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A maldição da abundância

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 28 junho, 2010

Para quem acha que o petróleo encontrado no tal do “pré-sal” é a salvação da lavoura no Brasil, vale a pena ler o artigo abaixo, do NY Times publicado na Folha de hoje:

Maldição da abundância ronda o Afeganistão

Pequenas nações sempre saquearam recursos das grandes

DONALD G. McNEIL Jr.

ENSAIO

Suponhamos que haja US$ 1 trilhão em minerais sob o solo afegão, como disseram autoridades americanas e um memorando confidencial do Pentágono no mês passado. Será que isso é bom?

Alguns especialistas em mineração e em política de gestão de recursos do Terceiro Mundo argumentam que não.

Como uma mina leva até 20 anos para começar a dar lucros, e o Afeganistão é um campo de batalha há 31 anos, “nenhuma empresa mineradora em sã consciência iria para o Afeganistão agora”, disse Murray Hitzman, professor de geologia econômica na Escola de Minas do Colorado (EUA).

O tesouro subterrâneo do país “será bom para os senhores da guerra e bom para a China, mas não será bom para os afegãos ou os EUA”, previu Michael Klare, professor de estudos da paz e da segurança mundial no Hampshire College, de Massachusetts.

A história tende a corroborar tal ceticismo. Os grandes impérios do mundo foram construídos graças a minas de ouro, e não em cima delas. Foram as pequenas nações mercantilistas, com seus sistemas políticos coesos e suas Marinhas ferozes, que saquearam as grandes nações feudais ladrilhadas com rubis.

Os áridos reinos da Espanha e de Portugal sugaram o ouro da América do Sul; a pequenina Holanda dominou a vasta Indonésia.

O Reino Unido, desprovido de tudo exceto de carvão, construiu um entreposto imperial de grãos, madeira, algodão, chá, tabaco, ópio, pedras preciosas, prata e escravos. O Japão, menos de um século após deixar a sua era das armaduras de bambu, conquistou grande parte da China por causa do seu ferro e carvão.

E a era pós-colonial também está cheia de exemplos.

“Os países com um histórico de conflito têm efeitos perversos a partir da riqueza mineral -mais guerra, mais corrupção, menos democracia e mais desigualdade”, disse Terry Lynn Karl, professora de ciência política da Universidade Stanford, na Califórnia, e autora de “The Paradox of Plenty” (O paradoxo da abundância).

Segundo os geólogos, há muito se sabe que o Afeganistão tem enormes depósitos de cobre, ferro, ouro, cobalto e outros minerais, inclusive o lítio, vital para as baterias modernas. Um memorando interno do Pentágono sugeriu que o Afeganistão poderia se tornar “a Arábia Saudita do lítio”.

Mas alguns especialistas sugerem que a Arábia Saudita não é o melhor exemplo do que a riqueza repentina faz num país pobre. O reino e os emirados vizinhos têm populações pequenas, governadas por famílias poderosas e coesas. E a península Arábica é plana, aberta e fácil de policiar numa crise, como provou a guerra para expulsar Saddam Hussein do Kuait.

O Afeganistão, disse Klare, é mais como o leste do Congo: uma terra de diamantes e coltan -outro elemento vital na indústria eletrônica. Ambos estão cheios de tribos em guerra, populações analfabetas, governos corruptos e brutais senhores da guerra. E ambos são acidentados e remotos.

Por mais rico que seja o leste do Congo, sua população há 15 anos padece de doenças, fome e massacres nas mãos de milícias locais e invasores de Ruanda, Angola e Zimbábue.

No Afeganistão, talvez nem por US$ 1 trilhão valha a pena escavar, segundo alguns especialistas.

Em comparação com a prospecção de petróleo, a exploração de minérios é extraordinariamente cara e demorada. Ouro, prata, cobre e outros minerais costumam ficar encerrados em rochas que precisam ser acessadas por túneis, dinamitadas às toneladas, levadas à superfície e moídas para o processamento.

Escavar galerias e construir elevadores, usinas de processamento, ferrovias e estradas asfaltadas “pode custar de centenas de milhões a bilhões para uma única operação de mineração”, disse Roderick Eggert, diretor da Escola de Minas do Colorado. “Mesmo uma mina de ouro pequena sai por US$ 100 milhões.”

Além disso, alguém tem de prestar segurança, e 20 anos de segurança pelos militares dos EUA custariam centenas de bilhões de dólares.

Reino Unido, Holanda, Espanha, Portugal e Japão já descobriram que os custos de policiar impérios superam os lucros financeiros, e que é mais prático permitir que empresas privadas arquem com os riscos. Os preços dos minérios variam muito, e o US$ 1 trilhão de hoje pode em breve ser bem menos.

E, segundo especialistas, embora o Afeganistão de fato tenha reservas de lítio, muitos outros países também as têm, inclusive os EUA. Se vale a pena explorá-lo depende do preço do lítio.

Recentemente, a Coreia do Sul anunciou que irá construir uma usina para extraí-lo da água do mar, o que, se os preços mundiais subirem, significará uma capacidade bem superior às necessidades coreanas.

O que poderia deixar o Afeganistão como a Arábia Saudita da areia.

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