Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

Evolução peculiar

Posted in Evolução & comportamento, teoria da evolução by Raul Marinho on 18 março, 2009

darwins_first_tree_of_life

A nota abaixo, publicada hoje na Folha (uma excelente reportagem do Ricardo Mioto), fala do caso peculiar ocorrido em Santa Catarina, de preás que ficaram separados em uma ilha e evoluíram diferente dos que permaneceram no continente. Chama a atenção o tamanho da população (cerca de 40 indivíduos), o espaço físico que ela ocupa (a área de um campo de futebol), e a “rapidez” com que ela ocorreu – 8mil anos é um átimo para a evolução. Mas o que merece destaque mesmo é o seguinte:

Consanguinidade/incesto

De acordo com Lévi-Strauss,  o tabu do incesto é, antes de prejudicial em termos biológicos, um absurdo social. Já dizia o antropólogo que os problemas biológicos da consanguinidades se resolveriam em algumas gerações, e os genes deletérios seriam expulsos da população pela seleção natural com razoável rapidez. É exatamente o que aconteceu com os preás, que não apresentam mais nenhum problema decorrente do cruzamento entre parentes. (E nem social, aliás, já que a organização deles é bem mais simples que a nossa).

Vulnerabilidade a predadores

Apesar de ser contra-intuitivo, o fato é que os predadores são fundamentais para a saúde de uma população de predadores. Sem eles, os predadores ficam extremamente vulneráveis e podem ser extintos com muita facilidade, exatamente a situação dos preás de Santa Catarina.

Agora, a reportagem:

Espécie sobrevive sem variedade genética

Preás isolados em ilha catarinense contrariam teorias ao evoluir por 8.000 anos em população de apenas 40 indivíduos

Espécie inteira forma uma grande família, onde incesto é comum e não provoca defeitos na prole; um único gato pode causar extinção

Pesquisadores brasileiros descobriram uma espécie que, após 8.000 anos isolada mantendo uma população de cerca de 40 indivíduos, praticamente não apresenta mais diversidade genética. Os animais são tão parecidos entre si que um teste de paternidade através do DNA, como o utilizado em humanos, não seria viável entre eles.
Os preás da ilha catarinense vivem muito bem, obrigado, em uma área equivalente à de um campo de futebol -menos de um hectare. Pelas teorias genéticas tradicionais, ela deveria estar extinta há tempos.
“Parece claramente ser o caso mais extremo conhecido de uma espécie vivendo tanto tempo com uma população tão pequena”, diz o geneticista Sandro Bonatto, da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio Grande do Sul.
“Pelos padrões clássicos, ela não poderia estar viva. Esses animais podem mudar nossa compreensão da biologia das pequenas populações.”
Os pesquisadores encontraram os animais em uma das ilhas do arquipélago de Moleques do Sul, a 8 km da ponta sul da ilha de Florianópolis.
A espécie, a Cavia intermedia, é prima do preá que fica no litoral do continente, a Cavia magna. Uma possibilidade é que, após o término da última era do gelo, há cerca de 8.000 anos, quando o nível do mar subiu, elas tenham se separado.
Os poucos indivíduos ilhados deram, então, origem a uma nova espécie, que com o tempo se adaptou às condições da ilha: pouco espaço, vegetação baixa e nenhum predador.
O pouco espaço resultou numa população pequena. A ilha tem cerca de dez hectares, mas boa parte do terreno é rochoso. Sobra para os preás um décimo disso, em uma área com grama. Essa vegetação baixa fez com que eles ficassem menores do que os seus primos, que têm acesso a mais comida.
Os preás são os únicos mamíferos da ilha. A ausência de predadores, aliada à estabilidade climática do local -aparentemente nenhuma catástrofe natural aconteceu nos últimos tempos por lá-, permitiu milênios de sossego.
Os cientistas sabem que a população nunca foi grande porque todos são geneticamente parecidos, como se toda a espécie fosse uma grande família.
Para verificar a proximidade genética entre os preás, o grupo de Bonatto recorreu ao mesmo tipo de exame de DNA usado em testes de paternidade.
“É uma das menores diversidades genéticas observadas no reino animal”, diz Ricardo Kanitz, também da PUCRS.
O incesto, portanto, é comum. Em humanos, filhos de parentes podem nascer com alguns tipos de deformação. Não é o caso desses animais: como a população é muito pequena, os cruzamentos que poderiam gerar filhotes defeituosos já aconteceram e os alelos (versões de um mesmo gene) que poderiam causar problemas já foram eliminados pela seleção natural. É normal, portanto, que um filhote seja filho de irmãos.
Essas deformações não são frequentes o suficiente para extinguir uma espécie, mas a inexistência delas é sinal de que os preás se adaptaram à sobrevivência em um pequeno grupo.

Ameaças
Como qualquer grupo pequeno e isolado, entretanto, os bichos correm riscos. A ilha está dentro do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, o que deveria limitar o acesso a ela. Mas, na prática, não é assim.
“Alguns pescadores vão lá, usam como base para trabalhar. O perigo é soltar um gato, um cachorro ou algo assim sem querer e ele acabar com os preás”, diz Bonatto.
Além de gatos fujões, eventuais catástrofes naturais também oferecem perigo aos preás. “Um furacão, por exemplo, poderia matar todos”, diz Bonatto. E um já aconteceu, em 2004.
Além de Bonatto e Kanitz, participou do trabalho Carlos Salvador, então na Universidade Federal de Santa Catarina.
Ao contrário dos preás, todas as espécies com poucos indivíduos vistas até hoje estavam no rumo da morte, fosse natural, fosse por ação humana.
“Alguns trabalhos afirmam que uma espécie, para sobreviver a longo prazo, deveria ter no mínimo 500 indivíduos”, diz Kanitz. “Talvez os preás proporcionem lições importantes de estratégias de conservação”, concorda Bonatto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: