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Restringir para estimular?

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 8 setembro, 2009

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Lendo o artigo abaixo, do Clóvis Rossi para a Folha de hoje, comecei a refletir como as coisas eram no “meu tempo” – cursei minha faculdade nos anos 1980, numa longínqua era pré-web. Naquela época, a informação só podia ser obtida por meio de livros ou “papers” (apostilas e outros escritos). Conseguir o livro na biblioteca não era fácil (como não é hoje, para os que ainda se aventuram nas selvas de estantes): é difícil de achar os títulos no kardex, é complicado encontrar os exemplares nas estantes, os melhores títulos estavam sempre emprestados, sem contar com a burocracia do empréstimo (a carteirinha tinha que ser renovada todo semestre, se houvesse algum atraso, o aluno ficava suspenso, etc.).  Xerocar “papers” era um pouco mais fácil, mas ainda assim enfrentavam-se filas enormes nos xerox que, ademais, não era barato – e a qualidade, sempre péssima, ilustrações, gráficos, etc, ficavam imprestáveis.

Hoje em dia, consegue-se praticamente qualquer texto com um clique de mouse, sem custo ou por centavos. Fotos, filmes, áudios e demais materiais multimídia estão disponíveis às toneladas. Tá sem tempo/saco de ler? Ouça um áudio-book. Quer saber só o essencial? Wikipedia. Quer se aprofundar? existem centenas de portais acadêmicos com tudo o que você precisa. Um estudante do século XXI tem acesso a muito mais informação que um dos anos 1980, não dá para comparar. Acho que é justamente este o problema.

É da natureza humana desejar o escasso. Você pode não dar a mínima para o chuchu, mas se a manchete dos jornais de amanhã estamparem uma crise de abastecimento do vegetal, é bem provável que você esteja inclinado a comê-lo na primeira oportunidade. O excesso de facilidade na obtenção e o baixo custo de aquisição podem ser os grandes responsáveis pelo desinteresse dos estudantes relatado pelo Clóvis Rossi. Não creio em “cultura do imediatismo”  ou “utilitarismo exacerbado”: essas são características presentes nos jovens de 20 anos atrás. O que mudou mesmo, dos anos 1980 para cá, foi a oferta de informação, não a cabeça do estudante. Talvez a saída seja restringir o acesso à informação como forma de estimular os estudantes de hoje.

A impunidade da ignorância

(Clóvis Rossi para a Folha de hoje)

Pelo choque que me causou, repasso ao leitor o essencial de artigo do escritor espanhol Rafael Argullol para “El País”.

Começa relatando que alguns dos melhores professores universitários espanhóis estão se aposentando “precipitadamente”. Cita dois motivos: “o desinteresse intelectual dos estudantes e a progressiva asfixia burocrática da vida universitária”.

Explico o sentimento de choque: não sei se a situação ocorre também no Brasil, mas sei que o caldo de cultura descrito por Argullol é parecido no Brasil (como, aliás, no resto do mundo).

Os professores, escreve Argullol, “se sentem mais ofendidos pelo desinteresse [dos estudantes] do que pela ignorância”. Acrescenta que um amigo lhe disse que “os estudantes universitários eram o grupo com menos interesse cultural da nossa sociedade, e isso explicava que não lessem a imprensa escrita, a não ser que fosse de graça, que não buscassem livros fora das bibliografias obrigatórias, ou que não assistissem a conferências se não fossem premiados com créditos úteis para serem aprovados”.

É o triunfo do que o escritor chama de “utilitarismo”. Os estudantes são adestrados na “impunidade ante a ignorância”, porque o conhecimento é um “caminho longo e complexo” e perde para o imediatismo da posse instantânea.

Não tenho informações para afirmar se essa situação ocorre também no Brasil. É evidente, em todo o caso, que há ou houve recentemente uma discussão sobre a asfixia burocrática.

Gilberto Dimenstein já comentou, tempos atrás, o fato de que professores de universidades públicas estavam se aposentando cedo e passando ao ensino privado.

O utilitarismo e o predomínio do individual são características contemporâneas globais. Estamos nós também cevando “a impunidade ante a ignorância”?

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Uma resposta

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  1. […] semana passada, comentei um artigo do Clóvis Rossi neste post, sobre a mediocridade acadêmica (não só brasileira, a propósito) que, hoje, o Luís Felipe […]


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