O pós-crise

Há um ano, publiquei um artigo no portal administradores.com sobre a boletite, que é o consumismo epidêmico por que passávamos na época, logo antes da crise econômica atual chegar para ficar. Na verdade, o primeiro estágio da crise, o problema dos subprimes, já estava acontecendo, e eu dizia naquele artigo que a sua causa era justamente a boletite que impelia as pessoas a consumir casas cada vez maiores e mais caras.
Alguns meses depois, dei uma palestra sobre o assunto, e propus uma estratégia de combate à boletite baseada numa mudança radical na política tributária das pessoas físicas, hoje focada na renda das pessoas. A idéia é desonerar a parte da renda direcionada à poupança e sobre-onerar a parcela destinada ao consumo, o que faria com que a sociedade ficasse mais saudável em termos econômicos e evitaria a ocorrência de uma corrida consumista insana, a causa original da atual crise econômica. Logo depois, a crise econômica se agravou, o Lula saiu falando para todo mundo comprar TV de plasma a prestação, e ficou impossível continuar com esse debate.
Agora, às vésperas da reunião do G-20, o combate à boletite está voltando ao centro da cena. Veja a coluna do Clóvis Rossi de hoje (logo abaixo). Volto a esse assunto depois.
Além da bruma da crise
Por fim, na vertigem da crise, algumas vozes do establishment começam a olhar além e a tentar adivinhar -ou desejar- como seria o mundo pós-crise.
Uma das vozes atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva e diz, em artigo ontem publicado pelo “Le Monde”, que, “mais grave que uma crise econômica, estamos diante de uma crise de civilização. Ela exige novos paradigmas, novos modelos de consumo e novas formas de organização da produção”.
Concorda com ele relatório da Comissão de Desenvolvimento Sustentável, instituto independente de assessoria do governo britânico, que procura separar “prosperidade” de “crescimento”. O texto pede aos governos para “desenvolver um sistema econômico sustentável que não se apoie em um consumo sempre crescente”.
Reforça Malloch Brown, o principal negociador britânico para a cúpula do G20: “Veremos [após a crise] uma recalibrada no estilo de vida, toda uma nova visão de futuro de um mundo menos conduzido pelo consumismo, talvez com o acréscimo de um mundo no qual o poder tenha sido algo mais bem distribuído”.
Fecha o circuito Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio e um funcionário internacional ao qual se é obrigado a prestar atenção pela qualidade de suas análises: “O modelo de capitalismo que conhecemos nos últimos 50 anos não se sustenta. A questão fundamental é saber se há que readaptar, arrumar ou reformar o capitalismo ou se é preciso ir além, ser mais profundo nas mudanças e ir mais fundo nos retoques”. Completa: “Creio que não temos que nos satisfazer intelectualmente com o horizonte atual do capitalismo”.
Bem-vindos todos ao clube do “outro mundo é possível”. Mas palavras só não bastam. Vocês que são todos “insiders”, que tal reconstruir a civilização?
O poder do Marolinha

No começo da atual crise econômica mundial, Lula minimizou-a com a célebre frase da marolinha. Dúzias de declarações otimistas depois, o resultado é que o Brasil é o segundo país mais otimista do mundo quanto à crise – veja mais aqui, no G1. O fato é que, mais uma vez, o Lula deu mostras de seu poder de persuasão. Não é à toa que o hómi está com quase 80% de aprovação…
E a marolinha… Sifu!

Praticamente não houve novos posts na semana passada, pois nosso magnânimo e insubstituível editor esteve ausente e impossibilitado de publicar novos textos. Retomamos nessa semana com boliviano gás.
Uma nota, porém, não pode deixar de ser dada: a do “sifu”. Como é de amplo e geral conhecimento, Noço Guia teve mais uma diarréia oral num pronunciamento público e, para explicar por que usara a matáfora da marolinha no começo da crise, apelou para outra, ainda mais infeliz. Disse o presidente que, se médico fosse, teria duas opções ante uma grave enfermidade de seu paciente: enrolá-lo com chavões, ou simplesmente dizer “sifu”.
Em primeiro lugar, um bom médico não usaria nem a estratégia enganadora nem a grosseira. Um bom médico exporia a situação como ela é, de fato, com sobriedade e profissionalismo. “Olha, o resultado da biópsia foi positivo e o senhor tem um tumor no fígado. Nós podemos usar tais tais e tais tratamentos, e de acordo com a evolução do quadro, mantemos ou mudamos a estratégia”. Pronto!!! Não é preciso mentir para o paciente nem agredi-lo com um “sifu”, basta ser profissional. Agir assim, entretranto, parece estar fora do alcance intelectual do Noço Guia, que só enxerga duas opções: mentir ou agredir.
Depois, é preciso avaliar se o Presidente da República acertou ao usar a palavra “sifu” – forma reduzida de “se fodeu”, ou seja: você foi abusado sexualmente (como a palavra é usada majoritariamente para homens heterossexuais, o sentido usual é o de que um homem foi penetrado pelo ânus contra a sua vontade). Apesar deste ser um termo utilizado por crianças em todo o Brasil, o emprego de termo de tão baixo calão por um Presidente da República tem um significado totalmente diverso. Se o ocupante do cargo mais importante do país pode falar assim, quando eu estiver no balcão de atendimento do INSS ou da Receita Federal, eu também poderei mandar o fiscal “ir se foder”; se for abordado por um policial, eu também poderei dizer a mesma coisa; e se tiver uma discussão com um Ministro ou com o próprio Presidente, a mesma coisa.
Já que a informalidade é a norma, uma funcionária pública poderá dar expediente num Tribunal com sua calça Gang que usou no baile funk na noite anterior; os deputados poderão ir ao Congresso de bermudas, chinelos e sem camisa; e os juízes do Supremo poderão redigir despachos mais ou menos assim: “Nego provimento ao recurso do réu, e que ele se foda na cadeia por 5 anos”. É isso o que queremos para a nossa sociedade?
Na verdade, um crescimento modesto do PIB, um aumento da taxa de inflação, de juros ou da dívida pública são problemas menores, que podem ser resolvidos em alguns anos. O grande mal que um país pode enfrentar é a corrosão de suas tradições, de seu senso de moral, do que é certo e errado, enfim. Se acharmos normal um Presidente da República falar “sifu” em público, aí sim teremos um problema. Ou melhor: nós já temos um problema.
E a marolinha, hein!? Já tá dando prá pegar jacaré.
Pelo menos é o que diz o Alexandre Schwartsman.
Mas não dê bola para o Alex, não… Ele é um economista a serviço do capital estrangeiro. Seja patriota e acredite em nosso presidente: corra já prá comprar sua TV de plasma em 120 parcelas neste Natal, que vai ser o melhor da história desse país.
E aí presidente? Como você explica isso?
Enquanto o nosso presidente Luís Inácio Marolinha da Silva passeia pelo mundo em seu Airbus, nossas crianças continuam morrendo: o Brasil é o 3o pior país em mortalidade infantil na América do Sul, só ganhando da Bolívia e do Paraguai. O que seria inaceitável é, nesse caso, um absurdo, vindo o Lula de onde veio (filho de uma mãe que “nasceu analfabeta”, ele mesmo poderia ter morrido ainda bebê). Mas tudo bem, tenho certeza que o PAC vai resolver também este problema, e que em 2010 nosso país apresentará índices de mortalidade infantil escandinavos.
Aijizuiz…
De acordo com Cristiana Lôbo, do seu blog no G1:
Os brasileiros devem realizar o sonho da casa própria; não devem deixar passar o momento mágico de ter um carro; uma tv de plasma, que todo mundo quer, agora; o seu computador, e até o primeiro sutiã… – Lula, hoje.








