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A madroeira da sorte

Posted in Atualidades, Ensaios de minha lavra, Uncategorized by Raul Marinho on 13 outubro, 2008

Ontem foi comemorado o dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, “padroeira do Brasil” – evidentemente que uma santa não pode ser padroeira (que é uma palavra que nem deveria admitir forma feminina), mas tudo bem, é isso o que todo mundo diz. Pormenores da língua à parte, o fato é que, diferente de Santo Antônio, São José, São Paulo ou São Pedro, santos que representam pessoas supostamente reais, ou mesmo a própria Santa Maria, que teria sido a mãe de Jesus, Nossa Senhora Aparecida nunca foi uma pessoa de carne e osso, mas sim algo que apareceu. A Igreja entende que a santa mais brasileira de todas é, na realidade, uma escultura com poderes sobrenaturais, que vem propiciando a ocorrência de milagres desde o momento em que foi encontrada por acaso, no leito de um rio, por pescadores. De acordo com a história oficial, houve três ocorrências inusitadas: 1a)A rede de pesca traz o corpo de uma imagem de Nossa Senhora, sem a cabeça; 2a)Ao se jogar a rede novamente, encontra-se a cabeça respectiva; e 3a)Os pescadores passam a ter uma sorte absolutamente incomum na pesca. Sem questionamentos sobre a verdade histórica deste relato, nem ao significado religioso da fé mais legitimamente brasileira, é inegável a correlação entre a santa e a sorte.

Em primeiro lugar, achá-la foi um capricho do acaso – e achar as duas partes da imagem em dois lances de rede diferentes torna o evento ainda mais improvável (algo como jogar uma moeda para cima e sair cara 20 vezes seguidas). Se havia alguma dúvida de que a suposta coincidência seria, em verdade, um milagre, depois que os pescadores relatam a súbita melhora no desempenho na pesca (um espécie de multiplicação dos peixes com uma pequena diferença de contexto) , não há mais nenhuma dúvida de que se trata de um fenîomeno sobrenatural. Os milagres subsequentes – eu fui à Basílica em Aparecida-SP e vi o número deles – comprovam o poder do ícone, daí a sua popularidade. A wikipedia (vide link acima) relata dois milagres a ela atribuídos: o da mulher cega e o do fazendeiro (ambos os links não apresentam maiores detalhes), e a devoção à santa vem sendo incentivada por vários papas, incuindo o Papa João Paulo II, o Papa Paulo VI e o Papa Pio XII (e como papas são infalíveis de acordo com o dogma da Igreja, então a santa é milagrosa mesmo – pelo menos para os católicos).

Se o entendimento da Igreja Católica estiver correto, além de “padroeira do Brasil”, Nossa Senhora Aparecida também seria um ícone da sorte, do improvável, dos fatos que ocorrem apesar de serem materialmente impossíveis de ocorrer: a “madroeira da sorte”, enfim. E como um dos objetivos deste blog é discutir a incerteza, ela fica, também, nomeada madroeira desta humilde publicação.

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