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A maior chance de ficar quieto perdida em todos os tempos

Posted in Atualidades, Uncategorized by Raul Marinho on 17 março, 2009

keep-silence

Lamentável. Isso é o mínimo que se pode dizer sobre a entrevista do Arecbispo de Olinda e Recife nas páginas amarelas da Veja desta semana. Nelas, Dom José Cardoso Sobrinho fez mais pela derrocada da Igreja Católica no Brasil do que o chefe da Igreja Universal, Edir Macedo, a bispa Sônia & o apóstolo Estevão, e os tele-pastores RR Rodrigues & Sylas Malafaia juntos conseguiram em décadas. Alguns dos principais pontos da entrevista:

A referência ao holocausto

Para justificar sua lógica no combate ao aborto, o bispo faz uma comparação do número de interrupções de gravidez com o número de judeus assasinados pelos nazistas.”Hitler, aquele ditador, queria eliminar o povo judaico, e dizem que ele chegou a matar 6 milhões de judeus” – isso foi o dito. Agora, o não dito, mas entendido: “É… ‘Dizem’… Mas deve ser exagero dos judeus, né? Alguém contou os corpos? Cadê os nomes das 6 milhões de supostas vítimas? Tem? Não tem? Então eu também posso supor qualquer coisa”. Essa foi a parte mais idiota da entrevista. A referência ao holocausto foi de uma infelicidade absurda e de uma burrice atroz. Logo depois do bispo da vizinha Argentina duvidar do fato histórico, por que referir-se ao holocausto desta forma?

O descaso com a menina

O bispo sabe de cor os nomes, RGs e CPFs dos médicos, da mãe da menina, de todos os envolvidos no caso que ele fez questão de atacar em público com o anúncio da excomunhão. Mas ignora como a garota se chama (quando perguntado, pediu a ajuda de 5 pessoas que o assessoravam na entrevista e ninguém soube responder), e admitiu desconhecer as reais condições em que os estupros ocorreram. Num ato falho que revela seu desinteresse pela menina (a única que mereceria real interesse, a propósito), diz que “Se alguém tiver interesse [em saber das condições em que a menina vivia], o caminho mais curto é ligar para o o padre da cidade de Alagoinha e perguntar”. Novamente, o que importa é o não dito: “Se alguém quiser saber, porque eu não dou a mínima para a vida da garota, ela que se vire com os problemas dela, lá em Alagoinhas… Meu negócio é aparecer na mídia aqui na capital”. Aliás, se ele tivesse algum interesse, deveria ele ter ligado para o pároco de Alagoinha, não?

Bom mesmo é não pensar

Pensar? Para que pensar, se existe a Santa Igreja que pensa por você? Olha só o absurdo que o bispo diz em um dado momento da entrevista: ” Seria tão bom se as criancinhas fossem como antigamente, quando nem tinham o uso da razão mas já sabiam rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria”. Bem… Pensando dessa forma, um papagaio treinado nestas rezas poderia ser canonizado. Ah, sim, e é lógico que, se a menina soubesse rezar, seu pai não a teria estuprado, no fundo tudo foi culpa da menina. Aliás, ele deixa isso claro quando perguntado se “O senhor acredita que uma educação religiosa poderia ter evitado o estupro”? “Certamente”, respondeu Dom José.

A excomunhão automática

O bispo e alguns representantes da Igreja Católica tentam, de todo modo, difundir esse conceito esdrúxulo de punição automática. Diz o próprio bispo que havia 40 motivos para que se processasse a excomunhão automática no papado de Bento XV, mas que o papa João Paulo II promulgou um novo Código Canônico em 1983, reduzindo para apenas 9 motivos, entre eles o aborto e a profanação de hóstias. Quer dizer então que Deus mudou de idéia no meio do caminho sobre o que seria ou não motivo para excomunhão? E que Deus considera o “assassinato de inocentes” (como a própria Igreja trata o aborto) tão grave quanto passar manteiga na bolachinha que o padre distribui nas missas? Ora, isso é um dos maiores absurdos lógicos já vistos na história da humanidade… A excomunhão faz parte de um rito jurídico – daí a necessidade de um Código Canônico – praticado por pessoas, não é um ato espiritual operado diretamente por Deus. Esse papinho de excomunhão automática é uma armadilha que a Igreja plantou para livrar a cara dos verdadeiros inquisidores que dominam a Igreja (a começar pelo Ratzinger).

Deus e Suas “leis”

“Você acredita em Deus”? Faça essa pergunta para um cristão, um  muçulmano, um budista, um judeu, um índio Guarani, um curdo, um xintoísta, etc., e você ouvirá sempre um lacônico “sim”. Mas todas essas pessoas estarão acreditando em diferentes versões de Deus, na maioria das vezes conflitantes e excludentes. O Deus que Dom José acredita é um Deus legislador, e um dos artigos da lei que Ele redigira diz que passar manteiga numa bolachinha é pior que violentar sexualmente uma menina dos 6 aos 9 anos rotineiramente. E o bispo quer enfiar essa verdade goela abaixo de todos e ainda posar de homem santo na Veja, se justificando pelo fato de que seu chefe, em Roma, o elogia. Vamos esclarecer de uma vez por todas que, quando o bispo fala de “leis de Deus”, o que ele quer dizer é “Código Canônico” – ou seja: o regimento interno da instituição (terrena) chama Igreja Católica. Eu duvido que Deus tenha redigido uma lei tão esdrúxula quanto esta que o bispo diz ser a lei d’Ele.

Aborto X assassinato

O bispo em particular e a Igreja Católica em geral adoram comparar o aborto ao assassinato. Segundo eles, um bilionésimo de segundo após o espermatozóide entrar no óvulo, a vida já existe, e qualquer ato que a inviabilize seria comparável a um assasinato. Até pior, pois seria um atentado a “uma vida inocente” (como se matar um homem de 40 anos fosse menos ruim porque este já teria uma coleção de pecados no curriculum…). Bem, assim sendo, poderíamos esperar que uma mulher que sofre um descolamento de placenta e perde o feto no 2o. mês de gestação deveria ficar tão arrasada quanto outra cujo filho morre de meningite aos 12 anos, afinal de contas, em ambos os casos foram mortes de seres humanos. Mas olha só que interessante… No caso do aborto (espontâneo, no caso), não há funeral, nem luto, e a mãe deverá superar o problema em alguns dias ou semanas, enquanto que no outro haverá choradeira, muita tristeza e sofrimento por anos, provavelmente para sempre. Ora, se a morte natural de um feto de 8 semanas não tem nada a ver com a de um menino de 12 anos, a morte intencional de um e de outro também são diferentes. Sem entrar no mérito do instante-limite em que um feto se torna ser humano, o fato é que um aborto intencional, embora condenável sob determinados aspectos, jamais poderia ser comparável a um assassinato. Quando o bispo compara os supostos 50 milhões de abortos anuais com os 6 milhões de judeus massacrados por Hitler, ele está comparando duas coisas absolutamente incomparáveis. Na verdade, esta comparação é profundamente ofensiva aos mortos nos campos de concentração nazistas, tamanha a disparidade entre os fatos.

O artigo do Rubem Alves

Para terminar, copio abaixo o excelente texto que o Rubem Alves publicou na Folha de hoje sobre esse assunto, que aborda outros aspectos do caso:

Em defesa do arcebispo

Mas isso, condenar uma pessoa eternamente a um Inferno de Fogo, não será mais cruel que um aborto?

DIRIJO-ME A V. REVMA. , dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, para, “in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti”, louvar o seu destemor e coerência ao proclamar a verdade revelada e guardada através dos séculos pela Igreja Católica Romana.
Em oposição àqueles que não foram iluminados pela revelação divina e que se apressaram a atacá-lo com argumentos da efêmera sabedoria humana, V. Revma. pensou e agiu de forma milenar, com base na rocha imutável sobre a qual a igreja foi construída.
Nessa circunstância, o senhor aparece como o legítimo representante da igreja e as suas palavras soam como um coral gregoriano, eternas e sempre as mesmas, à semelhança da monotonia da música das esferas celestes. Não são palavras de um indivíduo. É a igreja que fala por meio da sua boca. E esta é a razão por que o Vaticano confirmou os seus atos.
O que aconteceu? Uma menina de nove anos vinha sendo abusada sexualmente pelo seu padrasto desde os seis anos de idade. Ficou grávida de gêmeos. Levada aos médicos, eles concluíram que um aborto se fazia necessário porque a vida da menina estava em jogo. Assim afirma a ética médica: estando em jogo a vida de um feto e a vida da futura mãe, a vida da mãe tem a prioridade. É preciso que a vida da mãe seja salva.
Informado do acontecido. V. Revma. tomou as providências exigidas pelas leis da igreja -que afirmam o contrário: a vida do feto, por diminuto e ínfimo que seja, tem sempre prioridade sobre a vida da mãe, por mais filhos que ficariam órfãos no caso da sua morte.
Assim, V. Revma foi fiel à igreja: excomungou a mãe da menina por ter permitido e a equipe médica por haver realizado o aborto.
Aqueles que não conhecem a verdade revelada se espantaram com fato de que o estuprador padrasto tenha ficado fora da maldição da excomunhão. Mas V. Revma. explicou que o estupro não é punido com a excomunhão porque, por violento e cruel que possa ser, ele não tira uma vida. Pode mesmo acontecer que do estupro até surja uma nova vida…
Os médicos se surpreenderam com a excomunhão lembrando que as leis do país foram obedecidas. V.Revma. refutou: “A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Quando uma lei humana (…) é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor”. Em outras palavras: as leis do Estado só devem ser obedecidas quando concordam com as leis da igreja.
Em outros tempos o senhor poderia ser acusado de estar incitando à desobediência civil, à subversão, porque a ética que se encontra por detrás dos atos subversivos vem da crença na ilegalidade e, portanto, na ilegitimidade do Estado.
O senhor concordará que há um conflito entre a pretensão da igreja de ter o monopólio total da verdade e a democracia? Pois na democracia são os homens e não Deus que estabelecem as leis. O sonho político da igreja não é uma teocracia em que as leis são estabelecidas por ela e o Estado secular leigo é abolido? A igreja não sonha com a sua volta ao poder e a abolição da democracia?
Tremo pensando no futuro eterno que aguarda os excomungados. A eles está proibida a participação na eucaristia, veículo da graça. Estão, assim, condenados ao Inferno eternamente. Mas isso, condenar uma pessoa eternamente a um Inferno de Fogo, não será mais cruel que um aborto?
Mas sinto que sua consciência está em paz. Não foi o senhor que excomungou. Foi a igreja.

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Uma resposta

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  1. Raul Marinho said, on 17 março, 2009 at 11:44 am

    Complementando, segue nota recé-mpublicada no UOL:

    Vaticano censura excomunhão da mãe da menina violentada em Pernambuco
    El País
    Miguel Mora
    Em Roma

    O presidente da Academia Pontifícia para a Vida, Rino Fisichella, criticou no domingo no jornal da Santa Sé o arcebispo brasileiro José Cardoso Sobrinho, que excomungou a mãe e os médicos que praticaram o aborto em uma menina de 9 anos grávida de gêmeos depois de ser violada por seu padrasto.

    Em um artigo publicado em “L’Osservatore Romano”, Fisichella critica a postura de Cardoso e defende os médicos. “São outros os que merecem a excomunhão e nosso perdão, não os que lhe permitiram viver e que a ajudaram a recuperar a esperança e a confiança”, escreve, dirigindo-se à menina. Segundo o arcebispo italiano, o padrasto que violou a menina é quem deveria ter sido excomungado. A menina, ele escreve, “deveria ser em primeiro lugar defendida”, e “antes de pensar na excomunhão era necessário e urgente proteger sua vida inocente e devolvê-la a um nível de humanidade do qual nós, homens da Igreja, devemos ser peritos protetores e mestres”.

    Em todo caso, Fisichella justifica o mecanismo da excomunhão em caso de aborto e concentra suas críticas na posição do arcebispo. “O aborto não-espontâneo sempre foi e continua sendo condenado à excomunhão, que é automática. Não era necessário, na nossa opinião, tanta urgência em dar publicidade a um fato que ocorre de maneira automática.”

    Credibilidade
    A notícia chegou aos jornais “só porque o arcebispo de Olinda e Recife se movimentou apressadamente para declarar a excomunhão”, diz Fisichella, acrescentando que, com o confronto entre o governo brasileiro e a Igreja Católica, “se ressentiu a credibilidade de nossa instrução, que para muitos pareceu insensível, incompreensível e privada de misericórdia”.

    Giovanni Battista Re, estreito colaborador do papa Bento 16 e presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, declarou ao jornal “La Stampa” que “o verdadeiro problema é que os gêmeos concebidos eram pessoas inocentes, que tinham o direito inegável à vida”.

    O presidente Lula somou-se aos protestos: “Lamento que um bispo da Igreja Católica tenha um pensamento tão conservador como esse”. Mas Sobrinho não cedeu: “Não me arrependo (…). É meu dever alertar a população para que tenha temor às leis de Deus”.


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