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Bônus são de direita ou de esquerda?

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 23 março, 2009

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Está a maior gritaria nos EUA por causa do pagamento de bônus a executivos de empresas na UTI do Obama, como a seguradora AIG. A histeria já se alastrou para o Brasil, com sindicalista querendo re-estatizar a Embraer por causa dos mesmos bônus (que não tem nada a ver com o caso da AIG, vide esse post aqui). Pelo que se lê na imprensa, os bônus são uma invenção malévola de capitalistas de ultra-direita para sacanear os pobres proletários expropriados de dignidade… Mas é exatamente o contrário!!! Vejamos como ocorre a contextualização política dos bônus, ora de esquerda, ora de direita:

De acordo com a teoria marxista (que explica a relação capital-trabalho de maneira brilhante), o dono dos meios de produção, o capitalista, paga pelo trabalho adquirido do proletário um valor menor do que ele realmente vale (assim como compra matérias primas por um preço inferior ao que vende), para com isso obter seu precioso lucro. No caso do trabalho, a diferença de preços – ou seja: o quanto o capitalista recebe de seu cliente pelo trabalho revendido menos o que ele paga ao trabalhador – é chamada de mais-valia. Essa mais-valia, portanto, é um recurso que o trabalhador teria direito a receber, mas que o capitalista é quem o recebe porque ele é o dono dos meios de produção (e do negócio em si, afinal de contas). É por isso que o discurso de Marx sobre “a injustiça social intrínseca do capitalismo” cola com tanta facilidade: ela de fato existe, não é difícil perceber.

Na época do barbudo, os trabalhadores somente recebiam salários fixos (por hora, dia, semana ou mês trabalhado). Mas, há mais ou menos um século, algumas classes começaram a conseguir negociar uma certa remuneração variável – que, como o nome diz, varia de acordo com determinados eventos. Por exemplo, se uma costureira produzia um vestido por dia e passasse a produzir dois, seu salário poderia dobrar. Essa história de remuneração variável, embora signifique um aumento da renda do trabalhador, nunca foi muito bem digerida pelos marxistas, que sempre a olharam como uma espécie de “suborno” que os proletários receberiam dos seus patrões. Mas o fato é que a remuneração variável é interessante para o proletariado, e por isso acabou se perpetuando, a despeito de todas as tentativas dos sindicalistas para melar tais acordos, e hoje é vista com bons olhos pela esquerda liberal.

Ora, se um operário pode receber uma remuneração variável atrelado à produtividade, por que não seu chefe? É aí que a coisa começa a ficar meio estranha, pois os cargos administrativos não “produzem” nada por definição (“produção” aqui entendida no seu sentido mais básico, de por a mão na massa mesmo), logo não haveria produtividade a ser premiada. Quando a remuneração variável atinge os níveis de diretoria e presidência, os parâmetros que a regulam acabam muito próximos dos que interessam aos capitalistas, ou seja: os altos executivos de uma empresa são premiados de maneira análoga aos acionistas. No fim das contas, pelo lucro. É aí que surgem as “stock options“, esquemas de remuneração variável com pagamento em ações da empresa em que o sujeito que recebe a remuneração variável trabalha. Nascem, enfim, os bônus como os que conhecemos hoje.

Quando os operários recebem acréscimos pacuniários por melhoria em produtividade, é muito claro que capital e trabalho estão cooperando: quanto mais o patrão lucrar, maior o salário do empregado e vice-versa – e é justamente essa harmonia capital-trabalho que irrita os sindicalistas mais fiéis ao marxismo, menos comuns hoje em dia. Mas, estranhamente, no caso dos executivos, a história é outra. Quando o presidente executivo da fábrica assina seu contrato de trabalho com o conselho de acionistas, inicia-se um relacionamento intrinsecamente conflituoso, não mais cooperativo como ocorre no caso dos operários. O executivo e o acionista encontram-se em campos opostos: o primeiro quer embolsar o máximo possível em bônus o mais rápido que der, enquanto o acionista quer pagar o mínimo (de preferência, nada) no prazo mais dilatado. Num momento de crise como o atual, percebe-se esse conflito muito claramente.

O interessante é que os executivos que recebem bônus extraordinários estão combatendo o capital, mas nem por isso são admirados pela esquerda, já que eles mesmos acabam se tornando capitalistas, dado o imenso volume de suas remunerações variáveis. O mais maluco ocorre quando esses bônus contratados com os capitalistas acabam tendo que ser honrados pelo Estado, como acorreu com a AIG. Aí, o combate muda de figura, e quem paga os bônus não são mais os capitalistas, mas a população em geral. Embora quem financie o Estado sejam os ricos e as grandes corporações, todo mundo paga impostos de uma forma ou de outra, e o prejuízo é socializado. No fim das contas, a sociedade toda se sente lesada pelos executivos, e aí o jogo não tem mais a graça que tinha quando eram os capitalistas que ficavam com o prejuízo. Neste momento, os bônus voltam a ser de direita. Louco isso, não?

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