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Escalabilidade

Posted in Ensaios de minha lavra by Raul Marinho on 8 outubro, 2008

Para o pessoal da área de TI, que é quem mais usa esse termo, escalabilidade é isso. Mas aqui, essa palavra difícil de pronunciar terá um sentido um pouco diferente, pois vamos utilizá-la para entender escolhas profissionais (de trabalho).

Uma profissão altamente escalável é a de cantor popular, como pagode, axé, sertanejo etc. O grupo É o tchan! vendeu mais de 10 milhões de discos, fazendo com que Carla Perez, Cumpadi Washington, Jacaré e outros ficassem muito, muito ricos. Entretanto, a grande maioria dos cantores populares do país tem renda próxima de zero, quando não é negativa, já que esse pessoal muitas vezes paga a gravação de seus CDs com dinheiro do próprio bolso. Profissões escaláveis têm a característica de apresentar alta assimetria na renda: alguns poucos ganham muito, enquanto a maioria não ganha nada. Escritores de auto-ajuda, jogadores de futebol, atores de cinema, marketeiros políticos… Todas essas profissões são altamente escaláveis.

Prostitutas, acupunturistas, funcionários públicos, dentistas, e consultores que cobram por hora, por outro lado, são profissionais que exercem atividades não-escaláveis. Uma prostituta, por exemplo, só atende um cliente por vez (bem… às vezes mais que um, mas deixa pra lá), ela não tem como vender a 10 milhões de clientes, como o Cumpadi Washington. Profissões não-escaláveis são bem menos assimétricas em termos de renda: Se pegarmos os extremos da Odontologia, veremos que os dentistas do pelotão de elite (os 5% mais bem remunerados) ganham 10 ou 20 vezes mais que os da base da pirâmide, mas a diferença não é tão absurda como a dos jogadores de futebol.

Então, o que é melhor? Ser massagista ou ator? Tentar ser o novo Duda Mendonça ou prestar concurso para ser cartorário no Fórum? Na média, os massagistas e os cartorários se darão muito melhor que os atores e os publicitários; por outro lado, todos têm a chance de ser um novo Tom Cruise ou Ronaldinho. Como em tudo na vida, o caminho do meio é sempre o melhor. Quer ser músico? Ótimo! Estude música na USP, preste concurso para ser professor na mesma faculdade depois de formado, e siga tentando emplacar algum sucesso nas rádios. Não sei se você vai arrebentar de fazer sucesso (embora possa fazer), mas certamente não vai passar fome como a maioria dos músicos que tentam viver da profissão. O mesmo raciocínio é aplicável a profissões mais convencionais, como a advocacia.

Você pode ser um advogado não-escalável, fazendo advocacia de partido (onde o cliente paga uma quantia fixa por mês), ou cobrando por hora. Digamos que você cobre R$500/hora e trabalhe 10 horas/dia, 30 dias por mês: R$150mil/mês – sem dúvida, um ótimo salário. Seu custo fixo é de uns R$5mil, e a tributação uns 15-20% (digamos, 10% para “roubar para mais”): R$130mil/mês, ou R$1.560mil/ano, uma renda quase equivalente ao mítico UM MILHÃO DE DÓLARES no câmbio pré crise.  Um valor respeitável em qualquer lugar do mundo, ganhar US$1milhão ao ano é sinal de que o sujeito é muitíssimo bem remunerado e pertença à elite da elite da advocacia não-escalável. Mas para um advogado escalável, o céu é o limite. Existem, em todo o Brasil, ações tributárias bilionárias, com honorários de sucesso na casa das centenas de milhões de dólares ao ano. A propósito, não é só a área tributária que proporciona ganhos tão espetaculares, e praticamente todas as outras variantes da prática profissional do Direito também o são, o que diferencia é o modelo de negócios – e isso vale para outras profissões liberais. Na Medicina também existem alternativas mais ou menos escaláveis, ao gosto do freguês. Uma delas é lutar para ser O melhor, ou na pior das hipóteses estar empatado em primeiro lugar com mais alguém(ns). Se o Bill Gates tiver um infarto, ele não vai procurar o quinto cardiologista mais competente do mercado, só interessa o #1, ou o #2 se houver alguma dúvida se não seria ele, de fato, o primeiro da lista. Mesma coisa com o George Soros, os príncipes árabes (a maioria), os atores principais dos blockbusters, os atletas da NBA – por acaso, eles mesmos beneficiários de atividades escaláveis. No fim do dia, você vai ver uma fila na porta do Dr. Maravilha que dobra o quarteirão, composta basicamente por multimilionários dispostos a pagarem fortunas – no que deverão ter sucesso, btw.

Na verdade, a principal decisão econômica que se toma ao escolher uma profissão não é o curso nem a faculdade que se faz, mas a estratégia a ser adotada. Uma coisa é fazer Direito e se tornar servidor público, e outra, completamente diferente, é ser advogado trabalhista de estrelas do showbusiness.

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