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Bom selvagem? Tá de sacanagem…

Posted in Uncategorized by Raul Marinho on 19 maio, 2009

chefe seattle

Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, com é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das arvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

O texto acima é o parágrafo inicial do que ficou conhecido como “A carta do chefe Seattle“. Para se ter uma idéia de sua popularidade, clique aqui e veja a quantidade de links sobre a carta no Google – hoje, passa de 104milhões, só em português. Essa carta, onipresente nos textos ambientalistóides, é a reencarnação do conceito do bom selvagem, tão caro às esquerdas. O problema é que, a cada milímetro que se avança no entendimento dos povos “primitivos”, percebe-se que o bom selvagem é tão verdadeiro quanto o Saci Pererê e a Mula Sem Cabeça. A propósito, a tal carta do chefe Seattle foi redigida para um programa de TV estadunidense nos anos 1970,  e o chefe Seattle era um vendido aos brancos e proprietário de escravos.

Tudo isso para introduzir duas reportagens publicadas na Folha de hoje (a primeira do Cláudio Ângelo, e a segunda da própria redação), sobre a poluição gerada pelos povos pré-colombianos no Peru:

Índio poluía o ar há 3.500 anos no Peru

Estudo detectou concentrações de mercúrio até 30 vezes mais altas que o natural em antiga zona de mineração indígena

Contaminação foi causada pela mineração de cinábrio, usado pelos incas e por seus antecessores para fabricar tinta vermelha, diz cientista

Além de terem desenvolvido a agricultura irrigada, a astronomia e a construção de pirâmides, as primeiras civilizações sul-americanas também inventaram algo menos glorioso: a poluição por metais pesados. Há 3.500 anos, no Peru, elas já contaminavam o ar com mercúrio, produto da mineração.

Um estudo realizado por pesquisadores do Canadá, dos EUA e da Alemanha descobriu evidências “incontroversas” de poluição atmosférica por mercúrio milênios antes da conquista espanhola. O metal está acumulado nos sedimentos de três lagos na região de Huancavelica, que abriga a maior jazida de mercúrio das Américas.

Extraindo colunas de sedimento do fundo desses lagos e datando-as, o grupo liderado por Colin Cooke, da Universidade de Alberta, descobriu que a contaminação começou em 1400 a.C. e atingiu valores máximos em 500 a.C. e 1450 d.C.

Estas últimas datas correspondem, respectivamente, ao apogeu da cultura Chavín -considerada o primeiro Estado sul-americano- e da inca.

Essas civilizações exploravam a região de Huancavelica em busca de cinábrio (HgS), um mineral composto de mercúrio e enxofre.

O cinábrio é moído para a produção de vermelhão, corante que compõe as tinhas vermelhas vivas que culturas como a Chavín, a mochica e a inca usavam como pintura corporal ou para cobrir objetos de ouro.

O mercúrio é altamente tóxico, e exposição a seus compostos causa problemas sérios ao sistema nervoso, aos rins e ao sistema endócrino. Os maias usavam pedras de cinábrio em seus sarcófagos, entre outras coisas, para evitar que eles fossem saqueados.

A produção local de vermelhão foi a primeira fonte de poluição por mercúrio em Huancavelica. O pó de cinábrio, emitido na extração e na moagem do minério, fez a concentração de mercúrio nos sedimentos saltar pela primeira vez acima do nível natural. De 7 microgramas por metro quadrado ao ano ela vai para até 28 microgramas por metro quadrado.

Com o estabelecimento da cultura Chavín, o uso de mercúrio -e a contaminação- cresceu exponencialmente. O nível do metal nos sedimentos se multiplicou por dez em relação à quantidade natural.

A partir daí, a poluição começa a declinar novamente, para explodir a partir do ano 1400, com a chegada do império inca às minas de cinábrio.

Os incas também trouxeram uma inovação tecnológica que deve ter causado problemas sérios aos habitantes de Huancavelica: “O tipo de poluição mudou de pó de minério para mercúrio elementar gasoso”, disse Cooke à Folha. O aquecimento do minério separa o enxofre do mercúrio, produzindo o metal prateado. Foram os vapores letais desse elemento que se espalharam pelo ar na região. Nos sedimentos de idade pós-incaica analisados pelo grupo de Cooke, o mercúrio aparece em concentrações 30 vezes superiores à natural.

Cooke diz que é difícil saber qual era o grau de exposição da população ao poluente -que também contaminou a água- e que tipo de impacto a contaminação deve à saúde. “É difícil especular quais eram os riscos”, afirma, “mas qualquer quantidade de mercúrio é potencialmente tóxica”.

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Contaminação pré-hispânica pode ameaçar população atual

O estudo do canadense Colin Cooke e colegas, publicado na edição de hoje do periódico científico “PNAS”, mostra como o acaso pode ajudar os esforçados em ciência.

Ao apontarem suas brocas para o fundo dos lagos nos Andes, os pesquisadores não tinham nem ideia de que os índios usaram tanto cinábrio a ponto de contaminar o ar.

“Nós estávamos procurando traços de poluição de mercúrio relacionada à mineração espanhola em Huancavelica”, afirmou o pesquisador. “Nunca esperaríamos encontrar poluição pré-hispânica, menos ainda 3.500 anos de poluição por mercúrio”, continuou.

E quanta poluição. O grupo encontrou mercúrio até mesmo no fundo de um lago a 225 quilômetros de Huancavelica, onde ficam as minas. Isso indica que, durante o império inca, o mercúrio deixou de ser um problema local para se tornar um problema regional.

Essa herança maldita dos índios pode ser um risco para a população de Huancavelica até hoje. “Não sabemos qual é o nível de risco, no entanto”, disse Cooke. Boa parte do mercúrio está trancafiada nas profundezas da coluna de sedimentos, mas parte dele está no topo dessa coluna. Isso pode facilitar a transformação de mercúrio inorgânico em metilmercúrio, a forma mais tóxica do elemento. “Sem dúvida ele ocorre nos lagos que estudamos perto de Huancavelica. Um desses lagos tem peixes que a comunidade comia regularmente. Eles podem estar contaminados com metilmercúrio”, disse Cooke.

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