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Parente abortista

Posted in Atualidades, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 22 março, 2010

De acordo com matéria publicada hoje na Folha, meu primo Cavalo Marinho, tão popular na família pela sua abnegação parental, é na realidade um abortista disfarçado. É o que diz a matéria abaixo, do Reinaldo José Lopes. (Tenho informações de que o tio Leão está estudando entrar com representação contra o jornal, que manchou a reputação da prestigiada família Marinho).

Cavalo-marinho macho controla aborto

Peixe do sexo masculino carrega ovos em bolsa no ventre, mas pode retirar nutrientes dos filhotes em vez de nutri-los

Mecanismo garantiria que apenas prole mais saudável fosse parida; achado revela conflito de interesse entre sexos ditos “cooperativos”

Parecia um caso raro e reconfortante de feminismo no reino animal: o macho que ficava “grávido”, tirando esse peso dos ombros da fêmea. Mas pesquisadores nos EUA acabam de demonstrar que o suposto altruísmo dos cavalos-marinhos do sexo masculino é acompanhado pela manipulação e pelo aborto seletivo dos embriões que eles carregam na barriga.

“O que antes era visto como uma parceria igualitária entre machos e fêmeas, ambos investindo pesado em seus filhotes, tomou as feições de um conflito sexual oculto”, resume Anders Berglund, do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Uppsala (Suécia), que comentou a descoberta para a revista científica “Nature”.

As revelações sobre a verdadeira face da gravidez nesses peixes foram publicadas na mesma edição da “Nature” por dois cientistas da Universidade A&M do Texas, Kimberly Paczolt e Adam Jones. A dupla estudou um tipo esguio de cavalo-marinho, a espécie Syngnathus scovelli, ou peixe-cachimbo. A suspeita de que algo não muito agradável estaria ocorrendo em algumas gestações veio da constatação de que o papai grávido tanto pode enviar nutrientes para os embriões quanto sugar substâncias dos filhotes, o que poderia lhes fazer mal.

Em laboratório, os cientistas manipularam os acasalamentos da espécie. Na natureza, cada macho recebe os ovos de apenas uma fêmea por gestação, embora cada fêmea possa “engravidar” vários machos. Já nos aquários da universidade, tanto machos quanto fêmeas ficavam com apenas um parceiro. A gravidez era monitorada e havia uma rodada seguinte, na qual havia uma nova gestação.

Os pesquisadores verificaram, primeiro, que as ninhadas maiores e mais saudáveis vinham quando os machos se acasalavam com fêmeas grandes e de boa saúde. Viram também que, quando o macho se unia a uma dessas fêmeas de “alta qualidade” e depois tinha de se acasalar com uma menorzinha, acabavam nascendo muito menos filhotes da união.

Ao que parece, afirmam eles, os “grávidos” usam mecanismos de aborto seletivo para eliminar ou absorver os ovos pouco viáveis e garantir o maior número possível de filhotes de alto nível.

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Evolução leva pais e filhos a duelo frequente

A estranha situação dos cavalos-marinhos não passa de uma imagem invertida do que se vê entre espécies mais “normais”, nas quais a fêmea é que paga a maior parte dos custos da reprodução. De um jeito ou de outro, a evolução sempre propicia inúmeras oportunidades para conflitos de interesse entre os pais -ou entre os pais e a prole.

Em geral, um dos sexos faz um investimento de tempo e energia muito maior que o do outro no futuro dos bebês, seja produzindo óvulos (muito mais “caros” para o organismo do que espermatozoides), seja dando ao embrião semanas ou até meses de proteção e muitos nutrientes durante a gravidez.

A contrapartida disso é o “direito” de escolher os parceiros de qualidade mais elevada, que competem entre si pelo acesso ao sexo que cuida da prole. Na maioria das espécies, são os machos que competem pelas fêmeas, mas entre os cavalos-marinhos isso se inverte, por razões óbvias. Esse fenômeno também acontece entre certas aves.

O aborto seletivo de filhotes indesejados, em especial se eles forem considerados de qualidade baixa, também já foi detectado em mamíferos. Entre os ratões-do-banhado, roedores semiaquáticos do Brasil, as fêmeas de baixa posição social tendem a abortar fetos do sexo masculino, porque esses machos também terão baixo status no bando e, por isso, suas chances de se reproduzir serão baixas, privando a fêmea de descendentes futuros.

A mesma lógica explica o fato de que fêmeas de chimpanzé com status dominante investem mais em seus bebês machos, desmamando-os vários anos depois do desmame de suas filhas.

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