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Como se locomover em São Paulo

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 1 dezembro, 2008

kombi-metro

Numa cidade como São Paulo, há de ser criativo para se locomover, e não ha mágicas a serem feitas. A opção “ganhar na mega-sena e comprar um helicóptero”, por exemplo, parece boa, mas é impraticável. Ao contrário do que todo mundo pensa, você não pega o seu helicóptero e vai no shopping, depois na manicure, e no caminho para casa pega o Júnior na escolinha e dá uma passada no supermercado. Helicóptero leva o banqueiro, da sede do banco, na av. Paulista, para uma reunião com um cliente em Diadema, e, depois para um almoço em Campinas. Tudo planejado antecipadamente, e devidamente autorizado pelo controle aéreo. Em resumo: na prática, o helicóptero não resolve o problema de transporte de uma pessoa normal em 99% dos casos – sem contar que ganhar na mega-sena para comprá-lo também não é tarefa das mais fáceis.

Condenado a rastejar pelas ruas superlotadas, o motorista paulistano soferá com 1)a morosidade absurda do trânsito; 2)o custo, não só de gasolina, mas principalmente do desgaste prematuro que o carro irá sofrer; e 3)o risco de ser abordado por um trombadinha no semáforo. Blindagem ajuda, mas não resolve: conheço histórias de assaltantes que pegam um transeunte de refém (quem teria coragem de deixar o outro levar um tiro na cabeça?) e roubam o motorista do mesmo jeito. Transmissão automática, iPhone, som de última geração e DVD a bordo deixam o trajeto menos cansativo, mas não economizam tempo. Só há uma solução: apelar para uma combinação de metrô e táxi, mas… E o conforto, onde fica? No táxi, até que tudo bem, a maioria tem ar-condicionado e a frota de S.Paulo é relativamente nova e bem conservada. Mas andar de metrô com conforto exige técnica, como veremos.

Embora novos e limpos, é certo que você não vai encontrar vagão de metrô com carpete alto e banco de couro (nem ar-condicionado), mas dá para viajar com bastante diversão. Primeiro: tente evitar os horários de rush. Mude seu horário de trabalho, encaixe tarefas que podem ser feitas a qualquer hora (ex.: responder e-mails sem urgência) nos horários de pico, e procure entrar no metrô fora dos seguintes horários a)8:00-10:00h; e b)17:00-19:00h. Segundo: leve diversão para o metrô, como um livro ou uma revista, joguinhos de celular e, preferencialmente, um iPod equipado com headphone anti-ruído (vide esse post aqui). Ultimamente, eu tenho usado o iPod para ouvir áudio-livros, mas você pode ouvir música e até rádio (nos trechos acima da terra, óbvio), além de uma cadernetinha para anotações. (Eu falo mais sobre esse assunto nesse post aqui).

Uma outra opção é não levar nenhum gadget, e enfrentar os horários de pico com galhardia. A vantagem? Ouvir a conversa dos outros e ficar reparando nos tipos que habitam o subterrâneo. Que é o que sugere a Sandra Paulsen, no artigo abaixo, publicado hoje no blog no Noblat (tudo bem, ela fala da Suécia, mas é a mesma coisa em S.Paulo)):

Lata de sardinha «cultural»

Esta semana, os jornais locais touxeram notícias sobre a idéia de reduzir os assentos no metrô de Estocolmo, a fim de abrir mais espaço para as pessoas em pé. É que o congestionamento nos meios de transporte público está a pedir soluçöes urgentes.

Apertada feito sardinha em lata, no percurso pro trabalho, eu ia pensando na rodovia projetada para passar a oeste de Estocolmo, a tal da Förbifart, meu assunto favorito nos últimos tempos. Aquela mesma que, aliás, além de tema das Cartas de Estocolmo, foi motivo de programa televisivo recente, em que se apontaram todas as falhas na análise que levaram à falsa conclusão de rentabilidade positiva para o projeto.

Enquanto eu sofria com as agruras do transporte coletivo que tanto defendo, eis que entra no vagão em que eu viajava uma senhora loura e elegante, com um livro na mão.

Eu não podia entender o que ela fazia com aquele livro, apertada e tentando achar um lugar para colocar os pés no chão. Mas ela instalou-se na minha frente e, de pé e comprimida entre todos os corpos e bolsas, continuou calmamente sua leitura.

Não pude evitar estalar numa gargalhada. A senhora levantou o olhar questionador e eu, meio envergonhada pela minha reação espontânea, tive de explicar.

Disse-lhe então que, para mim, só na Suécia as pessoas liam no transporte coletivo daquela forma, apertados, tentando equilibrar-se entre curvas e freadas. A quantidade de livros de bolso que a população sueca lê a cada ano é inusitada. Todo mundo anda com um livrinho na mão e lê no ônibus, no metrô, no bonde e no barco.

E a senhora me respondeu, numa elegância ímpar, aparentemente sem dar bola às chacoalhadas ou a um cotovelo que teimava em ameaçar-lhe a leitura:

– Esta é uma forma de aproveitar o transporte, fazendo algo útil, dando um sentido ao tempo gasto na locomoção. Mas, na verdade, estou pensando em comprar livros em áudio, para ir escutando no mp3 no caminho para o trabalho…

Não há dúvida de que ela tem um bom argumento.

Eu também tenho outro argumento, só que para não ler nem andar com os fones de ouvido. É que, na linha do metrô e no transporte público, a gente tem muito a aprender. Mas, em lugar de ler livros, eu vou «lendo» as pessoas, observando seu comportamento, suas estratégias de sobrevivência, escutando as conversas.

De um jeito ou de outro, lata de sardinha sim, mas sempre aprendendo!

PS: Não resisti. A curiosidade foi grande: comprei meu primeiro livro em mp3. Chama-se «A arte de ser bonzinho», de Stefan Einhorn. Depois conto mais.

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Uma resposta

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  1. Wesley Rocha said, on 24 abril, 2012 at 11:44 am

    Tenho orgulho em dizer: eu sou um dos que leem durante as viagens enlatadas do metro de SP.


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