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Empreendedorismo fófis

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 21 novembro, 2008

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Ontem, o Jornal Nacional apresentou uma matéria sobre empreendorismo. Entrevistou um pequeno empreendedor que saiu do nada, um mega-empreendedor-magnata (Jorge Gerdau) e, depois, focou no ensino do empreendedorismo nas escolas. Aí começou aquelas entrevistinhas sentimentalóides típicas do JN, e blá-blá-blá até que, finalmente, o entrevistador fez uma pergunta relevante. O fechamento da matéria foi uma entrevista com duas adolescentes bastante empolgadas com a perpectiva de um negócio próprio que, de repente, foram pegas por uma pergunta inesperada “e se não der certo?”. As garotas ficaram desconcertadas, se entreolharam como que perguntando “e aí, a gente responde o quê?”, até que o entrevistador as ajuda (“recomeça?”), e a tensão some (“é….”).

Na matéria escrita, o tema do incesucesso é um pouco mais bem abordado ( “E estão preparados para um eventual fracasso. ‘É um risco muito grande, porque você está botando toda a sua fé nisso’, disse Gabriel Castro, de 12 anos.” e “‘É interessante fazer e quebrar a cara um pouco. Ver que não é tão fácil, nem que tudo vai dar certo. É interessante. Se não der certo, recomeça’, diz Ana Cardim, de 16 anos.”), mas, ainda assim, ficou claro que o fracasso é uma possibilidade remota tanto na cabeça da molecada quanto na dos jornalistas que editaram a matéria e, provavelmente, também na mente de quem lhes ensinou sobre empreendedorismo.

Todo mundo sabe que, no Brasil, a taxa de mortalidade dos novos empreendimentos é altíssima. É óbvio que uma boa educação empreendedora reduziria as chances de uma empresa fechar as portas, mas o ambiente econômico caótico, os juros altos, a carga tributária, etc. permaneceriam, e a chance de falir ainda seria elevada, mesmo com uma educação de qualidade. A pergunta não é “e se não der certo?”, mas “o que vocês farão quando não der certo?”. Se a idéia é recomeçar, é preciso saber falir, de modo a não inviabilizar o recomeço.

Já vi dezenas de empresários competentes irem à falência, e grander parte deles faliu da pior maneira possível: emitindo cheques sem fundos e/ou duplicatas frias, deixando de pagar os direitos trabalhistas para seus funcionários, e ignorando o débito tributário de seus empreendimentos mal sucedidos. O resultado é que o recomeço fica muito, mas muito mais difícil mesmo, se não impossível. O tempo que o sujeito precisa para se viabilizar como empresário novamente é enorme, e é preciso colocar arroz e feijão dentro de casa – resultado: empreendimentos informais, montados em nome de laranjas, pagamento de propinas para fiscais, e assim por diante. Aí, das duas uma: ou a nova tentativa vai à bancarrota de novo (o mais provável, especialmente porque a informalidade aumenta os riscos), ou ela prospera. Se falir, um re-recomeço fica ainda mais complicado; e se prosperar, “legalizar” o empreendimento é quase impossível, e o empresário acaba condenado à informalidade eterna. Ruim para ele, ruim para a sociedade, ótimo para o crime organizado, para a corrupção, etc. Todo empreendedor mais esperto sabe que essa história de “responsabilidade limitada” é ficção. Na prática, o dono do negócio arrisca todo o seu patrimônio pessoal no empreendimento. Também não existe nenhum mecanismo de amparo ao falido no caso dos pequenos (se for um banco ou uma grande empresa, a história é outra, mas isso não vem ao caso agora).

judo

O certo seria focar a educação para o empreendedorismo com a mesma filosofia do judô. Comecei a lutar essa arte marcial aos 6 anos de idade, e lembro que passei meses aprendendo a cair antes de começar a aprender a luta propriamente dita. Ninguém entra numa luta para ser derrubado, todo mundo quer derrubar o adversário, mas, na filosofia do judô, aprender a cair vem na frente do ensino das técnicas para derrubar. Ponto de vista idêntico deveria ser utilizado na educação empreendedora. Uma coisa é quebrar, mas não deixar débitos trabalhistas e tributários nem constar nos bancos de dados de restrições de crédito (ex.: SERASA); outra, é explodir e passar anos recebendo as visitas de oficiais de justiça, sem conta em banco, e usando o cartão de crédito do cunhado. Não estou dizendo isso em tese, acredite.

4 Respostas

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  1. Gui Rodrigues said, on 21 novembro, 2008 at 11:44 am

    Você, querido blogger, tem experiência dos dois lados, como empregado e como empregador. E parece pender para o empreendedorismo. Então eu pergunto:

    Vale meeesmo a pena abrir um negócio?

    Eu costumava pensar que valeria a pena sim, afinal, “ser empregado” já é meio caminho andado pra não ficar rico.

    Hoje em dia, entretanto, tenho opinião diversa. Veja: se a selic está em torno de 14%, só valeria a pena imobilizar o capital, empregar muito esforço próprio, deixar o atual emprego, etc, se a previsão de retorno no longo prazo fosse enorme (no mínimo, mínimo mesmo, 25% líquido do capital investido – e isso se o salário não fosse fazer falta)! Ah! Sem esquecer que, no negócio, acabamos perdendo a “mágica dos juros compostos” que teríamos no investimento financeiro.

    Tudo bem que TER um negócio deve dar uma satisfação imensa, cumprir a função social do capital, criar empregos, etc… Mas, sinceramente, compensa?

  2. Raul Marinho said, on 21 novembro, 2008 at 12:41 pm

    Meu caro, depende do negócio, de quem quer abri-lo, enfim, dos detalhes… Mas, em linhas gerais, a decisão deve ser tomada em função da escalabilidade, conforme explicada nesse post: https://raulmarinhog.wordpress.com/?s=escalabilidade

  3. Rodrigo said, on 21 novembro, 2008 at 4:00 pm

    Raul,

    pegando carona na sua resposta ao Gui, acho que a decisão de abrir ou não um negócio raramente é uma decisão racional, sendo quase sempre decorrente de um impulso, de um sonho ou mesmo da falta de opões.

    Abraço,

    Rodrigo

  4. Scud said, on 21 maio, 2009 at 8:36 pm

    O medo é a maior frustração do fracassado. Fé e Corajem!!! O vencedor não se entrega na primeira batalha da guerra.


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