Tabuzão
Lévi-Strauss ficou famoso pela sua tese sobre o tabu do incesto que, segundo o autor, estaria no limite antre o biológico e o cultural. De fato, em qualquer cultura – seja ela contemporânea, extinta, moderna ou tradicional -, sempre há alguma restrição quanto ao casamento entre parentes. Mas existe um tabu mais forte e presente ainda: o tabu das fezes. Embora mais pendente para o lado biológico (haja vista o comportamento de gatos, cachorros etc.), esse também é um tabu cultural. Por isso, a figura do El Caganer (vide figura acima) da Catalunha é tão curioso. Por isso, vale a pena ler o artigo abaixo, originalmente publicado no Der Spiegel e traduzido no UOL Mídia Global:
As festividades natalinas fecais da Catalunha
Josh Ward
Algumas das tradições natalinas mais curiosas podem ser encontradas na Catalunha, onde a idéia de espírito de festas parece envolver algumas das funções corporais mais básicas.
Eis aquí duas passagens que não se esperaria necessariamente encontrar para um mesmo termo da Wikipédia: “o menino Jesus é Deus na forma humana” e “todo mundo defeca”.
Mas se você verificar o termo, tentando obter uma explicação da tradição catalã fecal-cêntrica encarnada no boneco conhecido como el caganer, é exatamente isso que encontrará. De fato, a tradição é um elemento bastante estimado da celebração do Natal na Catalunha, apesar da suas origens algo obscuras.
Um caganer – ou “cagão” – é uma pequena figura humana agachada com as calças abaixadas (ou a saia levantada) para atender a uma necessidade natural. Eles circulam pela região desde o século 17, e podem ser encontrados com freqüência em um canto obscuro dos presépios de Natal.
Alguns dizem que, originalmente, estas figuras tornaram-se populares entre os agricultores que acreditavam – de forma bem prática – que as “oferendas” do caganer tornariam o solo rico e produtivo para o ano seguinte. De forma algo vaga, o website da Associação dos Amigos do Caganer – uma organização fundada em 1990 para comemorar a tradição do caganer, e que tem 60 membros espalhados por todo o mundo – afirma que o objetivo desses bonecos é acrescentar “uma faceta humana à representação do mistério do Natal”.
A Wikipédia menciona como o caganer pode representar a “igualdade de todas as pessoas” porque “todo mundo defeca”, ou que ele pode ter sido criado para reforçar a idéia de que “o menino Jesus é Deus na forma humana”.
Na Catalunha, crianças pequenas ainda brincam de um jogo do tipo “Onde está Wally?” que envolve a procura do caganer no presépio de Natal. Segundo o website da Associação dos Amigos, o caganer é “colocado sob uma ponte, atrás de uma pilha de feno ou em um outro local em que fique discretamente escondido”, já que seria “uma falta de respeito” colocá-lo perto do cenário da manjedoura.
O el caganer original é uma figura em madeira ou cerâmica de um camponês usando o tradicional barrete vermelho catalão com uma tarja negra (a barretina) e fumando um cigarro ou um cachimbo. Mas a popularidade da figura gerou uma expansão enorme de personagens defecadores.
Marc Alos faz parte da família que produz e vende tais bonecos desde 1992 em Girona, uma cidade que fica 100 quilômetros a nordeste de Barcelona. A companhia, Terra I Mar – Caganer.com, oferece 150 tipos de bonecos caganer, que retratam figuras políticas, esportivas e outras mais anônimas ou tradicionais, como camponeses, freiras e Papai Noel – todos eles evacuando. “Pessoas de todo o mundo nos procuram e pedem que façamos estatuetas de figuras de suas regiões”, diz Alos. “Mas não dá para satisfazer a todos.”
Vendendo de 20 mil a 25 mil bonecos por ano, a companhia de Alos é a maior do gênero. Segundo Alos, a figura mais popular é de longe o camponês tradicional. Porém, o segundo lugar é ocupado por uma versão agachada do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.
Quando lhe perguntam por que ele acha que a figura de Bush é tão popular, Alos prefere dizer apenas: “As figuras mais vendidas são sempre as mais amadas ou odiadas”. Alos acrescenta que, com base nos recentes números relativos às vendas, parece que o presidente eleito Barack Obama também se encaixa nessa categoria.
Alegria natalina (re)laxante
O outro elemento escatológico do tradional Natal catalão é o Tió de Nadal, que pode ser traduzido mais ou menos como “acha de lenha de Natal”. Também conhecido como “Caga Tió”, ou “acha de lenha cagona”, esse personagem é um pedaço de lenha de 30 centímetros que tem uma das extremidades ocas. Em tempos recentes, a outra extremidade ganhou uma face sorridente, usando uma versão miniatura da barretina e sustentando-se sobre duas pernas de varetas.A partir de 8 de dezembro, dia da Festa da Imaculada Concepção na tradição católica, o pedaço de lenha é “alimentado” com pequenas quantidades de doces, nozes, figos e torrons – um tipo de nougat da região – todas as noites, e dorme sob um pequeno cobertor. Na véspera ou no dia de Natal, dependendo da casa, uma extremidade da acha é colocada no fogo e ordena-se ao pedaço de madeira que defeque.
Para apressar e estimular os movimentos intestinais simbólicos do pedaço de lenha, as crianças cantam músicas especiais e a espancam com pedaços de pau, gritando “caga tió!”. A seguir alguém tira de sob o cobertor da acha de lenha um presente que é dividido entre o grupo.
É claro que, se ainda tiverem fome, as pessoas sempre podem ir até as confeitarias locais, que vendem doces em formato de fezes durante o período de fim de ano.
O amor é lindo
A foto acima é do casal Bernie (68 anos) e Slavica Ecclestone (24) – ele, magnata da F-1; ela, ex-supermodelo da Armani. De acordo com o blog do Robert Frank, The Wealth Report, os pombinhos estão se divorciando, e a sra. E está engordando sua conta bancária em quase US$2bilhões.
Se você também gosta das histórias dos super-ricos, leia o blog citado acima (somente em inglês) e/ou compre o excelente livro do Frank, Riquistão (vide imagem abaixo). Ambos valem muito a pena.
Técnica para levantar o pau
Numa homenagem à Pfizer nos 10 anos da invenção do Viagra:
Serviço Toca Raul!!! de Utilidade Pública
Veja o vídeo abaixo e saiba qual é a mais nova técnica para roubar carros. Se seu carro estiver fazendo um barulho estranho, tranque-o antes de verificar o que está acontecendo.
O homem do saco
Para manter a tradição, vamos à nossa querida crítica ao Clóvis Rossi, que hoje está provocativo: “Alguém aí paga para ver se a “crise sistêmica” existe?” – e a compara ao “homem do saco”, figura supostamente mítica dos antigamentes, um ser que surgia do nada e sequestrava as criancinhas.
Bem… O homem do saco é um fato documentado (vide foto acima) e real – no caso, o pior homem do saco que o país já teve, responsável pela ruína de milhões de criancinhas brasileiras, que não terão um futuro digno porque foram (e estão sendo) educadas na cultura da esmola-família. Mas o homem do saco que aterrorizava os petizes de décadas atrás era nada mais que o que se convencionou chamar atualmente de pedófilo: o nome técnico do homem do saco (que nem saco precisa ter, aliás nem homem necessariamente ele é). Na verdade, os homens e mulheres do saco reais são marginais que, preferencialmente, atacam crianças pobres, as menos protegidas, e o que funciona mesmo para combatê-los é a erradicação da pobreza (não com esmolas, mas com desenvolvimento econômico).
Ok, mas passemos agora à “lenda da crise sistêmica”, que señor Rossi encara com ceticismo. Será que é tudo papinho para tomar dinheiro do povo e dar para os banqueiros? Uma manobra sórdida dos capitalistas para manter o proletariado oprimido? Não que essa não seja uma boa idéia, e não duvido que os selvagens de Wall Street não sejam capazes de manobras desse tipo. De qualquer maneira, independente do que terá de ser feito para domar as bestas-feras que eventualmente povoem o mercado financeiro, o fato é que a crise sistêmica já está acontecendo: ninguém confia em ninguém, ninguém empresta para ninguém, ninguém compra, ninguém vende, ninguém produz, ninguém emprega. Isso já aconteceu antes – ex. 1929, 1873… -, e foram necessários cerca de 10 anos para superar as crises sistêmicas passadas. Então, para quê esperar chegar à miséria? Para que mais criancinhas indefesas sejam raptadas pelo homem do saco?
Abaixo, o artigo do CR publicado hoje na Folha:
O “homem do saco” e a crise
Quando do lançamento do Plano Cruzado (1986), o então deputado Antonio Delfim Netto produziu uma daquelas suas corrosivas frases: “Se inflação não tem causa, então o plano dará certo”.
Como inflação tem causas, e como as causas não foram atacadas, o plano malogrou, depois de nove mágicos meses.
A frase de Delfim me volta à mente agora toda vez que leio sobre o tsunami de ajudas que os governos do mundo todo estão concedendo ao setor privado.
Se todos os problemas do mundo pudessem ser resolvidos nessa base, nunca haveria problemas no mundo. Bastaria, como agora, privatizar o dinheiro público e estatizar o risco. Bastaria botar para funcionar as máquinas impressoras das casas da moeda -e pronto, nunca haveria crise.
Mas é como diz clássico refrão da economia que ninguém, a não ser por birra, é capaz de contestar: Não há almoço grátis.
Algum dia, os zilhões de ajuda serão pagos, ou na forma de déficit público cada vez maior, que, por sua vez, tende a gerar inflação, que tende a gerar contração da economia ou desorganização; ou na forma de endividamento desorbitado, que, não custa lembrar, é a causa original da presente crise.
O que torna a situação ainda mais dramática é a pergunta que James Horney, diretor de política fiscal federal do Center on Budget and Policy Priorities, de Washington, fez ao notável Sérgio Dávila: “Qual é a alternativa? Se o governo não se mexer para estimular a economia, o resultado poderá ser pior”.
Quando era criança, me diziam que, se não me comportasse, viria o “homem do saco” e me pegaria. Hoje, vivem me dizendo que, sem esses pacotes todos, vem a “crise sistêmica” e me pega.
Nunca vi o “homem do saco”. Alguém aí paga para ver se a “crise sistêmica” existe?




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