro cuco”: esta seria a tradução mais precisa para o termo inglês “cuckoldry” – que, exatamente por isso, é intraduzível. O que acontece é o seguinte: a fêmea do cuco não bota os ovos em seu próprio ninho, mas no ninho de outros pássaros. A trapaça dessa estelionatária do mundo selvagem tem requintes de crueldade, já que ela escolhe somente pássaros de espécies menores que a dela para ludibriar. Os pais adotivos chocam os ovos de cuco achando que são seus, e alimentam o filhote de cuco do mesmo jeito que alimentariam sua prole. O filhote, por sua vez, já nasce malandro: a primeira coisa que ele faz ao nascer é jogar para fora do ninho todos os outros ovos (e também os irmãos adotivos se eles já tiverem nascido). O mais estranho é que os pais adotivos continuam alimentando o filhote de cuco mesmo quando este se torna muito maior que os próprios pais, que são de espécies mais franzinas. Em evolução, o termo “cuckoldry” também é aplicado a qualquer situação em que os pais criam filhos que não são seus acreditando que fossem filhos legítimos. Na nossa espécie, o caso mais frequente de “cuckoldry” é quando a mulher trai o marido e engravida do amante, deixando para o corno a missão de criar (ou ajudar na criação) do filho dela com o seu parceiro sexual clandestino. Por questões óbvias, a mulher não tem como ser vítima do “cuckoldry”.

Se você achou a explicação muito complexa ou moralmente incômoda, veja a tirinha abaixo que explica a mesma coisa de uma maneira bem mais leve: