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Porque o Brasil está menos mal na crise

Posted in Atualidades, crise de credito, crise financeira by Raul Marinho on 12 fevereiro, 2009

snow-shovel-pin-yes-no

Mesmo que nós não estejamos passando incólumes, como alardeia nosso presidente Marolinha, também está ficando claro que o Brasil está sendo menos afetado que a maior parte dos países na atual crise econômica.  Um dos principais motivos pode ser o fato de que nossa habilidade em conviver com períodos turbulentos seja melhor que a dos países ricos, que não precisam rebolar há muitas décadas. Pelo menos é este o argumento da Anne Applebaun, do Washington Post, no artigo abaixo, publicado no The New York Times e traduzido pelo UOL Mídia Global ontem:

Lembrando de como lidar com as coisas
Aqueles que esqueceram de como tirar a neve com pá estão condenados a atravessá-la com dificuldade

Esta coluna chegou tarde nesta semana. Chegou tarde porque, entre outras coisas, meu voo que decolaria do Aeroporto de Heathrow de Londres, na segunda-feira, foi cancelado. Não adiado, cancelado. Assim como a maioria dos demais voos que partiriam de Heathrow. Esta incrível perturbação em um dos eixos de transporte mais movimentados do mundo não foi causada por um ataque terrorista ou alguma falha catastrófica de computador. Ela foi causada por mais de 12 centímetros de neve que derretia rapidamente.

Mesmo para uma natural de Washington, D.C., a cidade que o presidente Barack Obama descreveu recentemente como necessitando de uma “dureza insensível de Chicago” por causa de sua resposta patética à flocos de neve ocasionais, esta reação pareceu excessiva. Assim como a reação da rede de transporte londrina, que parou grande parte do sistema subterrâneo da cidade e todos seus oito mil ônibus, deixando mais de seis milhões de passageiros sem transporte. Assim como as reações das escolas de Londres (todas as aulas canceladas) e dos próprios londrinos. Caminhando por Piccadilly à noite, eu não encontrei evidência de ninguém usando uma pá de neve durante todo o dia.

No passado, quando este tipo de coisa acontecia em Washington, isso me provocava uma espécie de acesso, às vezes me inspirando a reclamar a respeito da cultura mimada, litigiosa, da burocracia moderna americana, das escolas em particular. Mas a descoberta de que a reação de Londres a uma pequena nevasca é ainda mais histérica do que o pânico anual de Washington me inspirou reflexões mais sérias, mais filosóficas: os eventos realmente parecem diferentes para pessoas que vivem em lugares diferentes.

É perfeitamente verdadeiro, como um britânico indignado notou na segunda-feira, que as mães de Oymyakon, na Sibéria, permitem que seus filhos brinquem ao ar livre até a temperatura cair abaixo de 40ºC negativos. (Apenas a 52ºC negativos eles fecham a escola.) No outro extremo climático, as mães em Abu Dhabi proíbem seus filhos de brincarem nos casos extremamente raros de chuva, para não se resfriarem. As pessoas em Bangladesh, onde a monção anual chega como um alívio bem-vindo, certamente consideram a reação tão cômica quanto eu considerei a do taxista que, na noite de segunda-feira, se recusava a atravessar um trecho curto de lama de neve (“slush”)..

Mas também é verdade que o clima inesperado parece causar mais caos nos climas mais temperados, precisamente porque seus habitantes estão mais despreparados, tanto de forma psicológica quanto prática, para qualquer tipo de extremo. Há poucos anos, uma onda de calor que seria considerada um clima mediano de agosto em Washington, causou um desastre nacional na França. Os ingleses lidam com a onda ocasional de calor tão mal quanto lidam com nevascas pouco frequentes. E, sim, tempestades de gelo que nem causariam comentários em Chicago podem paralisar os cidadãos de Washington, D.C., assim como todo o governo federal.

Caminhando pela Londres coberta de neve, era impossível escapar de outro pensamento: certamente o que vale para o clima também vale para outros tipos de mudanças inesperadas. Por exemplo, as pessoas que não mais se recordam de baixo crescimento econômico podem não saber lidar muito bem com uma recessão severa. Em Londres, não nevou muito por 18 anos, de forma que ninguém tem uma pá – e caso alguém tenha, não sabe como usá-la. Nos Estados Unidos, a economia não sofre um colapso desde 1929, de forma que ninguém sabe economizar barbante e folha de estanho – e caso saiba, não saberia o que fazer com eles. Uma série de habilidades, desde cozinhar com as sobras até reciclar garrafas (não por ser verde, mas por ser barato), foram perdidas durante duas gerações de prosperidade, da mesma forma que os britânicos esqueceram como dirigir seus carros por trechos de lama de neve. A última vez que mandei sapatos para colocar sola nova em Washington, o sapateiro me disse que não permaneceria em atividade por muito mais tempo, tão baixa era a demanda por seus serviços. Alguém ainda sabe como consertar torradeiras? E quanto a aparelhos de TV?

Como eu disse, as coisas parecem diferentes para pessoas em lugares diferentes: eu não tenho dúvida de que nas sociedades recém bem-sucedidas, onde a memória popular das dificuldades ainda permanece -na Indonésia, ou em Gana, por exemplo- muita gente ainda conserta torradeiras e televisores no tempo livre. Este é o motivo, quando chegar a recessão, para eles se saírem melhor do que aqueles entre nós que esqueceram como remover a neve com pá -ou que simplesmente jogaram a pá fora.

Uma resposta

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  1. […] Enviado em Atualidades by Raul Marinho em Fevereiro 12th, 2009 Na mesma linha apontada no post Porque o Brasil está menos mal na crise, abaixo, vale a pena assistir ao debate na GloboNews (Programa Entre Aspas) com o Stephen Kanitz e […]


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