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Nepotismo

Posted in Ensaios de minha lavra, Evolução & comportamento by Raul Marinho on 29 outubro, 2008

Originalmente, o nepotismo se referia aos privilégios concedidos aos parentes do papa, mas esse é um assunto bem mais antigo que os papas ou mesmo que a religião católica. Quer saber mais? Leia o artigo abaixo, originalmente publicado no site do ICED:

Poucos assuntos são tão inflamáveis quanto os relacionados às relações de parentesco, e não é para menos: nos milhões de anos de nossa história evolutiva, a habilidade em influenciar o sucesso dos nossos aparentados foi decisiva para o sucesso da nossa própria espécie. A inclinação pelo favorecimento de parentes é um traço comportamental presente na maioria dos animais sociais, de acordo com a “Kin Selection” (“Seleção pelo Parentesco”, ou, mais corretamente, “Seleção de Consangüíneos”, já que se trata especificamente do parentesco genético), uma teoria desenvolvida no departamento de zoologia de Harvard. Segundo William Hamilton, o autor desta teoria, cooperar mais com indivíduos mais proximamente aparentados influencia diretamente as chances de perpetuação dos genes do próprio indivíduo. Considerando que eu compartilho 50% de meus genes com meu filho, se eu aumento as chances de sucesso dele, eu estou ajudando metade do meu patrimônio genético a se perpetuar na população. Mais do que o sucesso específico do meu filho, isoladamente, é ainda mais interessante que ele produza uma legião de filhos (meus netos), que herdarão 25% dos meus próprios genes. Milhares de gerações de indivíduos que apresentavam ou não apresentavam este comportamento acabaram por selecionar aqueles mais hábeis em influenciar positivamente no sucesso dos mais proximamente relacionados. Ou seja: este foi um comportamento que maximizou da taxa de sucesso em termos de “inclusive fitness”.

Apesar de grande parte dos cientistas sociais achar que comportamentos cooperativos entre pais e filhos devem ter sido elaborados por algum sábio da antiguidade – que, em um retiro espiritual nas montanhas do Tibet, teve o genial insight de instituir normas sociais sobre as relações cooperativas entre aparentados –, entendo que a explicação evolucionista é bem mais sensata. Como se não bastasse este ser um comportamento encontrado em qualquer cultura de qualquer época, ele também é amplamente difundido entre animais não-humanos. Apesar disso, ainda persiste uma certa dificuldade em enxergar questões relacionadas à seleção pelo parentesco (lato sensu) pela ótica evolucionista, por mais evidentes que sejam. Consideremos um dos exemplos mais evidentes e atuais sobre discussões relacionadas ao tema: o debate sobre o nepotismo, que vem consumindo oceanos de tinta dos jornais ultimamente.

Políticos de diferentes partidos e convicções ideológicas têm sido flagrados contratando parentes na administração pública. Entrevistados, normalmente não se lembram dos fatos, mas quando confrontados com documentos que comprovam o nepotismo, costumam justifica-se argumentando em três grandes linhas de raciocínio:

-“Meu filho é um dos mais competentes profissionais da área, por que não aproveitar sua capacidade na construção de um Brasil melhor?”;

-“Seria um preconceito e uma violação ao principio constitucional de que todos são iguais perante a Lei não contratá-lo”;

-“É dever do pai – se este for um bom pai – agir para que seu filho tenha as melhores oportunidades de crescimento profissional e financeiro”.

O discurso do tipo 1 é dos mais frágeis. Seria algo extraordinário o fato de que um político, recém alçado, digamos, ao Ministério da Saúde, ter, coincidentemente, um filho pós-doutorado em saúde pública. Coincidências acontecem – e, justamente por isso, trata-se de uma coincidência, caso contrário seria rotina –, mas são raras, raríssimas (e improváveis). A segunda linha de argumentação tem uma lógica positivista impecável. Tão impecável que eu sugiro que se faça um bingo para escolher os ocupantes de cargos públicos, evento em que todos poderiam se inscrever, inclusive os filhos de políticos. Será que os políticos topariam? A terceira – aliás, a mais in no momento – está baseada no princípio da seleção pelo parentesco (strictu sensu), mesmo que seus principais defensores não sejam versados em Evolução ou Etologia. Paradoxalmente, os maiores defensores da seleção pelo parentesco de hamilton aplicada à gestão pública são criacionistas, mas esta é uma outra história…

Quando um político diz ser dever de pai contratar seu filho, ele está usando um discurso sensato para a opinião pública: o homem comum também faria o mesmo se pudesse. E a sensatez deste argumento reside na lógica evolucionista, mesmo que também seja uma verdade o fato de que o nepotismo é uma prática eticamente condenável e perniciosa à sociedade. Ao meu ver, o grande problema no combate ao nepotismo não é a edição de leis que o impeçam, mas como forçar alguém a agir de forma contrária a comportamentos evolucionariamente eficientes.

Já se tentou apelar para práticas anti-nepotismo exóticas, como na China imperial, que restringia cargos públicos para eunucos, mas isso também não funcionou, já que eunucos podem não ter filhos, mas têm sobrinhos, tios, primos… Na minha opinião, o mais sensato a fazer é dar ampla publicidade aos atos nepotistas, divulgando ostensivamente quem assim age, quantas pessoas contrata, quanto ganha cada um dos contratados etc. Na realidade, a grande arma para combater o nepotismo é a própria teoria evolucionista. Se a cooperação entre parentes é um comportamento evolucionariamente eficiente, também pode ser adaptativo agir de maneira contrária em determinados casos. Se o comportamento nepotista de um indivíduo for amplamente divulgado e combatido, pode ser adaptativo não ser nepotista, pois isso minaria a coesão do grupo, e prejudicaria o próprio beneficiário do nepotismo. Ou seja: a publicidade do comportamento nepotista pode funcionar como uma punição para quem assim age, tornando o comportamento anti-nepotista mais vantajoso em termos de estratégia evolutiva. A Evolução, ao contrário da reputação de teoria “fatalista” alardeada pelo senso comum, na verdade nos traz novas estratégias para resolver velhos problemas.

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