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A tragédia dos gnomos

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 15 setembro, 2009

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O artigo abaixo, do João Pereira Coutinho para a Folha de hoje está imperdível. Ele trata da questão da estatura, tão complicada para os homens. Aproveito o embalo para um pequeno comentário sobre evolução humana:

É evidente que, a cada geração, a estatura média da população aumenta. Isso ocorre porque há uma forte pressão seletiva relacionada à seleção sexual: as mulheres preferem escolher parceiros mais altos, e estes acabam gerando mais filhos, frequentemente em mais de um casamento, sem contar os filhos “por fora”. Além disso, homens mais altos têm mais chances de ascensão profissional, e também é sabido que homens ricos são muito mais disputados pelas mulheres que homens pobres. Em períodos de elevada escassez de alimentos, porém, a lógica se inverte, os mecanismos de seleção natural prevalescem, e os mais baixos têm vantagens, já que precisam de menos recursos para sobreviver.

Agora, o excelente artigo do JP Coutinho:

Altos, baixos e presidentes

Podem falar sobre ser gordo, careca ou até gordo e careca; o terror do homem moderno é mesmo ser baixo

CHEGA de hipocrisia: quem sente atração por homens baixos? Uns dias atrás, nas conversas banais da vida, inquiri um auditório feminino com as três categorias básicas da masculinidade: cabelo, gordura, altura. Muito simples: confrontadas com a imperiosa necessidade de escolha, uma mulher prefere

a) um homem calvo;

b) um homem gordo;

ou

c) um homem baixo?

O auditório nem hesitou: o homem pode ser calvo; o homem pode ser gordo; no limite, o homem até pode ser calvo e gordo. Mas baixo?

“Isso é pedir demais!”, disse uma delas, que tratou de esclarecer: “Prefiro um homem calvo e gordo, porém alto, do que um homem cabeludo e magro, porém baixo”.

Não se iludam, irmãos: as revistas da especialidade podem falar do cabelo ou da gordura como terrores do homem moderno. Nenhuma delas diz a verdade: o grande terror é ser baixo. E não há loções, exercícios ou pílulas capazes de alterar o desastre. Quem nasce gnomo, morre gnomo.

Não falo em nome pessoal, entendam: sou magro (já fui mais); o cabelo ainda mora no topo da minha cabeça (já tive mais); e meus 1,80 m protegem-me do abismo (pelos padrões mediterrânicos, não nórdicos; na Suécia, sou oficialmente um anão).

Mas não conheço nenhum homem que, confrontado com a hipótese, não troque cabelo e magreza para continuar lá em cima, nas alturas. No mundo cruel em que vivemos, quem quer ser magro, cabeludo mas com o tamanho de um Nicolas Sarkozy? Precisamente: nem o próprio.

Leio o jornalista Dominic Lawson no “The Times” e encontro revelações pungentes. Para começar, o presidente Sarkozy usa tacão generoso que o eleva alguns centímetros acima do solo. Os críticos não perdoam e afirmam, em tom de sátira, que no casal presidencial francês quem usa salto alto é ele. O que não deixa de ser uma risível evidência: para Sarkozy subir, a mulher Carla Bruni tem de descer, calçando sapatos inestéticos e rasos, impróprios para uma senhora de Estado.

Sem falar de conferências de imprensa ou outras proclamações públicas, sempre proferidas por Sarkozy em cima de um estrado ou, imagino, pisando em algumas listas telefônicas empilhadas atrás do palanque.

Mas a notícia verdadeiramente irreal aconteceu na passada semana: em visita a uma fábrica, nenhum dos operários presentes fazia sombra a Nicolas. Os franceses ainda não sabem se foi exigência do Eliseu ou gentileza da administração. Desconfiam que foi gentileza da administração, que recrutou algumas dezenas de funcionários para o momento da foto que não ultrapassavam 1,65 m. A estatura de Sarkozy.

Disse “estatura”? Palavra certa. O problema de Sarkozy não é apenas psicológico, embora seja enternecedor ver um estadista europeu sucumbir ao mais primitivo receio masculino. O problema é essencialmente histórico: o presidente francês acredita que sua limitada estatura física é um impedimento para qualquer estatura política relevante.

Acredita mal. Se a história ensina alguma coisa, é que não existe qualquer relação entre o tamanho do homem e o tamanho da obra. Sarkozy deveria saber disso, olhando para o país que governa.

Napoleão subjugou a Europa, coroou-se imperador e, nas horas vagas, escrevia cartas pungentes a Josefina, onde lhe implorava muitas carícias e pouco banho. Napoleão, rezam as crônicas, media 1,54 m. É pouco?

Não. É muito. Átila, o Huno, que destruiu o norte da França depois de dominar a Europa central, não passava de 1,30 m. Ainda hoje o nome “Átila” continua a aterrorizar a memória histórica do continente.

E que dizer de Pepino, “O Breve”, filho de Carlos Martel? Com 1,12 m (não é erro; é mesmo 1,12 m), Pepino foi um dos maiores heróis bélicos da França. Derrotou com bravura os saxões, os bávaros, os lombardos. E, ao conquistar o sul do país, lançou as sementes do império carolíngio. O seu filho, Carlos Magno, era igualmente coisa pequena.

Sarkozy tem a história do seu lado. E, escusado será dizer, tem Carla Bruni também. Aliás, como explicar o milagre?

As minhas amigas não veem qualquer contradição. Sim, elas podem não gostar de homens pequenos. Mas elas também lembram a frase imortal do imortal dr. Kissinger, para quem o poder era o maior dos afrodisíacos.

Que o mesmo é dizer: você, leitor, pode ser calvo, gordo e baixo à vontade. Mas é aconselhável conquistar primeiro a presidência de uma república qualquer.

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