Como o tempo passa rápido num blog!

Aos estimados e estimadas leitores e leitoras, parabéns para nós! O Toca Raul!!! está completando um ano de vida. Embora esteja meio devagar ultimamente (vide explicação no post anterior), a produção deste primeiro ano até que foi bem razoável, como se pode ver na tabela acima. São 510 artigos publicados, quase 2 por dia corrido. E mais de 80mil visualizações, o que significa que, todo santo dia, centenas de internautas perdidos na web acessam algum artigo do blog (hoje estão entre 350 e 450 por dia, embora a média do 1o. ano se situe ao redor dos 250). Estou feliz! Espero que vocês também.
Para ser piloto (como “tirar brevê”)

Neste post, eu falei sobre as razões do meu sumiço: a falta de tempo para blogar devido às atividades relacionadas à obtenção de minha CHT – ou “brevê”, como se diz por aí. Presumo que pouca gente saiba como uma pessoa se torna piloto, então vou fazer um apanhado sobre como isso acontece. Basicamente, a formação de um piloto passa pelos seguintes estágios: PP (piloto privado, não pode trabalhar na aviação), PC (piloto comercial, pode fazer tudo menos pilotar aviões de linhas aéreas regulares), e PLA (piloto de linha aérea, quem pilota os jatos da ponte aérea, os aviões transcontinentais etc.).
Prossiga lendo se isso realmente te interesse… A história vai longe. (mais…)
A tragédia dos gnomos

O artigo abaixo, do João Pereira Coutinho para a Folha de hoje está imperdível. Ele trata da questão da estatura, tão complicada para os homens. Aproveito o embalo para um pequeno comentário sobre evolução humana:
É evidente que, a cada geração, a estatura média da população aumenta. Isso ocorre porque há uma forte pressão seletiva relacionada à seleção sexual: as mulheres preferem escolher parceiros mais altos, e estes acabam gerando mais filhos, frequentemente em mais de um casamento, sem contar os filhos “por fora”. Além disso, homens mais altos têm mais chances de ascensão profissional, e também é sabido que homens ricos são muito mais disputados pelas mulheres que homens pobres. Em períodos de elevada escassez de alimentos, porém, a lógica se inverte, os mecanismos de seleção natural prevalescem, e os mais baixos têm vantagens, já que precisam de menos recursos para sobreviver.
Agora, o excelente artigo do JP Coutinho:
Altos, baixos e presidentes
Podem falar sobre ser gordo, careca ou até gordo e careca; o terror do homem moderno é mesmo ser baixo (mais…)
Utilitarismo & mediocridade

Na semana passada, comentei um artigo do Clóvis Rossi neste post, sobre a mediocridade acadêmica (não só brasileira, a propósito) que, hoje, o Luís Felipe Pondé também comenta (vide texto abaixo). Penso que, se a universidade está deste jeito, há motivos para temer o futuro…
Um relatório para a Academia
Cálculos para garantia do emprego ocupam o tempo da classe acadêmica
CLÓVIS ROSSI pergunta em sua coluna do dia 8 de setembro, página A2, se no Brasil vivemos algo como o que acontece na vida universitária da Espanha hoje: desinteresse dos alunos e asfixia burocrática dos professores. Sim, há semelhanças.
Nos anos 50, o filósofo norte-americano Russel Kirk descrevia um fenômeno interessante nas universidades americanas.
A partir do momento em que a vida acadêmica se tornou objetivo da “classe média”, gente sem posses, a vida universitária entrou em agonia porque a proletarização dos acadêmicos se tornou inevitável.
Dar aula numa universidade passou a ter algum significado de ascensão social. A partir de então o carreirismo necessariamente assolaria a academia, assim como assola qualquer emprego.
Cálculos estratégicos para garantia do emprego passaram a ocupar o tempo da classe acadêmica. E muita gente que vai dar aulas na universidade não é tão brilhante assim ou tão interessada em conhecimento.
O cálculo estratégico hoje passa pelo número de alunos que implica uma redução ou não de aulas e orientações de teses.
Ou mesmo nas públicas, onde você está mais protegido da proletarização imediata, uma verba maior ou menor para seu projeto e mais ou menos discípulos causarão impacto na renda final e na imagem pública.
Daí o desenvolvimento em nós de um espírito selvagem: o corporativismo em detrimento do ensino ou o ethos de gangues em meio à retórica da qualidade.
Muitas pessoas (alunos e professores) buscam a universidade não para “conhecer” o mundo, mas sim “para transformá-lo” ou ascender socialmente.
E aqui, revolucionários (“criando o mundo que eles acham melhor”) e burgueses (interessados em aprender informática para “melhorarem de vida”) se dão as mãos.
Este pode ser mais individualista do que o outro, mas ambos fazem da universidade uma tenda de utilidades.
Para mim não faz muita diferença, para a banalização da universidade, se você quer formar gestores de negócios ou gestores de favelas. Nenhum dos dois está interessado em “conhecer” o mundo, mas sim “transformá-lo”.
É claro que nos gestores de favelas o espírito selvagem pode funcionar tão bem quanto entre os gestores de negócios. A obrigação da universidade em produzir “conhecimento de impacto social” é tão instrumental quanto produzir especialistas na última versão do Windows.
O utilitarismo quase sempre ama a mediocridade intelectual. Falemos a verdade: a mediocridade funciona.
Ela gera lealdades, produz resultados em massa, convive bem com a estatística, evita grandes ideias. Enfim, caminha bem entre pessoas acuadas pela demanda de sobreviver.
A instrumentalização é quase sempre outro nome para utilitarismo. Isso não quer dizer que devamos excluir da universidade as almas que querem ser gestores de negócios ou gestores de favelas -elas é que excluem todo o resto.
Precisamos dos dois tipos de almas, e cá entre nós, acho que os gestores de favelas são moralmente mais perigosos do que os gestores de negócios. Como todos nós, ambos irão para o inferno, a diferença é que os gestores de favelas acham que não.
E a asfixia burocrática? Ahhh, a asfixia burocrática! Esta contamina tudo e em nome da democratização da produção e da produtividade da produção.
A burocracia na universidade nasce, como toda burocracia, da necessidade de organização, controle, avaliação.
Não é um sintoma externo a busca de aperfeiçoamento do sistema, é parte intrínseca ao sistema. A pressão pela produtividade proletariza tanto quanto a pressão pela carreira.
Soa absurdo, caro leitor? Quer mais?
Em nome da transparência da produção, atolamos esses indivíduos de classe média na burocracia da transparência e do acesso à produção universitária.
Enfim, a “produção” asfixia a universidade em nome de uma “universidade mais produtiva, democrática e transparente em sua produtividade”. Estamos sim falando da passagem da universidade a banal categoria de indústria de conhecimento aplicado, e sob as palmas bobas de quem quer “fazer o mundo melhor”. Tudo bem que queira, mas reconheça sua participação na comédia.
Kafka, em seu conto “Um Relatório para a Academia”, já colocava um ex-macaco, recém-homem, fazendo um relatório para os acadêmicos.
Ali ele já suspeitava que a academia continha algo de circo ou show de variedades. Hoje sabemos que isto já aconteceu.
Para ler antes de casar

Da Folha de hoje, de autoria do Contardo Calligaris, um texto que deveria ser obrigatório para os noivos lerem antes de assinar o contrato:
Casamentos possíveis
Em geral, a gente casa com a pessoa certa: com quem podemos culpar por nossos fracassos
UMA DAS boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.
O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: “Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer”.
Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas.
Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza -como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento.
As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar.
Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento.
Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.
Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho.
Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação (“É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos”), ouve-se: “Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos”.
Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa “certa”: a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.
Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados “por causa do outro”, mas pelas “cobranças”, que, elas sim, podem se revelar insuportáveis.
Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café – logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália.
Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência.
À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) “causa” de minha desistência e razão de meu “sacrifício”: “Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo.” Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma -nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.
O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil.
Restringir para estimular?

Lendo o artigo abaixo, do Clóvis Rossi para a Folha de hoje, comecei a refletir como as coisas eram no “meu tempo” – cursei minha faculdade nos anos 1980, numa longínqua era pré-web. Naquela época, a informação só podia ser obtida por meio de livros ou “papers” (apostilas e outros escritos). Conseguir o livro na biblioteca não era fácil (como não é hoje, para os que ainda se aventuram nas selvas de estantes): é difícil de achar os títulos no kardex, é complicado encontrar os exemplares nas estantes, os melhores títulos estavam sempre emprestados, sem contar com a burocracia do empréstimo (a carteirinha tinha que ser renovada todo semestre, se houvesse algum atraso, o aluno ficava suspenso, etc.). Xerocar “papers” era um pouco mais fácil, mas ainda assim enfrentavam-se filas enormes nos xerox que, ademais, não era barato – e a qualidade, sempre péssima, ilustrações, gráficos, etc, ficavam imprestáveis.
Hoje em dia, consegue-se praticamente qualquer texto com um clique de mouse, sem custo ou por centavos. Fotos, filmes, áudios e demais materiais multimídia estão disponíveis às toneladas. Tá sem tempo/saco de ler? Ouça um áudio-book. Quer saber só o essencial? Wikipedia. Quer se aprofundar? existem centenas de portais acadêmicos com tudo o que você precisa. Um estudante do século XXI tem acesso a muito mais informação que um dos anos 1980, não dá para comparar. Acho que é justamente este o problema.
É da natureza humana desejar o escasso. Você pode não dar a mínima para o chuchu, mas se a manchete dos jornais de amanhã estamparem uma crise de abastecimento do vegetal, é bem provável que você esteja inclinado a comê-lo na primeira oportunidade. O excesso de facilidade na obtenção e o baixo custo de aquisição podem ser os grandes responsáveis pelo desinteresse dos estudantes relatado pelo Clóvis Rossi. Não creio em “cultura do imediatismo” ou “utilitarismo exacerbado”: essas são características presentes nos jovens de 20 anos atrás. O que mudou mesmo, dos anos 1980 para cá, foi a oferta de informação, não a cabeça do estudante. Talvez a saída seja restringir o acesso à informação como forma de estimular os estudantes de hoje.
A impunidade da ignorância
(Clóvis Rossi para a Folha de hoje)
Pelo choque que me causou, repasso ao leitor o essencial de artigo do escritor espanhol Rafael Argullol para “El País”.
Começa relatando que alguns dos melhores professores universitários espanhóis estão se aposentando “precipitadamente”. Cita dois motivos: “o desinteresse intelectual dos estudantes e a progressiva asfixia burocrática da vida universitária”.
Explico o sentimento de choque: não sei se a situação ocorre também no Brasil, mas sei que o caldo de cultura descrito por Argullol é parecido no Brasil (como, aliás, no resto do mundo).
Os professores, escreve Argullol, “se sentem mais ofendidos pelo desinteresse [dos estudantes] do que pela ignorância”. Acrescenta que um amigo lhe disse que “os estudantes universitários eram o grupo com menos interesse cultural da nossa sociedade, e isso explicava que não lessem a imprensa escrita, a não ser que fosse de graça, que não buscassem livros fora das bibliografias obrigatórias, ou que não assistissem a conferências se não fossem premiados com créditos úteis para serem aprovados”.
É o triunfo do que o escritor chama de “utilitarismo”. Os estudantes são adestrados na “impunidade ante a ignorância”, porque o conhecimento é um “caminho longo e complexo” e perde para o imediatismo da posse instantânea.
Não tenho informações para afirmar se essa situação ocorre também no Brasil. É evidente, em todo o caso, que há ou houve recentemente uma discussão sobre a asfixia burocrática.
Gilberto Dimenstein já comentou, tempos atrás, o fato de que professores de universidades públicas estavam se aposentando cedo e passando ao ensino privado.
O utilitarismo e o predomínio do individual são características contemporâneas globais. Estamos nós também cevando “a impunidade ante a ignorância”?
Razões do sumiço

O querido leitor ou a querida leitora deve ter notado que os posts rarearam, quase sumiram. O principal motivo foi a falta de tempo do editor, recentemente envolvido em novas atividades. Aéreas: estou no meio da caminhada para me tornar piloto, como se percebe pelo diplominha logo acima.
A caminhada para “checar o PP” (ou seja: conseguir uma autorização oficial para pilotar aviões monomotores, em vôo visual, em dias de ótimo tempo, e sem remuneração) requer ações em três frentes distintas. Primeiro, você precisa estar bem de saúde e provar isso. É preciso fazer inúmeros exames clínicos, que normalmente vão demandar umas 4 ou 5 idas ao laboratório. Depois, uma ida à clínica (ou ao Hospoital da Aeronáutica, mais complicado ainda), e tudo bem. …Ou não, já que cerca de 50% dos aplicantes têm que tomar alguma atitude (ex. operar desvios de sépito nasal, reduzir colesterol e/ou pressão, etc.). Vencida a fase médica, obtêm-se o CCF, que te permite iniciar o treinamento prático. Só que não é permito passar de 15 horas de vôo como piloto-aluno só com o CCF, o sujeito precisa estar aprovado no exame teórico da Anac para ter o direito ao vôo solo, que ocorre após a 15a hora de treinamento… Então, na verdade, o ideal é iniciar o treinamento prático no final ou após o encerramento do treinamento teórico inicial. Eu estou exatamente nesta fase: PP/Teórico OK, CCF de 2a classe válido, e treinamento prático em andamento. Mais algumas horas de vôo e fico “liberado para cheque”, e devo pegar minha carteira de habilitação até o final deste ano. Também estou matriculado no curso teórico de Piloto Comercial, com conclusão prevista para dezembro. Até o primeiro semestre de 2010, pretendo estar apto a plitotar aviões profissionalmente, conduzindo aparelhos com mais de um motor, com as regras de vôo por instrumentos (o que permite voar em tempo ruim), em rotas internacionais.
Depois falo mais sobre isso…
Porque vai dar m…
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Leia atentamente o artigo abaixo, do Alexandre Schwartsman publicado na Folha da última 4a feira. Depois, releia mais duas vezes. Reflita uns 2 dias. Agora, responda: vai ou não vai dar m…?
Era uma vez (versão animê)
Defender a qualquer custo o gigantismo estatal no Brasil é ignorar os fundamentos básicos de análise econômica
EM 2008 , o valor valor da produção doméstica cresceu cerca de R$ 140 bilhões, enquanto os impostos cresceram quase R$ 80 bilhões. Assim, embora a carga tributária tenha atingido já elevados 36% do PIB, a carga adicional superou incríveis 57%. Mesmo com níveis quase obscenos de tributação, ainda há quem defenda a bizarra tese de que graças à transferência à sociedade de parcela considerável daqueles recursos, a carga tributária líquida de transferências seria baixa, assim como seus efeitos sobre a economia. Um pequeno conto deve bastar para nos convencer do contrário.
Era uma vez uma economia muito simples: pessoas idênticas produziam (e consumiam) um único produto, feito apenas com trabalho. Tudo que recebiam como salário era consumido, ou seja, a decisão de quanto consumir era exatamente a mesma decisão de quanto trabalhar.
Assim, ainda que as pessoas pudessem ter outros interesses em mente, o custo de se consagrarem ao desenvolvimento do espírito corresponderia àquilo que deixariam de consumir. Em outras palavras, o custo de oportunidade do lazer era o consumo do qual abririam mão para usufruírem de tempo livre.
Certo dia, um novo ministro, egresso de um desenho animado japonês, decidiu criar um imposto sobre a renda, prometendo, contudo, sua devolução integral. Destarte, dizia o Pokémon, a carga tributária líquida seria nula, sem nenhum impacto sobre a economia. A partir daquele momento cada trabalhador passou a entregar metade do salário para o governo, recebendo montante equivalente sob a forma de transferências governamentais. Parecia um arranjo neutro.
No entanto, não era. Embora a renda total (salário líquido mais transferências) fosse a mesma, o custo de oportunidade do lazer caíra substancialmente. Se antes uma hora a mais de lazer significava a perda de uma hora de salário (digamos, R$ 100 por hora), sob o novo arranjo essa perda líquida era apenas de R$ 50 por hora. Dado isso, as pessoas fizeram o que normalmente fazem, ou seja, demandaram mais o que ficou mais barato (o lazer) e menos o que ficou mais caro (o consumo). Assim, passaram a trabalhar menos e, portanto, a produzir menos.
Poderia parecer irracional. Afinal, trabalhando menos, também a receita cairia, reduzindo as transferências. Cada indivíduo, porém, via a transferência como algo independente de seu esforço pessoal. Mesmo que houvesse a compreensão de que, do ponto de vista agregado, a redução do tempo de trabalho implicaria menores transferências, cada um tinha o incentivo para reduzir seu tempo de trabalho, na esperança de que os demais não o fizessem, pois usufruiria de mais tempo livre enquanto a transferência seria apenas marginalmente afetada por sua decisão. O resultado, mesmo com carga líquida zero, foi queda da produção, do emprego e do consumo.
Obviamente a economia brasileira é bem mais complexa do que essa fábula. Há pessoas diferentes, bens distintos e vários recursos contribuindo para a produção. Dito isso, a lógica do modelo ainda se aplica: se a tributação toma fração apreciável da renda, o estímulo à produção é reduzido, mesmo que os recursos voltem à sociedade, com efeito negativo sobre o crescimento de longo prazo.
Não se justifica, pois, a existência de uma carga tributária elevada com o argumento das transferências, dado que são os impostos brutos que reduzem os incentivos à expansão da economia. Essa tese, como tantas outras, serve apenas para defender a qualquer custo o gigantismo estatal no Brasil, ignorando os fundamentos básicos de análise econômica.
Perder vs. Deixar de ganhar

Compare esses dois cenários:
I- Alguns dias antes da crise, um consultor financeiro lhe recomenda investir todas suas economias, que somavam R$100mil à época, em ações. Seis meses depois, seu portfólio estava avaliado em R$50mil, logo você perdeu 50% de sua reserva financeira.
II- No início deste ano, um consultor financeiro lhe disse para deixar todo o seu dinheiro – R$100mil – embaixo do colchão, já que a crise estava tão forte que mesmo uma aplicação em renda fixa no banco seria arriscada. Seis meses depois, você verifica que se tivesse investido na bolsa, estaria hoje com R$150mil, logo você deixou de obter um ganho de 50% sobre seu patrimônio.
Embora o prejuízo efetivo seja idêntico em ambos os casos, sua percepção seria bem diferente se você estivesse no cenário I ou no II, não é mesmo? No primeiro caso, você provavelmente estaria querendo esganar seu consultor de investimentos; enquanto que, no segundo, suas chances de perdoá-lo (“melhor pecar por excesso de zelo do que pela falta”) seriam bastante altas. Só que isso não significa nada em termos reais, é só a percepção dos fatos, uma ilusão: nos dois casos, sua perda foi de R$50mil ou 50% do seu patrimônio. Tão simples quanto isso.
Isso tudo para falar sobre o que noticia o blog do Kanitz neste post: agora, o Paul Krugman diz que “afinal de contas, não haverá uma grande depressão como em 1929”. Por mim, tá perdoado, já que não perdi dinheiro com a crise. Mas continuar a dar crédito aos seus livros e artigos já outro problema.
Antropologia do IPhone

Essa vem direto da Época dessa semana:
A Apple anunciou orgulhosa que os consumidores já baixaram 1,5 bilhão de programas da loja on-line do iPhone, em um ano de existência. O número representa cerca de milhões em lucros para a Apple. Mas também tem outros sentidos. Analisando o perfil de programas baixados em cada país, é possível também fazer uma espécie de “antropologia do iPhone”. De farra, claro, até porque nenhum estudioso sério se dedicaria a isso, ao menos por enquanto. Diga-me o que carregas em teu iPhone e te direi quem és.
Um curioso que navegue pelas lojas da Apple em vários países com olhar atento descobrirá que, no Brasil, o número um em vendas é um programinha que faz o iPhone apitar toda vez que o motorista passar por um radar. Nos Estados Unidos, prevalecem os games, muitos com o objetivo de dominar o mundo ou atirar a esmo. O que essas escolhas dizem sobre os hábitos de cada população?
Um alienígena que estudasse a civilização brasileira por meio dos programas mais baixados na App Store nacional poderia chegar às seguintes conclusões:
1. não queremos pagar multas, mas queremos andar mais rápido que o permitido, por isso usamos um programa para burlar radares e ele está em primeiro lugar na lista;
2. estamos amedrontados com a gripe suína. Um programinha com informações sobre a doença está em alta nas preferências atuais;
3. gostamos tanto de cerveja que queremos ter uma gelada virtual no iPhone, capaz de simular um copo cheio dela;
4. somos, claro, o país do futebol. Entre os dez países analisados, o Brasil é o único que tem, nos primeiros lugares, um programa com a tabela e a colocação dos times em algum esporte. Está lá o Brasileirão 2009, entre os mais baixados.
Mas isso tudo a gente já sabe. Melhor dar uma espionada nos estrangeiros. Os franceses, por exemplo. São vaidosos. No alto da lista, como era de esperar, um guia de restaurantes e outros serviços. Mas os franceses parecem ser tão vaidosos que usam o iPhone como… espelho! Um programinha que aumenta o poder de refletir da tela do iPhone e o transforma num arremedo de espelho é muito popular. A engenhoca ainda permite que o usuário escolha a moldurinha do espelho. Claro, porque não basta ter um espelhinho, ele tem de ser chique, não? Os franceses também parecem estar sofrendo com mosquitos, no verão de lá. Entre os mais populares está um programa que emite um sinal sonoro para espantar insetos.
Quem quer que já tenha tentado andar no metrô de Paris sabe como é fácil se perder. Para piorar, os parisienses têm a fama – justificada ou não – de não ser gentis com turistas perdidos que não falam seu idioma. A vingança é saber que nem os franceses sabem andar lá, porque, se soubessem, não precisariam tanto de um programinha que mostra as estações de metrô. Você pesquisa uma rua, ele mostra onde fica a estação e como chegar lá. Parece que nem mesmo quem fala francês quer perguntar algo aos franceses.
As encomendas dos indianos na loja da Apple também guardam surpresas. Tecnologia, empregos, economia em ebulição? Nada disso. Os indianos querem sexo no iPhone. Faz sucesso por lá o Kama Sutra, em primeiro lugar, e mais um bando de programas que mostram mulheres em poses sensuais. A Apple não permite nada explícito, apenas biquininhos e olhe lá…
Faça amor, não faça a guerra, dizem os indianos. Mas os americanos não querem saber disso. Jogos de guerra, tiros em bonecas, caça, tudo isso faz o maior sucesso na loja americana. No jogo World War, o objetivo é entrar numa guerra e se tornar a nação dominante do planeta. Em Pocket God, ou Deus de bolso, outro must americano, a brincadeira é ter ainda mais poder. Você é Deus. E um Deus muito mau. Um Deus sádico. Sua diversão é fazer o povo que você domina sofrer.
O aparente amor dos americanos pela violência não reduz a admiração que eles despertam na maior nação emergente do planeta. O programa mais baixado na China é um curso de inglês para iPhone. Os outros campeões de venda chineses são indecifráveis para esse antropólogo amador, porque ele não foi capaz de fazer seu computador reconhecer e traduzir os ideogramas em que estão descritos.
As preferências de cada país:
. BRASIL

Crianças

O João Pereira Coutinho escreve na Folha de hoje “Três reflexões sobre as crianças” (abaixo reproduzidas). Eu acrescento uma quarta:
No Brasil, temos um tal de ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente que, na prática, diz que as pessoas com até 17 anos, 11 meses e 29 dias de idade são espécies de anjos. Se uma pessoa destas matar, roubar, estuprar, traficar, o máximo que lhe pode acontecer é passar alguns anos no reformatório, ao contrário de um adulto, que poderia ser condenado a até 30 anos de cadeia. Não sou especialista em psicologia forense ou algo que o valha, mas possuo uma experiência pessoal curiosa. No início dos anos 1980, estudei na Escola de Cadetes do Exército. Isso significa que, aos 15 anos de idade, o Estado me entregou um fuzil FAL 7.62mm e me deu instruções para atirar para matar em determinadas situações. Eu, particularmente, nunca atirei em ninguém, mas um colega de turma, que estava de serviço numa noite em que arruaceiros invadiram a área da escola, chegou a atirar no carro dos invasores. Não matou ninguém por sorte (ou azar, depende do prisma).
Naquela época, um aluno da Escola de Cadetes de 15 anos era tido pelo Estado como maduro o suficiente para portar e usar armas de fogo , e eventualmente ser punido pelos seus excessos. Hoje, um marmanjão de 17,99 anos é julgado como uma criancinha de colo se matar alguém. Tem lógica isso?
Três reflexões sobre as crianças
1 Existem adultos que sentem atração problemática por crianças. Pedófilos, eis o termo. Pessoalmente, a minha tara é a inversa. Eu sinto medo delas. Vejo uma criança por perto e sinto um impulso imediato de saltar pela janela. Não sei se existe termo clínico apropriado para descrever a minha condição. Pedofobia serve?
Se não serve, desconfio que vai servir em breve. Sobretudo se o governo de Gordon Brown, no Reino Unido, não repensar a sua última insanidade.
A questão é a seguinte: a pedofilia existe no país em números alarmantes? Então a solução que o governo trabalhista arranjou foi obrigar todos os adultos que trabalham com crianças a passar por exame criminal prévio. Professores, técnicos de saúde e até escritores de literatura infantil que regularmente visitam escolas terão de pagar 64 libras para serem checados com precisão policial. Uma vez aprovados pelo Big Brother da pedofilia, terão direito a documento onde será expressamente declarado que eles não sonham com a Shirley Temple.
Uma inovação, sem dúvida. A “presunção de inocência”, figura jurídica que estrutura os Estados de Direito ocidentais, determina que todos os indivíduos são inocentes, até prova em contrário.
O Reino Unido, pátria imortal das liberdades individuais, pretende reverter o princípio. Todos serão pedófilos, até prova em contrário. Eu avisei. Saltar pela janela é a solução.
2. Testes de paternidade para uso doméstico? Precisamente. Cientistas norte-americanos desenvolveram teste fácil e indolor que permite a pais ou maridos desconfiados saber se o filho, ou alegado filho, é mesmo deles. O teste é feito com saliva (do “pai” e do “filho”). Depois, é só enviar a amostra para o laboratório e esperar pelo resultado.
Contam os cientistas que, nos Estados Unidos, metade dos testes dão resultado fatal. Na Europa, espera-se agora que o cenário não seja muito diferente.
O caso é curioso do ponto de vista estritamente filosófico. A civilização ocidental assenta na velha crença platônica de que só o conhecimento verdadeiro traz felicidade duradoura. “Conhece-te a ti próprio”; “só uma vida examinada vale a pena ser vivida”; “penso, logo existo” -seria possível construir uma história da filosofia com máximas e provérbios que sublinham a mesma tese: sabedoria é virtude; virtude é felicidade.
Nunca comprei essa simplória versão das coisas. Prefiro acreditar, como dizia um velho professor inglês, que o fato de descobrirmos a verdade não implica necessariamente que a verdade será interessante. Basta olhar para nossas privadíssimas existências: uma pessoa que sabe padecer de câncer será necessariamente mais feliz por isso?
Arrisco nova tese: a mentira é, muitas vezes, um mecanismo insubstituível de sobrevivência. Curiosamente, Jeremy Campbell escreveu um livro notável sobre o assunto, uns anos atrás: “The Liar’s Tale: a History of Falsehood”. Recomendo. Mas divago.
Por isso imagino as consequências imediatas desses testes de paternidade na Europa: milhares de famílias que viviam as suas vidas protegidas pelo doce manto da ignorância; milhares de famílias que, no curto prazo, serão simplesmente desfeitas pela luz radiosa da verdade. Valerá a pena?
3. Uma amiga tenciona abrir restaurante em Lisboa. Espaço para fumantes, onde animais ou crianças não entram. As autoridades públicas autorizam a exclusividade para fumantes e concordam com a interdição de animais. Mas, estranhamente, dizem que a proibição de crianças é ilegal e até inconstitucional.
Nunca tinha pensado sobre o tema, exceto quando janto fora de casa e existe uma criança no espaço a berrar, a correr por entre as mesas ou a importunar os presentes. De preferência sob o olhar compassivo e maravilhado dos progenitores.
Por vezes, lavro um tímido protesto aos ouvidos do garçom. O garçom comunica o meu desagrado aos ouvidos dos pais. Os pais esquecem os meus ouvidos e verbalizam insultos como se eu fosse obrigado a partilhar o amor parental deles. Por pouco não me pedem para eu adotar a família inteira.
Um restaurante só para adultos resolveria a situação de forma democrática: as regras seriam conhecidas e a clientela que decidisse. Quem quisesse um restaurante, que viesse ao restaurante. Quem quisesse um parque infantil, que fosse a outro restaurante.
Infelizmente, o meu país não respeita os seus proprietários. E não respeita o direito deles de escolher o seu tipo de clientela. Para início de conversa, haverá coisa mais ilegal e até inconstitucional?
O irresistível charme das orientais

De acordo com o artigo abaixo, da Sylvie Kauffmann para o Le Monde, as orientais atraem muito mais os ocidentais do que o contrário por questões meramente culturais. Eu concordo parcialmente. Acredito que também existam questões ligadas à neotenia (pele delicada, cabelos muito finos, etc.) que também sejam responsáveis pela beleza feminina das orientais. Pelo mesmo motivo, os orientais não fazem tanto sucesso entre as ocidentais (e nem entre as próprias orientais, como o artigo aponta).
…Ou seria uma confirmação do conhecido esterótipo sobre os japoneses tão difundido no Brasil?
Por que as mulheres orientais atraem mais os ocidentais do que o contrário?
Para o ignorante vindo do Ocidente, o Oriente encerra mistérios insondáveis. Na família Polo, Nicolau, Matteo e Marco gastaram muita energia tentando desvendá-los, mas, sete séculos depois, a Ásia, em muitos sentidos, continua fascinando os aventureiros da globalização.
Um dos enigmas mais preocupantes, na verdade, inquieta mais às ignorantes do que aos ignorantes: por que, na época do grande caldeirão de raças mundial, os casais mistos ocidental-asiáticos se formam apenas em um sentido? Dito de outra forma, por que os homens vindos do Ocidente se sentem tão irresistivelmente atraídos pelas mulheres da Ásia, enquanto os asiáticos e as ocidentais não se juntam?
A questão é séria, principalmente para os batalhões cada vez maiores de jovens mulheres que vão viver lá, não mais de braços dados com seus maridos, como na época das colônicas, mas sim armadas de diplomas, e atraídas, tanto quanto seus colegas masculinos, pelo dinamismo das economias emergentes. Apesar de o aspecto econômico costumar cumprir suas promessas, pelo lado amoroso, entretanto, uma grande decepção as espera. Nesse sentido não surge nada além da perspectiva de inumeráveis “noites entre amigas”.
O que acontece é que seus amigos ocidentais são tão solicitados que já não têm tempo para elas. “É muito simples”, resume uma alta executiva francesa de 35 anos de idade e solteira. “Os chineses nem me dirigem o olhar, e os ocidentais não têm olhos a não ser para as chinesas… ou para os chineses, se forem gays.”
O escritor e jornalista norte-americano Richard Bernstein se interessou por este fenômeno, com mais profundidade, e escreveu um livro que acabou de ser publicado em Nova York com o título “O Leste, o Oeste e o sexo”. Nele, Bernstein descreve a atração erótica exercita pelo Oriente sobre os conquistadores vindos do Ocidente, desde a fascinação exercida pelo harém otomano até o sórdido turismo sexual da Tailândia e do Camboja. A busca sexual da Europa no Oriente, escreve, é “um aspecto do dinamismo ocidental, do espírito de aventura europeu, comparado com a relativa passividade dos asiáticos. O Ocidente é animado por um vivo desejo de conhecer o Oriente, enquanto o Oriente tem muito pouco interesse no Ocidente”. Para o ocidental que vai para a Ásia, acrescenta, “a relação com uma oriental faz parte da aventura”.
Ele mesmo ri ao recordar sua chegada a Hong Kong, como um jovem jornalista, onde um amigo lhe propôs conhecer uma mulher chamada Diana Li. Sentado à mesa do Clube de Correspondentes Estrangeiros no dia combinado, ele esperava com impaciência sua primeira conhecida chinesa, quando escutou alguém dizer: “Você é Richard? Eu sou Diana Lee”.
“Não pude esconder minha decepção”, confessa o jornalista. “Ela era loira e de olhos azuis”. Muitos anos depois, Richard se consolou casando-se com uma verdadeira chinesa.
Isso não resolve o problema de Diana Lee e de todas as loiras estrangeiras que vivem na Ásia. Não tenhamos medo de generalizar: aos olhos dos asiáticos, as ocidentais são inquietantes incendiárias, muito grandes e com muita carne, obcecadas por seu aspecto físico e pelos exercícios de Pilates, educadas numa atmosfera perigosa de igualdade entre os sexos. Poderíamos citar, como um anti-exemplo, Marguerite Duras e seu “Amante” da Indochina, mas isso aconteceu há muito tempo e ela tinha 15 anos. A ópera, a literatura e o cinema popularizaram “Madame Butterfly”, “Miss Saigon”, “Shogun” e as gueixas. O estereótipo da mulher asiática submissa à vida dura “é um fantasma desgastado, sem dúvida, mas mesmo assim incrivelmente influente”, observa Sheridan Prasso, autor de “A mística asiática”, obra lançada em 2006.
Essa vida é tão dura que as mulheres asiáticas não vacilam ao entrar no jogo, se for preciso, para bajular o ocidental crédulo. Na gíria das ruas de Xangai, relata Bernstein, o estrangeiro é chamado de “passagem de avião”, enquanto que na Tailândia é conhecido como “caixa automático”.
Há outra explicação possível. “Os homens asiáticos já têm medo das mulheres asiáticas; como poderão se sentir atraídos pelas norte-americanas?”, ironiza um intelectual chinês. A indiferença dos homens da Ásia pelas mulheres do Ocidente, portanto, é um problema cultural: o macho, tanto oriental como ocidental, detesta ter a impressão de ser dominado, sobretudo se a mulher é da mesma cultura que a sua. Em Cingapura, por exemplo, cada vez há menos casamentos entre cingapurianos. Os homens acham as mulheres de seu país muito diplomadas, muito exigentes, muito sofisticadas, e preferem as vietnamitas e as nativas da China continental.
A brecha não se abre apenas em Cingapura. Anita Jain, nascida nos Estados Unidos, para onde seus pais emigraram desde a Índia, formada em Harvard, relata num livro hilariante, “O casamento de Anita”, que foi morar em Nova Déli para procurar o marido que, desesperada, não encontrava em Nova York. E que até hoje continua procurando.
Post-scriptum
O país da moda, nesse momento, é a Indonésia. Não só o arquipélago, primeira economia do sudeste asiático, resiste notavelmente à crise mundial; não só sua tradição de um Islã aberto e tolerante resiste notavelmente às pressões fundamentalistas; não só 18% dos deputados são mulheres; mas também a eleição presidencial que se desenrolou em 8 de julho reconduziu ao poder, segundo os resultados oficiais, o presidente reformista Susilo Bambang Yudhoyono e consolidou essa jovem democracia de 248 milhões de habitantes. Há, portanto, lugares onde as coisas funcionam.
O inferno dos caloteiros

Na Rússia, estão recorrendo aos padres para cobrar dívidas! Leia a reportagem abaixo, de Marie Jégo para o Le Monde, e entenda como isso funciona.
Oficiais de Justiça na Rússia descobrem um jeito de combater os maus pagadores
Como combater os maus pagadores? A Federação Russa dos Oficiais de Justiça conta com a Igreja. Fim das famílias endividadas, dos motoristas desobedientes, das pessoas relutantes em pagar pensão alimentar. Eles serão “repreendidos” e “culpados” por padres ortodoxos, transformados em auxiliares dos oficiais de justiça. (mais…)
Beleza feminina, contexto masculino

A pesquisa relatada nesta matéria do UOL Ciência & Saúde revela o que o senso comum há muito já sabe: os homens gostam de mulheres bonitas e ponto; já as mulheres gostam de… bem…, de “uma imagem masculina que esteja num contexto que lhes estimule”. Por mais que as Susanas Vieiras da vida esperneiem alegando o contrário, o fato é que as mulheres não elegem os homens mais atraentes pelos mesmos critérios que os homens.
Mas interessante mesmo é ler os comentários sobre a matéria, com pérolas do tipo
Inconcientemente o homem cria o estereotipo, baseado no que a midia impõe como sendo o mais bonito, evidentemente as melhores mulheres são aquelas fora desse padrão, descompromissadas com esse tipo de atrelamento, e, é claro, são as mais gostosas e sempre teem um ótimo papo depois da transa. (Oswaldo Cibella – Campina Grande-PB)
Idéia* genial!!!
*[Antes que me corrijam: eu sei que idéia perdeu o acento. Mas acho horrível escrever ideia; então, até 2012 (pelo menos), sigo com minhas idéias e vôos]

De acordo com essa matéria do G1, já é possível “imprimir” imagens de ultrassom em 3D de fetos. Em outras palavras: dá para fabricar bonequinhos do nenê que está na barriga da mãe. Alguma dúvida de que isso vai virar febre entre futuros papais e mamães tão cedo a tecnologia esteja disponível à população em geral? Atenção vendedores de Ferrari e corretores de imóveis de Búzios, anotem esse nome: Jorge Roberto Lopes dos Santos (esse é o sujeito que está à frente do projeto).
Altruísmo recíproco & corrupção
Melhor que escrever sobre o mecanismo de altruísmo recíproco humano e seu relacionamento com esquemas de corrupção é publicar esta charge que encontrei no blog do Fernando Stickel, o Aqui tem coisa:

Ele, o elo

Encontrou-se o elo perdido entre homens e macacos. Pelo menos é o que diz a Folha, em reportagem do The Independent.
Novo fóssil pode ganhar título de elo perdido de primatas
Espécime achado em Mianmar é mais próximo de humanos do que “rival” achado na Alemanha
Um fóssil apresentado ontem por cientistas americanos pode destronar o atual animal considerado o elo perdido entre humanos e macacos. Batizado de Ganlea megacanina, o novo espécime é descrito em um estudo de pesquisadores do Museu Carnegie de História Natural, de Pittsburgh (EUA).
Com 38 milhões de anos, o primata -achado em Mianmar, no Sudeste Asiático- está mais próximo do que se imaginaria de um ancestral comum recente entre homens e macacos, dizem os pesquisadores.
O fóssil que clamava o título de elo perdido até agora era o de Ida, um primata de 47 milhões de anos de idade extremamente bem preservado, mas sem tantas semelhanças com os macacos ou com espécies mais próximas dos humanos.
Segundo o paleontólogo Chris Beard, do Museu Carnegie, apesar de o fóssil do Ganlea não estar completo, é possível afirmar que ele é um candidato mais forte ao posto de elo perdido. Em um estudo na revista científica “Proceedings of the Royal Society”, Beard e seus colegas defendem sua posição com base numa análise dos dentes do animal e de um fragmento de sua mandíbula -tudo aquilo que restou do Ganlea.
Segundo Beard, o fóssil achado em Mianmar guarda mais semelhança com os chamados primatas antropoides (homens e macacos), enquanto Ida, achado na Alemanha, está um pouco mais próxima dos lêmures -primatas mais distantes dos humanos evolutivamente, com arcada dentária diferente.
“Pelo que podemos ver, Ganlea não só é um antropoide, como é um antropoide bastante avançado, o que não se pode dizer de Ida”, afirma o cientista.

