Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

O olho do dono é o que engorda o porco?

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 10 dezembro, 2008

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Há mais de um ano, discuto com o Prof. Stephen Kanitz o assunto dos “administradores de esquerda” – a idéia de que os gestores de companhias abertas é que são os verdadeiros agentes da democratização do capital, embora sejam reconhecidos pelo público como “agentes da direita”. Na penúltima edição da revista Veja, o Kanitz resumiu a discussão num artigo brilhante, que pode ser acessado aqui (e está copiado no final deste post). Pelo que conversamos, e pelo que eu próprio achava (independente da opinião do Kanitz), a expectativa era que esse  assunto iria despertar muito interesse junto à classe dos profissionais de Administração de Empresas do Brasil. Tão logo a última edição da Veja chegou às bancas, fui correndo comprar um exemplar para ler, com antecipado regozijo, as inúmeras cartas de leitores apoiando (eventualmente, criticando) a idéia do meu amigo Stephen. Entretanto, qual não foi a minha surpresa ao constatar que nenhuma linha havia sido dispensada ao artigo do Kanitz. Não sei se a revista recebeu cartas de leitores sobre este assunto e decidiu não publicá-las – pode ser que ela as tenha recebido, mas certamente não foram nem numerosas, nem tão enfáticas, caso contrário eu acredito que a redação não as ignoraria -, mas o fato é que não tive conhecimento de ninguém repercutindo o artigo, nem contra nem a favor.

A apatia dos administradores profissionais quanto a questões fundamentais da profissão, contudo, tem um preço, e ele já está sendo cobrado. A manchete do jornal Gazeta Mercantil de hoje é a seguinte: “Famílias recuam na gestão profissional”. Nas páginas internas do periódico, lê-se o título da matéria em destaque: “Crise traz herdeiros de volta á rotina diária”, e um quadro mostra a opinião dos especialistas, como o sr. Domingos Ricca, sócio-proprietário da DS Consultoria. Diz o sr. Ricca (que, apesar de ser formado em Administração, é, ele mesmo, gestor de sua própria empresa – ou seja: não é um “administrador de esquerda” de acordo com o conceito do Kanitz), que “nem sempre o melhor executivo é bom para a companhia”. A matéria ilustra o assunto com o caso da Sadia, que voltou à batuta do ex-ministro Furlan depois de um administrador profissional ter gerado perdas de R$653milhões com derivativos, e com as palavras do Abílio Diniz, do Pão de Açúcar: “já combinei com o Cláudio (Galeazzi, o administrador profissional do supermercado) que ele tem liberdade de tudo, exceto se for proposta alguma coisa que me contrarie…”. Depois disto tudo, eu me pergunto por que existe curso de Administração de Empresas neste país.

Um pai responsável pode passar o volante ao filho que acabou de tirar habilitação quando a rodovia é boa, está durante o dia e não está chovendo, mas deve retomá-lo em uma situação adversa (à noite, numa rodovia esburacada e mal sinalizada, durante uma tempestade, com trânsito intenso de caminhões, etc.). Esta é a sensação que fica em relação aos administradores profissionais ao ler a matéria da Gazeta: parece que estes profissionais até podem se aventurar à frente de uma empresa se tudo estiver correndo bem, mas não são capazes de administrar uma crise. Fazendo uma analogia com a Medicina, seria como se você confiasse no seu médico para lhe receitar uma pomadinha para micose ou um comprimido para tratar de uma gripe, mas se for caso de câncer ou infarto, é melhor chamar o papai (ou o vovô). Sinceramente: eu achei a matéria humilhante para a classe dos administradores, e o pior de tudo é que ela está bem feita.

Os administradores do Brasil são muitíssimo numerosos (dois milhões, de acordo com o Kanitz), mas extremamente passivos e desunidos como classe profissional. Não têm voz e parecem não se preocupar com isso, basta ver quem é que opina sobre a crise: em 99% dos casos são economistas, e quando são administradores, eles não se qualificam como tal (assinam como “diretor da empresa X”, “consultor da firma Y”, e assim por diante). O que disse o CFA ou os CRAs na imprensa sobre o problema financeiro que o mundo vive? Nada. (Aliás, a esmagadora maioria das pessoas nem sabe que o CFA é o Conselho Federal de Administração e os CRAs são os Conselhos Regionais de Administração). Que professor de Administração é referência na mídia de massa? Que eu saiba, somente o Kanitz, com um artigo mensal na Veja. Quem é que vai tomar as dores da classe, que restou humilhada, junto à Gazeta Mercantil? Ninguém, provavelmente. Você, administrador profissional, vai ficar como sempre ficou: quietinho, observando, eventualmente chateado porque sua profissão é “de segunda linha” no imaginário popular (ao contrário do seu primo, que é médico, do seu vizinho, que é advogado, ou do seu cunhado que é engenheiro, todos “doutores”). Por outro lado, o que nosso país mais precisa é de bons administradores, já que as principais razões do nosso subdesenvolvimento estão na nossa baixa capacidade gerencial. Podemos importar tecnologia e know-how, podemos trazer médicos e equipamentos do exterior, podemos até importar capital; mas quem vai ter que administrar o nosso país somos nós mesmos. Não dá para terceirizar a gestão do Brasil para estrangeiros!!!

Este artigo será republicado no site administradores.com, onde costumo publicar meus artigos. Vou enviá-lo aos meus amigos administradores para que ele seja disseminado de maneira viral, e peço a você que o está lendo que colabore, enviando-o para seus amigos administradores também. Gostaria de centralizar os debates sobre este assunto nos comentários do post no meu blog, mas não me oponho que se abra novos espaços de debate; entretanto, peço a gentileza de informar onde ele está ocorrendo (pode ser outro blog, o Orkut, o próprio CRA/CFA etc.) no “Toca Raul!!!”. Muito obrigado.

Administradores de esquerda (S.Kanitz)

“Em 500 anos de história, nunca tivemos equipes de administradores elaborando programas de governo”

Quando elogiei uma declaração de Dilma Rousseff, em VEJA de 21 de março de 2007, usei a expressão “administradores de esquerda”, que intrigou muita gente. Principalmente aqueles que pensam só existir administradores de direita. Achar que só existem administradores de direita no mundo é um preconceito e um insulto aos 2 milhões de administradores deste país. Para começar, administração é uma ciência neutra, como a engenharia e a medicina. O que não impede que haja administradores de direita, de esquerda e de centro-esquerda, como de fato acontece. Em segundo lugar, há tempos existe no Brasil a carreira de administração pública, que de direita não tem nada.

De fato, administradores de direita são encontrados em empresas controladas por empresários de direita. Mas a maioria dos administradores é de centro e centro-esquerda, embora nem todos se definam assim. São aqueles que administram empresas “sem dono”, são aqueles que administram empresas de capital aberto e democrático, são os administradores socialmente responsáveis, que estão crescendo em número e poder. Foram eles que lutaram pela pulverização do capital, enfraquecendo assim o controlador capitalista, que foi a primeira ação da esquerda de fato vitoriosa. Foram os primeiros a criar fundos de aposentadoria para trabalhadores, que hoje controlam 40% do capital americano. Foram os primeiros a criar planos de saúde aos trabalhadores. Foram os precursores do movimento de responsabilidade social das empresas brasileiras.

No 3° Congresso Internacional de Responsabilidade Social de 1998, havia somente três administradores representando o Brasil. Este seu colunista, o administrador Oded Grajew, criador do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, e Henrique Meirelles, mais um desses administradores (do Coppead, Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração de Empresas da Universidade Federal do Rio de Janeiro) injustamente tachados de ser de direita. Se Meirelles fosse de direita, não aceitaria um cargo no governo do PT, muito menos seria precursor de um movimento de humanização das empresas como esse.

Um dos grandes erros da Revolução Socialista de 1917 foi que ela eliminou, destituiu e expulsou todos os administradores da União Soviética. Dizimaram o segundo escalão da nação. Machiavel recomendava eliminar somente o primeiro escalão. “Em meados de abril de 1918 os administradores haviam sido totalmente eliminados”, orgulha-se um historiador da revolução de 1917, já que eles eram considerados lacaios do capitalismo. Acabaram também com todos os gerentes, supervisores, chefes de seção, bem como contadores e auditores, considerados “espiões” do capitalismo. O restante fugiu a tempo.

Incentivaram a autogestão, o que supõe que administradores não acrescentam valor algum à sociedade. Destruíram os sistemas de avaliação de desempenho, e a produção despencou logo em seguida. Foi esse erro que deu início à desorganização e à corrupção que ainda persiste na Rússia. O erro foi esquecer que o socialismo precisa ser tão bem administrado quanto o capitalismo, algo que muitos intelectuais brasileiros também esqueceram. Muitos nem sequer conhecem um único administrador.

Nos Estados Unidos, a esquerda americana encabeçada por Harvard fazia justamente o contrário. Criava uma escola de administração em 1908 para formar e apoiar o “administrador socialmente responsável”. Incentivaram e deram prestígio àqueles que fariam a oposição ao empresariado capitalista da época.

Infelizmente, o Brasil seguiu a linha da esquerda soviética e não a da esquerda americana. Nossos intelectuais, em vez de apoiar, demonizam o administrador nos seus textos, na mídia, nas novelas, retratando-os como fordistas, desumanos e “lacaios do capitalismo”.

Movimentos sociais que alijam administradores do seu seio estão fadados ao fracasso. Por incrível que pareça, nunca tivemos equipes de administradores elaborando programas de governo, em 500 anos de história. A esquerda raramente coloca administradores de esquerda e centro-esquerda para ser ministros, para administrar este país. Algo que a esquerda brasileira, a mais moderna pelo menos, deveria seriamente repensar.

Uma resposta

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  1. Fernando Stroppa Moreira said, on 3 janeiro, 2009 at 5:58 pm

    Boa noite!
    Eu sou administrador de empresas, e até possuo a carteira do CRA/MG. Creio que, da minha turma de formandos, somente eu tomei essa atitude. Uso-a com todo o orgulho, inclusive fazendo dela meu documento de identificação principal.

    Creio que, ao longo da última década, a profissão de Administrador nunca foi tão desprestigiada, já que nas últimas três crises internacionais desse período os economistas adquiriram uma importância fenomenal, se valendo dos efeitos da globalização e do poder de divulgação da internet, e se colocando como um dos profissionais mais bem conceituados nesse novo panorama mundial.

    Em minha opinião, enquanto os economistas se empenharam em fazer as tétricas previsões econômicas, nós administradores, nos empenhamos em arregaçar as mangas e fazer o cenário acontecer da melhor maneira possível, sempre se valendo dos recursos disponíveis, e nunca trabalhando com cenários utópicos, quase sempre o resultado das previsões dos economistas na última década.

    Concordo com a desunião da classe em si, e isso tem piorado nos últimos 15 anos, haja vista a baixa procura pelos cursos de administração nos vestibulares.

    Na época que fazia faculdade ainda se dava status dizer que fazia o curso, fato que hoje não é mais verdade.

    Creio que também contribui para isso o fato de, nas últimas duas décadas, a qualidade do administrador de empresas ter sido sempre comparada, e colocada em segundo plano, em relação aos engenheiros como sendo os melhores profissionais para realizarem a gestão de uma empresa.

    Para quem conhece a base da administração como ciência de gestão, sabe que não são somente números e as suas análises, que contribuem para o sucesso de uma organização, sendo também muito importantes os itens relacionados à gestão de pessoas, gestão de conhecimento, etc.

    Finalizando, basta vermos onde foram parar nossos melhores administradores. Estão pelo mundo afora, porque tem a qualidade da adaptação e da improvisação muito valorizadas pelo mercado internacional, já que se desenvolveram como profissionais tendo que lidar constantemente com os erros oriundos das previsões e decisões dos péssimos economistas que já passaram pelas cadeiras do governo nas últimas décadas.

    Abraço e que sigamos em frente, nós os administradores.

    Fernando Stroppa Moreira.


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