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Relativismo cultural

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento, Livros (resenhas & comentários) by Raul Marinho on 2 março, 2009

relativismo-cultural

No meu livro de 2005, “Prática na teoria“, comento essa praga orginária das “””ciências””” sociais chamada “relativismo cultural” que, hoje, o Luiz Felipe Pondé aborda com brilho na sua coluna na Folha de São Paulo.

Blablablá

O QUE você faria se estivesse a ponto de assistir a um ritual de antropofagia? Interromperia (sem risco para você)? Ou deixaria acontecer em nome do relativismo cultural (essa ideia que afirma que cada um é cada um, que as culturas devem ser respeitadas em sua individualidade e que não podemos compará-las)?
No primeiro caso, você seria um horroroso descendente dos “jesuítas”; no segundo você seria um relativista chique. Sempre suspeitei que esse papo relativista fosse blablablá. Funciona bem em aula de antropologia, em bares, em parques temáticos e lojas de curiosidades. É evidente que “jesuítas” de todos os tipos fizeram horrores nas Américas. Todo adulto bem educado sabe que é feio condenar cultos à lua ou à chuva. Mas há algo no relativismo cultural que me soa conversa fiada: o relativismo cultural morre na praia quando você é obrigado a conviver com o Outro. E o “Outro” nem sempre é legal.
Se você aceita a antropofagia em nome do respeito à “cultura”, aceita implicitamente a ideia de que o valor da vida humana seja subordinado à “cultura”. A vida humana não tem valor em si. Todo estudante de antropologia sabe recitar esse credo. Quando confrontado com dilemas como esse, o relativista diz que se trata de uma situação meramente hipotética (hoje não existe mais antropofagia). Mas a verdade é que quando o relativista diz que a antropofagia é hoje quase nula, e, portanto, esse dilema não tem “validade científica”, está literalmente correndo do pau porque “alguém” acabou com a antropofagia, não? Por que a antropofagia “acabou”?
Algumas hipóteses: 1) os antropófagos foram mortos por gripes ou em batalhas; 2) foram convertidos pelos horrorosos “jesuítas” e seus descendentes; 3) descobriram formas mais fáceis de comer e rituais que deixam as pessoas (isto é, os Outros) menos irritadas e com menos nojo. É importante conhecer o “lugar” da antropofagia nas religiões dos canibais, mas isso é apenas um “dado” antropológico. Uma descrição de hábitos (ruins). Mas o relativista tem que correr do pau mesmo, porque seu credo funciona bem apenas nas conversas de salão. A vida é sempre pior do que as festas. Relativistas culturais são, no fundo, puritanos disfarçados, gostam de “aquários humanos”.
Os seres humanos são culturalmente promíscuos, e “a cultura” sem promiscuidade (trocas, misturas, confusões) só existe nos livros. Use internet, televisão, celulares, aviões e estradas, faça sexo ou guerra, e o papo do relativismo cultural vira piada. Na realidade, as pessoas lançam mão do argumento relativista somente quando lhes interessa defender a “tribo” com a qual ganha dinheiro e fama. O problema com o debate sobre os índios (ou qualquer outra cultura considerada “coitada”) é a mitologia que ela provoca. Se, de um lado, alguns falaram dos índios (erradamente) como inferiores, bárbaros ou inúteis, por outro lado, os que “defendem” os índios normalmente caem no mito oposto: eles são legais e só querem viver “sua cultura”, e eles não são “capitalistas” como nós, e blablablá. Índios gostam de poder como todo mundo, vide os índios “conscientes de seus direitos” devorando computadores, celulares e internet no Fórum Social, em Belém -ou ficam na idade da pedra mesmo e precisam que o Estado os defenda do mundo.
As culturas mais bem-sucedidas são predadoras e seduzem as mais fracas (ser mais bem-sucedida não implica ser legal). Por que levar medicina científica (invenção dos “opressores”) para as aldeias? Não seria contaminação “cultural”? Vamos ou não brincar de “curandeiros”? Que tal abraçar árvores? Se você é católico e quer ser fiel aos seus princípios, você é um retrógrado; se você quer viver no meio da selva (com direitos adquiridos porque você é de uma cultura “coitada”), você é apenas uma tribo com direito a integridade cultural. O conceito de cultura é quase um fetiche do mercado das ciências humanas. Não que não existam culturas, mas o conceito na sua inércia preguiçosa só funciona no laboratório morto da sala de aula ou do museu. A vida se dá de forma muito mais violenta, se misturando, se devorando.
Nada disso é “contra” os índios, mas sim contra o relativismo como ética festiva. O oposto dele não é o obscurantismo, mas a dinâmica da vida real. O relativismo é um (velho) problema filosófico e um “dado” antropológico. Um drama, e não uma solução.

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2 Respostas

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  1. Raul Marinho said, on 3 março, 2009 at 1:24 pm

    CQD, uma carta do leitor, sobre o artigo do Pondé:

    “O professor Luiz Felipe Pondé problematizou, em artigo publicado ontem (“Blablablá”, Ilustrada), um aspecto interessante sobre o relativismo cultural, que é o mau uso desse conceito.
    Infelizmente, parece que o autor se confundiu com o significado da expressão, reduzindo-o ao mau uso que tanto critica ao longo do texto.
    Mais do que um papo “blablablá”, a atitude relativista é um convite à compreensão de formas de vida distintas, encontradas não só em tribos remotas mas, sobretudo, na difícil convivência em sociedade.
    Como disse Luiz Felipe Pondé, num momento de rara felicidade, “o “Outro” nem sempre é legal”. Compreender não significa “abençoar”, mas tentar lidar com a diversidade cultural de forma menos conflitante e sem optar pela supressão das diferenças.
    Talvez o autor devesse frequentar outros espaços sociais (além dos já mencionados parques temáticos e lojas de curiosidades) para entender um pouco mais do assunto.”
    JULIA BESOUCHET (Rio de Janeiro, RJ)

  2. Cronópio said, on 9 fevereiro, 2010 at 11:49 pm

    Belo texto, inquietante. A propósito, escrevo sobre o Pondé regularmente em meu blog: http://www.criticaparnasiana.blogspot.com
    O texto abaixo é uma resposta ao texto em que Pondé, com muita razão, critica o filme Avatar, de James Cameron.

    Pondé, pessimista incurável ou último romântico?

    É óbvio que “Avatar” não merece o mesmo cuidado analítico que um filme europeu, e Pondé parece saber bem disso. Por isso evita tratar o filme em seus aspectos formais (absolutamente convencionais) e vai direto aos finalmentes. Não tem sentido fazer critica imanente aqui. “Avatar” é provavelmente o avatar de uma nova série de filmes com tecnologia 3D, mas sua estrutura narrativa, por exemplo, é basicamente a mesma de 2012 ou a de qualquer outro filme apocalíptico de Hollywood (“O dia depois de amanhã”, por exemplo). Portanto, não adianta criticar o Pondé por não compreender a forma fílmica ou qualquer coisa desse tipo. Por outro lado, não é apenas o investimento que garante o sucesso de um filme junto ao público, basta lembrar fracassos como os de “Pluto Nash” (2002) ou “Ricos, bonitos e infiéis” (2001), que pagaram um preço alto por não estarem em dia com a agenda ideológica hollywoodiana. Numa postagem futura falarei mais sobre isso, mas o teórico Fredric Jameson, em “Marcas do Visível” (Graal, 1995), explica de maneira bem satisfatória a receita do sucesso das megaproduções. Em linhas gerais, o filme não pode ser completamente falso: embora ideológico em sua fatura, contém gérmens de reivindicações legítimas. Isso Pondé parece ignorar. Vejamos como.

    Pondé define Avatar como “romantismo para idiotas”, e nisso tem absoluta razão. Acerta ainda mais quando aponta a idealização presente no filme, que vê no retorno à natureza e a uma vivência comunitária uma solução para os impasses de nossa sociedade. Não devemos esquecer que a idéia de refundar uma “comunidade” (Gemeinschaft) foi e ainda é um dos pontos centrais do discurso nazista. Contudo, Pondé erra quando afirma que “a diferença na relação com a natureza sempre se definiu pela maior ou menor capacidade técnica de cada cultura em controlá-la.” Essa não é uma opinião unânime. Theodor W. Adorno, por exemplo, citado por Pondé como um filósofo romântico (certamente com uma pitada de ironia), tem como um dos pontos centrais de seu pensamento filosófico a possibilidade de uma relação não-identitária, no conhecimento, entre sujeito e objeto. No plano histórico isso implica uma crítica da relação homem/natureza ditada por parâmetros puramente abstratos. A relação puramente unilateral com a natureza seria uma das características da “Razão instrumental”, conceito partilhado pelos teóricos da escola de Frankfurt (principalmente Adorno e Horkheimer). Contudo, Adorno não propõe que voltemos a morar em palafitas. Pelo contrário, a única cura que o filósofo enxergava para o “esclarecimento” (ou iluminismo, no alemão Aufklärung, termo pelo qual se designa o projeto de modernidade, nas palavras de Kant, “a saída do homem de sua minoridade”) era ainda “mais” e não menos, esclarecimento. Heidegger, tido como filósofo de direita, também tece críticas em relação ao rumo que tomou o conceito de Entbergung ou “desocultamento” em nossa sociedade, que teria preservado apenas seu significado “instrumental”. Obviamente os dois filósofos divergem em muitos pontos e o resumo que fiz aqui não faz jus à complexidade das questões que, infelizmente, não são nosso objeto aqui.

    É por isso que Pondé tem alguma razão quando afirma: “Ninguém está disposto a abrir mão da liberdade individual moderna em nome de qualquer comunidade, por isso toda tentativa de “re-fundar” comunidades fracassa, apesar da admiração de muito pós-moderno bobo por culturas que não conheciam a roda. Não basta ter um filtro de barro em sua casa na Vila Madalena pra você conseguir viver em paz na comunidade da deusa natureza.” O erro de Pondé está em não dar dignidade filosófica a pergunta sobre quais seriam os parâmetros de nossa relação com a natureza, o que o levaria talvez a questionar o próprio conceito de “natureza” como um par antitético de “cultura” ou “história”. Pondé decide responder a questão de modo peremptório, por meio do que eu definiria como um darwinismo romântico:

    “Preste atenção: a relação com a natureza é de vida ou morte, ou ela ou nós. A expressão “lei da selva” não foi inventada pela avenida Paulista e seus bancos, mas sim como descrição da natureza e seu horror.

    Isso não significa que não existam limites para a exploração da natureza, mas isso tampouco significa que exista uma coisa que seja “a doce Natureza”. ”

    O que falta ao darwinismo de Pondé, vejam só, é justamente rigor científico. A teoria desenvolvida por Darwin partilha de um ideal utópico que está na origem de nossas ciências materialistas. Se “a idealização do que seria uma comunidade é uma das marcas dos idiotas utópicos”, não devemos concluir daí que todo ideal utópico seja idiotice. Afinal, isso seria chamar de idiotice todo o projeto moderno, erigido sobre uma promessa utópica de felicidade. Para comprovar o que disse, transcrevo a seguir o trecho de um texto do orientador de Pondé na USP, Franklin Leopoldo e Silva entitulado “Conhecimento e Razão Instrumental”:

    (…)”se nos detivéssemos numa análise mais precisa deste pensamento que se constituiu na alvorada dos tempos modernos, duas coisas poderiam talvez causar inquietação. A primeira é o caráter utópico de certas propostas de organização social do trabalho científico que acompanham e mesmo ilustram a pretensão de domínio racional. Em Bacon, textos como a Nova Atlântida descrevem, na forma da utopia, uma civilização extremamente equilibrada, totalmente calcada na busca e organização do saber em todos os domínios, do que resulta o estado de felicidade desfrutado por todos os habitantes. O segundo motivo de inquietação deriva da maneira como Descartes pretendia integrar as várias partes que compõem a totalidade unitária do saber humano, definindo a vinculação do empreendimento teórico com as suas aplicações práticas através do termo sabedoria. A esta perfeita integração entre a teoria e a prática é assinalado o mesmo objetivo proposto por Bacon: a consecução da felicidade humana.” (disponível na íntegra em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65641997000100002).

    Como todo pensamento conservador, o de Pondé possui raízes pré-modernas. Não é por outro motivo que vimos, em outros textos, o filósofo tecer elogios à Idade Média. No entanto, é interessante notar como Pondé não é um conservador clássico. Ao lado da defesa da liberdade individual há a alusão a um “limite” que a “exploração da natureza” deve respeitar. Fica evidente o paradoxo. Afinal, como jogar fora todo o projeto moderno de “Afklärung” sem se recorrer a algum tipo de instância mística ou tabu proibitivo? Acho que a resposta de Pondé seria tipicamente brasileira: mudemos um pouco o rumo das coisas para que elas, ao fim e ao cabo, permaneçam as mesmas. Mas isso não se pode afirmar com certeza, pelo menos não ainda, pois mal começamos a desconstruir o embróglio que é o pensamento de Pondé.

    A ideologia de “Avatar” é realmente coisa de retardado. Mas, então, por que o filme faz tanto sucesso? Afinal, se “ninguém está disposto a abrir mão da liberdade individual moderna em nome de qualquer comunidade” por que tantos aplaudem o filme efusivamente e insistem justamente em que o filme tem uma “grande mensagem a nos transmitir”? Ao contrário de Pondé, penso que a ideologia de Avatar tenha se tornado poderosa, mas disso falarei em outra ocasião.


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