Tremendão
Eu, particularmente, adoro o trema. Acho-o elegante como a ênclise, sem a emfáfia mesocliana. E, como veremos, até quem não gostava dos olhinhos de cobra (caso do L.F.Veríssimo, como atesta esse artigo do blog do Noblat) não queria que ele fosse embora…
Müller e Anaïs
Estou me sentindo culpado. Nunca usei o trema. Desde que aprendi a escrever – sem piadas, por favor – , ignorei o trema. Quando comecei a escrever, por assim dizer, em público, continuei a ignorá-lo. Os revisores, se quisessem, que acrescentassem os tremas onde cabiam. Por vontade própria, nunca botei olhos de cobra em cima de nenhum “u”. Nem mesmo quando o computador, com sua conhecida aversão à informalidade gramatical, sublinhava a palavra em vermelho para me avisar que estava faltando o trema, burro! Se dependesse de mim o trema não existiria.
Mas, com a nova reforma ortográfica, o trema vai desaparecer. E eu fiquei com remorso. Talvez tenha sido injusto com ele. O trema, afinal, tinha uma história. Tinha uma razão para existir, mesmo modesta. Tinha uma função, mesmo dispensável. E eu o tiram sem dó, coitadinho. Como me penitenciar?
Esta pode ser a última oportunidade que terei para usar o trema e compensar todas as vezes que o omiti por pura implicância. A reforma já está sendo implantada, os pontinhos marcham, dois a dois, para o esquecimento, tenho pouco tempo para me reabilitar. Mas como?
Quase todas as matérias que li sobre o fim do trema citavam que ele só continuará sendo usado em nomes estrangeiros como Müller e Anaïs. Müller e Anaïs! Uma história para Müller e Anaïs, rápido.
Uma história com seqüência, conseqüência, eloqüência…
Talvez uma história policial: a dupla Müller e Anaïs atrás de delinqüentes.
Ou uma história de excessos eqüestres levando ao uso freqüente de ungüentos.
Ou uma simples cena doméstica. Müller e Anaïs na cozinha do seu apartamento, eqüidistantes de um pingüim em cima da geladeira. Müller acaba de chegar da rua.
- Anaïs, esse pingüim…
- Quequi tem?
- Eu não agüento esse pingüim, Anaïs.
- Ele está aí há cinqüenta anos e só agora você nota?
- Cinqüenta anos, Anaïs?
- Está bem, cinco. Um qüinqüênio.
- Um qüinqüênio?
- Um qüinqüênio. E vai ficar aí outro qüinqüênio.
- Não se usa mais pingüim em geladeira, Anaïs. É uma coisa do passado. Como a crase.
- Pois eu gosto e está acabado. Trouxe a lingüiça?
Mack-Criacionismo
Do Marcelo Leite (um jornalista de ciência que não gosto, mas que de vez em quando dá uma dentro) na Folha hoje:
Criacionismo no Mackenzie
Colégio prega idéia de origem religiosa em aula de ciências
O Instituto Presbiteriano Mackenzie abrange uma universidade e uma escola das mais tradicionais de São Paulo. Só na unidade paulistana do colégio há mais de 1.800 alunos. Seu campus no quarteirão ladeado pela avenida da Consolação e pela rua Maria Antônia é um ponto de referência na cidade.
Talvez poucos se dêem conta de que se trata de um estabelecimento confessional de ensino. Isso está bem explícito no nome da instituição, porém. Agora o Colégio Mackenzie é também, oficialmente, criacionista.
Criacionismo é a doutrina segundo a qual Deus criou o mundo com todas as espécies que existem hoje. Isso contradiz a explicação darwinista para a diversidade biológica, fruto da evolução por seleção natural. Inúmeras observações comprovam postulados centrais do darwinismo, como a ascendência comum (todas as espécies provêm de um ancestral único).
O fato de o DNA ser a molécula da hereditariedade em todas elas é a melhor prova desse princípio. Os primeiros seres vivos da Terra “inventaram” essa maneira de transmitir características de uma geração a outra, há cerca de 4 bilhões de anos, e ela se perpetuou desde então.
A direção do Mackenzie não nega os avanços da biologia trazidos pelo darwinismo, mas acredita que é preciso opor-lhe o contraditório. Em outras palavras: ensinar a seus alunos que há outra explicação, de fundo religioso, para a origem das espécies.
Quase 200 anos depois de Charles Darwin (1809-1882) e 150 após a publicação de sua grande obra, “Origem das Espécies”, os educadores do Mackenzie aceitam só o que chamam de “microevolução” (organismos se adaptam a novas condições do meio).
Não, porém, a “macroevolução” (tal adaptação não seria suficiente para originar novas espécies, em verdade criadas por Deus).
A doutrina criacionista não é apresentada somente nas aulas de religião, mas igualmente nas de ciências. Em 2008 foi usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1, ainda em fase piloto, uma série de apostilas traduzidas e adaptadas de material da Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI, na abreviação em inglês), com sede no Colorado, nos Estados Unidos.
A coleção utilizada com crianças de 6 a 9 anos se chama Crescer em Sabedoria. Na capa do volume do terceiro ano estava estampado “Ciências – Projeto Inteligente”.
É uma alusão ao argumento do “design inteligente”: a natureza é tão complexa e os organismos tão perfeitos que só o desígnio de um arquiteto (Deus) pode ter sido responsável por sua criação. “Quando Deus formou a Terra, criou primeiro o ambiente. Criou elementos não vivos, como o ar, a água e o solo. Depois, Deus criou os seres vivos para morarem nesse ambiente”, afirma-se na pág. 10. O item 2.1 do volume se chama “O plano de Deus para os ambientes”.
Pode ser lido na pág. 17: “Deus projetou as cores e as formas de cada animal e o colocou em um ambiente que era perfeito para eles [sic]. Quando um animal usa suas cores ou formas para se esconder em seu ambiente, dizemos que ele está camuflado”.
A direção do Mackenzie justifica a omissão da evolução por seleção natural, nessa apostila de ciências, dizendo que se trata de conteúdo previsto apenas para o ensino fundamental 2. Além disso, o material da fase piloto de 2008 foi revisto e a ênfase religiosa, atenuada, mas não excluída.
Darwin, todavia, continua de fora.
Só uma dúzia de pais reclamou.
MARCELO LEITE é autor de “Ciência – Use com Cuidado” (Editora da Unicamp, 2008) e de “Brasil, Paisagens Naturais -Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros” (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia (cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br).
E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br
Os BRICS e o jogo
Hoje, a tradicional crítica ao texto do Clóvis Rossi (na sua coluna da Folha) virá embaixo do texto do próprio autor, para facilitar:
Deixa os RICs p’ra lá
Jim O’Neill, economista da Goldman Sachs, inventou o acrônimo Bric ( Brasil, Rússia, Índia e China), que seriam as potências mundiais em 2020.
Outro dia, O’Neill admitiu ter se equivocado ao fazer outra previsão, a de que haveria o famoso “decoupling” (descasamento) entre os países ricos e os emergentes na crise global. Ora, se foi incapaz de enxergar o que aconteceria meses à frente, quem pode levar a sério uma previsão sua feita para 20 anos à frente, já que o termo Bric foi cunhado em 2001?
Não devemos. Previsão é coisa para pai-de-santo, não para economistas, como cansamos de falar aqui. (Mas, apesar disto ser verdade, o restante do texto não fica automaticamente válido, como veremos).
Quem pode? Fácil de responder: o governo brasileiro, que, todo pimpão, comemorou primeiro uma reunião ministerial dos Brics e, agora, uma futura cúpula.
Agora, o CR já começa a deturpar os fatos… As tais reuniões dos governos não existem para comemorar previsões, mas para deliberar ações e combinar estratégias.
Nada contra reuniões com quem quer seja. Mas é uma imensa bobagem achar que há alguma comunhão entre os quatro países só porque uma entidade financeira com interesses em todos eles viu numa bola de cristal embaçada um grande futuro para o grupo.
Imensa bobagem é achar que combinar ações entre países importantes como os BRIC é superficial, e que os dirigentes dos governos de Brasil, Rússia, Índia e China se juntaram só para debater (comemorar?)as previsões de um banco.
Não há nada em comum, histórica, geográfica, social, cultural e institucionalmente falando, entre os Brics.
E daí? O que importa é que o poder de barganha dos 4 países combinados faz frente aos EUA, à CE e ao japão. O resto é supérfluo.
Pior para o Brasil: é, de todos, o que tem uma situação institucional melhor e mais sólida. Logo, ser apontado como “companheiro” de países com problemas institucionais graves pode não ser um bom negócio.
Interessante que o nobre comuni… quer dizer, colunista, acha super-fófis realizar acordos com a Venezuela e com Cuba que, como todos sabem, são paraísos institucionais.
Sobre a Índia, basta reproduzir editorial de ontem desta Folha: “Violência sectária, conflitos de fronteira, atentados terroristas e assassinatos de políticos marcam os 51 anos de história da Índia independente”.
Se não se pudesse fazer acordos econômicos com países conflituosos, teríamos que riscar os EUA da nossa lista também.
A Rússia é uma ditadura com verniz democrático leve e um ambiente de negócios em que só prosperam os incondicionais do Kremlin.
A China é uma ditadura. Ponto.
Volto ao exemplo venezuelano e de Cuba: aí pode?
Não estou dizendo, claro, que o Brasil é perfeito, mas, se é para andar em companhias de que orgulhar-se, que o seja com modelos mais saudáveis.
Quem é que vai falar pro CR que o acordo é econômico? E que, apesar do termo BRIC ter sido cunhado em um banco, o bloco realmente faz sentido?



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