Dinheiro não traz felicidade (manda buscar)
Incrível como o jornalismo no Brasil é ruim e está piorando a cada dia. Olha só a manchete que o site Terra coloca hoje no ar: “Especialistas relacionam alto PIB com felicidade baixa”. Clicando na notícia (que está na imagem acima, já que o link não é estável), chega-se a uma entrevista com a tal “especialista” (a auto-entitulada “biopsicóloga” Susan Andrews, que não disse essa barbaridade), tratando do índice queridinho dos descolados, o tal do FIB (Felicidade Interna Bruta).
Fui numa palestra dessa tal Susan no ano passado, em que ela falou desse índice criado no Butão (sim, não é sacanagem). Nem vale a pena aprofundar, mas o ponto é que dinheiro traz, sim, felicidade. Sem dinheiro não há saúde, educação, segurança, transporte, nem nada que propporcione uma qualidade de vida minimamente aceitável. Dinheiro também compra anti-depressivos e paga sessões de psicanálise. Agora… Se você trabalha 18 horas por dia e vê seus filhos a cada 15 dias para ganhar mais dinheiro, isso é outro problema: chama-se BURRICE (no seu conceito mais amplo).
Malandragem sutil
Do site do ICED:
Não é novidade para ninguém que passamos por uma seriíssima crise ética na política brasileira, cujo epicentro localiza-se no Congresso Nacional. Desencadeada pela denúncia de um esquema de corrupção nos Correios envolvendo o então deputado Roberto Jefferson, todos os dias, há mais de seis meses, lemos e assistimos a novas denúncias sobre atitudes questionáveis envolvendo parlamentares. Um dos últimos lances deste jogo foi o constrangimento relacionado ao fato de que os cofres públicos foram obrigados a desembolsar mais de cem milhões de reais – a maior parte em salários extras para parlamentares – para que o Congresso funcione durante o recesso. Incrivelmente, os parlamentares conseguiram complicar ainda mais a questão com uma série de atitudes em relação ao destino dos recursos extraordinários que receberam. Agora que a questão parece estar encerrada em função das mudanças na legislação sobre os pagamentos de salários extras aos parlamentares, é o momento oportuno para analisarmos a questão retrospectivamente.
Diz-se que, em mandarim, o ideograma utilizado para escrever “crise” é a junção dos símbolos de “risco” (ou “perigo”) e “oportunidade”. Desconheço algum parlamentar que seja fluente no idioma chinês, mas a grande maioria é mestre em fazer de limões, limonada. Percebendo uma janela para a autopromoção, vários deputados e senadores resolveram abrir mão dos salários extras e, numa atitude supostamente ética, decidiram devolver seus salários. Alguns demoram semanas para decidir se são ou não éticos – como se essa pudesse não ser uma decisão imediata. Isso fez com que estes parlamentares fossem furtivamente surpreendidos por vis procedimentos burocráticos que os impediram de abrir mão de seus salários em prol do bem comum. Porém, firmemente imbuídos de espírito cívico, não se renderam aos pormenores administrativos da Casa a que pertencem, e entregaram seus rendimentos líquidos a entidades supostamente filantrópicas. Alguns, ainda, preferiram doar seus salários mesmo dentro do prazo hábil para a recusa formal sob o argumento de que, se eles abrissem mão de receber salários, isso implicaria em contribuir com a nefasta política neoliberal do governo.
O resultado disso é que se chegou a um largo espectro de comportamento entre os parlamentares: os que nada fizeram, os que se recusaram a receber salários, os que doaram seus rendimentos por perda de prazo, e os que doaram por inclinação ideológica. Dentre os que doaram seus salários, percebeu-se depois que havia alguns problemas. Alguns foram acusados de comprar recibos de valor superior ao efetivamente doado, e outros chegaram até a doar recursos a entidades administradas por eles mesmos – o que podemos chamar de “limonada suíça” (nada a ver com o fato da Suíça ser um notório paraíso fiscal). No fim da história, todos atacaram todos: quem nada fez, acusou de hipocrisia quem devolveu; quem devolveu disse que quem doou pecou; quem doou para o Instituto A alegou que quem fez o mesmo para o B foi desonesto; e assim por diante.
Muita gente acha que ética é preto ou branco, e da mesma maneira que não existiria meia gravidez, também inexistiria uma zona moralmente cinzenta. Pelo que se apreende das declarações dos parlamentares, entretanto, tem-se a impressão oposta: existiria, sim, uma gradação ética, mas o ponto de corte que separa os honestos dos desonestos varia e acordo com o gosto do freguês. Não é intenção desse artigo “fulanizar” a questão, muito menos estabelecer critérios de conduta ética para parlamentares. O que este artigo se propõe é somente analisar alguns aspectos dos diferentes jogos que ocorrem entre os parlamentares e a opinião pública (ou entre eles mesmos) com as ferramentas combinadas do darwinismo e da teoria dos jogos.
Os jogos principais são os que se desenrolam entre os parlamentares e seus eleitores. Sendo este um ano eleitoral, esses jogos são particularmente importantes, o que se comprova com um simples raciocínio hipotético. Imagine que um deputado tenha um mandato de 20 anos, e que este ano seja um dos primeiros anos de sua legislatura. Neste caso, seria de se esperar que houvesse uma taxa de adesão à recusa em receber salário muitíssimo menor que num caso em que os mandatos são de quatro anos e eles estejam a menos de doze meses das eleições. Essa obviedade nos indica que, dependendo dos custos e benefícios envolvidos no jogo, a decisão de um jogador pode ser uma ou outra – em “teoriadojoguês”, poderíamos dizer que o equilíbrio do jogo varia de acordo com os pay-offs envolvidos. No caso real (mandatos de 4 ou 8 anos e eleições próximas), o equilíbrio tende a ser cooperativo: o parlamentar coopera com o eleitor, “agindo de forma ética” (recusando-se a receber os salários ou doando seus proventos) na esperança que o eleitor coopere com ele em outubro próximo (digitando seu respectivo número na máquina de votar). Isso é o oposto do que se espera que aconteça na hipótese acima proposta (a dos 10 anos de mandato), pois como o parlamentar sabe que sua “ação ética” de hoje será ignorada daqui a 19 ou 18 anos, ele não tem motivos racionais para cooperar com o eleitor. Alguns parlamentares poderiam cooperar mesmo assim, e devolveriam o dinheiro ainda que tivessem mandatos vitalícios, mas isso seria uma exceção tão rara quanto esperarmos que um banqueiro empreste dinheiro para uma entidade sem capacidade de pagamento e sem garantias – como, aliás, parece ter sido a forma que ocorreram os “empréstimos” ao PT.
Da mesma forma, os jogos coadjuvantes também terão seus resultados dependentes dos respectivos pay-offs. Nas relações entre os parlamentares – jogos muito parecidos com o onipresente “Dilema dos Prisoneiros” –, o equilíbrio tende a ser não cooperativo, mesmo entre deputados do mesmo partido. Um parlamentar, ao se recusar a receber seu salário, está agindo contra os interesses de seu colega, independente do que este faça. A “ação ética” de um parlamentar (recusar-se a receber o salário) implica em perda para seu colega que também é “ético” uma vez que haverá um “empate ético” frente ao eleitorado. Como o eleitor só vota em um nome, e ambos “agiram eticamente” nessa questão, a não-cooperação mútua não privilegia ninguém. Porém, também é possível que deputados que dividam o mesmo eleitorado entrem em um acordo do tipo “eu não devolvo e você também não”, tornando o jogo entre eles cooperativo. Isso equivaleria a permitir que os criminosos do “Dilema dos Prisioneiros” conversassem entre si antes de tomarem suas decisões. Essa estratégia é tão mais factível quanto menor for o número de deputados dividindo um mesmo eleitorado (deputados de Roraima teriam muito mais chances de sucesso que deputados paulistas, por exemplo), e seria bem menos aplicável aos senadores, que nessa eleição irão disputar uma única cadeira.
Esse tipo de acordo (“eu não devolvo, você também não”), assim como o jogo principal entre parlamentares e eleitores, podem ser entendidos como jogos de “altruísmo recíproco”. Estudiosos da evolução do comportamento utilizam freqüentemente esse mecanismo para explicar porque determinadas espécies agem de forma mutuamente cooperativa mesmo sem vínculos de parentesco, como os morcegos hematófagos. Esses animais vivem do sangue coletado em caçadas noturnas freqüentemente infrutíferas, mas os que têm sucesso usualmente dividem o sangue obtido com seus colegas menos afortunados, uma vez que, no futuro, a situação pode ser inversa. Entre primatas, esse tipo de comportamento também é muito comum, e um bom exemplo são os chimpanzés. Nossos primos são organizados em bandos com clara liderança dos chamados machos-alfa, que conquistam o posto de primazia em acordos políticos também baseados em mecanismos de altruísmo recíproco, seja na coalizão com líderes subalternos (os machos beta e gama), seja na conquista de simpatia da maioria dos componentes do grupo. Quando o bando está em “época de eleição” – ou seja, quando o posto de macho-alfa está em disputa –, pesquisadores notaram que os candidatos a líder distribuem frutas e são amistosos, comportamento que cessa quando a liderança se consolida. Não por acaso, compartilhamos cerca de 99% dos genes com essa espécie.
Ocorre que o mecanismo do “altruísmo recíproco” não elimina conflitos, pelo contrário. Se compararmos a eficiência de dois indivíduos agindo isoladamente, percebe-se nitidamente que a cooperação mútua traz um resultado melhor para ambos, e é por isso que várias espécies, inclusive a humana, praticam atos mutuamente vantajosos, como a caça cooperativa. Entretanto, também é fato que aquele que recebe um favor e não retribui leva vantagem sobre aquele que retribui um favor recebido. Por isso, é muito comum entre as espécies que agem de forma mutuamente cooperativa haver severa retaliação contra indivíduos que rompem o ciclo de trocas altruístas. Um morcego que recebe sua cota de sangue de um outro componente do bando em uma noite de má sorte e não retribui quando a coleta lhe seja favorável dificilmente vai ser alimentado de novo, pelo menos por aquele que lhe ajudou inicialmente. Casos de reiterada recusa em retribuição podem ser punidos com agressão física ou o ostracismo, que é a exclusão permanente ou temporária do convívio no bando, o que não raramente significa a morte do animal excluído.
Animais sofisticados em termos de comportamento, porém, praticam uma outra forma de trapaça, muito mais sutil: eles “fingem” que são cooperativos quando, na verdade, não pretendem retribuir o favo recebido. Entre certas espécies de pássaros, por exemplo, esse comportamento está fartamente documentado, como os casos de fêmeas que “traem” seus parceiros. Nesses casos, o macho se esforça para prover a fêmea de alimento enquanto esta deveria estar chocando os ovos do casal, mas exames de DNA da prole comprovaram que grande parte da ninhada não pertence ao macho, que fora “enganado” durante uma de suas intermináveis buscas por alimento. Entre humanos, esse tipo de estratégia também é muito comum, não só nas relações reprodutivas. É precisamente isto o que está ocorrendo neste momento no Congresso brasileiro.
Do modo com que a imprensa abordou a questão, ficou claro que abrir mão do salário seria uma atitude bem vinda junto à opinião pública. Como o salário extra recebido seria da ordem de R$25mil, a pergunta que um deputado racional se faria é “parecer ético frente ao meu eleitorado neste momento vale mais que R$25mil?”. Analisados os custos e benefícios, o deputado que concluir que a resposta é “sim, vale a pena abrir mão de R$25mil para parecer ‘ético’ frente ao um eleitorado” agirá contra seu próprio interesse econômico para maximizar seu ganho no longo prazo. Mas, em um segundo momento, esse deputado racional percebe que pode fazer um negócio ainda melhor: parecer “ético” junto à opinião pública sem gastar R$25mil! Eureka!!! Para isto, basta comportar-se como se fosse ético, sem sê-lo de fato. Por exemplo: obtendo um recibo de doação “fria”, ou – o melhor dos mundos – doando para si próprio. Esse é um comportamento análogo ao do pássaro do parágrafo anterior.
Robert Trivers, o zoólogo estadunidense que descreveu o mecanismo do “altruísmo recíproco” e a evolução da imitação, porém, também notou que, em espécies organizadas dessa forma, verifica-se uma “corrida armamentista” entre imitadores de comportamento reciprocamente cooperativo e detectores desse tipo de comportamento. Em um formigueiro, por exemplo, não existe falsa cooperação: formigas são cooperadoras incondicionais que jamais traem suas companheiras. Já entre mamíferos, aves e peixes – dentre outros animais –, a retribuição da cooperação é incerta, e mecanismos de “malandragem” são freqüentes. Isso é particularmente verdadeiro na nossa espécie, uma das mais pródigas nesse tipo de comportamento embusteiro (mas não a única).
Na atual crise da convocação extraordinária do Congresso, esse fato pôde ser verificado por quem acompanhou os noticiários na imprensa. Quem teve a pachorra de ler jornais ou acompanhar o noticiário na internet ou na TV durante as férias certamente presenciou inúmeras declarações de políticos, jornalistas e analistas apontando quem tentou se fazer passar por “ético” sem abrir mão efetivamente do salário. Iniciou-se um movimento de caça às bruxas parecido com o do meio do ano passado, quando vários parlamentares foram apontados como “mensaleiros”. Sob a ótica da evolução do comportamento, isso é uma típica “corrida armamentista” entre imitadores de comportamento mutuamente cooperativo e detectores do comportamento embusteiro.
O problema é que essa “corrida armamentista” é ruidosa e maléfica para os parlamentares, sejam eles “éticos legítimos” ou imitadores. No jogo principal entre a classe política e a opinião pública, não interessa a nenhum parlamentar esse novo desgaste, principalmente às vésperas de uma nova eleição. Numa Câmara recentemente presidida por um personagem do calibre de um Severino Cavalcante, novos escândalos são um prato cheio para o crescimento de pára-quedistas, do “voto Cacareco”, e de outras conseqüências danosas a todos os 513 deputados e 81 senadores. O resultado disso foi a aprovação em tempo recorde da eliminação do pagamento dos salários extras, num efêmero acordo entre praticamente 100% do Congresso.
(escrito em 2005)
Luís Inácio Marolinha da Silva
Vamos ter um forte impacto na atividade econômica, na economia real, e no mundo todo vai desacelerar e isso está ficando nítido agora (Guido Mantega, hoje)
Melhores frases de Lula sobre a crise:
30 de março de 2008:”Bush, meu filho, resolve a sua crise”
17 setembro 2008: “Que crise? Pergunta para o Bush”
29 de setembro de 2008: “O Brasil, se tiver que passar por aperto,será muito pequeno”
30 de setembro de 2008:”A crise é muito séria e tão profunda que nós ainda não sabemos o tamanho”
22 de setembro de 2008:”Até agora, graças a Deus, a crise não atravessou o Atlântico”
4 de outubro de 2008:”Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar”
O jogo da delação premiada
Do site do ICED:
De acordo com a Teoria dos Jogos, um ramo da Matemática utilizado para modelar decisões interativas (quando a decisão de um interfere e é interferida pela decisão do outro), podemos entender porque o mecanismo da “delação premiada”, tão em moda nos noticiários ultimamente, pode ser um mecanismo eficiente na elucidação de crimes – particularmente as ações do chamado “crime organizado”. Vamos construir o raciocínio por meio do “Dilema dos Prisioneiros”, uma das formas mais populares utilizadas para se explicar o funcionamento de um “jogo” (aqui entendido como um modelo de decisão construído de acordo com a teoria dos jogos).
Imagine duas pessoas que, ao serem pegas cometendo um crime, são colocadas em salas separadas e sem possibilidade de comunicação entre si ou com qualquer outra pessoa, ocasião em que lhes são feitas propostas que devem ser decididas simultaneamente. O acordo proposto é o seguinte: se ambas ficarem caladas, a pena imposta será branda; se um confessa enquanto o outro se cala, aquele que confessa sozinho sai livre, enquanto que o que se mantém calado tem a pior pena de todas; e se ambos confessam, suas penas serão medianas. Se entendermos que a confissão significa trair o companheiro, e o silêncio é a cooperação, temos que este jogo – o “Dilema dos Prisioneiros” – tem um equilíbrio não-cooperativo, pois a melhor alternativa para cada um dos prisioneiros é confessar, mesmo que, à primeira vista, a cooperação mútua (quando ambos se calam) pareça ser a alternativa mais inteligente. Se o prisioneiro A pensar na sua decisão sob o ponto de vista das alternativas do prisioneiro B, ele perceberá que, se B trair (confessar), ele deverá confessar também, para evitar a pena mais severa; mas se ele achar que B irá cooperar (ficar quieto), ele também deverá confessar, pois assim sairá livre. O mesmo raciocínio se aplica no sentido contrário (do prisioneiro B para o prisioneiro A), e sob qualquer aspecto, o melhor que ambos podem fazer é confessar. Em teoria dos jogos, isto é chamado de “equilíbrio de Nash”: a melhor decisão possível tendo em vista a decisão do outro.
O equilíbrio não-cooperativo do “Dilema dos Prisioneiros” conforme apresentado, porém, torna-se cooperativo no caso de crimes cometidos por componentes de máfias. Isso porque, nestes casos, os participantes do jogo têm incentivos adicionais para ficarem calados (cooperarem). Primeiro: a delação tende a ser severamente retaliada, geralmente com a morte do delator. Segundo: máfias, muito freqüentemente, têm um mecanismo previdenciário para ajudar a família do quadrilheiro preso. Ou seja: se o prisioneiro mafioso confessar, ele pode ser morto e, mesmo que consiga se esconder, sua família perderá a ajudar que teria direito se ele se mantivesse fiel à quadrilha. Estes fatores, inexistentes no “Dilema do Prisioneiro” clássico, alteram o resultado do jogo, transformando-o em cooperativo, razão pela qual a taxa de traição entre mafiosos é muito menor do que entre criminosos comuns.
Neste contexto, o “prêmio” da “delação premiada” – redução de pena, proteção especial ao criminoso e seus familiares etc – funciona como um agente para redefinir o equilíbrio do jogo, de cooperativo para não-cooperativo. Trata-se de um mecanismo muito inteligente para desmontar o acordo tácito que existe em grupos mafiosos que protegem seus componentes da delação. Não sei se os teóricos do direito criminal que conceberam este mecanismo se utilizaram da teoria dos jogos em seus estudos, mas que é uma belíssima aplicação do “equilíbrio de Nash”, lá isso é.
Aborto, estupro & outras polêmicas
Do site do ICED:
Recentemente, na Argentina, ocorreu um fato dramático: uma jovem de 21 anos matou seu próprio filho, gerado em decorrência de um estupro, e foi condenada a 14 anos de prisão. Trata-se, inegavelmente, de uma gigantesca tragédia: infanticídios são sempre trágicos, e se o autor for o próprio pai ou a mãe, tanto pior. Mas, independente da comoção que o fato gera, também podemos refletir sobre este evento sob outros aspectos. Se os mecanismos evolucionários favorecem o investimento de recursos nos filhos, como se explica o assassinato de um filho pela mãe? No artigo anterior, abordamos o mecanismo da Seleção pelos Consangüíneos, segundo o qual deveria haver cooperação entre pais e filhos, não o assassinato. Sendo assim, como a Evolução poderia explicar esta tragédia?
Para entendermos por que este fato ocorreu, temos que ter em mente que o mecanismo da Seleção pelos Consangüíneos está baseado no pressuposto do “gene egoísta”, ou seja: ele existe porque favorece a disseminação do patrimônio genético do próprio indivíduo na população. Se eu coopero mais com meu filho que com meu sobrinho, e meu filho tem 50% de meus genes – contra 25%, no caso do meu sobrinho –, cooperar mais com meu filho do que com meu sobrinho terá um efeito positivo na perpetuação de meus próprios genes. Mas, em determinadas situações, a cooperação com o filho pode diminuir a probabilidade de disseminação dos genes do indivíduo na população, e parece-me que a tragédia ocorrida na Argentina seria um desses casos.
Naquele evento, temos que atentar para dois aspectos: 1)A mãe é muito jovem e pobre; e 2)A gravidez foi gerada por estupro. Sendo vítima de um estupro, a mãe teria que arcar sozinha com os custos da criação de seu filho e, sendo pobre, não teria condições de investir em outros filhos além do primeiro. Desta forma, o que teríamos é um agudo conflito de interesses entre mãe e filho, agravado pela juventude desta, que teria sua capacidade reprodutiva seriamente afetada pelo fato de ter que investir em um filho sem ajuda do pai. Em termos reprodutivos, a atratividade desta mulher estaria seriamente diminuída na medida em que seus eventuais parceiros seriam desestimulados em escolhê-la, haja vista a sobrecarga representada pelo investimento em seu primeiro filho.
Isto nos leva a uma segunda reflexão sobre o tema. Como se sabe, o aborto é proibido no Brasil, salvo raras exceções. Mesmo no caso do feto não possuir cérebro – o que impede a vida extra-uterina –, o aborto ainda não é legalmente permitido, o que dá uma idéia do quão difícil é aprovar dispositivos legais pró-aborto no nosso país. Uma destas exceções se aplica aos casos em que existe grave risco de vida para a gestante, o que me parece bastante razoável, uma vez que, se a mãe morrer, também morrerá o feto. A outra é em caso da gravidez ter sido gerada por um estupro. À primeira vista, fica difícil entender porque não se permite o aborto de um feto sem chances de sobrevivência (o anencéfalo), mas é legalmente autorizado abortar um feto perfeitamente saudável, se gerado por estupro.
Ocorre que, analisando o desfecho trágico do fato ocorrido na Argentina, percebe-se que a permissão do aborto em caso de estupro no Brasil faz todo sentido simplesmente porque está coerente com nossas necessidades evolucionárias. A despeito de toda a discussão ética, moral e religiosa que cerca o tema, a interrupção de uma gravidez gerada por estupro deve realmente ser permitida para que não ocorra situação ainda pior, como a tragédia da Argentina.
Nepotismo
Originalmente, o nepotismo se referia aos privilégios concedidos aos parentes do papa, mas esse é um assunto bem mais antigo que os papas ou mesmo que a religião católica. Quer saber mais? Leia o artigo abaixo, originalmente publicado no site do ICED:
Poucos assuntos são tão inflamáveis quanto os relacionados às relações de parentesco, e não é para menos: nos milhões de anos de nossa história evolutiva, a habilidade em influenciar o sucesso dos nossos aparentados foi decisiva para o sucesso da nossa própria espécie. A inclinação pelo favorecimento de parentes é um traço comportamental presente na maioria dos animais sociais, de acordo com a “Kin Selection” (“Seleção pelo Parentesco”, ou, mais corretamente, “Seleção de Consangüíneos”, já que se trata especificamente do parentesco genético), uma teoria desenvolvida no departamento de zoologia de Harvard. Segundo William Hamilton, o autor desta teoria, cooperar mais com indivíduos mais proximamente aparentados influencia diretamente as chances de perpetuação dos genes do próprio indivíduo. Considerando que eu compartilho 50% de meus genes com meu filho, se eu aumento as chances de sucesso dele, eu estou ajudando metade do meu patrimônio genético a se perpetuar na população. Mais do que o sucesso específico do meu filho, isoladamente, é ainda mais interessante que ele produza uma legião de filhos (meus netos), que herdarão 25% dos meus próprios genes. Milhares de gerações de indivíduos que apresentavam ou não apresentavam este comportamento acabaram por selecionar aqueles mais hábeis em influenciar positivamente no sucesso dos mais proximamente relacionados. Ou seja: este foi um comportamento que maximizou da taxa de sucesso em termos de “inclusive fitness”.
Apesar de grande parte dos cientistas sociais achar que comportamentos cooperativos entre pais e filhos devem ter sido elaborados por algum sábio da antiguidade – que, em um retiro espiritual nas montanhas do Tibet, teve o genial insight de instituir normas sociais sobre as relações cooperativas entre aparentados –, entendo que a explicação evolucionista é bem mais sensata. Como se não bastasse este ser um comportamento encontrado em qualquer cultura de qualquer época, ele também é amplamente difundido entre animais não-humanos. Apesar disso, ainda persiste uma certa dificuldade em enxergar questões relacionadas à seleção pelo parentesco (lato sensu) pela ótica evolucionista, por mais evidentes que sejam. Consideremos um dos exemplos mais evidentes e atuais sobre discussões relacionadas ao tema: o debate sobre o nepotismo, que vem consumindo oceanos de tinta dos jornais ultimamente.
Políticos de diferentes partidos e convicções ideológicas têm sido flagrados contratando parentes na administração pública. Entrevistados, normalmente não se lembram dos fatos, mas quando confrontados com documentos que comprovam o nepotismo, costumam justifica-se argumentando em três grandes linhas de raciocínio:
-“Meu filho é um dos mais competentes profissionais da área, por que não aproveitar sua capacidade na construção de um Brasil melhor?”;
-“Seria um preconceito e uma violação ao principio constitucional de que todos são iguais perante a Lei não contratá-lo”;
-“É dever do pai – se este for um bom pai – agir para que seu filho tenha as melhores oportunidades de crescimento profissional e financeiro”.
O discurso do tipo 1 é dos mais frágeis. Seria algo extraordinário o fato de que um político, recém alçado, digamos, ao Ministério da Saúde, ter, coincidentemente, um filho pós-doutorado em saúde pública. Coincidências acontecem – e, justamente por isso, trata-se de uma coincidência, caso contrário seria rotina –, mas são raras, raríssimas (e improváveis). A segunda linha de argumentação tem uma lógica positivista impecável. Tão impecável que eu sugiro que se faça um bingo para escolher os ocupantes de cargos públicos, evento em que todos poderiam se inscrever, inclusive os filhos de políticos. Será que os políticos topariam? A terceira – aliás, a mais in no momento – está baseada no princípio da seleção pelo parentesco (strictu sensu), mesmo que seus principais defensores não sejam versados em Evolução ou Etologia. Paradoxalmente, os maiores defensores da seleção pelo parentesco de hamilton aplicada à gestão pública são criacionistas, mas esta é uma outra história…
Quando um político diz ser dever de pai contratar seu filho, ele está usando um discurso sensato para a opinião pública: o homem comum também faria o mesmo se pudesse. E a sensatez deste argumento reside na lógica evolucionista, mesmo que também seja uma verdade o fato de que o nepotismo é uma prática eticamente condenável e perniciosa à sociedade. Ao meu ver, o grande problema no combate ao nepotismo não é a edição de leis que o impeçam, mas como forçar alguém a agir de forma contrária a comportamentos evolucionariamente eficientes.
Já se tentou apelar para práticas anti-nepotismo exóticas, como na China imperial, que restringia cargos públicos para eunucos, mas isso também não funcionou, já que eunucos podem não ter filhos, mas têm sobrinhos, tios, primos… Na minha opinião, o mais sensato a fazer é dar ampla publicidade aos atos nepotistas, divulgando ostensivamente quem assim age, quantas pessoas contrata, quanto ganha cada um dos contratados etc. Na realidade, a grande arma para combater o nepotismo é a própria teoria evolucionista. Se a cooperação entre parentes é um comportamento evolucionariamente eficiente, também pode ser adaptativo agir de maneira contrária em determinados casos. Se o comportamento nepotista de um indivíduo for amplamente divulgado e combatido, pode ser adaptativo não ser nepotista, pois isso minaria a coesão do grupo, e prejudicaria o próprio beneficiário do nepotismo. Ou seja: a publicidade do comportamento nepotista pode funcionar como uma punição para quem assim age, tornando o comportamento anti-nepotista mais vantajoso em termos de estratégia evolutiva. A Evolução, ao contrário da reputação de teoria “fatalista” alardeada pelo senso comum, na verdade nos traz novas estratégias para resolver velhos problemas.
Cassinos X Bolsas de Valores
Interessante como o jornalismo econômico adora comprar as bolsas de valores aos cassinos, especialmente em momentos como o atual, de crise e altas oscilações. Na verdade, a comparação é totalmente sem sentido, a não ser pelo fato de que, tanto na bolsa, como nos cassino, existem jogos sendo jogados. A seguir, cinco diferenças (depois publicarei outras):
1) As bolsas de valores em si são somente os lugares onde ocorrem as transações de compra e venda de ativos financeiros. Ninguém investe na bolsa propriamente dita (a não ser nas ações da “empresa bolsa de valores”, mas aí é outra história), somente nas ações, commodities e demais ativos ali negociados.
2) Os cassinos, por sua vez, são entidades participantes do jogo: quando alguém joga na roleta, ele está jogando contra o cassino. Existem casos em que o cassino somente intermedeia jogos, como nos casos dos campeonatos de pôquer, gamão etc., aí sim numa postura parecida com a das bolsas de valores. De qualquer maneira, não é isso o que os jornalistas pensam quando se referem às bolsas como cassinos.
3) Supondo um cassino 100% honesto e um jogo totalmente aleatório (ex. roleta), ganha quem tiver mais sorte. Se você apostar no ‘vermelho 21’ e der ‘vermelho 21’, você ganha; se der qualquer outro resultado, você perde, independente da taxa de juros do Banco Central, da cotação do petróleo em Londres, ou do lucro do Bradesco no trimestre. Já as ações negociadas na bolsa dependem de uma combinação imensa de fatores externos a ela própria (e alguns internos) para determinar quem ganha e quem perde.
4) Os jogos nos cassinos são sempre de soma negativa: se você somar todos os ganhos e todas as perdas de todos os jogadores, vai perceber que o total das perdas é superior ao total dos ganhos (a diferença é o lucro do próprio cassino). Já as bolsas, embora fiquem com uma parcela do valor transacionado (a corretagem), podem ter dias de soma negativa, outros de soma positiva, mas a tendência é que sejam de soma zero: o ganho de um é equivalente á perda de outro.
5) Alguns jogos de cassino, como o blackjack (vinte-e-um), têm estratégias com semelhança restrita a operações realizadas em bolsas de valores, como as apostas em opções de compra ou venda. Se você tiver 20 pontos e arriscar a pegar mais uma carta, você terá grandes chances de “estourar”, mas se pegar exatamente um ponto, seu jogo será quase imbatível; na bolsa, você pode segurar uma opção prestes a “virar pó” e ganhar muito dinheiro, mas a chance de perder tudo é gigantesca.
Jogo dos sete erros
Leia o artigo do Clóvis Rossi, abaixo, e veja se encontra os sete erros do texto:
A Volks e o cassino
Você abre o jornal de manhã e ousa percorrer a coleção sem fim de tragédias que é, hoje, o noticiário econômico. Lá na undécima página, fica sabendo que a Volkswagen vai conceder férias coletivas de dez dias para 1.800 funcionários da unidade de São José dos Pinhais (PR).
Aí, pensa, distraído: “Vixe, essa empresa está indo pro vinagre”.
Que nada, companheiro. É justamente o contrário: pelo menos ontem, a Volks (a mundial) tornou-se a companhia de maior valor de capitalização no planeta (ou seja, o valor de todas as suas ações na Bolsa de Valores superou o de qualquer outra instituição, inclusive a portentosa Exxon).
Como é possível, se a indústria automobilística é a segunda maior vítima da crise global, logo atrás da construção/imóveis? Trata-se apenas de um exemplo “das distorções que se produzem hoje em dia nos mercados”, diz Juan José Ruiz, o economista-chefe do Santander (na Espanha).
Se, em vez de distorções, falasse em cassino, estaria mais perto da realidade. Acontece que “hedge funds”, esses que vão apostando em vários ativos, para defenderem-se de eventuais perdas em um deles, decretaram que as cotações da VW permaneceriam em queda. Aí vem a Porsche e anuncia que quer aumentar a sua fatia na Volks. O pessoal dos “hedge funds” correu desesperado para cobrir suas posições e cada ação da montadora voou dos 210 da sexta-feira para 1.005 em dado ponto de ontem.
Uma coisa, portanto, é a vida real, em que férias coletivas significam queda nas vendas. Outra coisa, bem diferente, é o cassino, em que férias coletivas nada significam. É por isso -entre outras mil razões- que, cada vez que vejo economista fingindo que faz análises lógicas sobre o mercado, levo a mão ao coldre.
Não que tenha um revólver, mas, nessas horas, dá vontade de ter.
Agora, o gabarito:
1)Férias coletivas não tem nada a ver com “empresa indo pro vinagre” (a não ser na cabeça do CR). Trata-se de uma decisão administrativa que pode ser tomada por N fatores, e o fato de alguma empresa conceder férias coletivas não significa nada por si só.
2)”Companhia de maior valor de capitalização”??? De onde vem essa expressão? Ainda bem que o autor a explica entre parêntesis.
3)Desde quando a indústria automobilística é a “segunda maior vítima da crise global”? A crise é FINANCEIRA, ô Clóvis!!! Quem está quebrando são os bancos, os fundos, as companhias de financiamento imobiliário, as seguradoras e demais empresas financeiras. Lógico que todas as demais empresas também estão sendo afetadas, mas falar que o setor automobilístico está no epicentro da crise é uma bobagem sem tamanho.
4)Êita mania de comparar bolsas a cassinos… Não tem nada a ver, até por que a maior parte dos jogos dos cassinos são absolutamente randômicos, enquanto as bolsas sobem e descem simplesmente poir mudanças nos pontos de equilíbrio de oferta e demanda, estes dependentes de expectativas.
5)Hedge funds “decretam” o quê, señor Clóvis??? Tá maluco??? Para começo de conversa, os fundos não pensam todos iguais, pelo contrário. E, como todo player do mercado, os fundos simplesmente compram ou vendem ativos de acordo com o preço de mercado, nada mais que isso…
6)As ações da VW quintuplicaram de preço porque a Porsche anunciou seus planos em aumentar a participação na empresa, certo? (Pelo menos, foi isso o que disse o CR). Logo, isso não tem nada a ver com o “jogo sujo dos hedge funds”, não é óbvio???
7)Voltando ao primeiro erro, agora o CR “decreta” que férias coletivas significam queda nas vendas (embora isso possa ser um dos motivos, não há nada que comprove isso). Depois, ele fecha o raciocínio dizendo que no “cassino”, férias coletivas nada significam, sendo que ele acabou de dizer que o aumento do preço das ações da VW havia sido causada por uma decisão da Porsche… Isso sem entrar no mérito que férias coletivas em uma unidade produtiva absolutamente secundária para uma empresa do porte de uma VW nada tem a ver com o preço das ações na Alemanha.
Assim como o CR, também gostaria de ter um revólver. Só que para atirar em jornalista metido a analista econômico.








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