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Preconceito à brasileira

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 19 novembro, 2008

negro-smiling

Ontem, o sambista brasileiro Dudu Nobre e sua esposa teriam sido agredidos e insultados num vôo da American Airlines de Nova York para São Paulo. O contratempo, de acordo com os artistas, teria ocorrido por causa de posturas preconceituosas de comissários de bordo simplesmente porque a pele do casal era escura. De acordo com os relatos, nada teria ocorrido se ambos fossem loiros de olhos azuis. A se confirmar esta história (que, acredito, seja verídica), trata-se de uma clara demonstração de preconceito racial, como é comum ocorrer nos Estados Unidos – um evento cada vez mais raro, mas ainda hoje frequente. (Para mais detalhes, leia essa matéria do G1).

Apesar de a modalidade de preconceito acima descrita também ocorrer no Brasil, nosso maior problema é a discriminação ao pobre, ao favelado, ao miserável. Um branco banguela, mal vestido e falando errado sofrerá tanto preconceito quanto um negro. O fato do sujeito ser negro, por si só, não chega a ser um problema, o drama são os sinais de pobreza – e a pele negra é apenas um deles. Exploraremos esse assunto mais a fundo amanhã, dia da consciência negra. Por ora, iremos nos focar à seguinte matéria, publicada hoje na Folha, e sua interpretação equivocada do problema:

Renda do negro é metade da do não-negro

Segundo pesquisa Seade/Dieese, negro tem rendimento médio de R$ 4,36 por hora em SP; não-negro recebe R$ 7,98

Causas da diferença são o menor acesso à educação e o preconceito, que impede o negro de subir na carreira, segundo os especialistas

DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

O trabalhador negro (preto e pardo) ganha apenas cerca da metade do que o não-negro (branco e amarelo) recebe na Grande São Paulo. São R$ 4,36 por hora, em média, contra R$ 7,98, segundo pesquisa realizada pela Fundação Seade e pelo Dieese.
Quanto maior o nível escolar, maiores as disparidades. O rendimento real do indivíduo negro que não concluiu o ensino fundamental é de R$ 3,44 por hora, e o do não-negro, R$ 4,10 -uma diferença de 19,2%.
Já na comparação entre duas pessoas que terminaram a universidade o abismo atinge 40%: o negro recebe R$ 13,86 por hora e o não-negro, R$ 19,49. O levantamento foi realizado em 2007, mas os valores tiveram correção monetária até julho.
“Considerando a média de R$ 4,36 por hora e o fato de que o negro escravo do Brasil Imperial contava com a renda indireta da comida e da moradia, pode-se falar que nada mudou”, argumenta o presidente da ONG Afrobras e reitor da Unipalmares (Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares), José Vicente.
No que diz respeito ao desemprego, a situação apresentou pequena melhora nos últimos dez anos. Em 1999, a porcentagem de negros desempregados era de 24,3% ante 16,8% dos não-negros. No ano passado, as taxas estavam em 17,6% e 13,3%. O Dieese diz que a tendência é semelhante no resto do país, porém os números mudam segundo a composição étnica da população local.
“O crescimento da economia do país desde 2004 criou vagas para os negros. Algumas diferenças, entretanto, não se desfazem ao longo do tempo”, diz Patrícia Lino Costa, coordenadora da pesquisa.
O indicador “mais preocupante”, aponta, é o que mostra a distância entre os ganhos dos negros e dos não-negros que fizeram faculdade. O restrito acesso à escola é uma das principais causas da desigualdade no mercado de trabalho, mas, para quem conseguiu superá-la, o preconceito acaba sendo o pior obstáculo, afirma. Uma vez contratado por uma empresa, o trabalhador negro não consegue galgar posições e subir na carreira, daí a sua renda ser inferior à dos brancos que sobem na hierarquia, diz ela.
“Os negros não conseguem sequer entrar em um cargo mais elevado. Entre um engenheiro negro e um branco, certamente prefere-se contratar o branco, achando que o negro não é capaz”, afirma Vicente.
“Na minha opinião, trata-se da dificuldade em lidar com o diferente”, resume Costa. “Existe um perfil de trabalhador que o mercado recebe melhor: homem branco, entre 25 e 39 anos. Ou seja, negros são discriminados, mulheres, homens muito novos ou mais velhos.”
Por isso, de acordo com os especialistas, a redução das disparidades começa na educação fundamental, para que as crianças aprendam desde cedo a lidar com as diferenças. Para Vicente, as cotas em escolas técnicas e nas universidades ajudam, porém deveriam ser uma “verdadeira política de Estado, e não fruto apenas da boa vontade de um grupo de reitores”. As empresas, por sua vez, estão aumentando os seus programas de inclusão, diz Costa.
“O problema é a velocidade do avanço. No Brasil, que se orgulha da sua miscigenação, números como esses de renda e emprego são chocantes. Os EUA, onde até 50 anos atrás um negro não podia beber água no mesmo bebedouro de um branco, acabaram de eleger um negro presidente. Falta seriedade ao nosso governo”, diz Vicente.

Os indivíduos de pele escura podem ganhar menos que os de pele clara, mas isso não significa discriminação racial, por mais que estejamos acostumados a esta interpretação. Como disse acima, aqui no Brasil o problema não é o sujeito ser negro, mas ele ser pobre. Ter “cara de pobre”, de acordo com a nossa cultura, é ser desdentado, ter traços de nordestino, falar errado, vestir-se mal, cheirar a perfume barato, não ter “bons modos”, não falar uma língua estrangeira, desconhecer “coisas chiques” (ex.: outros países, marcas famosas, bairros nobres, etc.), e… ter a pele escura. Repare que a cor da pele é somente um dos fatores de discriminação, não o único e, nem de longe, o mais importante.

Um negro poliglota, hábil no manejo de talheres, vestido de Armani, residindo no Morumbi e andando de Mercedes não seria discriminado aqui tanto quanto seria nos EUA. Sim, há exceções, especialmente entre alguns grupos (p.ex.: famílias vindas de determinados países europeus em épocas recentes), mas o nosso preconceito é, majoritariamente, contra o pobre. É por isso que o engenheiro negro (para usar o exemplo do texto) deverá se aposentar como técnico, enquento o engenheiro branco deverá encerrar a carreira como diretor: porque o negro se parece com pobre, e a firma sabe que não pegará bem para ela mandar um diretor negro para uma reunião com um fornecedor (que se presume igualmente racista). Se esse engenheiro fosse branco, mas banguela, o efeito seria o mesmo – todavia, não há estatísticas de discriminação aos banguelas, nem “dia da consciência desdentada”. O magnífico reitor que me desculpe, mas ele é que está sendo preconceituoso ao achar que as pessoas presumem que “o negro não é capaz”: não se trata de capacidade, mas de “ter cara de pobre” (o que é ainda pior, aliás).

“Dificuldade em lidar com o diferente” é papo de “””cientista””” social que não tem mais o que fazer (ou seja, todos): a questão é muito mais simples de entender, e ao mesmo tempo muito mais complicada de resolver. Eu, apesar de afrodescendente, tenho a pele clara, o nariz fino, e o cabelo liso – tenho “cara de rico”, enfim. E sou discriminado positivamente por negros com muita frequência, que costumam me tratar melhor que a um outro negro; logo, não tem nada de “dificuldade em lidar com o diferente”, mas a pressuposição de que eu seja rico e que o negão ao lado é pobre, nada mais do que isso. Se o negro chegar de Mercedes (e não houver dúvidas de que é ele o dono do carro, e não o motorista), e eu de Monza, ele é que será mais bem tratado. Alguma dúvida?

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3 Respostas

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  1. Nathalia said, on 19 novembro, 2008 at 6:48 pm

    Pois é, cara. Hoje mesmo relatei no meu blog a experiência que tive aqui no RJ ao tentar alugar um filme em uma locadora da Zona Sul, só pq moro no subúrbio do RJ (para além de Zona Norte)… Para vc ter uma noção, sou bolsista integral na PUC-Rio há 3 anos e demoro cerca de 2 horas para chegar até a faculdade todo dia. Desde o meu primeiro semestre, qndo perguntavam onde eu moro, sempre sofri preconceitos de classe. Até meus amigos já fizeram isso, pq na PUC bolsista seria “pior” do que pagante, mesmo que eu tenha passado com mérito e eles não. 😉 Já ouvi coisas do tipo “Conheci uma garota outro dia mt esnobe… e ela é bolsista, heim!”, “Isso aí é coisa de massa burra, suburbano”, “Vc mora em Irajá?? Mas lá não tem cavalo e gente com barrida d’agua andando na rua??”… e por aí vai. hehehe Olha que sou MUUUUUITO branca, de cabelo preto e liso… Realmente no começo me tratam mt bem, mas quando sabem que sou suburbana… a coisa muda de figura!! hehehe

  2. Raul Marinho said, on 19 novembro, 2008 at 7:04 pm

    Pois é Nathalia, mas se vc mudar pro Leblon e conseguir grana para pagar a faculdade, você deixa de ser a bolsista suburbana, e passa a ser tão boa quanto qualquer outro/a. Mas se tua pele for escura, você nunca vai se livrar do risco de discriminação, sacou o drama? Olha o Dudu, ontem… O cara é rico, famoso, e estava na 1a classe de um vôo NY-Rio, e mesmo assim os caras alugam o sujeito! É por isto que a disciminação racial deve ser crime: a punição tem que ser desproporcional à gravidade do delito. É por isso que é preciso desestimular esse tipo de comportamento ao máximo: agredir quem não mereceu ser agredido não pode ser admitido numa cultura que se diz civilizada.

  3. Fernando Blanco said, on 19 novembro, 2008 at 8:27 pm

    Os animais que atacaram o brasileiro devem ser da mesma estirpe daqueles que andaram (e andam) planejando assassinar o novo “CEO” dos EUA, Mr. Obama, que é mulatinho, como diríamos aqui.
    Estamos evoluindo na questão racial – lá e aqui -, mas não se acaba com centenas de anos do mais deplorável ato contra o ser humano (a escravidão) em pouco tempo. Em poucas gerações teremos limpando este pecado coletivo da nossa civilização.
    E eu concordo com o Raul e com a Nathalia. A questão social no Brasil fala muito alto…
    Abraços


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