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Lucidez, até que enfim

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 17 dezembro, 2008

Dois artigos incrivelmente lúcidos (embora seus autores nem sempre o sejam) sobre a dita “crise do capitalismo”. Imprima e guarde.

Em má companhia (do blog do Noblat)

Demóstenes Torres

O governo popular e revolucionário do Brasil acusa a oposição de disseminar sentimentos negativistas sobre a crise financeira mundial. Qual o quê! São justamente os esquerdistas que se divertem com as vicissitudes do primeiro mundo. Acham lindo observar da latitude tropical o capitalismo ruir na imagem da velha Europa de joelhos. Especialmente a Libra Esterlina caindo pelas tabelas em uma Inglaterra cujo império governava as ondas dos mares.

O que mais fascina e conforta os energúmenos é ver os Estados Unidos irem à bancarrota. Aqueles que agora vibram com a insolvência dos ícones da economia de mercado são os mesmos que se sentiram vingados quando os terroristas explodiram as torres do World Trade Center. Uma gente cuja única atividade produtiva foi participar de um grupo de trabalho no governo do PT, muitos tendo o cargo de assessoria como o primeiro emprego.

Aliás, não é só parte expressiva do governo do Brasil, mas a América do Sul praticamente inteira está contaminada pela idéia fixa de que o momento histórico reúne as condições para a solução final à influência americana no subcontinente. Na verdade, muitos destes países têm possibilidade de desaparecer, conforme for a extensão da crise. Os três patetas Chávez, Morales e Correa devem entrar em contagem regressiva no processo de autodestruição com mais um ano de petróleo em baixa. E Barack Obama não vai salvá-los.

O presidente Lula hoje e amanhã tem agenda fechada justamente na má companhia desse pessoal em nada menos do que quatro cúpulas internacionais. E ainda vem o Raul Castro. Isso é que liderança! Tudo bem, eles estão aí para patrocinar rapaziadas em nome da blindagem latino americana contra a crise financeira internacional.

O máximo do alcance prático de um encontro de líderes da região é descobrir o que é que a Bahia tem na Costa do Sauípe entre um diálogo e outro de altíssimo nível sobre a sapatada em George W. Bush. O acordo tarifário do Mercosul fracassou e não há o que se decidir no que pode se converter na maior confraternização natalina da América Latina e do Caribe.

O Brasil especialmente não vai perder a ocasião para fazer bobagem. Deve anunciar acordo com Evo Morales com a finalidade de substituir o DEA (agência antidrogas dos EUA) expulso da Bolívia em novembro. Trata-se de uma aventura temerária para a Polícia Federal tanto no aspecto operacional quanto institucional. É uma estultice assinar cooperação de combate à cocaína com um governo assumidamente cocaleiro. De mais a mais, antes de ajudar a Bolívia, o Brasil deveria se proteger do tráfico de drogas, e ainda do Morales, do Correa, do Lugo e do Chávez.

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Cuidado (da Folha)

Antonio Delfim Netto

NÃO DEIXA de ser um pouco assustadora a facilidade com que se fala em “refundar” o capitalismo como resposta à crise que o laxismo dos Bancos Centrais e a imoralidade de agentes do sistema financeiro depositaram sobre a economia real.
“Capitalismo” é o codinome de um sistema de organização econômica apoiado no livre funcionamento dos mercados. Nele há uma clara separação entre os detentores do capital (os empresários) que correm os riscos da produção e os trabalhadores que eles empregam com o pagamento de salários fixados pelo mercado. É possível (e até necessário) discutir a qualidade dessa organização e sugerir-lhe alternativas. O difícil é negar a sua eficiência, a sua convivência com a liberdade individual e os dramáticos resultados que desta última emergiram a partir dos meados do século 18.
Depois de uma estagnação milenar, nos últimos 250 anos ela permitiu a multiplicação por seis da população mundial, multiplicou por dez a sua produção per capita e elevou de 30 para 60 anos a expectativa de vida do homem, o que não é pouco.
Certamente ela não é perfeita.
Tem, por exemplo, uma tendência a produzir uma detestável desigualdade. Mas o seu problema mais grave -conhecido desde sempre- é a sua ínsita tendência à flutuação (em períodos e amplitudes variáveis) com repercussões sobre o emprego e a segurança econômica dos cidadãos. Quando se trata das flutuações macroeconômicas e da desigualdade, os economistas se dividem em duas tribos: uma crê que o sistema de economia de mercado, deixado a si mesmo e com tempo suficiente, resolve os dois problemas. Logo, ela dá ênfase à estabilidade monetária, fundamental para o bom funcionamento dos mercados. A outra crê que a solução exige uma intervenção inteligente, cuidadosa e firme do Estado que corrija a desigualdade de oportunidades e mantenha a demanda global. Logo, ela dá ênfase à estabilidade do emprego no nível mais alto possível.
A tentativa (de falsa inspiração keynesiana) patrocinada pelo Partido Trabalhista inglês depois da Segunda Guerra, de produzir simultaneamente a estabilidade monetária e o pleno emprego, terminou, como todos sabemos, num Estado-corporativo ineficiente, cuja desmontagem foi iniciada por Thatcher. As implicações políticas (na organização do Estado) e econômicas (na limitação da liberdade de iniciativa produtora das inovações) da “refundação” do capitalismo para eliminar as “crises” são muito mais sérias do que supõe a vã filosofia de alguns trêfegos passageiros do G20. Como diriam os romanos: Cuidado, o cachorro é perigoso!

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