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O verdadeiro problema da escravidão

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 8 abril, 2010

O Elio Gaspari, colunista da Folha, tem por hábito escrever textos que emulam uma certa psicografia cibernética, digamos assim. O texto simula um e-mail enviado por alguém do além – por exemplo: “De juscelino@gov para raul@com”, se fosse uma mensagem do ex-presidente JK para mim. Ontem, o título foi “De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov”, simulando o que o ex-escravo do século XIX Cazemiro teria a dizer para o senador Demóstenes Torres, aquele que disse sobre a escravidão brasileira que “lamentavelmente, não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos, mas chegaram…”. O texto é uma esculhambação do senador e seu ponto de vista sobre a origem dos escravos no Brasil. Assinantes da Folha têm acesso ao texto integral aqui.

O que o senador quis dizer é que a ORIGEM da escravidão estava na África, uma vez que os escravos que aqui chegaram já estavam escravizados na localidade original, pelos mais variados motivos: prisioneiros de guerra, endividados, etc. Gaspari, por sua vez, argumenta que, como os navios negreiros não eram africanos, não haveria escravos no Brasil não fossem os traficantes portugueses, ingleses e, após 1822, brasileiros. Vejamos, então, a coisa pelo ponto de vista que interessa: o do escravo.

Imagine-se um cidadão africano do século XVII da tribo X, que é capturado pela tribo Y, rival. Seu destino provável será o de a)acabar morto pelos seus inimigos; ou b)passar o resto dos seus poucos dias como escravo dos vitoriosos (escravidão, neste caso, mais parecida com a imposta aos judeus pelos nazistas do que a dos negros do Brasil colonial). Nesta situação, se você fosse vendido para um traficante português, suas chances de sobrevivência aumentariam, mesmo sendo forçado a atravessar o Atlântico num porão fétido, e mesmo subjugado por feitores sádicos. Então, para você, quem é o vilão da história, os seus inimigos africanos ou os traficantes europeus?

===>Atualização de 12/04 – Publicado0 na Folha de hoje, de autoria do senador Demóstenes Torres:

De Washington@edu para Gaspari@jor

Um negro rico tem mais direito a cota que um branco pobre? Ou o Brasil quer institucionalizar em 2010 o racismo americano de 1910?

ILUSTRE jornalista Elio Gaspari, Quem lhe responde é Booker T. Washington, ex-escravo. Faço-o porque li que o senhor, uma estrela da comunicação, sustenta pela segunda vez em artigos que o senador Demóstenes Torres tentou explicar a escravidão atribuindo-a aos negros.

A teoria negacionista não é dele, que nem sequer a advoga. Nem os alunos de Madame Natasha ou os colegas de Eremildo interpretariam assim os discursos, entrevistas e textos de Demóstenes.

O combate do senador é pela educação, que começa na escola em tempo integral e permeia as demais fases do ensino, para que não se necessite de cotas, nem as raciais, que ele considera racistas, nem as sociais, que defende por beneficiarem os pobres de qualquer cor. Esse item, educação, nos aproxima.

Vou lhe contar meu caso. Passei da servidão a reitor de universidade não por graça, mas por obra. Acreditei na educação não para o sucesso de uma raça, mas para ascensão das pessoas e desenvolvimento de uma nação.

Discordo do senador, pois creio em raças, e ele diz que não existem. A seu favor, ele tem a tecnologia, que avançou e descobriu que a diferença genética entre negros e brancos é nula. Um setor em que parece não ter havido avanços é o da ideologia, que continua ofuscando até mentes brilhantes.

Na virada do século 19 para o 20, eu era tido como conciliador, por querer a emancipação dos negros por meio da educação. O mesmo debate chega ao século 21, com os mesmos argumentos, os mesmos equívocos.

Se Cazemiro e Baquaqua, citados em sua carta, deixaram descendentes, não se surpreenda se houver louros de olhos azuis. O Brasil é muito diferente dos Estados Unidos em que vivi.

Um país miscigenado como esse não merece ser tratado como bicolor. A tese do senador é que as cotas, motivo das discussões acerca de frases ditas por ele ou inventadas para ele, devem ser temporárias e, sendo sociais, são também raciais, pois servem a todas as raças. Por que a cota racial tem de ser só para uma cor?

Um negro rico tem mais direito a cota que um branco pobre? Ou o Brasil quer institucionalizar em 2010 o racismo dos EUA de 1910? Aí há racismo, mas incomparável com o daqui. O ciclo nocivo que faz um país precisar de reserva em universidades públicas começa no ensino fundamental ruim, quando aí deveria estar o início da construção do mérito. No médio, uns pais se sacrificam e põem os filhos em colégios particulares, outros já são tão sacrificados que a renda da família é menor que a mensalidade.

Daí a competição ser desigual. Por isso o senador quer prazo de 12 anos para que o aluno que entrar hoje na escola em tempo integral termine o ensino médio em condição de disputar vaga com o do colégio privado.

Em nenhum lugar, com nenhuma palavra, o senador negou o horror da escravidão ou as monstruosidades dos senhores e das leis com os cativos.

Não ajuda em nada as ações afirmativas entortar suas palavras, interpretá-las para colar no senador a pecha de que é racista, vitaminar militantes para hostilizá-lo.

Se valesse aí a nossa regra aqui, a de que basta uma gota de sangue para ser negro, o senador seria um dos nossos, pois é filho de mulata.

Mas não é essa a discussão que interessa. O tema tem de ser a qualidade da educação, a situação de cada prédio e do transporte escolar, o valor nutricional da merenda, além de salário, preparo e condições de trabalho dos professores.

Desviar o assunto das cotas para buscar o iniciador do tráfico de pessoas é uma forma de esquecer que o Brasil continua atrasado em educação, talvez com média insuficiente para entrar na instituição que dirigi, o Instituto Normal e Industrial Tuskegee, no Alabama.

Outro dia eu encontrei o Gilberto Freyre e lhe disse não entender o fato de ter sido proscrito. Fazia tempo que eu queria perguntar-lhe por que os racialistas repelem tão correto e talentoso pesquisador. Ele deu a entender que queriam que “Casa Grande & Senzala” fosse um panfleto grande, e não um grande livro.

Gaspari, a escravidão foi brasileira, assim como é brasileira uma certa dificuldade de entender que quem mais grita por cota é quem menos defende o mérito. É possível vencer com esforço, estudo e oportunidade. Eu que o diga.

Com todo respeito,

Washington.

P.S.: Há um pouco sobre Booker T. Washington em “Uma Gota de Sangue”, de Demétrio Magnoli (Contexto). Que Deus nos livre da pressa que estão impondo para institucionalizar o racismo no Brasil.

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