Uma coisa difícil e outra fácil
Volta e meia, as pessoas me pedem para fazer prognósticos sobre a atual crise financeira. Trabalho há 20 anos no mercado financeiro, já ganhei e já perdi muito dinheiro antes, tenho uma boa formação acadêmica e, mais importante de tudo, uso óculos, o que me confere “cara de inteligente” – além, é claro, de escrever para o mais prestigioso veículo de mídia eletrônica da atualidade (precisamente: este blog).
Sinto que todo se decepcionam quando digo que tudo pode acontecer, desde a imersão do planeta numa crise gigantesca por 30 anos, até uma recuperação espantosa da economia mundial já em 2009. Na verdade, a única coisa que eu tenho certeza absoluta é que não é possível fazer qualquer tipo de previsão sobre o futuro econômico do mundo. São muitas variáveis se alterando ao mesmo tempo, todas elas inter-relacionadas, e nenhum modelo matemático concebível pelo homem no atual estágio de desenvolvimento é capaz de prever o desenrolar da atual crise. Resumindo: saia de casa com guarda-chuvas, casaco de lã, camiseta de algodão, bermudas e protetor solar.
Há alguns anos, conheci os computadores do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) em Brasília. “Computadores” é modo de dizer, na verdade eram máquinas monstruosas, algumas com o logo da NASA, e um funcionário do departamento de defesa dos EUA no prédio para evitar que algum maluco use as máquinas para aplicações militares. Talvez exista uma meia-dúzia de centros de processamento no planeta que construa modelos numéricos mais sofisticados que os do INMET. Com tudo isso, a chance do Instituto (ou do melhor centro de modelagem numérica do mundo) acertar se irá chover ou fazer sol em 25 de novembro de 2009 é exatamente a mesma que a de um índio velho ter sucesso em sua previsão baseada emn rituais xamãnicos. Em relação à economia, é a mesmíssima coisa.
Levistraussiano
Se você quiser parecer erudito em uma discussão, utilize o adjetivo do título deste post (pronuncia-se “levistrossiano”) e arrase – com a vantagem que ninguém deverá se atrever a discutir com você se o termo fora ou não bem empregado. Lévi-Strauss (LS para os íntimos), o antropólogo belga que ajudou a fundar a USP, documentou os costumes de um sem número de nações indígenas brasileiras, e revolucionou a teoria antropológica com suas estruturas elementares de parentesco (que não são tão elementares assim, infelizmente), é um autor absurdamente difícil de compreender, embora seu “Tristes Trópicos” seja um texto tão fácil de digerir quanto qualquer romance best-seller. Porém, mesma sorte não terá quem se aventurar a (tentar) ler os trabalhos acadêmicos deste autor, tão simples quanto a Física Quântica, embora geniais. Talvez por isso o LS seja tão impopular entre os “”"cientistas”"” sociais de hoje, e o centenário de LS que se comemora neste ano tenha passado tão despercebido na universidade que ele ajudou a fundar.
De qualquer maneira, tanto a Folha quanto o Estadão publicaram excelentes textos levistraussianos neste último final de semana, um deles abaixo copiado (da Folha, disponível aqui para assinantes). O artigo escolhido para inaugurar a série sobre LS que este blog pretende mostrar trata dos costumes natalinos que estavam sendo modificados na época em que o ensaio fora escrito (1952). Em breve, teremos muito mais sobre LS aqui, aguardem: a Alta Direção do Conglomerado de Mídia que controla este poderoso noticioso está em avançadas negociações para contratar, a peso de ouro, um dos maiores especialistas em LS do hemisfério Sul, aguardem!
A seguir, o artigo sobre o Natal:
O suplício de Papai Noel
Inédito em livro no Brasil e previsto para ser lançado na 2ª semana de dezembro pela Cosac Naify, ensaio de 1952 discute a criação do mito moderno do Natal
CLAUDE LÉVI-STRAUSS
Há cerca de três anos, ou seja, desde que a atividade econômica voltou quase ao normal, a comemoração do Natal assumiu na França uma dimensão desconhecida antes da [Segunda] Guerra.
Esse desenvolvimento, tanto por sua importância material quanto pelas formas em que se apresenta, certamente é resultado direto da influência e do prestígio dos Estados Unidos.
Assim, vimos surgir os grandes pinheiros, montados nos cruzamentos ou nas avenidas principais, iluminados à noite; os papéis decorativos para embrulhar os presentes de Natal; os cartões de boas-festas e o costume de expô-los em cima da lareira dos destinatários na semana fatídica; as campanhas do Exército da Salvação erguendo nas ruas e nas praças seus caldeirões como se fossem potinhos de pedintes; por fim, as pessoas vestidas de Papai Noel para receber os pedidos das crianças nas grandes lojas de departamentos.
Todos esses costumes que, poucos anos atrás, pareciam pueris e barrocos aos franceses que visitassem os EUA, como um dos sinais mais evidentes da profunda incompatibilidade entre as duas mentalidades, agora se implantaram e se aclimataram na França com uma facilidade e uma amplitude que se tornam assunto a ser estudado pelo historiador das civilizações.
Nesse campo, como em outros, estamos assistindo a uma vasta experiência de difusão, não muito diferente daqueles fenômenos arcaicos que estávamos acostumados a estudar nos exemplos distantes do “briquet à piston” ou da “pirogue à balancier”.
Mas é mais fácil e ao mesmo tempo mais difícil estudar fatos que se desenrolam sob nossos olhos, tendo como palco nossa própria sociedade.Empréstimo
Mais fácil, porque a continuidade da experiência está salvaguardada, com todos os seus momentos e cada uma de suas nuanças; e também mais difícil, porque são nessas raríssimas ocasiões que percebemos a extrema complexidade das transformações sociais, mesmo as mais tênues; e porque as razões aparentes que atribuímos aos acontecimentos nos quais somos atores são muito diferentes das causas reais que neles nos determinam algum papel.
Assim, seria simplista demais explicar o desenvolvimento da comemoração do Natal na França apenas pela influência dos EUA.
O empréstimo é inegável, mas não traz consigo razões suficientes para explicar o fenômeno. Enumeremos brevemente as mais evidentes: há muitos americanos na França, os quais comemoram o Natal à sua maneira; o cinema, os “digests”, os romances e também algumas reportagens da grande imprensa tornaram conhecidos os costumes americanos, e estes gozam do prestígio atribuído à potência militar e econômica dos EUA.
Tampouco se exclui a conjectura de que o Plano Marshall tenha favorecido, direta ou indiretamente, a importação de algumas mercadorias ligadas ao rito natalino.
Mas tudo isso não basta para explicar o fenômeno.
Costumes importados dos EUA impõem-se a camadas da população que lhes desconhecem a origem; os meios operários, onde a influência comunista poderia desacreditar tudo o que traz a marca “made in USA”, os adotam com a mesma disposição dos demais.
Assim, em vez de uma difusão simples, cabe invocar aquele processo tão importante que Kroeber, o primeiro a identificá-lo, chamou de “difusão por estímulo” (“stimulus diffusion”): o costume importado não é assimilado, mas funciona como catalisador, ou seja, provoca com sua presença o surgimento de um uso semelhante que já estava potencialmente presente no meio secundário.
Ilustremos esse ponto com um exemplo diretamente relacionado ao nosso tema.
O industrial fabricante de papel que vai aos EUA, a convite dos colegas americanos ou como membro de uma missão econômica, constata que lá fabricam papéis especiais para os pacotes de Natal; ele adota a idéia, e temos aí um fenômeno de difusão.Exigência estética
A dona-de-casa parisiense que vai à papelaria do bairro comprar o papel necessário para embrulhar seus presentes vê na vitrine papéis mais bonitos e de melhor acabamento do que aqueles que costumava usar; ela ignora totalmente os costumes americanos, mas esse papel satisfaz uma exigência estética e exprime uma disposição afetiva que já existia, só não dispunha de meios de expressão.
Ao escolhê-lo, a dona-de-casa não adota diretamente (como o fabricante) um costume estrangeiro, mas esse costume, tão logo é reconhecido, estimula nela o nascimento de um costume igual. Em segundo lugar, não se pode esquecer que a comemoração natalina, já antes da guerra, estava em processo ascendente na França e em toda a Europa. Isso estava relacionado, inicialmente, à melhoria progressiva do nível de vida, mas também a motivos mais sutis.
Com as características que conhecemos, o Natal é uma festa essencialmente moderna, apesar dos múltiplos traços arcaizantes. O uso do visco não é, pelo menos em primeira instância, uma herança druídica, pois parece ter voltado à moda na Idade Média.Árvore de Natal
O pinheiro de Natal não é mencionado em parte nenhuma antes de certos textos alemães do século 17; ele segue para a Inglaterra no século 18 e chega à França apenas no século 19. O dicionário “Littré” parece conhecê-lo pouco ou sob forma muito diferente da nossa, pois o define (no verbete “Natal”) com a designação: “Em alguns países, de um ramo de pinheiro ou de azevinho com diferentes enfeites, guarnecido principalmente de balas e brinquedos para serem dados às crianças, que fazem uma tremenda festa”.
A variedade de nomes dados ao personagem incumbido de distribuir os brinquedos às crianças -Papai Noel, São Nicolau, Santa Claus- também mostra que ele é resultado de um fenômeno de convergência, e não um protótipo antigo conservado por toda parte.
O desenvolvimento moderno, porém, não é uma invenção: ele se limita a recompor peças e fragmentos de uma antiga comemoração, cuja importância nunca foi totalmente esquecida. Se a árvore de Natal, para o “Littré”, é quase uma instituição exótica, Cheruel nota de maneira significativa, em seu “Dicionário Histórico das Instituições”: “O Natal [...] foi, durante vários séculos e até uma época recente, a ocasião de festas em família”
Assim, estamos diante de um ritual cuja importância flutuou bastante ao longo da história; teve apogeus e declínios. A forma americana é apenas sua encarnação mais moderna. Aliás, essas rápidas indicações bastam para mostrar que, diante desse tipo de problema, é preciso desconfiar das explicações demasiado fáceis que apelam automaticamente aos “vestígios” e às “sobrevivências”. Se nunca tivesse existido um culto às árvores nos tempos pré-históricos, que se prolongou em várias tradições folclóricas, a Europa moderna certamente não teria “inventado” a árvore de Natal.
No entanto -como mostramos mais acima-, ela é uma invenção recente. Essa invenção, porém, não nasceu do nada. Pois outros costumes medievais são plenamente comprovados: a chamada lenha de Natal (que inspirou um bolo natalino em Paris), um tronco espesso para arder a noite toda; os círios de Natal, com uma dimensão própria para a mesma finalidade; a decoração das casas (desde as Saturnais romanas, sobre as quais voltaremos a falar) com ramos verdes: hera, azevinho, pinheiro; por fim, e sem nenhuma relação com o Natal, os romances da Távola Redonda mencionam uma árvore sobrenatural recoberta de luzes.Solução sincrética
Em tal contexto, a árvore de Natal surge como uma solução sincrética, isto é, concentra num só objeto exigências até então dispersas: árvore mágica, fogo, luz duradoura, verde persistente. Inversamente, Papai Noel, em sua forma atual, é uma criação moderna, e ainda mais recente é a crença que situa sua morada na Groenlândia, possessão dinamarquesa (o que obriga o país a manter uma agência de correio especial para responder às cartas de crianças do mundo inteiro), e o mostra viajando em um trenó puxado por renas.
Consta que esse aspecto da lenda se desenvolveu principalmente na última guerra, devido à presença de tropas americanas na Islândia e na Groenlândia.
E, no entanto, as renas não estão ali por acaso, visto que existem documentos renascentistas ingleses mencionando troféus de renas durante as danças de Natal, antes de qualquer crença em Papai Noel, e quem dirá da formação de sua lenda.
Assim, fundem-se e refundem-se elementos muito antigos, introduzem-se novos, encontram-se fórmulas inéditas para perpetuar, transformar ou reviver usos de velha data. Não há nada de especificamente novo -sem jogo de palavras- no renascimento do Natal.
Por que, então, ele desperta tanta emoção e por que é em torno da figura de Papai Noel que se concentra a animosidade de algumas pessoas?
Trecho de “O Suplício de Papai Noel” (ed. Cosac Naify, 56 págs., R$ 25).Tradução de DENISE BOTTMANN .
Diferenças
Como é a viver num lugar praticamente sem luz do dia? Se você se interessa por esse tipo de coisa, não deixe de ler o artigo abaixo, da Sandra Paulsen (um dos poucos nomes que a Alta Direção deste blog não fala mal), colunista do Blog do Noblat:
Reflexos no escuro
No Brasil, temos a idéia de que, «em condições normais de temperatura e pressão», criança não fica na rua sozinha quando a noite cai, não é mesmo? Em novembro e dezembro, se a regra fosse aplicada à Suécia, criança ficaria em casa o dia inteiro! Ou quase!
É que, nesta época do ano, a escuridão é tal que a iluminação pública automática às vezes permanece acesa dia e noite, ou dia e dia, ou noite e noite, já que é tudo quase a mesma coisa.
É claro que estou exagerando nas tintas, mas a verdade é que, na típica escuridão do outono e do inverno suecos, é importante que as pessoas, principalmente as crianças brincando ou andando nas ruas, usem reflexos nas roupas. Imagino que vocês não sabiam disso.
Lembrei de falar dos reflexos porque li hoje no Brassar um artigo a respeito. O www.brassar.se é um portal de grande interesse para os brasileiros perdidos aqui no polo norte. Apresenta informações indispensáveis, notícias, curiosidades sobre a Suécia, para brasileiros radicados neste país ou para interessados em saber como é a vida aqui.
No artigo que li, a vibrante brasileira Joana Öberg, que idealizou e mantém o «site», fala justamente disso: da necessidade de comprar plaquinhas refletoras para as crianças andarem nas ruas.
Jo apresenta a questão, corretamente, como de vida ou morte, e conta sua experiência de «quase atropelamento» de uma pessoa adulta, que andava na beira do caminho sem os devidos reflexos.
Os reflexos estão presentes em sapatos, jaquetas, bicicletas e até na coleira dos cães que saem a passear com seus donos, também devidamente equipados com plaquinhas refletoras.
Pode parecer bobagem, mas não é não. Os reflexos são realmente um importante assunto no cotidiano daqui e dão margem a outras discussões ainda mais espinhosas. Como por exemplo, sobre a conveniência ou não de as crianças dos jardins infantis municipais usarem coletes ou jaquetas refletoras contendo publicidade e propaganda.
É isso mesmo. Diversas empresas deram-se conta de que os famosos coletinhos amarelos – usados por todas as crianças nas creches e escolinhas de Estocolmo no outono e no inverno – são fantásticos «postes de propaganda» móveis.
As empresas, então, doam coletes e jaquetas refletoras, com seu logotipo incluído, às escolas municipais. O supermercado Ica também fez sua campanha, no começo do outono, doando coletes a seus clientes-freqüentes. E as crianças saem portando logotipos «incandescentes» pelos jardins e parquinhos da cidade.
Uma importante companhia de seguros, por exemplo, defende o uso dos coletes infantis para propaganda, com a justificativa de que «para nós o que é importante é proteger as crianças e prevenir acidentes».
E os reflexos viraram tema político, em calorosas discussões entre oposição e situação no governo local.
Política e propaganda à parte, o fato é que não adianta querer ser chique. Por uma questão de segurança, a gente tem mesmo é que andar feito árvore de natal por aqui, nesta época do ano.
Carta de apresentação
Não tenho (ou, pelo menos, não tinha) nada contra a empresa Catho, especializada em recrutamento e seleção. Mas, hoje, recebi um e-mail que me causou espanto. Nessa comunicação, a empresa anuncia seu mais novo produto, a “carta de apresentação”, que seria um “plus a mais” na sua busca por uma nova colocação profissional. Clicando no link do e-mail, descobre-se que “A Carta de Apresentação é uma prévia do seu currículo e funciona como um trailer de um filme.” – ou seja: não é uma carta de apresentação.
Ainda de acordo com o site da empresa, a carta de apresentação é uma boa porque:
*De acordo com pesquisas, enviar a Carta de Apresentação junto ao currículo aumenta em 50% as chances de contratação;
*Você contará com o auxílio de uma consultora para elaborar uma ou mais cartas focadas nas áreas de interesse, de acordo com o padrão mais apreciado pelos selecionadores;
*Receba uma consultoria totalmente especializada, com experiência na elaboração de mais de 4.000 cartas de apresentação;
*A Carta de Apresentação é uma ótima ferramenta de networking, podendo ser enviada ás empresas ainda que estas não tenham vagas divulgadas. Cerca de 40% das vagas existentes no mercado não são divulgadas.
*Pesquisas comprovam: em 60% dos casos de contratação por meio de cartas de apresentação, o primeiro contato foi realizado diretamente com o diretor, vice-presidente ou presidente da empresa. Isso prova que o envio de carta de apresentação possibilita entrevistas de mais qualidade.
Uma carta de apresentação de verdade (isto é: uma carta de alguém ou alguma empresa apresentando o candidato – por exemplo: uma carta assinada pelo presidente do Bradesco apresentando o Raul, que é candidato à vaga de gerente de contas no Itaú) – realmente aumenta as chances de contratação. Essa é uma aplicação clássica das informações assimétricas (existem vários posts sobre isso, clique aqui), e é, de fato, eficiente. Mas o tal do trailer que a empresa anuncia na descrição do produto nada tem a ver com a carta de apresentação em si… Portanto, se você também recebeu esse spam, cuidado para não levar gato por lebre.
Falando em memória…
Segue abaixo artigo sobre a memória publicado na Folha de hoje (que, apesar do Clóvis Rossi, é um bom jornal):
Medicamento para a atenção ajuda a reter a memória
Droga receitada para criança hiperativa aumentou taxa de lembrança em experimento com adultos de diversas idades
Memorização de fatos banais cai a partir dos 40 anos, mas cientista diz que mudança pode ser sinal de uma vantagem cognitiva
RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCALUm experimento que investigou a deterioração da memória ao longo do envelhecimento mostrou que uma droga usada para tratar déficit de atenção em crianças hiperativas pode aumentar a taxa de lembrança em pessoas de todas as idades. O metilfenidato -conhecido pelo nome comercial ritalina- fez com que pessoas de todas as idades tivessem pontuação melhor em testes de memória, afirmam pesquisadores da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).
O objetivo primário do experimento relatado em estudo na revista “PNAS” (www.pnas.org), porém, não era sugerir o uso de drogas para melhorar o desempenho cognitivo, e sim investigar os mecanismos neurológicos envolvidos na memorização. A descoberta que os cientistas descrevem é que o desempenho de adultos para reter memória só tem declínio quando são consideradas informações “incidentais”.
Comparada a uma pessoa de 25 anos, por exemplo, outra de 45 anos tem mais dificuldade para lembrar a que filmes assistiu na TV na semana passada. Usando familiares “infiltrados” na casa dos voluntários da pesquisa, os neurocientistas Iván Izquierdo e Martín Cammarota conseguiram comprovar isso.
Essa diferença poderia ser explicada apenas pelo fato de que adultos mais velhos acumulam mais responsabilidades e precisam lidar com mais informação. O uso da ritalina, porém, fez com que o desempenho dos adultos mais velhos melhorasse nos testes, mostrando que a teoria da “cabeça cheia” não é 100% válida. Há um claro componente biológico envolvido no processo, afirmam os cientistas, que deram a droga apenas a voluntários que já a haviam tomado no passado.Besteiras deletadas
Izquierdo, porém, explica que a dificuldade para reter memórias incidentais não é um sinal de deterioração mental e pode até estar ligada a características que conferem vantagem a pessoas acima dos 40.
“Nós não incentivamos [o uso dessa droga] e, pelo contrário, estamos dizendo claramente que essa perda de memória não necessariamente deve ser tratada”, disse o neurocientista em entrevista à Folha. “Pode ser que essa persistência limitada da memória seja útil, porque então nós não enchemos a cabeça de besteiras -como os filmes de TV da semana passada- e passamos a nos lembrar mais das coisas importantes.”
Um segundo teste conduzido pelos pesquisadores foi diferente, e pediu aos voluntários para memorizar um pequeno texto em vez de espioná-los no sofá de casa. O desempenho dos adultos de 41 a 50 anos foi praticamente o mesmo dos voluntários de 16 a 40, em provas aplicadas dois e sete dias após a leitura. Para esse tipo de memória “formal”, dizem os cientistas, não ocorre declínio significativo com a idade.Pílula do estudo
O uso da ritalina, porém, melhorou o desempenho de todos os voluntários no teste.
Segundo Cammarota, isso mostra que a persistência de uma memória pode ser manipulada após a sua aquisição, com drogas que promovam a dopamina, um transmissor de impulsos nervosos no cérebro. “A administração de ritalina 12 horas depois das circunstâncias a serem lembradas melhorou tanto as memórias dependentes da idade [incidentais] quanto as independentes”, diz.
Intelectuais dos EUA relatam que já há universitários e pesquisadores saudáveis consumindo ritalina para melhorar a atenção nos estudos. Izquierdo diz não saber se os resultados de seu trabalho vão incentivar o uso da droga também no período pós-12 horas, quando a memória ainda se consolida.
“Não acho uma boa idéia”, diz. “Drogas usadas de forma crônica podem ter conseqüências secundárias sérias e, se uma droga requer receita para um tratamento em particular, é para isso que deve ser usada.”
A memória do Clóvis Rossi
Agora virou vício; não consigo mais parar de meter o pau no Clóvis Rossi. Tanto que já estou escrevendo posts antecipando as besteiras futuras do czar da Folha, só para poder falar “não disse!!!???” com mais gosto. Os 14 leitores habituais deste blog devem ter lido esse post aqui, onde falo que o Citibank passou por uma crise tão grave quanto a atual 20 anos atrás. Naquela época, o Citi estava sob intervenção branca do FED, e só não quebrou porque um príncipe árabe investiu uma montanha de dinheiro no banco, salvando-o da morte certa. Minha memória não é nenhuma Brastemp, mas trabalhava no Citibank naquela época, por isso lembro certinho dos detalhes.
Na sua coluna de hoje, entretanto, señor Rossi se vangloria de sua privilegiada memória para afirmar que, olha só, como é que pode o imbatível, indestrutível e imaculado Citibank precisar de ajuda do governo para não quebrar? Logo ele, um banco que nunca precisou de ajuda de ninguém e blá blá blá… Tome desinformação!!! Não só o Citi quase faliu 20 anos atrás, como o Citibank de hoje não é, de fato, o Citibank original, após a fusão com o Travelers no final dos anos 1990 (que era maior que ele; logo, o Citi atual é mais um sucessor do Travelers do que qualquer outra coisa). E, para completar, o slogan “The Citi never sleeps” não foi encampado pela cidade de Nova York; foi o Frank Sinatra, com a música New York New York que inventou o mote, depois adotado pela cidade e pelo banco (este último, como uma paródia).
Para quem quiser conferir mais esse mau exemplo de jornalismo, segue o artigo original abaixo (com piadinhas e trocadilhos com o futebol, bem ao estilo Marolinha):
Memórias que nunca dormem
Até anteontem, só uma coisa me surpreenderia mais do que alguém me dizer que o Citibank poderia quebrar: se alguém me dissesse que o São Paulo poderia, algum dia, cair para a segunda divisão. Não que não seja desejável (a queda do São Paulo), mas a suposição é absurdamente irrealista.
Como era a quebra do Citibank, que, no entanto, só não aconteceu porque o governo deu uma ajudazinha de US$ 20 bilhões (o suficiente para comprar 40 mil mansões de quatro dormitórios e 788 metros quadrados de área total no Morumbi, conforme anúncio de ontem de uma grande corretora).
Fora a garantia descomunal para papéis que podem ser “tóxicos”.
Pelo menos na minha memória, o Citi era, na área financeira, o equivalente ao São Paulo de hoje no futebol: forte, campeão sucessivas vezes, modelo. Mas era também mais arrogante do que os são-paulinos, pelo menos os que conheço mais de perto.
Bill Rhodes, um dos principais executivos do banco desde que minha memória alcança (e olha que alcança longe), era o verdadeiro “Mestre do Universo” na negociação da dívida externa dos países latino-americanos nos anos 80, Brasil incluído. Passava sermão em ministro atrás de ministro, ditava regras, era, a rigor, até mais importante do que o secretário do Tesouro da época ou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (se não era mais importante, parecia ser).
O Citi era tão influente que um slogan seu (“The Citi never sleeps” ou o Citi nunca dorme) foi encampado pela cidade de Nova York, que geralmente exporta slogans/modismos em vez de importá-los.
Pois é, o Citi dormiu e foi até a beira do precipício. E o foi justamente depois que muita gente boa dizia que passara o pior da crise no setor financeiro. Se é assim, ninguém mais pode ser dado como seguro. Nem o São Paulo, espero.







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