Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

O duplo A do Citibank

Posted in Atualidades, citibank by Raul Marinho on 2 fevereiro, 2009

No início de 1987, morava no Paraíso (não o celestial, mas o bairro de São Paulo, bem entendido) e, num sábado, resolvi almoçar no McDonald’s da av. Paulista, que ficava (e ainda fica) na esquina da al. Joaquim Eugênio de Lima. Era uma manhã ensolarada em época de férias, e a cidade estava vazia, o que deixou a cena ainda mais esquisita. Havia atiradores de elite por toda parte, carros de combate estacionados nas esquinas, soldados de farda camuflada correndo ao lado de caminhões blindados, uma operação de guerra acontecia ali, no novo centro financeiro de São Paulo (na época).

A ditadura militar havia acabado há pouco tempo, e como ex-aluno da Escola de Cadetes do Exército, a primeira coisa que me ocorreu é que estava presenciando uma revolução armada. Mas o motivo era bem menos dramático: o Citibank estava se mudando de sua antiga sede na av. Ipiranga para o novo prédio da Paulista, e naquela manhã estava sendo feito o transporte de valores do cofre do banco. Na era pré-Collor, a maior parte dos investimentos era em títulos ao portador, e o Citi tinha o maior depósito de ouro privado e o maior cofre de aluguel do país, daí a necessidade de tamanha precaução. Logo circularam rumores de que o banco tinha um cofre subterrâneo de 20 andares, equivalente à altura visível do edifício (o que era mentira, mas o banco realmente tem 5 andares de subsolo).

Ainda hoje, o prédio do Citibank se destaca na av. Paulista – na verdade, mesmo em comparação aos novíssimos prédios da av. Berrini, o Citicorp Center não faz feio. Mas, no final dos anos 1980, era coisa de ficção científica, e quando entrei lá pela primeira vez, achei que estava em outro planeta, com gente de suspensório e gel no cabelo por todo lado, elevadores panorâmicos, e computadores por toda parte (ainda estávamos na época da anacrônica Lei de Informática que impedia a livre importação de equipamentos eletrônicos). Isso sem contar que o Citi era o maior banco do mundo, o maior credor externo do Brasil, e uma das instituições mais agressivas do mercado nacional, além de contar com os profissionais mais bem preparados da indústria bancária. Foi nesse ambiente em que eu fui trabalhar há exatos 20 anos.

Ao contrário da minha expectativa, havia muito poucos estrangeiros no Citibank. E o mais curioso é que os bam-bam-bans todos tinham o nome começado pela letra A: o presidente se chamava Antonio Boralli, e havia vice-presidentes chamados Alberto Duarte, Ademir Nunes, Álvaro de Souza, Arnoldo de Oliveira… Mas o nome que realmente provocava frisson nas pessoas tinha dois As: Alcides Amaral. De acordo com a lenda citibanquense, o “seu Alcides” havia entrado no banco como office boy e, galgando degrau a degrau, acabou responsável pela dívida do Brasil junto ao banco que, se não me falha a memória, ficava ao redor de US$4bilhões – que, se é muito dinheiro hoje, na época era uma cifra incalculável. Muito alto e muito magro, havia um misto de Clint Eastwood com Charles Bronson na figura do Alcides Amaral, e quando ele estava no elevador com você, havia a impressão de que Abraão ou Maomé (ou o próprio Jeová) estava lá.

Mais ou menos um ano depois, ainda trainee, tive que ir falar com o “seu Alcides” para aprovar uma operação de crédito. O ano era 1990, e estávamos no meio da Copa da Itália. O presidente e os principais VPs do banco ficavam no 17º andar, que o baixo-clero chamava de “xoxotão” (só entram grandes membros), onde eu nunca tinha ido, muito menos para falar com o homem de U$4bilhões. Estava nervoso, é óbvio, ainda mais por que aquele era um dos meus primeiros processos de crédito a defender, e era uma operação difícil, com uma empresa complicada, de um setor que causava arrepios no comitê de crédito do banco (curiosamente, era uma construtora, e o Citi havia quase falido por… empréstimos hipotecários, exatamente igual ao que aconteceu no ano passado). Entrei na sala esperando ver um sujeito ranzinza e nervoso atulhado de documentos, com telas de computador para todo lado, telefone tocando etc, mas o cenário com que me deparei foi exatamente o oposto. Havia uma TV ligada, passando um jogo sem-graça de dois países sem tradição, e um cara assistindo interessadíssimo, como se fosse uma final Brasil e Argentina. Quase nenhum papel em cima da mesa, nada parecido com computador por perto, e o telefone não tocou pela primeira meia-hora, tempo em que só ficamos assistindo ao jogo (muito ruim, pelo que me lembro).

Depois dessa oportunidade, estive com o Alcides Amaral mais uma meia-dúzia de vezes, e uma das últimas foi num evento em fins de 1992, onde tiramos essa foto aqui (ele está no canto superior direito). Em agosto de 1994, eu deixei o Citibank, e logo depois o “seu Alcides” foi, finalmente, nomeado presidente – muito embora ele já fosse mais respeitado que os presidentes anteriores, apesar de que fosse a eles subordinado. De 1994 a 2008, li esporadicamente seus artigos na imprensa, até setembro último, quando me deparei com um texto dele no Blog do Crédito do meu amigo Fernando Blanco , que me motivou a entrar em contato (e a replicar o texto no Toca Raul!!!). Reproduzo abaixo o e-mail da 1a. resposta dele:

Prezado Raul

Gratissimo pelo simpático e muito reconfortante e-mail. É verdade, todos esqueceram de falar daqueles que genuinamente sonhavam em ter a casa própria e hoje são uma espécie de favelados. De outro lado, milhares ficaram ricos e outros milionários com a desgraça alheia. E o que dói é ver é que a autoridade americana não faz nada para punir os responsáveis, como existe aqui no Brasil. Quando o governo brasileiro coloca dinheiro publico nos bancos para salva-los, todos os diretores estatutários têm seus bens bloqueados… Nem mais cheques podem assinar. Enquanto isso, lá na terra do Tio Sam, o Prince que quebrou o Citi (não quebrou, pois o FED não deixou) sai com quase US$ 30 milhões no bolso, um pacote de bônus e stock-option de quase US$ 70 milhões, escritório, carro e motorista … Quando deveria sair algemado tal a incompetência em administrar uma organização que nos orgulhávamos em trabalhar.

Mais uma vez grato, e boa sorte para você.

Abraços

Alcides Amaral

Trocamos, ainda, mais algumas mensagens, desde reflexões sobre a crise até comentários sobre o Landau que ele tinha na época do Citi (achava tão impressionante o Landau do “seu Alcides” que acabei comprando um no final dos anos 1990), sendo que o último e-mail que recebi foi no dia do meu casamento (18/10/2008). Depois disso, não nos falamos mais, e na 4ª feira passada, dois dias antes dele morrer, havia comentado com o Fernando Blanco sobre ele, e estava redigindo um e-mail para o “seu Alcides” quando soube de seu falecimento. Fiquei (e ainda estou) chocado.

Muitos anos depois que saí do Citi, conheci com mais profundidade o “modus operandi de Brasília” – algo que só é possível conhecer se você passar pela situação, pois isso é literalmente indescritível. Numa reunião que tive no Banco Central, de repente tive um insight sobre o Alcides Amaral, o que deveria ter sido conversar com o pessoal do governo nos anos 1970/80 como representante do maior credor do Brasil, e entendi porque ele havia tido uma crise emocional grave naquela época (quando a nomenclatura em moda era “crise de estafa”). No fim das contas, foi isso o que acabou o matando na última sexta-feira. Lamento profundamente, não por ele, que não está mais sofrendo, mas por nós, que perdemos um dos cérebros mais brilhantes que o mercado bancário já viu. Vai ser difícil aparecer outro Alcides Amaral.

4 Respostas

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  1. Katia said, on 9 fevereiro, 2009 at 2:13 pm

    Prezado Raul, agradeço imensamente seu texto. Ele nos mostra que a notícia de um suicídio não nos leva somente à comunicação de uma tragédia, mas a exaltação da lembrança de um ser humano de muitas qualidades.

  2. Marco Aurelio said, on 11 fevereiro, 2009 at 8:27 pm

    é… Raulito…

    Tempo bão… naquela época eu já tinha uns bons anos de CITI… e nessa foto aí… quanta gente boa… Excrusive EU… ao seu lado na fotografia : https://raulmarinhog.files.wordpress.com/2008/10/citi-transaction.jpg

    Saudosismo dos bons… que faço questão de postar lá no Monitor… pela menção do profissional que pudemos conviver e aprender tanta coisa…

    Abcs

  3. Raul Marinho said, on 12 fevereiro, 2009 at 9:03 am

    Pois é, né Marcão… O tempo passa, o tempo voa, a Poupança Bamerindus nem existe mais, o Alcides Amaral também não, mas a gente continua aí, batendo cabeça nesse mercadinho complicado…

  4. Armando said, on 10 março, 2009 at 11:36 pm

    Suicídio não é para amadores. Leiam Durkheim para entender muito pouco. É um mistério. Covardia ou coragem? Não sei…


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