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Publicado em Atualidades, Just for fun por Raul Marinho em 20 Novembro, 2008

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Consciência negra? Tá de sacanagem…

Publicado em Atualidades, Ensaios de minha lavra por Raul Marinho em 20 Novembro, 2008

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Hoje se comemora o dia da consciência negra, o feriado (sim, em S.Paulo é) mais racista que se tem notícia – além de errado em todos os sentidos. Para começo de conversa: o que quer dizer “consciência negra”? Aliás, o que quer dizer “negro”? Como afrodescendente, sinto-me qualificado para responder.

“Raça negra”, como todos sabem, não existe (a não ser o conjunto de pagode), assim como não existe raça branca ou raça amarela, vermelha etc. Somos todos humanos, uma espécie sem sub-espécies ou raças, e pele um pouco mais ou um pouco menos escura não quer dizer nada em termos biológicos. (Talvez fosse mais sensato existir raça dos narigudos ou raça dos baixinhos do que raça negra).

“Ah, mas a ‘raça negra’ é uma construção social”, diriam os “”"cientistas”"” sociais… Ok, então quer dizer que as dezenas de etnias africanas dos milhões de indivíduos que foram importados para o Brasil como escravos são tudo a mesma coisa? Vá dizer isso para um bantu, um maasai ou um hutu para ver o que acontece… O pessoal “das sociais” também curte a “auto-denominação”: ou seja, o que importa é o julgamento que o indivíduo faz de si próprio – que é o critério oficial da moda. A negritude, enquanto expressão do Eu individual, define-se e é definida no nível subjacente da pessoa humana. Ou não.

Se alguém propuser criar o “dia da consciência branca”, será (corretamente) escorraçado: a última pessoa que disse alguma coisa parecida acabou seus dias (mal) incinerado nas cercanias de um bunker em Berlim. Mas, independente disso, ninguém irá propor um feriado desses simplesmente porque não precisa; nenhum “branco” precisa de tratamento paternalista. Então por que um “negro” precisaria? Será que os indivíduos que descendem de escravos africanos são inferiores aos demais, e precisam de um feriado para lembrar de cuidar de si mesmos? Isso sim é racismo!

Uma corrente paralela vai pela linha da “compensação”: os descendentes dos ex-escravos precisariam ser indenizados de alguma forma pela barbárie a que seus antepassados foram submetidos. De fato, raptar um ser humano, colocar-lhe grilhões, ambarcá-lo no porão de um navio fétido, e vendê-lo para trabalhar até o limite da exaustão no campo é, ninguém discorda, inadmissível. Pior que isso foi como o Estado (a monarquia de D.Pedro-II, aliás) promoveu a extinção do regime escravista, lavando as mãos quanto ao futuro do enorme contingente jogado às ruas. Mas pendurar essa conta no prego do Estado atual… Fica difícil, a começar pela identificação do beneficiário.

Num país miscigenado como o Brasil, a maior parte das pessoas descendem de escravos e de senhores (e de gente que chegou depois e não tem nada a ver com a história). Eu, por exemplo, tenho, do lado paterno, avós europeus, imigrantes do século XX; e do lado materno descendentes de famílias quatrocentonas (brancos portugueses) de uma parte, e de negros e índios da outra. Mereço receber uma indenização do Estado porque eu tenho uma bisavó que exerceu trabalhos forçados? Se sim, quem paga? O descendente de um sujeito que era proprietário de escravos, como meu bisavô? E quem descende dos europeus que substituíram os escravos na lavoura? Paga ou recebe?

 

 

Obs.: Na foto, Zumbi dos Palmares, proprietário de escravos de acordo com isto aqui.