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Pela volta dos chatos aos bancos

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 14 abril, 2009

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(Este post é dedicado aos meus ex-chefes no Citibank)

No artigo abaixo do Paul Krugman, publicado hoje no The New York Times, faz-se uma correlação inversa entre “chatice bancária” e crise financeira: quanto mais chato está o setor bancário, menos provável ocorrer uma nova crise. De fato, percebi isso na formação da atual crise: o ambiente de negócios dos últimos anos estava significativamente mais jovem, agitado, criativo e vibrante que na época que eu ingressei no mercado, em fins dos anos 1980. No início do ano passado, por exemplo, tive uma série de reuniões na sede de um dos maiores bancos americanos no Brasil (envolvido até os ossos na crise, por sinal), e não vi ninguém mais velho que eu trabalhando lá (tinha 40 anos na época). Meu interlocutor, reponsável por negócios bilionários, tinha 25 anos, e o ambiente mais parecia uma alegre agência de propaganda, com bichinhos fofos enfeitando monitores e ninguém usando gravata.

Tornar os bancos chatos

Há mais de 30 anos, quando eu era aluno de pós-graduação em economia, somente os meus colegas menos ambiciosos buscavam carreiras no mundo financeiro. Mesmo na época, os bancos de investimento pagavam mais do que o ensino ou o serviço público -mas não tanto assim e, de qualquer forma, todo mundo sabia que trabalhar em banco era, bem, chato.

Nos anos que se seguiram, os bancos se tornaram tudo, menos chatos. As negociações e estratégias prosperaram, e os salários saltaram, atraindo muitos dos melhores e mais brilhantes de nossos jovens (está bem, não tenho certeza quanto aos “melhores”). Assim, estávamos certos de que nosso setor financeiro de tamanho exagerado era a chave para a prosperidade.

Em vez disso, contudo, as finanças viraram o monstro que comeu a economia mundial.

Recentemente, os economistas Thomas Philippon e Ariell Reshev distribuíram um artigo que poderia ter o título de “Ascensão e queda dos bancos chatos” (de fato, o título é “Salários e capital humano na indústria financeira dos EUA, 1909-2006”). Eles mostram que os bancos nos EUA passaram por três eras no último século.

Antes de 1930, a indústria bancária era excitante, com uma série de figuras de peso, que construíram impérios financeiros gigantescos (mais tarde soube-se que alguns destes eram baseados em fraudes). Esse setor de finanças próspero liderou um rápido aumento no endividamento: a dívida domiciliar quase dobrou em relação ao PIB entre a Primeira Guerra Mundial e 1929.

Durante essa primeira era nas finanças, os banqueiros ganhavam em média muito mais do que seus colegas das outras indústrias. Contudo, o setor financeiro perdeu seu glamour quando o sistema bancário desmoronou durante a Grande Depressão.

A indústria bancária que emergiu daquele colapso era fortemente regulada, muito menos colorida do que tinha sido antes da Depressão e muito menos lucrativa para os que a dirigiam. O setor ficou sem graça, em parte porque os banqueiros eram tão conservadores em seus empréstimos: a dívida domiciliar, que tinha caído fortemente em relação ao PIB durante a Depressão e a Segunda Guerra Mundial, ficou bem abaixo dos níveis anteriores a 1930.

É estranho dizer, mas essa era de bancos chatos também foi uma era de progresso econômico espetacular para a maior parte dos norte-americanos.

Depois de 1980, contudo, com a mudança nos ventos políticos, muitas das regulamentações dos bancos foram suspensas -e o setor tornou-se empolgante novamente. A dívida começou a subir rapidamente, eventualmente chegando a quase o mesmo nível em relação ao PIB que em 1929. E a indústria financeira explodiu de tamanho. Em meados desta década, respondia por um terço dos lucros corporativos.

Com essas mudanças, as finanças novamente se tornaram uma carreira que recompensava bem -espetacularmente bem, para os que construíram novos impérios financeiros. De fato, o aumento dos salários nas finanças teve um grande papel em criar a segunda Era Dourada dos EUA.

Nem é preciso dizer que os novos super-astros acreditavam que mereciam sua riqueza. “Acho que os resultados de nossa empresa, de onde veio a maior parte de minha riqueza, justificaram o que eu recebi’, disse Sanford Weill, em 2007, um ano após se aposentar do Citigroup. Muitos economistas concordaram.

Somente poucas pessoas advertiram que este sistema financeiro sobrecarregado poderia ter um final ruim. Talvez a Cassandra mais notável tenha sido Raghuram Rajan, da Universidade de Chicago, ex-economista do Fundo Monetário Internacional que argumentou em uma conferência em 2005 que o rápido crescimento das finanças tinha aumentado o risco de um “derretimento catastrófico”.

Entretanto, outros participantes da conferência, inclusive Lawrence Summers, hoje diretor do Conselho Econômico Nacional, ridicularizaram as preocupações de Rajan.

E o derretimento chegou.

Grande parte do aparente sucesso da indústria financeira agora é visto como ilusão. (As ações do Citigroup perderam mais de 90% de seu valor desde que Weill se congratulou.) Pior ainda, o colapso do castelo de cartas financeiro criou caos no resto da economia, com o comércio mundial e a produção industrial de fato caindo mais rápido do que fizeram na Grande Depressão. E a catástrofe levou a pedidos de mais regulamentação da indústria financeira.

Entretanto, minha sensação é que as autoridades ainda estão pensando mais em reorganizar os caixas no organograma da supervisão bancária. Não estão de forma alguma prontos para fazer o que precisa ser feito -que é tornar o setor bancário chato novamente.

Parte do problema é que uma atividade bancária sem graça significaria banqueiros mais pobres, e a indústria financeira ainda tem muitos amigos em altas posições. Entretanto, é também uma questão de ideologia: apesar de tudo que aconteceu, a maior parte das pessoas em posição de poder ainda associa finanças sofisticadas com progresso econômico.

Será que podem ser convencidas do contrário? Teremos a disposição de fazer uma reforma financeira séria? Se não, a atual crise não será um evento único; formatará o que está por vir.

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