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Um belo artigo da “escurinha”

Posted in Atualidades by Raul Marinho on 21 novembro, 2008

neguinha

Já foi dito aqui, mais de uma vez, que os artigos da Sandra Paulsen (que é tão afrodescendente quanto eu) publicados no Blog do Noblat são sensacionais. Pois hoje tem um melhor que a média, que segue abaixo. Depois, ousarei fazer um poequeno comentário sobre o trecho destacado em itálico.

Racismo, identificação e empoderamento

Recentemente, li na Veja o artigo de Roberto Pompeu de Toledo sobre a eleição de um negro para a presidência dos Estados Unidos e o «black is beautiful fase 2».

Pompeu de Toledo, brilhante como sempre, falava do efeito que ver as filhas de Barack Hussein Obama na televisão pode ter sobre a menina negra brasileira, que «não sentirá, a rebaixá-la, a diferença de cor».

Entendi o sentido e gostei muito do artigo. Só não gostei muito da escolha da palavra. A diferença de cor não tem por que rebaixar ninguém. Se o faz, é justamente por causa da nossa própria educação, cultura e hábitos, nosso sistema de valores.

Mas, sem dúvida, o melhor de Obama, além da esperança que traz, está no efeito demonstração e identificação. O mesmo efeito, aliás, que se busca através das famosas quotas, as quais tendo a aceitar quando se referem a mulheres, e de cuja adoção discordo quando se referem à raça ou cor da pele (devido à dificuldade para definir quem é negro e quem não é).

A presença de negros, pessoas com deficiências físicas, mulheres ou quaisquer outros grupos menos privilegiados no mercado de trabalho, ocupando espaços na política ou nas altas hierarquias das empresas, «chegando lá», contribui para diminuir o preconceito e a segregação.

E eu acho que se identificar com as filhas do presidente dos Estados Unidos tem o efeito de «empoderamento» que nenhuma quota pode ter.

Eu sou mestiça. De tudo. Ou quase. Tenho sangue branco, negro, índio e libanês nas veias. Graças a Deus, sempre senti orgulho de ter a herança de quatro dos cinco continentes do mundo nos meus gens!

Nunca me senti afetada pelo racismo, até os 22 anos de idade. Aí, em uma curta visita à vizinha Argentina, senti pela primeira vez os custos do «ser escurinha», como me disse lá uma senhora italiana de olhos azuis. E voltei a me chocar depois, no Chile, quando uma médica, numa clínica do Bairro Alto, explicou uma erupção na pele da minha filha como «um problema típico da mistura de raças».

Mas, minha pior experiência de racismo não foram esses dois episódios. Nem foi escutar de colegas de trabalho, na volta de umas férias na praia, com os cabelos ao natural e a pele lindamente bronzeada, que eu «tinha um pé na cozinha».

Nem tampouco surpreender uma vendedora, num shopping center chique de Santiago do Chile, ao sacar meu American Express dourado para pagar as peças de roupa que ela achava que eu estava tentando roubar. Afinal, «escurinha» daquele jeito, eu só poderia estar aprontando alguma. (Só como esclarecimento, já não tenho o tal cartão, aquilo foi um tempo passageiro de ilusão de prosperidade.)

Também já estou acostumada ao desconcerto e outras reações menos discretas das pessoas que me conhecem numa estação do ano e não me reconhecem na outra. Como camaleão, eu mudo de cor, dependendo do sol, e de cabelo, dependendo do humor do dia.

Minha pior experiência de racismo foi cair na besteira de recomendar meu costumeiro «bálsamo para cabelos encaracolados» para a filha de um amigo com cabelos «afro» impossíveis de desembaraçar. Fiquei totalmente sem graça ao ouvir dele, como resposta, que a filha não precisava disso, porque os cabelos dela não eram crespos.

Quero dizer que o pior do racismo são os absurdos que nós, negros ou descendentes, às vezes cometemos para não nos identificar, nem sermos identificados, com outros negros e mestiços.

E é isso que eu espero que Barack Hussein Obama possa ajudar a mudar. Nos EUA, no Brasil, na Suécia, e em todo lugar…

Penso que cotas de qualquer tipo são sempre prejuciais. Se alguém é obrigado a engolir uma mulher, um deficiente ou um negro contra a vontade, mais cedo ou mais tarde esse alguém irá dar o troco. Ou com algum tipo de humilhação pública (mais ou menos velada), ou com menos boa vontade nas promoções, ou de alguma outra forma. É da natureza humana, não tem jeito… Há inúmeras outras maneiras de resolver o problema sem apelar para as cotas, principalmente investindo na educação diferenciada para os segmentos discriminados.

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