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Cabeça de bacalhau

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 11 novembro, 2008

cabeca-de-bacalhau

Em quase todas as minhas palestras, acabo tratando do assunto “altruísmo recíproco” – que, ademais, é o tema central do meu livro “Prática na Teoria”. E, invariavelmente, surgem perguntas sobre o altruísmo legítimo. Afinal, “fazer o bem sem esperar nada em troca” existe mesmo? Leia o artigo abaixo, do Carlos Heitor Cony, e avalie se o que o autor fez (ou disse fazer) é, de fato, um ato altruísta, como ele dá a entender. Na minha opinião, não é – e o altruísmo legítimo permanece tão incógnito quanto a cabeça do bacalhau (apesar da foto acima).

Goiabada

Goiabada tinha cara de goiabada mesmo. Fica difícil explicar o que seja uma cara de goiabada, mas qualquer pessoa que se defrontava com ele, mesmo que nada dissesse, constataria em foro íntimo que Goiabada tinha cara de goiabada.
Eu o conheci há tempos, quando jogava pelada nas ruas da ilha do Governador. Ele se oferecia para a escalação, mas quase sempre era rejeitado. Ruim de bola, era bom de gênio. Quando a bola caía nos quintais vizinhos, era dele a missão de pular os muros, enfrentar os cachorros e ouvir os desaforos do dono da casa.
Só entrava em campo quando havia uma vaga entre os que se julgavam titulares. Escalavam Goiabada para o gol, levava porradas homicidas. Com Goiabada no gol, podia-se encher o pé, valia tudo.
Perdi-o de vista, o que foi recíproco. Outro dia, parei num posto para abastecer o carro e um senhor idoso me ofereceu umas flanelas, dessas de limpar pára-brisa. Ia recusar, mas alguma coisa me chamou a atenção: dando o desconto do tempo, o cara tinha cara de goiabada. Fiquei indeciso. Não podia perguntar se ele era o Goiabada, podia se ofender, não havia motivo para tanta e tamanha intimidade.
Se era o mesmo das peladas, poderia me reconhecer e aí teríamos a confraternização, um bom reencontro, saberia o que ele havia feito ou deixado de fazer. Na dúvida, preferi não arriscar.
O tanque do carro já estava cheio, e o novo Goiabada, desanimado de me vender uma flanela, ia se retirando em busca de freguês mais necessitado. Perguntei quantas flanelas ele tinha. Não sabia, devia ter umas 40, não vendera nenhuma naquele dia. Comprei-lhe todas, ele fez um abatimento razoável. E ficou de mãos vazias, olhando o estranho que sumia com suas 40 flanelas e nem fizera questão do troco.

2 Respostas

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  1. Gui Rodrigues said, on 20 novembro, 2008 at 5:12 pm

    Os textos deste blog são excelentes. Sinceramente: obrigado! Acontece que isso acaba aumentando o meu receio de – na qualidade de “leitor assíduo desde ontem” – acabar fazendo um comentário impertinente…

    Pronto, parei de me fazer de rogado, então passo ao comentário:
    E se nós tomássemos, no caso, a categoria altruísmo como “o afeto pelo outro, demonstrado no plano fático por meio de atos que não exijam contraprestação proporcional, de modo a ensejar situação amplamente favorável ao favorecido”? Imagino que se partíssemos desse referencial, poderíamos tranquilamente concluir que o ato foi altruísta.

    Tudo isso pra dizer que não compreendi a tua recusa em aceitar a atitude como altruísta.

    Abraços!

  2. Raul Marinho said, on 21 novembro, 2008 at 12:56 pm

    “Altruísmo legítimo” (de acordo com o que eu escrevo) é quando você proporciona alguma vantagem para um terceiro e não recebe nenhum benefício em troca. O que não é o caso da definição que vc citou.


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