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Para ficar rico

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 6 junho, 2009

menino rico

À exceção de alguns abnegados (que desconheço, embora aceite que eles possam existir em tese), todo mundo quer ficar rico. Inclusive quem já é rico, que quer ficar ainda mais. O problema é que, como a riqueza disponível é, na prática, fixa, torna-se impossível que todo mundo consiga ficar rico ao mesmo tempo, e a fortuna só poderá sorrir para uns poucos. Isso, dentre outras coisas, invalida receitas populares para atingir a riqueza como a tal da “Lei da Atração”, que diz que se você desejar muito intensamente alguma coisa, essa coisa deverá acontecer. (Se todo mundo desejar bens escassos, é impossível que todo mundo consiga obtê-los, pois aí esses bens não seriam escassos por definição). Entretanto, apesar das inúmeras receitas de enriquecimento descritas nos livros de auto-ajuda terem eficácia discutível, neste post serão mostradas estratégias que realmente funcionam para enriquecer. Leia e comprove.

Em primeiro lugar, você pode nascer em uma família rica, o que ajuda muito – embora não garanta nada (você pode ser deserdado, sua família pode ser expropriada por uma revolução comunista, um teste de DNA pode desqualificar seu status de herdeiro e, principalmente, seus pais podem falir antes de você por a mão na herança). Mas, tirando as possíveis tragédias que acometem os herdeiros, se você for uma pessoa rica de berço, é muito provável que continue rica até o fim da vida, desde que você respeite duas regrinhas simples. A primeira é: não seja perdulário. Sabe aquela máxima do “avô rico, pai nobre, neto pobre”? Pois então, está aí a biografia do Jorginho Guinle para mostrar o quanto ela é sensata. A outra coisa que você não pode fazer é assumir riscos elevados. Se você ficar em casa estudando Filosofia, no clube jogando golfe, ou na igreja realizando trabalhos sociais, ótimo. Nem pense em empreender um negócio ou investir em títulos da dívida pública do Quirguistão.

Mas você é um azarado, e nasceu pobre. E agora? Se você realmente quiser ficar rico, as notícias não são boas: as chances de alguém que nasceu pobre enriquecer são próximas de zero (isso se você quiser ficar rico de verdade, com jatinho, iate e apartamento em Paris – se a idéia for a de ficar bem de vida, a história é outra). Entretanto, você pode, em tese, se casar com uma herdeira multimilionária, mas, sendo pobretão, é bem provável que você nem tenha a chance de conhecê-la. Você também pode ganhar na Mega-Sena acumulada, o que, segundo os estatísticos, é mais improvável que ser atingido por um raio duas vezes. Sua vocação para o mundo do crime ou para a política (se para ambos, melhor ainda) é – felizmente! – nula… Então, meu amigo, só te resta trabalhar, e a boa notícia é que a maior parte dos ricos ficou rica trabalhando. Mas não vá ser dentista ou contador, tente a carreira artística ou esportiva, abra um negócio, enfim: faça algo escalável. Leia esse post e entenda melhor o que isso quer dizer.

O problema é que, se você desenvolver atividades escaláveis, como ser jogador de futebol, as regras do jogo são as dos mercados de tudo ou nada, e mesmo que você seja um craque da bola, é mais provável que você passe fome jogando futebol do que fique multimilionário como o Ronaldo. Além de ser bom de bola, você tem que ser visto pela pessoa certa, na hora certa, jogar o jogo certo, fazendo o gol no momento certo, e não escorregar no tomate nas situações decisivas. Se machucou no dia D? Dançou. Tomou um fora da namorada e jogou mal? Já era. Não se machucou nem tomou fora, mas o olheiro foi para o motel com a amante ao invés de ir te ver? Perdeu. Tem muita gente boa de bola jogando na sua posição naquele momento específico? Desculpe, não vai ser você o novo Ronaldo. Pode ir para a banca de jornal comprar os classificados e descolar alguma outra coisa para fazer. O mundo do tudo ou nada é cruel.

É muito difícil ficar rico numa situação adversa como essa, em que você tem que ser bom e, ao mesmo tempo, “iluminado”. Mesmo que você monte muito bem, o cavalo selado passa na tua frente muito poucas vezes (isso quando passa), e nos momentos mais inadequados. Então, a única arma disponível, na prática, é a persistência – que não te garante nada, mas pelo menos te mantém no jogo, em condições de competir. O drama é que persistência não é só uma questão de determinação, de garra, ou de caráter, ela também depende de condições econômicas: o persistente precisa poder persistir. Por exemplo: como um sujeito arrimo de família, pagando hipoteca, trabalhando numa profissão que rende pouco por hora trabalhada, vai conseguir continuar ensaiando para ser cantor lírico? É preciso ter uma estratégia que te dê fôlego para continuar tentando: num mercado de tudo ou nada, é isso o que faz a diferença. Na verdade, são necessárias duas estratégias distintas para ter a possibilidade de continuar tentando vencer num mercado de tudo ou nada: 1)Ter uma estrutura de gastos voltada à frugalidade; e 2)Ter uma fonte de renda estável, que demande, ao mesmo tempo, baixa alocação do tempo disponível, e geração de recursos adequados à estratégia principal. O que eu quero dizer com isso:

Gaste pouco, não cultive hábitos caros, evite ter dependentes, tenha um estilo de vida austero. Quanto mais recursos o estilo de vida demandar, menores as chances de ficar rico – e isso não ocorre porque poupar parte do salário poderia enriquecê-lo, e sim porque sobrou tempo e recursos para poder tomar riscos. O Tio Patinhas não ficou rico acumulando centavos, como todo mundo pensa; sua sovinice, entretanto, foi fundamental para que ele pudesse arriscar por mais tempo nos mercados de tudo ou nada. Quanto mais elevado for o padrão de gastos, menores as chances de ficar rico (o que é um paradoxo, já que o que motiva alguém para ficar rico é justamente a perspectiva de poder ter um padrão de gastos elevado!). O fato é que grande parte das pessoas que exerce exclusivamente atividades não-escaláveis (ex.: funcionários públicos, profissionais liberais e assalariados em geral), assim o fazem para sustentar um padrão de gastos elevado, e esse estilo de vida os manterá para sempre fora da competição nos mercados de tudo ou nada. Algumas profissões, como a magistratura, inclusive vedam o exercício de atividades escaláveis – embora permitam o magistério, atividade tipicamente não-escalável –, como uma forma de evitar o enriquecimento de seus membros na iniciativa privada, o que levaria a um óbvio conflito de interesses para com o exercício da profissão de juiz. O fato é que quanto menor for a necessidade de gerar renda pelo trabalho não-escalável, maiores as possibilidades para poder arriscar em atividades escaláveis. Sabe aquele ditado que diz que “quem trabalha muito não tem tempo para ganhar dinheiro”? É por aí.

Ter um patrocinador que te permita arriscar nos mercados de tudo ou nada é a fonte de renda mais frequentemente utilizada por quem está começando nas atividades muito escaláveis. No exemplo do futebol, normalmente é um “paitrocinador” que banca o filho craque do dente-de-leite. O problema dessa estratégia é que ela normalmente é de curto prazo, e não funciona para todas as atividades – empresários, por exemplo, muitas vezes levam décadas na tentativa de vencer, tempo que os pais nem sempre estão dispostos a (ou podem) dar. Por isso, ter uma atividade não-escalável para viabilizar a persistência nas tentativas de vencer em atividades escaláveis é, sem dúvida, a melhor opção. E o melhor é que existem inúmeras ocupações em período parcial ou com jornada ultra-flexível que podem gerar renda suficiente para a pessoa manter o plano principal. Porém, é importante que esta atividade não-escalável seja coerente com o padrão de gastos que a pessoa precise manter. Por exemplo: uma pessoa pode dirigir um táxi para custear uma carreira de ator, mas se a renda que a pessoa precisar manter for muito elevada, o número de horas que essa pessoa terá que passar dirigindo o táxi poderá impedir que ela ensaie e estude o suficiente para se tornar um bom ator. Num caso desses, ou o sujeito reduz despesas, ou parte para outra atividade mais bem remunerada, senão as chances de ser um bom ator ficarão ainda mais reduzidas.

No post que citei acima, sobre como os ricos ficam ricos, utilizo a biografia do comandante Rolim Amaro, que foi dono da TAM (e um grande vencedor em mercado de tudo ou nada) para ilustrar como a escalabilidade se modifica nas diferentes fases da vida profissional. O Rolim iniciou a carreira como piloto comercial, uma atividade totalmente não-escalável: 1)renda proporcional ao tempo alocado: pilotou mais, ganhou mais; 2)baixa assimetria entre o topo e a base da pirâmide: a diferença de renda entre os novatos e os áses é de menos de dez vezes; 3)possibilidade de ganhos medianos: cerca de R$15mil em termos de hoje; 4)baixo risco de empobrecimento: o risco de um prestador de serviços; e 5)chance de enriquecimento igual a zero (pelo menos enquanto a renda vier da venda da própria mão-de-obra de piloto). Um hipotético irmão gêmeo do Rolim (no referido post, chamo de Rolando) que tivesse começado a pilotar no mesmo dia que o Rolim começou, e se aposentasse no dia em que o teórico irmão morreu (2001), ganharia cerca de R$3mil/mês no início da carreira, pilotando monomotores, e algo próximo dos R$30mil/mês no comando de jatos transcontinentais, no final da carreira – é isso que quero dizer por “baixa assimetria entre o topo e a base da pirâmide”: os ganhos do Rolando se multiplicaram por dez, enquanto um empresário de sucesso multiplica seus ganhos em milhares de vezes no decorrer da vida profissional. No fim das contas, o Rolando não ficou rico (embora tenha tido um bom padrão de vida); já o Rolim da vida real ficou mega-milionário, mas a chance dele ter falido no meio do caminho (e estar até hoje atendendo oficiais de justiça) foi imensa – na verdade, quando ele assumiu a TAM, a empresa estava praticamente quebrada. A vantagem é que o Rolim nunca deixou de ser piloto, e se a TAM quebrasse na época dos Cessna, logo no início, ele ainda teria a opção de voltar a pilotar, para tentar novamente mais tarde. Está aí uma outra importância das atividades não-escaláveis como viabilizadoras de uma carreira escalável: elas (as atividades não-escaláveis, como a de piloto) funcionam como uma espécie de “plano B”, “apólice de seguro”, ou “pára-quedas” – você escolhe a analogia.

Quando era gerente de contas do Citibank, na década de 1990, tive um chefe que falava da analogia a um barco pesqueiro para explicar o balanceamento entre ganhos escaláveis e não-escaláveis. Um gerente de contas se encontra numa situação em que gerar receita não-escalável (visitar clientes para tentar melhorar a carteira de cobrança, trabalhar em linhas de crédito pouco rentáveis, mas que dão alguma receitinha, etc.) compete com as atividades que podem gerar alta rentabilidade (estruturar operações complexas, prospectar clientes muito grandes e/ou difíceis, etc.). Há um goal ou meta de receita anual (suponhamos, de $1milhão), e o gerente de contas tem uma carteira de clientes e prospects na frente para ver se ele consegue fazer negócios que gerem um valor igual ou maior que o goal: se o resultado for melhor ou igual ao goal, ganha-se bônus e promoção; se não, corre-se o risco de ser demitido. Há basicamente duas formas de gerar receita com os nomes de sua carteira: a) passar o dia visitando muitos clientes, ligando, e dando follow-up para ganhar alguns trocados com cada negócio fechado, ou b) concentrar os esforços em meia dúzia de oportunidades grandes, e fechar o foco para duas ou três operações com potencial para gerar boa parte do goal sozinhas. Dizia meu ex-chefe que a melhor estratégia para quem está nessa situação é pensar que se está no comando de um barco pesqueiro, armado de arpões e varas de pescar merlins, mas também com redes para pegar sardinhas. A idéia seria a de fazer um mix entre a pesca da sardinha, que consome muito tempo e rende pouco, mas acontece, de fato; e a caça ao Merlin, que potencialmente rende muito dinheiro, mas também consome muito tempo e pode não acontecer (os merlins podem todos sumir de uma hora para outra). O dilema do gerente de contas é o mesmo dilema do sujeito que está tentando ficar rico: não adianta pensar só nos merlins, nem viver só de sardinhas, tem que ter os dois.

Tentar ficar rico desenvolvendo uma atividade escalável não é fácil. Pela lógica dos mercados de tudo ou nada, é muito mais provável que não se obtenha sucesso: De cada mil empreendedores, quantos constroem grandes empresas como a TAM? De cada mil meninos que tentam a carreira de jogador de futebol, quantos vão para a seleção como o Ronaldo? Quantos atores se tornam protagonistas da novela das 8 da Globo? Quantos profissionais chegam a presidentes de grandes empresas? Se, em qualquer um desses casos, a maioria atingisse o sucesso, o sucesso não seria sucesso – se é que me entendem.

Não há qualquer garantia que, utilizando as estratégias deste artigo, consiga-se ficar rico (se assim fosse, você não estaria lendo de graça). Na verdade, a estratégia apresentada aqui possui exemplos e ilustrações inéditos, mas a lógica por trás não é nem minha, nem muito recente. Robert Frank, e seu “The winner-take-all society“, de 1995, explica brilhantemente os mecanismos de funcionamento dos mercados de tudo ou nada. E o Nassim Nicholas Taleb, com o seu “The black swan“, de 2007, é responsável pelas consiedarções sobre escalabilidade. Se você achou as estratégias deste artigo sensatas, é em grande parte por causa desses dois sujeitos aí em cima – o resto é teoria dos jogos, psicologia evolutiva, e experiência prática. Fora isso, você tem que ser bom no que faz, estudar, praticar, e de preferência ter habilidades inatas para a atividade escolhida. E você precisa ter sorte, estar nas horas certas nos lugares certos, conhecer as pessoas certas, e por aí vai. Meu livro “Prática na teoria” fala sobre como funcionam os relacionamentos reciprocamente vantajosos, fundamentais para ter sucesso. A série de artigos “como ter sorte nos negócios” – 1, 2 e 3 descreve estratégias para “ajudar a sorte”. Mas, de qualquer maneira, conhecer a diferença entre atividades escaláveis e não-escaláveis; entender que o caminho para a fortuna passa, na maioria das vezes, pelo desenvolvimento de atividades escaláveis em mercados de tudo ou nada; e, principalmente, dominar estratégias em que atividades não-escaláveis viabilizam agir com escalabilidade de maneira mais eficiente, poderão fazer a diferença para que uma pessoa competente e sortuda fique rica. Ainda vou escrever um livro sobre isso (que, por sinal, é uma atividade altamente escalável).

6 Respostas

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  1. […] Uma parte dos ricos simplesmente tem recursos “de fábrica” (são herdeiros), outros ganham na loteria, e alguns se casam com milionários, mas esses tipos de rico compõem uma minoria. Por incrível que pareça, a maior parte da zelite enriqueceu trabalhando: são empresários, executivos, cantores, advogados, jogadores de futebol, fazendeiros, e comerciantes que trabalham muito, só que de forma escalável. Quem desenvolve atividades não-escaláveis (ex.: dentistas, contadores, pilotos de avião, artesãos, funcionários públicos, assalariados em geral, etc.) não ficam ricos – embora possuam grandes chances de terminarem a vida em melhor situação econômica que a média dos que exerceram atividades escaláveis (mas isso é uma outra história). […]

  2. Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho said, on 21 junho, 2009 at 2:45 pm

    […] escrevi em diversas oportunidades (como aqui, aqui e aqui) sobre a importância da sorte para vencer disputas em mercados de tudo ou nada. Uma […]

  3. Tangara said, on 28 agosto, 2009 at 7:35 pm

    Não há qualquer garantia que, utilizando as estratégias deste artigo, consiga-se ficar rico (se assim fosse, você não estaria lendo de graça).

    …rs

  4. Raul Marinho said, on 29 agosto, 2009 at 9:35 am

    Pois é, Tangará… Quer moleza, vai ler “As leis da atração” ou jogar na Sena.

  5. tatay marinho said, on 10 junho, 2010 at 9:58 am

    Ao longo do texto, relacionei varias passagens ao filme ‘À procura da felicidade’ com Will Smith, diga-se de passagem, um filme dramatico incrivel; ele retrata exatamente essa necessidade de desenvolver atividades escalaveis, a partir da motivaçao de uma melhora financeira, sem dispensar o chamado ‘blano b’, que na grande maioria das vezes – e na do filme tambem – nao nos traz satisfaçao alguma, porem é a nossa unica opçao, e possivel ponto de partida.
    assistam, vale a pena!

  6. Kelson said, on 23 julho, 2013 at 11:31 am

    Parabéns,existem muitos empresários que começaram do zero e acredito que se eles tivessem lido o seu
    blog eles teriam começado um pouco desanimados,ainda bem que eles não leram,ufa.


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